O que pensam as professoras sobre a infância e as criançAS



Baixar 2,01 Mb.
Encontro07.11.2018
Tamanho2,01 Mb.



O QUE PENSAM AS PROFESSORAS SOBRE A INFÂNCIA E AS CRIANÇAS
Lenilda Cordeiro de Macêdo/ UEPB

Isabela Ferreira dos Santos / UEPB

Fernanda Alves da Silva / UEPB


  1. Introdução

A infância é uma construção social e as crianças são atores sociais que produzem e reproduzem cultura. Estes marcos científicos delimitam, de certa forma, novas concepções e práticas no tocante a infância, a criança e a educação infantil. A sociologia da infância anuncia uma nova perspectiva com relação à infância e a criança, ressaltando a necessidade de dar voz a estes sujeitos, os quais sofreram um processo de ocultamento social e político sem precedentes na história. Este artigo constitui-se de uma pesquisa desenvolvida em instituições de educação infantil da cidade de Campina Grande, PB. Buscamos analisar quais concepções de infância e criança permeiam o currículo e as práticas pedagógicas de professoras que atuam na educação infantil. Adotamos como aporte teórico-metodológico uma perspectiva crítica de análise e tomamos como base os estudos da Sociologia da Infância. A pesquisa em tela foi guiada pelas seguintes questões: que concepções de infância e de criança permeiam a pratica curricular das professoras que atuam em creches? Para tanto, organizamos este artigo em 5 sessões: Introdução; Referencial Teórico; Metodologia; discussão e análise dos dados, que está subdividida em dois tópicos: 1)pra mim a infância é a melhor fase do ser humano, é a fase da inocência, é a fase do brincar, do explorar os espaços; 2) pra mim a criança é um ser carente de tudo, porém é esperta, curiosa e inteligente. Finalmente, as considerações finais.




  1. Referencial Teórico

A modernidade produziu/idealizou a infância e a criança, através de discursos e práticas institucionalizantes (MACÊDO, 2014). Todavia, as crianças não corresponderam aos propósitos modernos, isto porque elas não são tábulas rasas, reagem às determinações históricas e influenciam a sociedade (SARMENTO, 2009). O discurso da desqualificação da criança produziu na sociedade uma espécie de sombra que nos impede de conceber a infância como uma categoria social que produz conhecimento/cultura e a criança como um sujeito ativo que é influenciado e influencia o meio sociocultural em que vive.

É inegável a importância do pensamento moderno no tocante a infância e a criança. Foi neste momento da história da humanidade que a criança foi desencantada, a infância passou a ser vista como uma fase da vida. No entanto, as teorias que trataram da educação desta geração produziram um discurso negativo sobre a mesma criando as condições para a constituição da ideologia de criança como menor e incapaz, termos utilizados largamente nos textos jurídicos.

A condição infantil não representava nada no presente, era um projeto humano, portanto a filosofia e as teorias da educação conceberam a educação da criança como uma forma de adestramento e, posteriormente, com Rousseau, uma educação que moldaria o futuro cidadão do Estado. Neste sentido, não se levou em consideração o sujeito em si, sua capacidade de pensar e agir de forma deliberada. As perspectivas em curso não levavam em consideração que as crianças, independentemente de nossa vontade, são sujeitos que refletem sobre a realidade e, apesar de serem influenciadas pelas instituições e estruturas, também, de forma dialética, as influenciam.

No âmbito jurídico foram aprovados documentos legais, como a Carta da Convenção Internacional dos Direitos das Crianças (1889), que despontaram, internacionalmente e nacionalmente, como matrizes de novos interesses e concepções inéditas de infância e de criança como sujeito de direitos. O movimento político em prol dos direitos da criança tem uma relação direta e interdependente com o campo das ciências sociais e humanas. Isto porque, tem havido certa interlocução entre a esfera pública estatal e a academia, na qual tem se difundido concepções e práticas que afirmam a criança como sujeito, cidadã de direitos. Estas concepções têm sido relevantes, pois fomentam novos valores, concepções, atitudes e práticas pedagógico-curriculares na educação infantil.

A Constituição Federal de 1988 inaugurou uma nova perspectiva, no tocante à criança pequena no Brasil, conferindo-lhe o status de sujeito de direitos. Em face disto, a sociedade civil, o poder público e a família têm a obrigação de respeitar e garantir os seus direitos (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, Art. 227). A partir desta decisão legal a criança adquire a condição de cidadã em desenvolvimento sendo que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de atendimento em creches e pré escolas às crianças de zero a cinco anos de idade (art. 208, inciso IV). Tal princípio legal dispõe sobre a educação infantil como um direito social da criança e sobre a obrigação do Estado em ofertá-la, sendo da competência dos municípios, em cooperação técnica e financeira com a União e os Estados a sua oferta (art. 30; IV).

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, aprovada em 1996 (Lei nº 9394/96), reafirma o disposto na Constituição Federal ao regulamentar a educação infantil como primeira etapa da educação básica, cuja finalidade é o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos cognitivo, afetivo, físico e social, complementando a ação da família. A função primordial da educação infantil passa a ser o cuidar/educar de forma integrada, o que demanda, entre outras decisões, para que ocorra a garantia dos direitos de milhares de crianças brasileiras de 0 a 5 anos, políticas públicas e práticas pedagógicas que possibilitem a ampliação do acesso e o atendimento com qualidade.

A partir da segunda metade do século XX, no campo científico, construíram-se conhecimentos sobre a criança, que influenciaram as representações sobre as mesmas, ao ressaltarem a ação mental destes sujeitos no processo de apreensão da realidade. Surgiram também, movimentos sociais em prol da proteção e reconhecimento das crianças como seres em desenvolvimento, vulneráveis, que precisam de proteção integral por parte do Estado, da família e da sociedade em geral.

Uma das bases teóricas mais férteis no campo dos estudos sobre a criança e a infância é a psicologia sócio histórica (VIGOTSKY, 2007; WALLON, 1995). Suas teorias defendem que o sujeito se constitui a partir de uma relação dialética com o outro sendo um processo constituinte e constituído permanentemente no social. As crianças se apropriam dos significados sociais, apreendidos junto aos adultos e seus pares e produzem sentidos particulares. Ou seja, no ato discursivo com o outro ela apreende os significados culturais, os internaliza, tornando singular aquilo que é plural/social. Este processo de reprodução de significados e produção de sentidos implica, portanto, em produção cultural (PINO, 2005; VIGOTSKY, 2007).

Outra perspectiva que permeia as análises sobre a infância e a criança é a da sociologia da infância (QWORTRUP, 2011, SARMENTO, 2009, CORSARO, 2011). Estes autores defendem que a infância é uma construção social e que as crianças são atores sociais que produzem e reproduzem cultura. A produção de cultura pela criança depende sempre do outro, do social. Ao internalizar os significados culturais ela reinterpreta-os, produz sentidos novos, singulares, sendo autora nesta relação, constituindo-se no conceito de reprodução interpretativa (CORSARO, 2011). A criança é autora/produtora de culturas infantis. A psicologia social e a sociologia da infância dialogam no sentido de dar visibilidade as ações das crianças e da infância, categoria social marginalizada ao longo da história.

Estes marcos jurídicos e científicos delimitam, de certa forma, novas concepções e práticas sobre a infância, a criança e a educação infantil. A garantia dos direitos das crianças pressupõe a consolidação de práticas curriculares que valorizem suas vozes, suas linguagens, seus jeitos de ser e estar no mundo. Todavia, a prática de falar às crianças e não com elas é culturalmente instituída, sempre foi assim, criança não pode falar porque é in-fans. A palavra infância traz este ranço da ausência – aquele que não fala, não sabe, sendo categorizada como menor. A sociologia da infância (SARMENTO, 2009, CORSARO, 2011) anuncia uma nova perspectiva com relação à infância e a criança, ressaltando a necessidade de dar voz a estes sujeitos, os quais sofreram um processo de ocultamento social e político sem precedentes na história, tendo sido reservados a eles o status da subalternidade.


  1. Metodologia

O nosso estudo é de natureza qualitativa. Foi realizado em 9 creches municipais da cidade de Campina Grande, no período de setembro de 2014 a março de 2015. Elegemos, como técnicas de produção dos dados, um questionário sócio acadêmico, contendo 10 questões objetivas e 4 subjetivas e entrevistas semi-estruturadas com professoras que atendem crianças de 0 a 5 anos. Os questionários foram respondidos por 65 professoras: 26 que atuam no berçário, 21 no maternal e 18 na pré-escola. Os dados foram analisados a partir da estatística simples e da análise de conteúdo. Quanto às entrevistas, participaram 26 professoras (10 do berçário, 13 do maternal e 6 da pré-escola), que foram escolhidas segundo os seguintes critérios: ter formação em nível superior e terem participado da elaboração da proposta pedagógica da instituição, na qual atuam. Os dados produzidos, a partir das entrevistas, foram analisados sob a ótica da análise de conteúdo de Bardin (1977). Especificamente, neste artigo estaremos expondo os resultados das entrevistas, com foco nas categorias de infância e criança.




  1. Analise e discussão dos dados:


Pra mim a infância é a melhor fase do ser humano: é a fase da inocência, é a fase do brincar, do explorar os espaços.

Solicitamos às professoras que falassem o que pensam sobre a infância. A partir da análise das entrevistas foi possível perceber que a concepção de infância evidenciada nas falas é, para 61% das entrevistadas, relacionada a ideia de base, fase ou etapa da vida, como podemos confirmar nas falas abaixo:


A infância é uma fase importante da criança, né? É a base pra o desenvolvimento de um adulto, né? Ela tem que ser bem alicerçada, bem orientada, cuidada. Por que o adulto depende de sua infância. De como ela é trabalhada. (C2, P2, 11/03/2015) [...] acho que é a etapa melhor das nossas vidas. (C2, P3, 11/03/2015); Infância (pausa) eu acho que é uma das melhores etapas da vida [...]. (C4, P4, 02/03/2015); Acredito que a infância seja a base pra tudo, à base pra personalidade, pra novos conhecimentos, maturidade. Enfim, é na infância que a gente procede tudo pra personalidade de um adulto. (C7, P1, 04/03/2015)

Essa concepção de infância como fase ou etapa da vida é uma visão biologista, discurso predominante da psicologia do desenvolvimento, que vê a infância do ponto de vista naturalista universal, sendo uma fase a ser superada e não vivida. Para Ariés (1981) até o final do século XVI o sentimento de infância se fazia ausente na sociedade, sendo esta vista como uma etapa biológica, compreendida, apenas como o tempo que ia desde o nascimento até o momento em que a criança tinha condições físicas e biológicas de se manter. A concepção de infância na atualidade ainda é encarada como tempo de preparação para a vida adulta e a criança é vista como projeto de futuro. A infância, para as professoras, se apresenta como algo natural, uma etapa a ser ultrapassada. Isto porque, a infância não é percebida como categoria social, atravessada por determinações históricas, sociais e culturais. As profissionais não percebem estes sujeitos como produtos e produtores de cultura, inseridos no contexto social, conforme é apresentado nos estudos da Sociologia da Infância – SI (SARMENTO, 2009, CORSARO, 2011).

A infância, segundo a perspectiva da SI, é reconhecida como uma construção social, pois se entende que ela é construída na e pela sociedade. Desde o nascimento o bebê indaga sobre o mundo ao seu redor e sobre si mesmo, trilha por diversas culturas, sendo produzido e reprodutor de culturas, enfim não são apenas meros receptores de conhecimentos.

A infância foi evocada, também como uma etapa de transição para a vida adulta, uma concepção biológica, ou seja, não percebem a criança como categoria social, não apenas influenciada, mas que também influencia a cultura dos adultos (SARMENTO, 2009). Ainda há uma visão moderna e naturalista, na qual, de acordo com Ariès (1981) até o final do século XVII, o sentimento de infância se fazia ausente na sociedade e esta era considerada como etapa biológica.


A infância, eu acredito que é principalmente o momento, um privilegiado, assim, de aprendizagem, de... muito desenvolvimento da criança, onde ela desenvolve as principais habilidades que ela a vai ter, assim, pra o resto da vida. Então é o momento privilegiado da vida, de aprendizado. (C2;P7 11/03/2015 ); Pra mim a infância é a melhor fase do ser humano, é aquela fase das descobertas, é a fase da inocência, é a fase do brincar, do explorar os espaços. (C5;P6 17/03/2015).
Constatamos uma diferenciação nos discursos das professoras que atuam no berçário, para além da concepção de infância como fase/etapa da vida. Algumas professoras entrevistadas percebem a infância a partir de uma visão romântica de amor e carinho, conforme está expresso no fragmento de fala abaixo:
Eu acredito que assim, que a infância é a parte principal do desenvolvimento pra se formar adulto, né? (C3; P4 02/03/2015); Infância é... São os primeiros meses de vida não é? Os primeiros anos, os primeiros passos, que pra eles são muito importantes, certo? Eu acho que a infância, a... a vida adulta depende muita de uma infância bem... bem preparada. (C2; P4 11/03/2015).
Observamos que a concepção de infância é representada de forma idealizada/ romântica, como melhor fase da vida, de privilégios e de descobertas. Superar esta visão romântica implica em reconhecer a criança como um sujeito ativo, curioso, com direitos e necessidades que precisam ser supridas, tanto no ambiente familiar como na creche. Desde o nascimento o bebê constrói uma forma de se comunicar com os adultos, seja por meio do choro, do sorriso ou do gesto. Sendo assim, o profissional de educação que lida com os bebês precisam reconhecê-los como seres ativos, que aprende e se desenvolve com a ajuda dos pares e dos adultos e em interação com a cultura. A infância é uma construção social da modernidade marcada histórica e culturalmente. Todos os indivíduos que nascem passam pela geração denominada, pela modernidade, de infância sendo que os sujeitos desta geração sofrem as marcas da cultura em que estão inseridos e, também deixam suas marcas (SARMENTO, 2009).

O brincar/lúdico foi outro aspecto evidenciado nos discursos das professoras sobre a infância, 20,7% das professoras consideram a infância como tempo de brincar, conforme a fala a seguir:



A infância me deixa ver. São tantas coisas que a gente pensa sobre ela. Uma das principais é que a infância a gente sempre pensa ao mesmo tempo em brincar. Quando a gente pensa infância a gente só pensa em brincar. E nesse pensamento quando a gente pensa em brincar, ao mesmo tempo como professora, eu estou falando como professora e não com pensamento em criança. É além do brincar, a gente pensa ao mesmo tempo em educar com essas brincadeiras, entendeu? Tentando trazer propostas que mesmo eles brincando, eles cantando que essas vivências sejam transformadas em educação também. (C4, P3, 02/03/2015).
A infância é tempo de brincar, de desenhar e de educar, o que de fato caracteriza a cultura infantil presente. A experiência profissional e o conhecimento produzido por elas, na prática com os bebês, bem como a formação inicial, são fatores importantes para elencarem a infância como tempo de brincar, do lúdico, da criatividade e da descoberta. Froebel reconhecia o brincar como forma da criança expressar o mundo. Para este teórico, segundo Arce (2002) a brincadeira deveria ser uma atividade importante e constante no cotidiano das crianças, pois esta era uma ótima oportunidade para o professor conhecê-las. Assim, Froebel elegeu a brincadeira e os brinquedos como norteadores da aprendizagem das crianças pequenas, respeitando sempre o desenvolvimento e a faixa etária de cada uma.
Infância pra mim eu acho assim que é a questão da criança brincar né? Trabalhar muito com ele assim o lúdico né? Porque a ludicidade é onde leva realmente a crer que a criança é criança, porque sem ludicidade não existe fase infantil né? (C1;P2, 04/03/2015); A infância é tudo de bom, é brincar, é correr, é se divertir é curtir, acho que é tudo de bom. Melhor fase que o ser humano pode ter é a infância. (C5; P5, 17/03/2015)
Quando a infância é entendida como uma fase de brincadeira, de diversão, de descoberta e de criatividade percebemos que elencam as culturas infantis e consideram que as crianças têm seu lugar na sociedade, que não reproduzem apenas a cultura dos adultos, mas são também capazes de produzir suas próprias culturas. Notamos, assim, uma visão positiva sobre a infância, e certo romantismo, também quando ressaltam que a infância é a melhor fase da vida, fase de inocência.
Infância é desde a gestação até os 05 anos e se prolonga muito mais, porque tem o amadurecimento do psíquico da criança e do físico, então, a infância ela abrange muitas outras coisas. O brincar, desenvolver do corpo, a criatividade da criança, e tudo isso tem que ser respeitado. (C6; P3, 13/03/2015)
A Sociologia da Infância (SARMENTO, 2009; CORSARO, 2011) define a geração infância como uma categoria da sociedade. Tais estudos apresentam uma nova concepção sobre as crianças, diferente da modernidade, as quais eram vistas como indivíduos aculturados sem espaço na sociedade A modernidade construiu uma ideia de criança como ser menor, passivo, porém as crianças não corresponderam aos propósitos modernos, isto porque elas não são tábulas rasas, reagem às determinações históricas e influenciam a sociedade (SARMENTO, 2009). A infância passa a ser percebida como construção social formada por um grupo geracional de crianças.
A infância pra mim é você ter muitas coisas pra aprender e, ao mesmo tempo, você aprende brincando... liberdade, acho que infância deve ser liberdade vigiada, né? Pelos educadores, pelos pais, professores, cuidadores, mas que essa infância seja vigiada, orientada e ensinada, né? (C2; P6, 11/03/2015).
A infância influencia a sociedade, porque produz e reproduz as culturas dos adultos. Elas modificam as estruturas, inclusive a escolar, tendo em vista que agem, atuam na escola, na sociedade. Sendo assim, os currículos escolares devem sofrer as influencias das mesmas, inclusive as professoras, ao ressaltarem o brincar, a criatividade, o desenho estavam caracterizando as culturas infantis.
Pra mim a criança é um ser carente de tudo, porém é esperta, curiosa e inteligente

No que se refere à concepção de criança foi possível verificarmos, a partir das análises das entrevistas, que a mais evidenciada nas falas foi a de um ser carente. Para 38% das professoras a criança é percebida como um ser carente, do ponto de vista econômico e afetivo. A criança, nesta perspectiva, é vista como um ser incompleto.


Vejo as crianças como carentes em todas as condições [...]. (C6, P2, 13/03/2015); [...] são crianças carentes, crianças às vezes sem pai, ás vezes sem mãe. Assim, elas vêm para creche mais com aquela? Como posso dizer? Aquela necessidade tanto na alimentação, como também da carência afetiva [...]. (C7, P1, 04/03/2015)As crianças aqui assim... como a gente trabalha num bairro que é mais carente, a gente ver assim... que a maioria não são bem cuidadas em casa, né? Mais assim, aqui elas têm todo um apoio, né? Assim, desenvolvimento delas, a gente ver que... assim, desde o inicio elas estão se desenvolvendo bem. Porque a gente faz um bom trabalho aqui, a da questão da linguagem, da motricidade, sabe? É assim, eu acho que aqui elas têm um bom atendimento na creche. (C2; P3, 11/03/2015); São crianças assim, que tem problemas, outras... não deixam de ter, mas elas são assim, crianças que a gente sente muita vontade assim...que a gente tem é... participação delas no trabalho né? delas, crianças que vem com problemas, mas quando chega aqui a gente já...distrai elas com as coisas assim, com os brinquedos, com problemas mesmo, de casa que elas trazem,(...) (C7;P3, 04/03/2015)
As professoras percebem que as crianças são fortemente marcadas e influenciadas pelas condições sociais, quando relatam a carência do bairro ou a falta de atenção da família. As professoras são conhecedoras de que as crianças são seres sociais marcadas, fortemente pelas histórias de vida, ou seja, pelas condições de vida material. Não falaram nestes termos, mas ficou implícito em suas falas.
Olha. Aqui na creche, a gente... tem crianças... é porque, é um bairro de periferia né? Assim... aí a gente tem crianças de várias... né? Tem crianças que são bem carentes né? Doentinhas, mal alimentadas, tem outras que não, tem outras que são bem cuidadas, bem alimentadas, as crianças... mais ou menos isso. (C2; P4 11/03/2015); Elas são tímidas em quase sua maioria, são crianças frágeis, a... a higiene delas ainda é precária a higiene física é precária, mas elas tem bons hábitos como por exemplo: serem carinhosas, pedem desculpas, cumpri os combinados que a professora fala durante o dia. (C3; P9 02/03/2015)
As professoras não enxergam as crianças pelo o que são, mas concebem esses pequenos a partir do que lhes faltam quando as caracterizam como sendo carentes de afeto, mal cuidadas e agressivas em 33,33% das falas. As entrevistadas não veem que as crianças são cidadãos e sujeitos capazes.
Assim, a gente percebe muita... Não é 'violência' a palavra, elas são muito agressivas, é... Elas são difíceis, são crianças difíceis de lidar, elas gostam muito de conflitos, assim, entre elas mesmas. (C3; P4 02/03/2015).
A professora percebe os conflitos existentes entre as crianças de maneira negativa. Os conflitos fazem parte da cultura infantil, pois durante as brincadeiras, ou nas situações diversas no âmbito da creche ou não, as crianças negociam, estabelecem regras, entre seus pares, por isso, muitas vezes, essas relações não são pacatas, elas reproduzem o que vivenciam junto aos adultos, portanto, existem relações de poder entre os pares. “(...) estas relações, em geral, não são tranquilas, ordenadas, há formas de poder estabelecidas que se exacerbam entre os pares em um ambiente onde estão presentes carências diversas de objetos, brinquedos e cerceamento da liberdade de ação.” (MACÊDO, 2014, p. 135).

Para 23% das professoras as crianças são consideradas ativas, participativas, criativas, espertas, inteligentes e que aprendem muito nas brincadeiras na creche conforme está expresso no fragmento de fala abaixo:


[...], porém, com uma vivencia rica onde sendo exploradas nesses aspectos surpreende em sua interação e conhecimento. (C6, P2, 13/03/2015) [...][...] eu me identifico muito que faz 20 anos que trabalho pra educação infantil e tem a questão assim... de você primeiro se identificar com o que você faz você gostar, e você saber o que é a criança, a criança... você entender a criança no integro dela, criança tem seus direitos e também a gente pode dizer que tem o dever, né? A criança aprende, ela brincando a gente escuta muito aqui... Ah! A creche é só pra brincar, mas o que significa brincadeira na creche? Será que essa criança não aprende? É o psicomotor desenvolvimento do corpo, são as habilidades que ela desenvolve aqui na creche, e que... é... a criança daqui ela tem todo nosso respeito, todo nosso carinho e o cuidado também, porque o educar e o cuidar eles tem que andar na mesma linha de pensamentos. (C6, P3, 13/03/2015)

Estas profissionais reconhecem os bebês como seres sociais marcados pelas histórias de vida, mas que aprendem, interagem e são criativos. Enfim, são encarados “como sujeito social, produtor e produto da cultura, ator social, capaz de participar e intervir nos processos de socialização”. (MACÊDO, 2014, p. 58).

Algumas professoras apresentam uma visão afirmativa. As crianças são seres sociais ativos, inteligentes. Concepção afirmativa, valorativa destes sujeitos sociais, bem diferente da ideia moderna de criança como ser incompleto, menor. Reconhecem a carência das crianças, tendo em vista seu meio social e cultural, portanto, precisam ser compensadas por sua vulnerabilidade social.

[...] Pelo menos a minha turma eu percebo que são crianças inteligentes, elas são muito inteligentes, apesar de serem crianças que moram e convivem com um índice de muita carência, mas são crianças inteligentes, bem ativas e..., assim, pelo menos a minha turma quando a gente conta historinhas eles prestam muita atenção, eles param para ouvir e participam muito, Sabe? Com dois anos e pouco já conhecem os nomes de todos os coleguinhas. A gente conta história e pergunta o nome dos personagens e eles dizem. São crianças bem ativas mesmo; As crianças aqui da creche são inteligentes, são especiais, porque elas têm oportunidades de viver situações que muitas outras crianças não têm elas são livres, elas brincam (...) (C3; P8, 17/03/2015); Como eu as percebo? Bom, as crianças aqui eu percebo muito assim, principalmente na questão do maternal que elas são crianças alegres, participativas (C2; P6, 11/03/2015), (C5; P2, 17/03/2015).[...] Além de ser umas crianças muito espertas, elas são crianças que realmente vivenciam o mundo no qual elas vivem e elas conseguem absorver, elas conseguem refletir tudo o que a gente passa pra elas, elas absorvem. Eu vejo elas como crianças realmente criativas, e crianças, né? Que estão adaptadas ao meio ambiente né? O qual convivem. É são crianças né? Crianças, crianças mesmo, porque é igual em todo canto, né? Aqui é em qualquer canto é criança, só muda de endereço. Né isso? (C1; P2, 04/03/2015).

As crianças, segundo a percepção das professoras, são vistas por si mesmas em suas singularidades, ao mesmo tempo em que sofrem as marcas culturais e históricas. Portanto, são diversas. Uma característica muito marcante foi de que as crianças são inteligentes, deslumbrantes, especiais. É uma visão afirmativa da criança, que contradiz o discurso da desqualificação da criança como protótipo do adulto. Esta concepção clássica de criança infelizmente ainda está presente na sociedade e produziu currículos escolares autoritários e centralizadores, que deixaram as crianças e suas culturas na sombra, encantada.

Outro discurso evidenciado diz respeito à criança como ser integral, ou seja, para 20% das professoras entrevistadas a criança é um ser integral que precisa de todos os cuidados:

Um ser integral que precisa de... todos os cuidados, de todas as formas, de todas os lados. Tanto é... o pedagógico como o cuidar, por que o cuidar e o pedagógico é uma coisa só, né? O cuidar é pedagógico... é... é... tem que ser integral. Precisa de todas as facetas e cuidar de todas elas. (C8, P2, 04/03/2015)

Por fim, a vulnerabilidade das crianças, também é percebida por 10% das professoras, quando elas reafirmam a insegurança, a necessidade de afeto, de carinho e de cuidado das crianças.

[...] Como eu as percebo? Bom, as crianças aqui eu percebo muito assim, principalmente na questão do maternal que elas são crianças alegres, participativas, mas também nós encontramos no meio de... sempre assim né? E em algumas um olha assim, é...temeroso né? Percebemos também insegurança em algumas, que isso nós sabemos que é normal, não só porque...aqui no pedregal, mas assim, aqui particularmente, por experiência de 19 anos de sala de aula, já passei por outras escolas e eu vejo, assim que, assim, pelo...a vivência delas, assim, diária em casa, com a família a gente ver um pouco de temor em algumas. (C5; P2, 17/03/2015).

As crianças são atores e autores na sociedade. Segundo Macêdo (2014) na Sociologia da Infância “As crianças são concebidas como um grupo social, cidadãos com direitos e necessidades estruturalmente negligenciados.” (p. 63). Portanto, notamos que a visão negativa sobre a criança do século XVII ainda se faz presente na contemporaneidade, uma visão de criança como ser incompleto. É importante que as educadoras revejam suas concepções e passem a enxergar a criança a partir de suas capacidades, potencialidades.




  1. Considerações Finais

Em linhas gerais, as professoras expressaram concepções diversas de infância, embora a que predominou tenha sido a infância como uma fase da vida. Apesar de as professoras ainda não perceberem a infância como uma construção social compreendem que esta fase da vida é marcada pela brincadeira, que é uma cultura infantil. Enfim, a criança é vista pelo olhar da carência, do afeto, pela sua incompletude, mas também como seres ativos, espertos, integrais, que necessitam de cuidado.

Buscamos conhecer as concepções das professoras sobre infância. 61% a veem como fase/etapa da vida, tempo de preparação para a vida futura. Enquanto que 20,7% pensam a infância como tempo de brincar. Esta visão tem implicações fortes no planejamento e na prática. Ver a infância como tempo de superação e não de experiências e de vivências implica em um currículo preparatório, fechado, inflexível, um currículo em que a infância enquanto grupo geracional é atropelado, invisibilizado. O brincar, conforme os resultados, fica em segundo plano, se é uma fase de transição para a vida adulta a infância fica suspensa, existe apenas como discurso. A infância é uma categoria social, atravessada por determinações históricas, sociais e culturais. Neste caso, o brincar não faz parte do currículo, não é uma atividade pedagógica, ao contrário, é naturalizado. Não precisa de mediação e ou intervenção das professoras.

No tocante a criança, as entrevistas revelaram que é vista como ser carente (38%) das entrevistadas afirmam esta visão de carência, fragilidade das crianças. Porém, quando se reportam a estas carências elas falam de carência econômica e afetiva. Não conseguem avançar deste discurso, o qual evidencia que as crianças são sujeitos marcados, fortemente pelas determinações históricas e sociais. Elas não compreendem que esta carência é fruto das determinações sociais. Que currículo emerge desta concepção de criança? Um currículo compensatório, preparatório, que pensar ações/práticas para as crianças que são vistas como incompletas.

Porém, 23% ressaltaram que as crianças são inteligentes, ativas, participativas. É uma visão positiva, afirmativa das crianças, sujeitos históricos, produtores e produtos da cultura. Sendo ativas, participativas, isto implica dizer que a criança é protagonista do processo. O currículo nesta perspectiva deve ser propositivo, não impositivo, deve dialogar com as necessidades e singularidades das crianças. Um currículo, no qual a criança é agente, ator e autor é um currículo pensado com as crianças e não para as crianças. Neste caso, não é fechado, inflexível, é dialogado, elaborado com as crianças.

Em face do exposto, destacamos que se faz necessário vencer esse paradigma de criança como ser incompleto e encará-la como sujeito histórico, produtor e produto da cultura, portanto, autora e ator no processo de aprendizagem e desenvolvimento. Ademais, é importante perceber que no berçário os bebês produzem e reproduzem cultura, que se modificam e modificam o meio ao qual estão inseridos, portanto, as propostas pedagógicas e a prática pedagógica devem considerar a criança como centro do processo e o ponto de partida de todo planejamento e prática pedagógica na educação infantil deve ser a criança.

Diante do exposto, concluímos que a concepção de infância como tempo de superação e não de experiências e de vivências e da criança como ser carente/ incompleto implica em um currículo preparatório, fechado, inflexível, um currículo em que a infância enquanto grupo geracional é invisibilizado. Já a concepção de infância como tempo de brincar e de criança como ser ativo/inteligente contribui para um currículo pensado com as crianças e não para as crianças. Concluímos, por fim, que é perceptível a necessidade de uma proposta curricular, na qual todas estas questões sejam pautadas: a diversidade, a vulnerabilidade, as culturas das crianças, a curiosidade, a criatividade, o afeto, os contextos familiares, dentre outras questões.



Referências

BRASIL. Constituição da República Federal de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

______ Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Senado Federal, 1996.

CORSARO, William A. Sociologia da infância. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011

MACÊDO, Lenilda Cordeiro. A infância resiste à pré-escola? Tese (doutorado). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal da Paraíba – UFPB, 2014, 237f.

QVORTRUP, Jens. Nove teses sobre a infância como fenômeno social. Revista Proposições, Campinas, v. 22, n. 1, p. 199-211, jan./abr. 2011.

SARMENTO, Manuel Jacinto. Sociologia da infância: correntes e confluências. In: SARMENTO, Manuel Jacinto; GOUVEIA, Maria Cristina Soares de. (orgs.). Estudos da infância: educação e práticas sociais. 2. ed. Petrópolis: [s.n.], 2009. p. 17-39.

VIGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.



WALLON, Henri. As origens do caráter na criança. São Paulo: Nova Alexandria, 1995.









Compartilhe com seus amigos:


©bemvin.org 2019
enviar mensagem

    Página principal