O que fazer com o real que ex-siste?



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Encontro19.08.2018
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O QUE FAZER COM O REAL QUE EX-SISTE?

José Antonio Pereira da Silva [1]

O Real do qual se ocupa a psicanálise é o Real do falasser, o qual é uma condensação entre o falar e o efeito do significante no sujeito, efeitos encarnados de alíngua, uma língua própria de cada um e sua junção ao Real do gozo. 
É um Real do qual se padece, que não dorme, não deixa o sujeito tranquilo. É um Real que leva a uma demanda particular de psicanálise, tendo o Real como causa, um Real que toma a forma daquilo que não está indo bem, por isso o sujeito sofre, o que leva Lacan (1971, p. 29) a nos dizer:

"O real é o que comanda toda a função da significância. O real é aquilo com que vocês se deparam, justamente por não poderem escrever em matemática seja o que for. O real é o que concerne a que, no que é a função mais comum, vocês se banham na significância, mas não podem segurá-los todos ao mesmo tempo, os significantes... Eles são recalcados... vocês os dizem inter, eles são interditos. O que não impede de dizê-los. Mas vocês os dizem censurados."

Lacan (1972) nos mostra que, ao a-bordar o Real, pode-se demonstrar que alguma coisa sempre pode enunciar-se, oferecida ou não à dedução lógica, que se articula, como que de antemão, com o que as premissas, os axiomas, os termos fundadores em que pode basear-se a dita aritmética permitam presumir como demonstrável ou refutável. Revela, assim, a impossibilidade da captura completa do discurso no esgotamento lógico, introduzindo na lógica uma hiância irredutível, que designa de o Real.
Na clínica, o analista é evocado a a-bordar o impossível, o Real. Isso porque os analistas são o paradigma do que questiona o que pode sair da linguagem. Mas o que essa linguagem funda como discurso, só pode fazê-lo quando a linguagem ultrapassa a si mesma, ao gerar um discurso particularizado.
Neste sentido, Lacan (1972) propõe encontrar, no Real que se afirma pela interrogação lógica da linguagem, o modelo do que nos interessa, ou seja, o que a exploração do inconsciente revela.
O discurso analítico é a conta certa, de acordo com Lacan (1972), para acessar o Real que está falando através do simbólico. Ressalta que não acessamos o referido Real senão no e através do impossível que somente o simbólico define.
O Real é a questão a que o sujeito do inconsciente tem de responder, a cada vez que responde, dado que não sabe, com um sintoma. O Real é o que não sei dizer, o que ignoro.
O Real ex-siste via o nó borromeano, qual, então, a relação possível entre eles em uma análise? O Real que ex-siste escreve-se assim para dizer que o real é muito íntimo e, por sua falta de conteúdo, muito êxtimo do sujeito, muito inacessível.
Através do nó borromeano, de acordo com Soler (2012), Lacan mostra, no seu ensino, que, na duração de uma análise, em termo de nó, se faz, se transforma, se desfaz, se faz novamente, e assim segue.
Vejamos o que mais poderemos dizer sobre o que fazer com o Real que ex-siste no analisando, no III Colóquio da Rede Diagonal do Brasil, que acontecerá de 19 a 21 de outubro de 2017, em Belo Horizonte.

Referências:

LACAN, J. O Seminário, Livro 19: ... ou pior [1971-1972]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.
LACAN, J. O Seminário, Livro 22: R.S.I. [1974-1975]. Inédito. Xerocopiado.
SOLER, C. Lacan, o inconsciente reinventado. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2012.

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[1] Psicanalista. Membro da EPFCL. Rede Diagonal Brasil. Fórum Salvador.


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