O sul da ásia: Confrontos civilizacionais em evidência SÃo paulo 2017 o sul da Ásia



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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

FACULDADE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

ESCOLA PAULISTA DE POLÍTICA, ECONOMIA E NEGÓCIOS.

Elisa Haruko Shitamori Matsufugi

Ivana Wu

O SUL DA ÁSIA:

Confrontos civilizacionais em evidência

SÃO PAULO

2017


O Sul da Ásia:

Confrontos civilizacionais em evidência



Elisa Haruko Shitamori Matsufugi1

Ivana Wu2

Resumo

O presente artigo procura refletir os principais conflitos que persistem no subsistema do Sul da Ásia, através de uma sustentação teórica baseada no confronto civilizacional de Samuel P. Huntington. Procura-se compreender os conflitos sob o viés da historicidade cultural dos diversos povos, associado às influências sofridas pelas condutas de outros países. Com o devido enfoque para as potências da Índia e do Paquistão, tendo em vista a dada magnitude de sua pertinência no dinamismo de poder do subsistema e do Sistema Internacional. Logo, se busca proporcionar um estudo voltado para a constituição deste subsistema, uma vez desvencilhado da ordem político- ideológica bipolar instaurado durante a Guerra Fria.



Palavras-chave: Caxemira. Multipolar. Conflitos. Cultura. Potência. Religião. Nacionalismo. Terrorismo. Sul da Ásia. Extremismo.

Abstract

The presented article search for reflexion about the main conflicts whom persists in the subsystem of South of Asia, through a theorical sustentation based on the civilization confront of Samuel P. Huntington. It searches to comprehend the conflicts beneath the vision of cultural historicity of diverse races, associated to the influences suffered from the conduct of other countries. With the due approach for the sovereign States of India and Pakistan, in view of given magnitude of your pertinence in the dynamism of power of the subsystem and International System. Therefore, it searches to provide a study facing the constitution of this subsystem, once unleashed from de political- ideological order instated during the Cold War.



Key words: Kashmir. Multipolar. Conflicts. Culture. Sovereign State. Religion. Nationalism. Terrorrism. South of Asia. Extremism.

O final da Guerra Fria, no início da década de 90, desencadeou uma transmutação da ordem internacional bastante complexa, uma vez que se erradicava a ordem bipolar prevalecente por mais de quatro décadas. O sistema internacional, assim, solidificava-se segundo uma nova dinâmica de poder, divergente da dualidade antecessora, impossibilitando uma análise concisa deste dinamismo que considerasse apenas dois blocos político-ideológicos.

Para tanto, considera-se como suporte teórico para a realização deste artigo a divisão analítica do aparelho internacional em treze subsistemas, segundo Espinosa3, sendo propostos a partir da conciliação de fatores de ordem política, econômica, geográficas e culturais. Desta forma, torna-se possível uma análise mais detalhada dos componentes internacionais, à medida que são enfatizadas as diferenças e particularidades que, na divisão convencional continental, não seriam contempladas.

Este trabalho de pesquisa, por conseguinte, visa ao estudo do subsistema denominado Ásia do Sul – composto por Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão, Sri Lanka – e à análise dos impactos gerados por este conjunto de Estados na dinâmica mundial, assim como os atores internacionais exercem sua influência no interior subsistêmico. O sul asiático é contemplado pela maior densidade demográfica do mundo, sendo uma região relativamente ativa militarmente, considerando-se que possuam o segundo maior contingente militar, em termos quantitativos, no Sistema Internacional.

Sob este mesmo aporte referencial, é ainda possível que sejam diferenciados os atores no interior de cada subsistema, classificando-os segundo o grau de preponderância que detém no interior e exterior de seu subsistema. Portanto, avalia-se a Índia como Potência principal, dado o seu papel regional e o seu potencial na nova ordem mundial; o Paquistão como Potência secundária e Potência anfíbia, pois pertence a mais que um subsistema, possuindo anfibiedade com a Ásia Central, além de assumir-se contra-hegemônico com relação à Índia. É válido ressaltar que parte do papel assumido por tais componentes se deve à sua relevância no quesito de desenvolvimento de armamento nuclear.

A motivação de ambas as potências para tal pode ser descrita por outro apontador classificativo, definindo o sul asiático como um subsistema “sob o ônus da divisão”4, fragmentando-se em expressivas diferenças culturais. Este agrupamento, desta forma, se constitui sobre diferenças históricas e culturais latentes, exibindo-se principalmente no conflito entre Índia e Paquistão.

Este subsistema, neste viés, é marcado por profundas contradições fundamentalmente político-culturais, como o conflito entre as duas principais potências ou a crise humanitária perdurante em Myanmar – Estado anfíbio –, que estende as suas consequências a outros atores, além de sua dimensão doméstica, sendo Bangladesh o país intrassistêmico mais afetado.

Tendo por base contradições de tal ordem, o artigo terá por enfoque a questão civilizacional como principal direção de análise, abordando-se as particularidades primordiais para a identidade do subsistema, objetivando a sua compreensão como um todo e, por meio de suas nuances, respeitando os processos históricos envolvidos. Para tanto, parte-se da teoria do confronto civilizacional desenvolvida por Huntington5 para corroborar a abordagem da pesquisa.

Segundo o autor, então, interpreta-se a estrutura mundial a partir das divergências culturais, em detrimento das ideológicas, como se mostrava ordinário na Guerra Fria. O estudo, por meio disto, procura agregar, no meio acadêmico, um estudo acerca dos principais conflitos que persistem no sul asiático, dada a sua pertinência no dinamismo de poder do subsistema e do sistema internacional, abarcando a noção do choque civilizacional de Huntington. Socialmente, ainda, o ensaio viabilizará uma análise em pormenores da constituição deste subsistema, inserindo-o na nova ordem mundial, originada da ruptura da bipolaridade político-ideológica.

Conflitos identitários e nuclearização: as duas principais Potências em cheque

Segundo Huntington6, o mundo encontra a consistência, em ineditismo histórico, de uma política mundial completamente despolarizada, sendo esta multipolar tanto quanto multicivilizacional. Assim, a tese central do autor nesta obra discursa a respeito da questão civilizacional como principal locus das distinções encontradas entre os povos, moldando o modo com que se dão as suas relações. Neste sentido, são colocados à luz os elementos culturais definidores de uma identidade civilizacional na abordagem política internacional, à medida que

O que de fato importa para as pessoas não é a ideologia política ou o interesse econômico. Fé e família, sangue e crença, é com isso que as pessoas se identificam e é por isso que lutam e morrem. E é por isso que o choque entre civilizações está substituindo a Guerra Fria como fenômeno central da política global...7

A política, por conseguinte, assumiria um papel distinto nesta nova ordem mundial, uma vez que se consumaria sobre o aspecto cultural, constituindo, de forma integrada, o processo de formação identitária de um povo. Com isso, sob esta análise, não é justificado segregar política, economia e cultura como elementos separadamente notáveis, dado que estas variáveis viriam a formar a identidade dos atores que compõem o Sistema Internacional. Portanto, “as pessoas utilizam a política não só para servir aos seus interesses, mas também para definir suas identidades. Nós só sabemos quem somos quando sabemos quem não somos e, muitas vezes, quando sabemos contra quem estamos.”8

A partir de tal reflexão, torna-se possível a análise do conflito entre as principais potências do subsistema, considerando-se a relação conflituosa e beligerante que se desenvolvera desde a independência de ambos com relação ao Reino Unido, em 1947. Desde então, as diferenças culturais entre ambos se traduziram primordialmente na disputa pela região da Caxemira, culminando em três momentos de guerra: o primeiro, que se dera logo com a independência, resultando na conquista de um terço do território da Caxemira pelo Paquistão; o segundo, que se desenrolara em duas fases em janeiro a maio e agosto a setembro do ano de 1965, se dera de forma mais intensa, visto que ambos os envolvidos já se apresentavam de forma mais coesa militarmente, ainda que não tivesse resultado em nenhuma mudança consistente do status do território em disputa; e, por fim, o terceiro ocorrera a partir de uma intervenção militar índia no ano de 1971 a favor de forças revoltosas do Paquistão Oriental, levando à vitória destas e, ainda, à formação do Estado de Bangladesh.

A disputa da Caxemira, entretanto, é associada a um simbolismo extremadamente complexo a ambas as regiões. Reitera-se aqui a coesão entre política e cultura, uma vez que tal postura política conflituosa relaciona-se às questões identitárias de cada povo. Cabe, portanto, uma abordagem histórica no que tange a estas questões.

Segundo Basrur9, a tumultuosa relação entre Índia e Paquistão se dá em razão de um processo histórico violento que se origina a partir de diferenças fundamentais culturais, que foram extremadas ainda mais no fenômeno da Partilha. “O legado da Partilha (nunca sem o P em caixa alta) permanece forte hoje, com a memória dos vários ‘membros apartados e corpos ensanguentados… um pesadelo do qual o subcontinente ainda não está completamente recuperado’”10. Este legado, desta forma, se reflete primordialmente no processo de construção de uma identidade nacional, já dificultado pela grande segmentação social em ambos os casos, tornando mais complexa a capacidade de abrangência do discurso nacional. A Partilha ainda pode ser vista como a extrema consequência da política da metrópole britânica durante todo o período colonial, que fora moldado pelo ideal de “dividir e governar” (divide and rule), implicando a afirmação da segmentação social como forma de controle da colônia, que seria considerada mais “branda” com a desarticulação de uma identidade nacional.

Com isso, os conflitos entre Índia e Paquistão podem ser interpretados por meio de uma abordagem doméstica, em primeira instância. A falta de representatividade das instituições políticas nacionais às variadas minorias em cada país geraria um grande vácuo no que diz respeito à formação de um elemento nacional. Esta falta de contemplação no âmbito doméstico estimularia o sentimento de não-pertencimento, que intensificaria, por sua vez, o extremismo em atos de violência contra grupos internos e externos.

Não obstante, o fundamentalismo e a intolerância, principalmente religiosa, ainda são impulsionados por um discurso político nacional que utilizam a intensificação de tais sentimentos como barganhas eleitorais. No caso da Índia, isto é consumado pelo maior partido indiano, Bharatiya Janata Party (BJP), que introduz à maioria hindu um “complexo de minoria”, caracterizando-se pela supremacia hindu – incluem-se budistas, sikhs e jains, pois todos seriam originados do hinduísmo –, considerando que a cultura indiana fora centrada por tais, enquanto, por outro lado, muçulmanos e cristãos eram encorajados a serem vistos como invasores. Este discurso de intolerância ainda é reiterado pela própria constituição institucional indiana, que assegura direitos desiguais a seus diversos grupos. Estimula-se, assim, o extremismo, já facilitado as suas vias pela falta de representatividade institucional.

O conflito pela Caxemira, destarte, é caracterizado por motivações intrinsicamente históricas, representando uma conquista para a formação do ideário nacional. Para a Índia, a região faria alusão à luta por um Estado secular e heterogêneo, visto que é o maior estado de maioria muçulmana da Índia, o que justificaria os interesses paquistaneses tangentes ao território.

Além da disputa territorial da Caxemira, podem ser notados conflitos diretos e indiretos em outras perspectivas. Diretamente, é de grande ênfase o belicismo militar pela geleira de Siachen, no norte da Caxemira, cujo controle ainda permanece formalmente não definido. Indiretamente, as potências ainda suportavam movimentos separatistas em detrimento da soberania nacional envolvida, como é o caso do apoio indiano ao impulso separatista Bengali – dando origem à Bangladesh – e a luta sectária dos Sikhs por um Estado nacional próprio, com o suporte de forças paquistanesas. É imprescindível que se destaque que tais apoios militares só eram viáveis pelo contexto em que se inseriam, considerando os suportes advindos do alinhamento pró-capitalista (Paquistão) e pró-soviético11 (Índia).

As tensões no subsistema se tornaram ainda mais elevadas com o desenvolvimento nuclear indo-paquistanês, mais intenso a partir da década de 80, podendo ser associado a dinâmica do equilíbrio de poder da região. A Índia intensificou seus investimentos na nuclearização com o alinhamento soviético, como símbolo afirmador de sua autonomia. Em resposta, o Paquistão realizou pesados investimentos para fazer frente à tecnologia nuclear indiana, utilizando-se de suas alianças para a compensação dos gastos militares, destacando-se as relações bilaterais com a China e EUA.

É defendido, neste contexto, por Basrur, que haja uma Guerra Fria no Sul Asiático, em que a Índia assumiria uma postura hegemônica, destacando-se como um Estado forte, enquanto o Paquistão admitiria o papel de constante contestador desta hegemonia. A Índia, portanto, asseguraria-se de garantir a projeção de seu poder no subsistema, estreitando as relações econômicas e securitárias, como exemplifica-se nas intervenções no Sri Lanka e nas Maldivas, em 1988. Em contraposição, o Paquistão, como o Estado mais fraco, faria frente à hegemonia indiana por meio do multilateralismo internacional, buscando espaço nas organizações internacionais.

Outrossim, tal formulação desestimula uma hipótese de guerra efetivamente nuclear entre as Potências, da mesma forma que se demonstraram as crises em 1990 e 1999. A constituição das capacidades nucleares seria desenvolvida primordialmente com fins ideológico-identitários, mostrando-se parte da atribulada relação entre os soberanos. “Em suma, o padrão geral se sobressai: percepções de ameaça emergente, intensificação militar e crise, comportamento cauteloso durante a crise, e um fim negociado – tudo isso com armas nucleares em condições rudimentares e emaranhadas.”12

O dinamismo da economia globalizada, contudo, se revela geradora de modificações e, ainda, flexibilizações nos papéis assumidos com relação à hegemonia no Sul da Ásia. Com isso, a Índia, que originalmente era comprometida a assegurar a dinâmica de poder na região, evitando a presença de outros atores na área, se mostra mais aberta ao multilateralismo internacional, à medida que visa à sua expansão enquanto potência emergente. Assim, estabelece ligações principalmente com os Estados Unidos no contrabalanço à hegemonia chinesa. No que tange ao interior subsistêmico, a política indiana se mostra menos ativa quando comparada ao início da nuclearização na década de 80.

Nesta mesma instância, observa-se os interesses estabelecidos entre o Sistema Internacional e o interior do Sul Asiático. A caráter de exemplificação, distingue-se a inserção de Índia e Paquistão, em 2016, na Organização para a Cooperação de Xangai, criada em 2001 como um mecanismo para garantir a estabilidade regional, em combate ao Terrorismo, ao Extremismo e ao Separatismo. No âmbito diplomático, a organização atestaria as vias diplomáticas para a resolução dos conflitos entre os protagonistas do subsistema. Além disso, nota-se que, ainda que o conflito entre Índia e Paquistão seja histórico e bilateral, este sofre pressões externas do Sistema Internacional, que são reflexos, muitas vezes, dos interesses econômicos envolvidos. Como é o caso do apoio militar da China ao Paquistão, para que este logre desafiar o equilíbrio de poder no sul asiático e, desta forma, represente um empecilho à ascensão indiana, que representa certo grau de disputa econômica aos chineses.



Política e conflitos nos países anexos do sul da Ásia

Segundo Espinosa13, dentre os países do Sul da Ásia, Bangladesh e Nepal se encaixam na categoria de Estados desesperados, uma vez que possuem dimensões territoriais limitadas, assim como a sua quantidade de habitantes (Bangladesh com 164,4 milhões de habitantes e Nepal com 29,9 milhões de habitantes).

Suas economias encontram-se em estado de defasagem (Bangladesh com PIB de US$89.378 milhões e Nepal com PIB de US$12.531 milhões), sem muitas perspectivas de melhora. São os chamados Estados fracos, nos quais há um baixo controle sobre a população, e uma situação interna de grande risco, propensa à uma eventual desintegração.

Bangladesh atualmente é um dos países com maior densidade de muçulmanos no mundo, mas isso se deve sobretudo à colonização britânica que dividira propositadamente o Oeste de Bengali e o Leste de Bengali (hoje, Bangladesh) de acordo com a religião predominante em cada território, em 1905.

Entretanto, Bangladesh só alcançou a sua independência como país em 1971, uma vez que fora também outrora Paquistão Oriental, em 1947. Dessa forma, percebe-se que se deram inúmeros conflitos ao longo dos anos, em torno de um ideal de independência. Indubitavelmente, o processo de independência fora brutalmente violento, com uma estimativa de 300.000 a 500.000 pessoas mortas14 pela guerra de independência entre as tropas militares do Paquistão Ocidental com o Paquistão Oriental.

Se observa que mesmo após a sua independência, o país enfrentou uma violência contínua, ocasionada por conflitos políticos, como assassinatos de presidentes, bem como um período longo de 15 anos de governança militar, que levou à emergência a partir do ano de 1990, de uma chamada democracia vulnerável, segundo Khan.15

Embora Bangladesh seja relativamente homogênea quanto à sua religião predominante, no caso, o islamismo, percebe-se que conflitos políticos relacionados à questão da laicidade do Estado surgem à tona. Dado que o islamismo militante cresce substancialmente a cada ano, e acompanhado da intolerância ocorre que nos últimos anos, o número de ataques terroristas também cresce. Ataques que possuem sobretudo como alvo minorias religiosas e críticos da militância radical e islâmica de Bangladesh.

Também é válido mencionar que o país também é afetado pela crise migratória do Sudeste Asiático, sobretudo provindos do país vizinho Myanmar. Crise associada à perseguição da minoria muçulmana rohingya, que segundo Shams16, em 2016 mais de 70 mil refugiados procuraram refúgio no sul de Bangladesh. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM)17, 400 mil refugiados estão alocados em Bangladesh. Entretanto, o governo de Bangladesh se mostra cada vez mais inclinado a impedir novas travessias desses imigrantes, agravando a crise.

Quanto ao Nepal, o país se classifica como um país pobre e o seu Índice de Desenvolvimento Humano ocupa a 139º posição, o pior do Sul da Ásia. Isso se deve sobretudo ao intenso conflito interno que se passou por uma década entre 1996-2006, no qual rebeldes do Partido Comunista do Nepal com orientação maoísta exigiam o fim do monarquismo em favor de uma república a ser instaurada.

Tal conflito resultou em muitas mortes, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA)18 até o ano de 2005, já havia cerca de 11.000 mortos em decorrência da hostilidade do combate. Também é válido destacar a quantidade considerável de 100.000 a 200.000 pessoas que migraram para fora do país devido à guerra.

Temos também o Sri Lanka, país com uma população de aproximadamente 20,4 milhões de habitantes e multiétnico. Entretanto, ocorre que desde 1948, quando deixou de ser colônia britânica, há uma disputa intensa entre a comunidade tâmil e a comunidade cingalesa. A comunidade tâmil, que é minoria, se situa principalmente no norte e no leste do país, e luta por uma pátria independente. Também alega a opressão que sofre pela maioria cingalesa, a ponto de se possuir dificuldades na admissão de cargos públicos e similares.

Tal disputa é alimentada também pelo fato de que a comunidade tâmil é formada por católicos romanos e hinduístas, enquanto que a comunidade cingalesa é composta em sua maioria por budistas. Bem como o fato das duas comunidades falarem idiomas distintos- o cingalês e o tâmil – e afirmarem cada uma que seu povo fora os habitantes legítimos do país.

Dessa forma, a milícia que representa a comunidade tâmil, denominada Tigres Tâmeis, passou a realizar inúmeros ataques terroristas a civis e militares e a controlar determinadas áreas a fim da criação de um Estado próprio. O conflito terminou em 2009, com a culminação da destruição do movimento rebelde pelas forças armadas. No entanto, estima-se a morte de 70 mil pessoas19 durante o período de guerra, bem como marcas profundas de sequelas socioeconômicas no país.

Já o Butão é um país pequeno com uma área de 46.640 km² com uma população de 0,697 milhões de habitantes. Deixou de adotar o regime de monarquia absolutista para aderir à monarquia constitucional em 2008. É um país relativamente estável, sem muitas tensões internas, e recentemente adquiriu o título de país mais feliz do mundo. Isso talvez possa ser resultado de seu isolacionismo secular, favorecido por dificuldades topográficas, uma vez que o relevo acidentado dificulta o acesso ao país. Dessa forma, preservaram suas tradições culturais.

A República das Maldivas é um pequeno país insular com 298 km² de extensão. Devido ao aquecimento global, o país está sujeito à extinção, dado que o nível crescente das águas compromete a existência do conjunto de ilhas. As Maldivas, assim como o Butão, são relativamente estáveis, e também são membro da Organização para a Cooperação Islâmica, bem como da Associação Sul-Asiática para a Cooperação Regional, assim como os demais países do Sul da Ásia aqui retratados.

Assim, à medida em que o subsistema Ásia do Sul se destaca no Sistema Internacional pelo seu potencial militar e de desenvolvimento nuclear, sendo a Índia e o Paquistão as potências principais, temos que entre os países desse subsistema, é comum a todos eles, sobretudo às potências principais, a presença marcante do passado histórico e cultural que acaba por gerar conflitos desde então entre culturas identitárias opostas, uma vez ligados à política atual e à tendências e crises que florescem no Sistema Internacional.

Dado que, a teoria do confronto civilizacional de Huntington define e modela as relações entre os povos, ocorre que a cultura, a economia e a política em conjunto originam as diferentes identidades dos agentes do Sistema Internacional.

A disputa da região da Caxemira pela Índia e pelo Paquistão ilustra bem o conflito originado por diferenças culturais identitárias, de maneira que possivelmente fora consequência do processo histórico de dependência com o Reino Unido, que sob o ideal da divisão e governança, dificultou quase que por completo a articulação de uma identidade nacional própria.

Percebe-se que não há um interesse por parte das instituições políticas dos dois países na inclusão de diversas minorias étnicas, de maneira a se constituir um elemento nacional comum, o que se demonstra extremamente prejudicial, uma vez que cria um cenário propício para o extremismo se desenvolver, até o ponto em que se manifesta através da violência. Extremismo advindo tanto de uma maioria quanto de uma minoria, transformando-se em uma violência generalizada e intensa.

Dada falta de interesse se deve ao fato de que ao se privilegiar uma determinada maioria cultural, que se manifesta sobretudo através de sua religião, é tido como vantajoso na busca pelo poder político, por meio de eleições e afins. A intolerância religiosa é utilizada como estratégia de poder, de maneira que se evidencia o extremismo, que como já mencionado, incita a violência demasiada.

Extremismo que também se manifesta nos outros países do subsistema, como Bangladesh e a questão da ascensão do islamismo militante; Sri Lanka e o conflito entre a comunidade cingalesa e tâmil; Nepal e o confronto entre os rebeldes maoístas com a monarquia vigente até um dado momento.

O conflito da Caxemira que em si é motivado pelo desejo da Índia de conquistar o território em questão, por razões históricas, bem como o interesse do Paquistão de conquistar o mesmo território, uma vez que reconhece a presença de uma maioria islâmica na região da Caxemira, princípio que confronta diretamente com o fato da religião oficial e predominante da Índia ser hinduísta.

Dessa forma, ocorre que os conflitos civilizacionais presentes em Bangladesh, Nepal, Sri Lanka são motivados de forma similar aos enfrentados pela Índia e pelo Paquistão. Fica evidente que o Sul da Ásia é profundamente marcado pelos antiquados conflitos territoriais e políticos sustentados por extremismos religiosos e nacionalistas.

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1 Aluna do segundo termo do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo

2 Aluna do segundo termo do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo

3 ESPINOSA, A. R. A sombra dos Leviatãs - Um estudo crítico dos desencontros entre as faces amistosa e crispada do Estado sob as globalizações e as guerras do século XXI. 2011. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

4 Ibid, p. 28.

5 HUNTINGTON, Samuel. “Choque de civilizações?”. Revista de Política Externa, São Paulo, v. 2, n. 4, mar.1994.

6 HUNTINGTON, Samuel P.. O Choque de Civilizações. São Paulo: Objetiva, 2001, p. 19.

7 HUNTINGTON, Samuel P.. “Civilizações ou o quê? Paradigmas do mundo pós-Gerra fria”. Revista de Política Externa, São Paulo, v. 2, n. 4, p.169-178, mar. 1994.

8 HUNTINGTON, Samuel P. Op. Cit. p. 20.

9 BASRUR, Rajesh M.. South Asia's Cold War: Nuclear weapons and conflict in comparative perspective. New York: Routledge, 2008.

10 FATTAH, 2006 apud BASRUR, Rajesh M.. South Asia's Cold War: Nuclear weapons and conflict in comparative perspective. New York: Routledge, 2008, p. 36, tradução nossa.

11 O alinhamento indiano se deu de forma relutante, tomando-se a ciência da política de não-alinhamento assumida pela Índia, e foi impulsionado para fazer frente à aliança entre EUA e Paquistão.

12 BASRUR, Rajesh M. Op Cit. p. 57, tradução nossa.

13 ESPINOSA, A.R. Op. Cit. p.387.

14 DEWAN, Anudeep. Bangladesh: Political Challenges and Religious Conflicts. University of Oregon.

15 KHAN, Mushtaq H. Bangladesh: Partitions, Nationalisms and Legacies for StateBuilding.University of London, jul. 2010.

16 SHAMS, Shamil. Entenda o conflito em torno dos rohingya em Myanmar. Deutsche Welle, 2017.

17 Ibid. p.1.

18 Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), 2005.

19 BBC Brasil, 2009.



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