O que é? Para que serve? Para quem é? Definição. Características



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Capítulo 1

O que é? Para que serve? Para quem é? Definição. Características.

Uma conversa curiosa aconteceu em uma feira de livros com uma mulher que nos ajudava a vender nossos audiolivros. Depois de um tempo ali trabalhando, ela disse:

É engraçado, passou gente aqui dizendo: ‘audiolivro é bom para quem não enxerga’. Depois veio outro e disse: ‘ah, audiolivro é bom para quem não sabe ler’. Depois, veio outro e falou: ‘é bom para quem tem preguiça. Chegou uma hora que eu não aguentei mais e falei: é bom para todo mundo, para todos os casos, só não serve para deficiente auditivo”.

Com todo o respeito às pessoas com deficiência auditiva, sem intenção de envolvê-las em qualquer tipo de piada, o desabafo da nossa ajudante acabou sendo engraçado.

A verdade é que o audiolivro era na época – e é ainda – um produto novo, relativamente desconhecido no Brasil. Assim, as pessoas ficam sempre tentando entender aquela novidade, dar um sentido a ela, ver onde ela se encaixa no dia a dia.

Como produtora, descobri que ele pode ser – e é – usado de muitas formas. Eu gosto de escutar audiolivros no carro. E, dependendo do envolvimento com o título que estou escutando, às vezes chego a lamentar que o trânsito não esteja muito ruim. Também uso esse produto para suprir minha necessidade insaciável por livros. Gosto de escutar em áudio os títulos de meus autores e assuntos favoritos, pois não teria tempo de ler tudo que gostaria. Mas também já vivi a experiência de escutar alguns best-sellers que eu acreditava que precisava conhecer por razões profissionais mas para os quais simplesmente não tinha vontade de dedicar algum tempo da minha vida. Ao escutar uma obra no trânsito não tenho a sensação de estar “perdendo tempo” como teria se lesse esses livros em casa. Ao contrário, a sensação é de estar “ganhando tempo”.

Também testemunhei muitas variadas razões para as pessoas escutarem audiolivros. Amar os livros e querer estar com eles o tempo todo -- na chuva, na fazenda, no banheiro, no carro -- é a minha. Mas existe gente que não gosta de ler. Isso não é pecado. Mesmo quem não gosta de ler reconhece a importância dos livros. Os livros – o seu conteúdo, naturalmente – são indispensáveis para o aprendizado e o desenvolvimento mental em todas as sociedades de linguagem organizada. A importância não está só nos didáticos. Os de não ficção nas áreas de desenvolvimento pessoal e profissional podem levar a verdadeiras guinadas na vida das pessoas. Os esotéricos e religiosos são responsáveis pela estruturação das doutrinas. E há ainda os de culinária, os de história, os biográficos, enfim, livros para todas as questões pertinentes à vida humana. Não há sociedade que negue ou ignore o valor e a importância do livro. Aos de ficção, muitas vezes valorizados só como forma de entretenimento, cabe a glamourosa missão de ajudar a desenvolver a capacidade de escrita, de registrar usos e costumes, de penetrar a alma humana, etc.

Assim, muita gente que não gosta de ler pode sim gostar muito de audiolivros. E há também quem não sabe ler. Afinal, saber ler não é simplesmente saber que b+o é “bo” e l+a é “la” e bo+la é “bola”. Ler é uma atividade bem mais complexa, que exige o reconhecimento das relações frasais, além do conhecimento de vocabulário e a capacidade de fazer relações com a realidade. O índice de analfabetismo adulto no Brasil caiu desde a década de 1990 até o ano de 2012, com um minúsculo retrocesso entre 2011 e 2012, segundo pesquisa do IBGE1. Porém, ainda é alto. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com dados coletados em 2012, mostrou que a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais na época era de 8,7%. E pior ainda é o índice de analfabetismo funcional.

A última pesquisa sobre o Indicador de Analfabetismo Funcional, o Inaf, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, publicada em 2016, mostrou resultados melhores em termos de analfabetismo total (4% do grupo), porém, ainda preocupantes em termos de analfabetismo funcional -- 27% das pessoas foram classificadas como analfabetas funcionais, que não conseguem realizar tarefas simples envolvendo a leitura de palavras e frases.

Dos alfabetizados funcionalmente, a maior parte (42%) foi classificada no grupo elementar, ou seja, de pessoas que só realizam a leitura de uma ou mais unidades de informação em textos de extensão média. Cerca de 23% estava na condição intermediária e apenas 8% dos respondentes se encaixavam no último grupo de alfabetismo, revelando domínio de habilidades sem restrições para compreender e interpretar textos.

Quando comecei a comercializar audiolivros no formato de CD de MP3, a mulher que trabalhava como cozinheira na minha casa insistia em comprar todos os títulos que eu lançava, fosse o que fosse. Demorei um pouco para entender o porquê de tanto fascínio dela por aqueles títulos todos. Descobri que ela não sabia ler e na verdade estava fascinada pela possibilidade de “ler em áudio”. Era um passo de cidadania, talvez. Um direito reconhecido.

Por outro lado, também não é óbvio o fato de que todo mundo que não pode ou não consegue ler livros em papel vai automaticamente gostar de audiolivros. Conheci deficientes visuais que não gostam de audiolivros. Eles liam em braile. Talvez a explicação para isso esteja na manifestação mais sincera que recebi, vinda de uma amiga a quem eu vivia querendo dar audiolivros de presente: “Não adianta, não sou uma pessoa auditiva”.

A verdade é que tem gente capaz de escutar uma curta explicação e entender tudo rapidamente, mas que às vezes não consegue compreender uma planta baixa de um apartamento, por exemplo. Já outras pessoas são capazes de ler com facilidade mas não conseguem entender a leitura de um simples parágrafo se ele for lido para elas. Tem gente que usa bem a memória visual, outros fazem contas com facilidade. Outros guardam informações na memória a partir de rimas ou criando relações entre informações. Cada um com seu jeito de funcionar. Uns são auditivos, outros, visuais ou lógicos ou poetas ou sonhadores. Que bom que o mundo hoje tem o mesmo livro em diferentes suportes para pessoas que funcionam de jeitos diferentes.

Um dia um artista gráfico bem sucedido comentou: “Se existisse audiolivro na minha época de jovem, minha vida teria sido muito mais fácil. Sou disléxico. Sofri muito. Hoje aprendo, me divirto e me realizo com audiolivros.”

Mas afinal o que é esse produto

Há muitos produtos no formato de áudio atualmente na internet com os mais variados nomes, a maioria em inglês, mesmo quando em território virtual brasileiro. “Audiolearning”, “audiotheater”, “audioplay” e até “audiocasting” (usado por um banco para transmitir suas previsões na área financeira). Há peças de teatro gravadas em áudio, cursos, palestras, muitos e variados tipos de áudio. Porém, no mercado se convencionou chamar de “audiobook” e, mais brasileiramente, de audiolivro (ou ainda livro em áudio) o seguinte tipo de produção: um livro, em geral já existente em papel, gravado na íntegra em áudio e distribuído em CDs, CDs de MP3 ou via internet (por download ou streaming). A diferença entre o download e o streaming é que no download o arquivo é baixado totalmente para o equipamento do cliente; já no streaming, o usuário escuta um arquivo que está em um servidor. Nesse caso, ele tem a vantagem de não precisar usar espaço do seu equipamento mas tem a desvantagem de precisar se manter conectado à internet enquanto quiser ter acesso ao arquivo. Os formatos serão discutidos mais detalhadamente no item “Duração e formato” deste capítulo e no item “Edição” do capítulo 6).

Dentro dessa definição há ainda a possibilidade do audiolivro condensado, ou seja, gravado a partir de uma condensação da obra original. Com isso, um livro de 20 horas, por exemplo, pode ter algumas partes cortadas e ser reproduzido em 10 horas. Os produtores de audiolivros em inglês, que compõem a maior parte do mercado mundial, dizem que os condensados são importantes para ajudar a formar público para o produto. Segundo eles, em geral, quem compra os condensados são usuários que ainda estão começando a escutar audiolivros.

No Brasil, pelo menos até 2016, essa proposta de condensados não decolou. Minha experiência pessoal como ouvinte desse tipo de produto foi muito frustrante. Escutei Cinzas de Angela, de Charles Dickens, inteirinho, amei e só no final soube que eu havia escutado uma versão condensada. Com certeza, essa informação tinha sido dada antes, mas não percebi. O fato de ter adorado o audiolivro e depois descobrir que havia escutado um tipo de resumo de uma obra tão importante, tão rica em detalhes literários, me deixou com uma sensação de frustração.

Uma outra possibilidade de formato de audiolivro é a obra criada especialmente para o áudio, ou seja, a obra que não parte de um livro já editado e comercializado em papel. Há vários exemplos desse tipo de audiolivro no mercado de língua inglesa e no mercado brasileiro. Falarei mais detalhadamente sobre as editoras/produtoras de audiolivros e as principais características dos seus produtos no capítulo (?????).

Dentro do que se convencionou chamar de audiolivro há ainda algumas variações de características em relação ao uso da música e de efeitos sonoros.

A maior parte dos audiolivros em inglês usa apenas a voz humana. Os produtores não utilizam música de fundo nem vinhetas musicais em aberturas. A uma razão bem prática para isso: lidar com direitos autorais e direitos conexos (execução, gravação, etc.) na área de música é muito trabalhoso.

No Brasil, tudo tem mais “jeitinho” e os audiolivros brasileiros acabaram incluindo mais música ou pelo menos vinhetas musicais. Porém, há uma diferença entre usar uma vinheta em pontos estratégicos, como aberturas de capítulos, por exemplo, e usar longos trechos de música ao fundo da leitura.

Eu pessoalmente não gosto de escutar um audiolivro com música no fundo. Fico com a sensação de que os dois elementos – texto e música -- estão brigando, disputando a minha atenção. Mas, é claro, o mercado não se baseia no meu gosto. Precisaríamos ter pesquisas para saber do que o brasileiro gosta em termos de audiolivros (com ou sem música).

Alguns gêneros de audiolivros são naturalmente exceções quanto ao uso de música. Eles incluem os infantis, os de poesia e os esotéricos, como os de meditação e relaxamento. Mesmo os audiolivros em inglês, francês, espanhol e alemão nessas áreas estão cheios de música.

Basicamente a mesma regra vale para o uso de efeitos sonoros. Os principais tipos de audiolivros com efeitos sonoros são os infantojuvenis e os esotéricos (água, pássaros e vento são os efeitos mais comuns).

Duração e formato de áudio

Assim como no mundo dos livros impressos, o limite para a duração de um audiolivro está no bom-senso e diretamente ligado à quantidade de palavras ou caracteres do livro em papel: em geral, um audiolivro dura de 1 hora a 25 horas. Menos do que 1 hora só para infantojuvenis específicos. Mais do que 25 horas só para romances históricos caudalosos ou compêndios religiosos.

Quanto ao formato do arquivo de áudio, a tendência no mercado de audiolivros é sempre recorrer a arquivos mais leves, como o MP3. O tradicional padrão wave, usado na produção do CD comum, o chamado “CD de áudio”, é muito pesado para transferência via internet. Para se ter uma ideia, um arquivo wave estéreo com 1 minuto de duração tem cerca de 10,4Kb, enquanto esse mesmo conteúdo alocado em um arquivo MP3 (a 192 Kbps) tem 1,4 Kb. No caso da reprodução da voz humana, a conversão para MP3 não causa “estragos”, como pode acontecer com a música, porque o espectro de frequências alcançadas pela voz humana é mais limitado do que o utilizado na música. A voz humana funciona entre frequências de 50 a 3.400 hertz, enquanto um piano, por exemplo, vai de 40 a 4.000 hertz. Assim, não há grandes perdas quando se convertem os arquivos de áudio de voz humana para MP3. (Veja mais detalhes sobre arquivos MP3 no item ?? capítulo 6)

Para entender os principais aspectos técnicos do áudio digital, condição indispensável para quem vai trabalhar na área de audiolivros, há dois conceitos básicos. No som digitalizado, o sinal captado de forma elétrica é transformado em informação binária (0 e 1) para ser compreendida pelo computador. Nessa transformação, é como se o sinal fosse “fotografado” várias vezes. Assim como um vídeo é uma sequência de imagens que vão se modificando (uma sequência de fotos que formam o “quadro a quadro”), também a onda sonora digitalizada é composta por várias amostras do som. Essas amostras são organizadas com base em dois parâmetros: a taxa de amostragem (sample rate), que é a quantidade de vezes que uma onda é “fotografada” ou medida, e a profundidade de bit (bit rate), que indica o número de bits em cada amostragem.

Quanto maior a taxa de amostragem, maior a quantidade de “fotos” do áudio e, portanto, maior a qualidade do mesmo e mais fidelidade ao som original. Porém, naturalmente, uma taxa de amostragem muito alta pode sobrecarregar o sistema de computador e comprometer seu funcionamento. Depois de estudos feitos, percebeu-se que 40.000 amostras por segundo é o suficiente para capturar toda a informação que o ouvido humano necessita para ter uma ótima percepção sonora. Nos programas de gravação e edição de áudio a taxa mais próxima de 40.000 aparece fixada em 44100 amostras por segundo, ou 44.1Khz. Assim, essa taxa é mais do que suficiente para se ter uma ótima qualidade de áudio digital e costuma ser um padrão especialmente em meio aos produtores de áudios de voz.

Já a bit rate, taxa de bits, consiste na quantidade de bits 0 e 1 processados por segundo na amostra de som digital. Quanto mais alta a taxa, mais bits 0 e 1 estarão presentes na amostra e mais qualidade ela terá. A qualidade mais aceitável para os arquivos digitais de voz hoje é de 192 Kbps (kilobites por segundo). Uma qualidade superior a essa se equipararia à qualidade do CD de áudio, o que pode ser desejável no caso da música mas é dispensável quando se trabalha com gravação de voz humana.

Além dos arquivos wave e dos compactados em MP3, há outros formatos de áudio no mercado. A Apple privilegia o AIFF como um arquivo de trabalho em seus softwares. Entre os compactados, existe o AAC. E, no caso das plataformas distribuidoras de audiolivros e seus aplicativos (apps), em geral, cada uma utiliza um tipo específico de arquivo.

A maioria dos softwares reconhece os diferentes tipos de arquivo de trabalho. Já quanto aos formatos de distribuição, o objetivo é mesmo que os áudios não possam ser lidos nem copiados para ambientes externos ao da plataforma de comercialização, de forma a proteger os direitos comerciais da distribuidora e os direitos autorais das obras. A facilidade de transferência dos arquivos de MP3 tem a desvantagem de facilitar a pirataria (veja mais sobre “pirataria” no capítulo??).

Capítulo 2

Pré-produção / Escolha de obras / Qualidade: um jogo que você ganha ou perde na hora da gravação / Escolha de narradores



Pré-produção

A escolha da obra vai depender de muitos fatores, incluindo o que você pretende fazer com ela – comercializar como um título próprio, entregá-la pronta como uma prestação de serviço por um valor fixo, disponibilizar gratuitamente na internet como um bônus de um autor para quem compra o seu livro impresso, etc.

Enquanto puder influir na escolha da obra, lembre-se que há livros mais fáceis de serem passados para áudio e outros mais difíceis. Há alguns que beiram a impossibilidade.

Um dia um autor me procurou perguntando quanto cobraríamos para fazer a obra dele em audiolivro. Demorei alguns e-mails para descobrir o principal: tratava-se de um livro de quadrinhos! Impossível!

É claro que sempre é possível reescrever a história. Mas, nesse caso, não estaríamos mais falando simplesmente da gravação de um audiolivro e sim de um trabalho bem maior que envolveria o autor. Além dos livros cujo conteúdo depende muito de imagens, obras com muitas tabelas, quadros e longos cálculos também podem gerar um resultado ininteligível no áudio. Tudo isso exige adaptação.

Deixando de lado essas situações mais extremas, há ainda aspectos importantes em um livro que determinam uma maior facilidade ou dificuldade para gravação. Um deles é a existência ou não de personagens. A matemática prevalece: quanto mais personagens, mais difícil. E também quanto mais os personagens falam, mais complexo fica gravar. Tenha em mente que as vozes precisam ser diferenciadas. Se a obra for gravada por um narrador único, o que é o mais comum no mercado de audiolivros em inglês, não tenha dúvidas de que você precisa de um narrador com formação de ator (veja capítulo 3??).

Observe também como o autor do livro introduz ou indica as falas dos seus personagens. Tudo fica muito mais fácil quando o livro contém os chamados verbos de “elocução”, os verbos que indicam o comportamento dos personagens. Nesse caso, o autor abre com travessão, manda a fala e finaliza com um “disse fulano”, ou, nos autores mais expressivos “balbuciou fulana, chorando”, “gritou o amigo enfurecido”, “enfatizou a mulher”. Tudo isso não só ajuda o narrador a encontrar o melhor estado de espírito para a frase, mas também funciona como um guia seguro para o ouvinte mesmo que ele não perceba bem a diferenciação de vozes do narrador, ele sabe quem está falando. Porém, principalmente em obras mais atuais, os autores preferem confiar os diálogos só aos travessões. Assim, em diálogos entre duas pessoas, há apenas travessões intercalando as falas. Feche os olhos e imagine-se escutando a leitura desse trecho em uma voz única, sempre no mesmo tom. É claro que você não vai entender nada. No outro extremo, imagine um ator talentoso fazendo a diferenciação das vozes (veja mais no capítulo ??3). Na falta desse narrador talentoso, considere a possibilidade de gravar a obra com mais de um profissional.

Outro aspecto a ser observado antes de se começar a gravar uma obra é a quantidade e a importância das notas de rodapé. Começa que áudio não tem rodapé. Por isso, em geral, nas grandes produtoras internacionais de audiolivros, esse tipo de conteúdo simplesmente desaparece. Mas há casos em que essas informações são importantes e elas precisam ser mantidas. Nessas situações em geral as notas têm que ser movidas para um ponto diferente daquele no qual estavam inseridas no livro original. Ao mudar o ponto de entrada da nota no texto -- no áudio, é melhor dizer só “nota” ou “nota do autor”, ou “nota do editor”, ou “do tradutor” --, normalmente se percebe que ela precisa ser escrita de outro jeito. Muitas vezes, também, ao preparar uma nota percebemos que ela é longa demais para entrar no meio de um trecho em áudio, precisa ser encurtada. Às vezes, ainda, vemos que uma nota tem importância relativa, pode ser eliminada. Dependendo do caso, essa decisão pode ser bem positiva, pois o caráter da nota no áudio é bem diferente do seu caráter em um texto escrito. Em um livro impresso, as notas de rodapé cumprem a função de complementar as informações sem atrapalhar a leitura básica. Já no áudio, a escuta da nota é inevitável. Interrupções constantes e longas podem levar ao desinteresse do ouvinte. Ao mexer no conteúdo ou eliminar notas de rodapé quando passar um livro impresso para o formato de áudio, lembre-se de consultar ou avisar o autor sobre as mudanças. Sutilezas no texto podem mudar completamente o sentido de uma informação. Ou, independentemente disso, ou autor -- ou o editor responsável pela obra em papel -- tem todo direito de acompanhar qualquer mudança.

Na pré-produção, dedique também algum tempo para calcular o tempo final da obra. Essa informação é indispensável para fazer a contratação dos profissionais e o cálculo do custo do trabalho. A experiência mostra que cerca de 45 mil (vf????) caracteres com espaço geram aproximadamente uma hora áudio. Um cálculo eficiente também é basear-se no número de palavras. Cada duas palavras tomam 1 segundo de áudio. Se tiver o texto em pdf, converta-o para doc ou txt. Abra-o com um processador de textos e faça o cálculo. Se só tiver o material impresso em papel, recorra ao modo antigo de calcular. Conte a quantidade de caracteres (incluindo espaços) de uma linha padrão, multiplique esse valor pela quantidade de linhas de uma página padrão do livro e multiplique pela quantidade de páginas. Você vai chegar à quantidade total aproximada de caracteres com espaço de texto. Divida o valor por 45.000 (VF??) e você terá a quantidade aproximada em horas. Se quiser trabalhar com mais precisão, passe os valores para minutos.

Total de caracteres X Total de linhas em uma página X Total de páginas = Total de horas

(Com espaço da linha)

45.000 (???)


Para fazer esse cálculo e também como parte da pré-produção, analise o material introdutório da obra. Alguns livros possuem longos agradecimentos, prólogos, prefácios e todo tipo de material introdutório antes de começar exatamente. Na gravação tradicional de audiolivros exclusivamente para deficientes visuais (veja capítulo???), o padrão consiste em gravar todo o material de um livro, incluindo desde prefácios e agradecimentos até o expediente com a lista de todos que participaram da produção. Nesse caso, a gravação tem o aspecto específico de permitir que a pessoa com deficiência visual possa ter acesso a todas as informações, assim como alguém que enxerga bem pode ver tudo que faz parte do livro impresso. Porém, no caso de audiolivros comerciais, feitos para agradar ao público em geral, algumas informações complementares ou introdutórias de um livro em papel podem se tornar muito cansativas no áudio. Lembre-se que no papel, o leitor pode – e na maioria das vezes faz isso – pular esse tipo de informação. Já o formato de áudio não permite essa seletividade. O ouvinte começa a escutar mas não sabe exatamente o que está escutando. Não sabe quantas páginas aquele trecho tem. Assim, considere a possibilidade de eliminar esse tipo de material ou pelo menos não colocá-lo no começo do áudio ou ainda, se o fizer, identifique bem o que está fazendo. Por exemplo, no caso de um prefácio escrito por alguém muito importante, um material que você acredita que não pode ser dispensado, coloque a identificação do autor daquele trecho logo no início, não deixe para indicar só no final. Isso vai aumentar o interesse do ouvinte que saberá exatamente o que está ouvindo. Já agradecimentos longos e listas de créditos podem perfeitamente aparecer no final da obra. O ouvinte que gostou do audiolivro vai gostar de saber quem ajudou a produzir não só o áudio mas também o texto original. Vai ter prazer em saber quem foram as pessoas importantes para o autor durante seu trabalho de escrita. Se tudo isso estivesse logo no começo do seu audiolivro, ocupando o tempo do seu ouvinte, ele talvez pudesse achar chato e parar de escutar a obra.

Para aparecer como abertura da obra, restrinja-se às informações necessárias. Um esquema básico é o seguinte:

- Vinheta de abertura – exemplo: “Editora ou produtora tal apresenta”; ou “Audiolivros Editora tal”

- Título da obra

- Subtítulo, se houver

- Nome do autor (ou autores)

- Número da edição, se for relevante

- Gravado a partir da obra (detalhar), se for importante

- Narração de (citar narrador ou narradores)

Há ainda glossários, listas bibliográficas e outros tipos de material que podem aparecer no final de um livro. Use o bom-senso para determinar o que deve entrar ou não no audiolivro. Mas programe tudo antes. Escreva em uma folha separada tudo que deverá ser gravado pelo narrador, incluindo: apresentação da obra, créditos iniciais e finais e toda e qualquer informação acessória que você vá precisar.

????>Voltar incluir no texto marcação dos personagens com cores
Um jogo que você decide na gravação

Tenha em mente uma regra bem simples: o sucesso de uma produção – e, portanto sua boa qualidade final e seu custo enxuto – é um jogo que você perde ou ganha na hora da gravação. Qualquer coisa que dê errado nesse momento é difícil corrigir.

Portanto, prepare-se bem quanto aos seguintes aspectos - antes de começar a gravar:

- esteja com o texto preparado – confirme se é a última versão modificada --, colocando-o nos tablets do estúdio ou com as em papel; faça as cópias necessárias para todos que vão acompanhar a gravação;

- marque e confirme a presença de todos no estúdio na data combinada;

- um dia antes da gravação, o operador deve chegar o equipamento incluindo o microfone e os cabos. Deve ter em mãos pilhas e cabos extras que possa precisar;

- na hora da gravação observe se há qualquer elemento que possa fazer barulho: uma cadeira que range, alguém com roupa sintética ou bijuterias que batem umas nas outras, etc.

Há ainda vários cuidados a serem tomados durante a gravação em si. Há as questões técnicas de áudio (veja capítulo??) e a atenção com a leitura em si, que envolve o trabalho do narrador e o da pessoa que vai acompanhar a leitura, que pode ser só o operador de áudio e, às vezes, um diretor. (veja capítulo??).

Capítulo 3
Narrador - tipos de narração / o tom certo / os personagens / cuidados com a voz / Entonação, pronúncia, ênfase / cuidado com o tom de propaganda / trabalho prévio / cuidados no estúdio / custos / forma de contratação / contratos / sindicatos
O narrador é a figura chave do audiolivro. É quem vai dar vida à voz do autor. Dedique tempo a conhecer o narrador com quem você vai trabalhar ou a analisar possíveis candidatos para um trabalho. Se você é o narrador, estude, treine sempre.

Uma boa iniciativa para produtores especializados na área é manter uma planilha com todos os detalhes de narradores conhecidos. Essa planilha pode servir para registrar desde as características básicas da voz do profissional até as informações sobre o comportamento dele. Ele cumpre horários? Está facilmente disponível? Concentra-se bem na hora de gravar? Erra muito quando grava? Informações assim podem ser importantes para determinar o custo x benefício de um profissional. Ou para determinar se ele é de fato a melhor escolha em um determinado momento. Veja abaixo uma sugestão de modelo de planilha (???).

Antes de qualquer coisa, o narrador profissional tem que saber que existem diferentes tipos de narração, com variadas gradações de expressividade. A leitura menos expressiva existente no mundo da leitura profissional é a chamada leitura “branca”, normalmente usada na gravação de audiolivros para deficientes visuais. A leitura “branca” consiste numa leitura com o mínimo possível de ênfase e interpretação, sem grandes interjeições, sem emoções. A ideia por trás disso é de que o deficiente tem o direito e tem que ter a oportunidade de “criar para ele mesmo a obra”. O livro não pode já vir “interpretado”.

No outro extremo da interpretação, está a leitura teatral. No teatro clássico, a principal marca da fala é a impostação da voz, a projeção dela para longe, para atingir toda a plateia. Nessa técnica, o ator também recorre ao máximo possível de expressividade, ou seja, usa emoções e interjeições exageradas na fala para transmitir as ideias do texto.

Em pontos intermediários entre essas duas formas de leitura, há ainda tipos de discurso mais ou menos formais a serem considerados.

Há a apresentação do texto como na televisão, por exemplo, como diálogos em uma novela. Essas são falas bem informais, às vezes até demais, mas que seguem o texto à risca.

Se você é ator ou se vai dirigir a leitura de um audiolivro feita por um ator, registre esse modelo de “novela”. Ele pode ser útil para gravação de personagens. Apenas imagine que é preciso usar um grau a mais de formalidade na fala em relação à situação da TV. Lembre-se: em uma novela os atores agem como se estivessem na sala de estar dos espectadores. O porteiro do prédio da novela fala como se fosse o porteiro de um prédio mesmo.

Já no audiolivro, as falas de personagens são, antes de qualquer coisa, texto de um livro. Mesmo em livros bem modernos e informais, o importante e o que precisa ficar registrado na mente do ouvinte é a sensação de que ele está ouvindo o texto (as falas) de um livro e não as falas de uma novela.

Quanto à narração propriamente dita, a sutileza para encontrar o tom certo passa principalmente por evitar alguns padrões de leitura ou de apresentação. Confira essa pequena lista de comportamentos a evitar:

- não caia na tentação de empostar a voz dando a ela um caráter solene. A escuta de um audiolivro é um momento de intimidade entre o ouvinte e a voz de quem lê.

- evite projetar a voz para longe. O narrador precisa lembrar que está lendo para uma pessoa apenas, não para um auditório. Deve imaginar que está a um metro do seu ouvinte.

- no outro extremo, também não caia na tentação do “quase sussurro”. O narrador não vai ler o livro “grudado” no ouvido do ouvinte.

- evite qualquer clima sedutor, no estilo aeromoça ou alto-falante de aeroporto. Esse tipo de recurso só deve ser usado quando o clima do livro realmente exigir, como no caso de literatura erótica, por exemplo. Em outras situações, o narrador não pode cair nessa tentação. A “intimidade” na leitura de um audiolivro é de outra natureza, extremamente sutil;

- evite o tom de propaganda. Nem todos os narradores tem formação e experiência de atores. Muitos são locutores de rádio ou de anúncios publicitários. Principalmente os profissionais que trabalham com propaganda têm o hábito de “cantar” as frases. Para esse tipo de locutor, cada frase é um grande evento. Assim ele joga toda a ênfase naquilo, sobe e desce a entonação, escolhe uma palavra para realçar. Isso funciona muito bem quando o objetivo é enunciar apenas três ou quatro frases mesmo. Por exemplo, um texto simples que enaltece as qualidades do sabão em pó. Ótimo, funciona muito bem na propaganda. Porém, imagine uma sequência de frases lidas dessa forma. E depois imagine uma sequência de parágrafos de capítulos lidos assim. É claro que o leitor não vai aguentar. Leitura de audiolivro não é por aí. Esse tipo de clima publicitário serve no máximo para apresentação do título da obra. Depois livre-se dele.

Há também a leitura autômata, que está muito próxima da leitura branca, porém, com resultados muito ruins para quem escuta. O automatismo consiste em ler as palavras corretamente, mas sem a correta entonação das frases, sem enfatizar palavras importantes, sem variação de tom, de volume, ritmo ou velocidade, sem expressar qualquer emoção. Um exemplo exagerado de automatismo está nas vozes sintetizadas. Há vários tipos de vozes sintetizadas para leitura de textos na internet (veja capítulo ??), mas as vozes sintetizadas mais comuns presentes no nosso dia a dia hoje são as dos programas de GPS, como Waze, Google Maps etc.

Depois dessa série enorme de comportamentos a evitar, vão as dicas para se fazer uma boa leitura de audiolivro. Primeiro o narrador precisa ter uma voz bem cuidada. Ela pode ser mais ou menos bonita, pode até parecer exótica, tudo isso é subjetivo. Porém, não pode ser maltratada. Os cuidados com a voz incluem: manter uma boa hidratação (com água mesmo, quem trabalha com a voz tem que beber muita água), não fumar (todo mundo sabe -- e o narrador não pode esquecer -- que o cigarro acaba com a voz; ele leva à formação de pigarro, compromete o fôlego e a médio prazo deixa a voz com som de “taquara rachada”). O cigarro também traz a desvantagem e deixar a pessoa mais suscetível a pegar gripe e ter tosses que se prolongam por vários dias. Imagine o prejuízo disso tudo para um narrador de atividade intensa. Outros grandes vilões da voz são o vento frio e as bebidas geladas.

Também é preciso exercitar a voz para mantê-la saudável e retardar o envelhecimento. O sistema para produção da voz inclui diferentes estruturas em vários pontos do corpo humano. A principal delas é a laringe, que permite a passagem de ar entre a faringe e a traqueia. Composta por cartilagens, membranas, músculos e ligamentos, a laringe abriga as chamadas pregas vocais, estruturas que se abrem e fecham e vibram produzindo as ondas sonoras. O som produzido na laringe é amplificado pelos espaços existentes na faringe e nas cavidades do nariz e da boca.

Todos os músculos envolvidos nesse sistema, que inclui ainda a língua, fundamental para a correta produção dos fonemas, e o diafragma -- com sua participação no processo respiratório -- precisam estar alertas, com bom funcionamento, para se conseguir uma boa qualidade de voz. Por isso, os exercícios para a voz incluem alongamento, fortalecimento e relaxamento dos músculos envolvidos na fala, desde os faciais até os da laringe e do diafragma.

Outros cuidados também dizem respeito ao bom uso do aparelho fonador. O mau uso da voz pode levar ao aparecimento de calos nas pregas vocais ou a inflamações crônicas da laringe.

As diferentes qualidades da voz estão diretamente ligadas às características de todo esse sistema. A forma da laringe, por exemplo, varia muito de homens para mulheres, gerando vozes basicamente diferentes. O formato do rosto e das cavidades nasal e bucal influenciam no timbre da voz. A condição dos músculos – mais ou menos ativos – pode mostrar o envelhecimento da voz. Observe nesse caso que algumas pessoas mais velhas podem ter vozes relativamente preservadas, enquanto às vezes pessoas relativamente jovens já apresentam vozes comprometidas.

O envelhecimento – que traz também transformações hormonais -- atua de formas diferentes para homens e mulheres. Ele tende a deixar as vozes masculinas mais agudas e as femininas, mais graves. Assim, narrador não tem parada. Precisa exercitar os músculos da fala constantemente.

Os cuidados com a voz também incluem conhecimento e treino de respiração. O narrador precisa dominar técnicas de respiração quase como um cantor faz. Precisa saber usar o diafragma e otimizar o uso do ar durante a fala. Em alguns momentos necessita inspirar rapidamente e continuar a leitura até chegar a um ponto de parada. No caso do leitor de audiolivro o domínio da respiração tem que ser ainda maior para que cada respiração não se torne o grande evento de uma frase. O bom narrador tem respiração discreta e suave. De vez em quando escapam algumas mais barulhentas ou estranhas, mas essas podem ser eliminadas na edição de áudio.


Os exercícios para a fala são basicamente os mesmos que para o canto. Há exercícios para abrir a garganta, ajudar a eliminar pigarro, relaxar os músculos faciais, melhorar a respiração etc. Veja ao final do livro, no Anexo 1 (??), uma lista de exercícios básicos para praticar.
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