O que é responder?



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O QUE É RESPONDER?

Gabriel LOMBARDI

Antes de fazer uma reflexão sobre o que responde o analista, sobre o objeto ou o enunciado de sua resposta, proponho considerar o que é responder. A palavra não poderia ter sido melhor escolhida. Desde tempos quase imemoriais das línguas indoeuropeias, nela fazem convergir o dizer como ato, a garantia que se oferece ao pronunciá-la, a liberdade de dar ou de aceitar essa garantia, em suma, a responsabilidade que cabe ao ser, pelo fato de dizer.

Assim na Odisséia, a viagem literária de Homero, no momento de começar uma empreitada perigosa para si próprio e para os seus, o herói realiza a oferenda líquida – spéndõ é a libação e a invocação aos desejos – destinada a Zeus ou a Posseidón, os deuses do poder e do mar. Assim em Aulo Gelio, quando o pai se comprometeu a dar sua filha em casamento, disse “spondeo” e o mesmo disse o pretendente. Do intercâmbio dessa garantia nasce o sentido de respondere, já bem estabelecido na língua latina.

Emile Benveniste, agudo inquisidor do vocabulário das instituições indoeuropeias, explica que and-swaru em germânico, swaran em gótico e answer em inglês equivalem a jurar, dizer fundante da responsabilidade, seja contratual ou absoluta, seja escrita ou meramente dita – feita de dizer.

Responsum é também o dizer dos intérpretes dos deuses, particularmente os arúspices (sacerdotes que na antiga Roma examinavam as entranhas das vítimas para fazer presságios), que antes do ato temerário se asseguravam no benefício da oferenda. O oráculo é a verdadeira resposta, porque nela os signos do acaso substituem o saber que não há no momento da escolha, quando o dizer sim ou não ao chamado do desejo tem que ajustar-se a um real sem regra.

O aspecto religioso que nos chega com o responso para os defuntos e a libação cristã, não nos impede de fazer como Joyce, usar as ressonâncias deste feixe multilíngüe para nosso desejo e para nossa viagem específica. O que é o responder do analista, nestes tempos em que os heróis, os fiéis e os escroques foram substituídos pelos psicóticos, neuróticos e perversos? O que é responder no oraculum aberto pelo método freudiano, esse lugar onde à urgência e à súplica já não responde nem Deus nem o profeta, mas sim o mero desejo de um arúspice que deposita sua interpretação nas vísceras significantes do ser, abertas pelo sintoma?

A regra fundamental permite ao analista encarnar a estrutura essencial de uma verdadeira resposta, dada agora ao sujeito $ do sintoma, essa forma dividida do ser, esse postergar a existência resistindo à decisão onde o real se encontra. Se, como assinalou recentemente Antonio Quinet, o analista se investe de máscara, de semblante, de dizer enigmático, e também de silêncio e de cortes inesperados, é porque a resposta analítica se faz no lugar onde só o desejo responde ao que urge de saber.

A resposta do analista ao que oprime, não fecha uma pergunta, mas garante que um processo de pesquisa pessoal, de pesca no rio do inconsciente, possa ser levado a cabo. Pagando com sua pessoa, o analista propicia que a palavra advenha em um sujeito amordaçado pela repressão, indeciso diante do umbral, inibido em sua ação. Por isso nossa concepção da psicanálise pode ser substituída na sequencia:

PERGUNTA DO ANALISANTE → RESPOSTA DO ANALISTA

Por essa outra:

RESPOSTA DO ANALISTA → CONSEQUENCIA

Essas consequências podem ser meramente associativas (interpretação de interpretação), transferenciais (o atuar paradoxal, dividido do analisante $) e também respostas do ser em análise, individuais, eventos que extraem o dizer do que foi esquecido, ao que o relega o saber. E entre essas consequencias pode se chegar à resposta última, a satisfação final do analisante ao que urge, ao que satis faz, ao dizer suficiente!, ao processo analítico. A análise transcorre então entre aquele spondeo inaugural do analista e este spondeo da destituição subjetiva do analisado.

Se o que urge já encontrou sua hora (l`heure, em francês) singular, se a análise e a sorte (l`heur) lhe concederam o destino do desejo, como reconhecê-lo? Os efeitos terapêuticos, didáticos e propriamente analíticos, liberadores, não podem medir-se pelo dispositivo freudiano, por estar o analista sentado na eficácia de sua posição oracular, desejante sem saber, adivinho que já produziu a sequela de decisão naquele que veio em busca de uma resposta. O analista foi o satisdator, o que caucionou, o que garantiu que essa satisfação tenha ocorrido em algum momento, pagando com seu juízo íntimo por não poder predizer o tempo, nem o modo, nem a finalidade. Daí sua incerteza, se é um AME, ao designar um passador.

Em nossa Escola respondemos à essa pregunta com o dispositivo do passe, deslocando o problema para a função do passador. Esperamos que em vez do reconhecimento, opere no passador sua sensibilidade ou sua reação inconsciente à decisão do passante, decisão que no passante só pode cercar-se de uma assinatura nova, metereologia pessoal, razões desclassificadas, afetos interpretantes – afetos enigmáticos, afetos de referência. Não esperamos saber, mas obter ecos de uma resposta eletiva que como tal é radicalmente alheia ao saber, quer dizer, uma resposta do ser ao ser no domínio estreito da didática da psicanálise cujo êxito não está garantido previamente, o satisdator aqui falta.

Nós esperamos também que através dele, algumas razões nos sejam transmitidas, hystóricas dizia Lacan. Como se separaram os efeitos do significante ($ e a), aqueles que normalmente impedem a destituição subjetiva exigida no vestíbulo do ser?

Todos os esforços para advertir sobre o que está em jogo no passe – passe que geralmente sobrevem na fenda temporal do final de anáise –, poderiam levar a decepções se não se admite que, desta vez, essa resposta deve ser produzida pelo analisado sponte1, na espontaneidade que está na base do real lacaniano, o real sem lei do falasser, na defazagem entre cairós e chronos que não depende sequer da auto-legislação de uma vontade consciente ou inconsciente.

Por isso, em nosso horizonte ético podemos situar, junto aos reultados didáticos e terapêutios, também outros meramente analíticos, que abrem destinos sublimatórios por exemplo, que orientam o que urge de um inconsciente menos autista, menos extraviado quanto ao desejo do Outro – desejo no qual se funda o interessante, o inter-esse lacaniano.

No horizonte ético de nossa prática está a parousía [presença, advir do ser, da ousia] de um ser que se satisfaz de outra maneira que no sintoma – no que a pulsão e desejo se contradizem, deixando a coisa irresoluta. O inconsciente pré-ontológico, interdição imposta a um ser condenado à indeterminação e à repetição inoportuna, passa na análise a um estatuto ético, um dever ser, um imperativo que poderia se resolver e encontrar sua determinação em ato no final da análise. A própria noção de resposta implica a causalidade por liberdade.

Graças a que, o inconsciente real, o inconsciente analisado, não nos reduz ao gozo idiota de lalangue, mas destina o gozo ao desejo, realiza um Triebschicksal2 largamente adiado. O inconsciente real é inconsciente oracular, leitor do desejo, que responde com uma espontaneidade que não é meramente liberdade de, liberdade negativa, mas liberdade para, estar aberto a…

O desejo que fizemos nosso, de iluminar essa obscura decisão do ser que consiste em assumir a posição de analista, não deveria levar-nos a pisotear com dispositivos, métodos e razões o que essa assunção tem de resposta satisfatória, que não verifica a garantia psicanalítica com mentiras, frases feitas, nem matemas vencidos, mas com a assunção, ao modo freudiano, desse voto que desde sempre intervém no exercicio da liberdade de participar da cidade ou da batalha.

Buenos Aires, janeiro de 2012.

Tradução: Elisabeth da Rocha Miranda, revista por Sonia Alberti.

1Sponte, ablativo absoluto do substantivo spons spontis “espontaneamente”. Segundo Varrón, procede da mesma raiz etimológica que spondeo. Heidegger concorda, Ernout e Meillet não negam, mas também não o afirmam com segurança. Em minha argumentação essa coincidência é oportuna.



2Lacan dá uma interessante versão do Triebschicksal freudiano em sua aula de 18 de março de 1980.


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