O que querem os tabloides? Um “supermercado” de notícias



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Apesar do fato de que foram os norte-americanos a produzirem o primeiro jornal diário a conter os valores dos tabloides modernos, dentro do fenômeno do jornalismo amarelo, o pioneiro no formato e regularidade foi o britânico Daily Mirror, em 1903. O que se seguiu depois foi um notável crescimento do número, da cultura e do poder dos tabloides durante todo o Século XX, que se fez notar pelo sucesso do The Sun e do legado Murdoch no Reino Unido, mas também quando seus formatos característicos e circulações atingiram o pico nos Estados Unidos, na década de 1980, acirrando a competição dos chamados tabloides de supermercado com os jornais broadsheet. Alargando os limites físicos da imprensa, o gênero “tabloide” faz-se hoje presença importante na televisão (tabloid television), onde se complementa com a espetacularização da vida privada nos realities shows, com o sensacionalismo nos programas policiais, com o entretenimento em programas que riem das mazelas humanas, que exaltam o grotesco, etc.

O tabloide Globe, do mesmo grupo de mídia do National Examiner é considerado um tabloide de supermercado (supermarket tabloid), o que na hierarquização dos tipos de jornais pode ser chamado: “o lixo do lixo”. E isto é o que devemos ter em conta no caso da notícia sobre a suposta homossexualidade do príncipe Charles. Assim, a publicação se descreve: Tabloide com “T”. “Globe oferece aos seus leitores um editorial diversificado, incluindo notícias de Hollywood e escândalos, fascinantes histórias da vida real, fotos de suas estrelas favoritas...”



De acordo com o esquema de coordenadas cartesianas proposto por Colin Sparks para analisar os critérios de noticiabilidade de uma publicação (ver abaixo), um jornal “sério” ou de “referência”, por exemplo, seria aquele que tem um maior desempenho nas questões da vida pública e que apresenta mais temas ligados à política, economia e sociedade (ocupando o quadrante superior esquerdo). Enquanto um jornal impresso de tipo tabloide tem um alto desempenho na vida privada e dedica-se com mais ênfase a assuntos relacionados com escândalos, desporto e entretenimento (ocupando o quadrante inferior direito).

Fonte: The Panic over Tabloid News (In: Tabloid Tales: Global Debates Over Media Standards, 2000).

Sparks divide em cinco campos a imprensa: imprensa séria, semi-séria, séria-popular, a imprensa tabloide e a imprensa tabloide de supermercado. O que distinguiria um tabloide comum de um tabloide de supermercado, seria uma diminuição da quantidade dos assuntos sérios. O grupo imprensa tabloide de supermercado reúne jornais que apresentam quase que exclusivamente entretenimento, desporto e escândalos, incluindo apenas de forma muito esporádica notícias sobre economia e política. Outra diferença é que muitas publicações desse tipo vêm em formato não de jornais, mas de revistas, sobretudo nos EUA. Assim, firmam-se pela rubrica “popular” no sentido de que está a “uma distância considerável das preocupações do mundo oficial e de sua imprensa séria”.

Para Martin Conboy (Tabloid Britain: constructing a community through language, 2006), os tabloides tornaram-se internacionalizados como um formato de mídia com a capacidade de adaptação através de barreiras linguísticas e culturais. E uma variação significativa de “padrão tabloide” é, sem dúvida, o tabloide de supermercado – “um triunfo de exportação da cultura popular norte-americana”.



No cerne dessa questão, perpassa a discussão mais ampla acerca da aplicação da lógica de mercado para notícias dentro do desenvolvimento da “cultura de massas”, já bastante debatida pelos acadêmicos da área, mas que sempre está a suscitar novos fenômenos. Para citar dois exemplos: o processo de “tabloidização” da informarção (o transbordamento dos valores noticiosos dos tabloides para a mídia mainstream) e o chamado “infotainment” (a mistura entre informação e entretenimento) como ferramenta imprescindível da televisão contemporânea.

Diante da transformação nos modelos de negócios do jornalismo impresso, o futuro desse tipo de publicação é impreciso. Já, o gênero, a “fofoca”, estará em um novo tipo de supermercado. Isso é certo.
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