O projeto de pesquisa em história



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3.2.2. As Principais Passeatas e Atos Estudantis em Fortaleza Para Além do Fora Collor.
Anteriormente vimos às primeiras passeatas pró-impeachment em Fortaleza, essas manifestações populares foram ganhando corpo e empolgando cada vez mais a juventude local, uma série de passeatas foram realizadas tendo nossa cidade como seu palco e estudantes universitários e secundaristas como fundamentais personagens deste espetáculo político. Semelhante aos outros grandes eventos anti-Collor, das diversas capitais brasileiras, tivemos em nossa capital, manifestações com proporções gigantescas até mesmo em comparação aos dias atuais.

Ainda em Agosto, quando os atos em Fortaleza estavam num processo de gestação, as principais lideranças estudantis, sindicais e partidárias locais pretendiam construir mobilizações numa dimensão semelhantes as que estavam sendo realizadas no Brasil afora. Neste sentido é que após a primeira grande manifestação em Fortaleza, no dia 20 de Agosto, as passeatas passam a ter uma condução mais articulada entre as entidades protagonistas. A Tribuna do Ceará na edição do dia 21 de agosto trazia a seguinte notícia:


Hoje na sede da CUT, representantes de diversos partidos de oposição e de sindicatos, se reúnem para acertar os preparativos para as grandes manifestações que estão marcadas para domingo e terça-feira. Saído do Colégio Liceu às 10 horas da manhã de domingo, uma grande carreata percorrerá as principais avenidas da Cidade, culminando com um ato político na Praia do Futuro. E na terça, durante todo o dia, sindicalistas e representantes dos partidos que vêm negociando o impeachment do Presidente, acompanham no Congresso Nacional o posicionamento dos parlamentares cearenses na votação do pedido de afastamento do Presidente. (TRIBUNA DO CEARÁ, 21/08/1992, p.18C.)
A juventude ligada à Igreja Católica também se fez presente nos atos de protestos a favor do impeachment do Presidente Fernando Collor, no dia 23 de Agosto as Pastorais da Juventude e a CNBB do Ceará organizaram uma passeata dentro da Campanha da Fraternidade de 1992. A Tribuna do Ceará publicava sua capa com o seguinte título dando a impressão de que anteriormente não tinha ainda tido nenhuma mobilização estudantil em Fortaleza: “Primeira Caminhada se transforma em ato de protesto”. Mas, ao ler a matéria era possível identificar que se tratava de uma pioneira caminhada da juventude católica.
A primeira caminhada da juventude foi realizada ontem pelas Pastorais da Juventude e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB-Ceará. O evento foi uma continuação da Campanha da Fraternidade que este ano foi desenvolvida sob o lema, Juventude Caminho Aberto. Cerca de 4 mil jovens de várias cidades do Estado percorreram as principais ruas da Cidade, partindo da Praça da Bandeira, em frente a Faculdade de Direito em direção ao Colégio Cearense. A caminhada foi um ato político com os jovens usando roupas pretas e bandeiras, exigindo o fim do Governo do presidente Collor. No final da caminhada o Arcebispo Dom Aloísio abençoou os participantes. (TRIBUNA DO CEARÁ, 24/08/1992, capa.)

Neste mesmo dia, o Movimento Estudantil organizado, sindicalistas e partidos políticos realizaram uma carreata percorrendo as principais vias de Fortaleza, tornou-se de acordo com a Tribuna do Ceará: “uma das maiores concentrações realizadas na Praça do Colégio Liceu do Ceará.” Foi a primeira mobilização organizada com vários setores dos movimentos sociais cearenses.


O preto foi a cor predominante nas bandeiras, camisetas, cartazes e faixas. Com um grande buzinaço a carreata atravessou toda a Cidade, ganhando novos adeptos a cada momento. Segundo os organizadores da manifestação o objetivo destas mobilizações populares é pressionar o Congresso a votar a apuração de responsabilidades do Presidente [...] “Com a proximidade das eleições, os membros do Congresso estão preocupados com seus futuros políticos e terão de se curvar diante do desejo da Nação.” – disse o presidente do Sindicato dos Servidores Federais do Ceará111 – Roberto Luque. (TRIBUNA DO CEARÁ, 24/08/1992, p.18C.)

Se em Agosto quando tivemos o início dos protestos estudantis, esses eram ainda feitos de forma meio titubeante, em Setembro, ao contrário, já era notório que as mobilizações ganharam força. Neste momento começava o período de apogeu das passeatas pelas ruas centrais de Fortaleza. Assim se antecipava o Diário do Nordeste, no dia anterior ao ato:


Os estudantes secundaristas e universitários de Fortaleza realizam amanhã a “Passeata dos 100 Mil” em protesto contra o presidente Fernando Collor. Com o slogam “Fora Collor: impeachment já!”, as lideranças estudantis prometem lançar nas ruas do Centro, a maior manifestação do Ceará. “Até hoje, a maior passeata realizada na capital reuniu somente 10 mil pessoas, o que representa um número bem inferior em relação aos protestos promovidos em outros Estados. Queremos agora atrair uma quantidade dez vezes maior de manifestantes.” Cogita Roberto Gomes, 20 anos, membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Ceará (UFC). (DIÁRIO DO NORDESTE, 02/09/1992, p.11.)
Neste dia 3 de Setembro de 1992, mesmo sem contar com os “cem mil manifestantes” aconteceria de fato aquela que foi considerada a maior de todas as passeatas do Fora Collor em Fortaleza – excetuando-se o grande ato político realizado no dia da votação do impeachment pelo Congresso Nacional – como anunciada pelos principais periódicos fortalezenses, no O Povo, trazia em sua manchete principal, a seguinte chamada: “cerca de 50 mil estudantes percorreram ontem de manhã o centro de Fortaleza [...] a passeata foi organizada por entidades estudantis como a UNE, UMES, além dos DCE’s da UFC, UECe e UNIFOR.” (O POVO, 04/09/92, p.1A.) Este mesmo jornal publicava algumas entrevistas com alguns participantes desta grandiosa passeata:
Se houver passeata na rua, organização estudantil e sindical, o Collor cai. Mas caso contrário, se tivermos votação secreta para o impeachment e acomodação da população, o Presidente fica.” (Márcio Silva de Souza, diretor de assuntos estudantis do Grêmio Figueiredo Corrêa); “Não podemos desistir agora. A primeira batalha já vencemos com a aprovação do relatório da CPI no caso PC Farias. Para Collor sair da Presidência basta a consciência dos brasileiros.” (Luciane Furtado, Colégio Positivo, primeiro ano do segundo grau); “PC Farias representa a política de exploração de milhares de brasileiros. Aceitar a impunidade do Presidente é baixar a cabeça para mais uma novela escandalosa de Brasília.” (Maria de Fátima Silva, oitava série, Colégio João Pontes); “Estamos de luto até Collor de Mello deixar a Presidência.” (Luís Gustavo Lima, segundo ano do segundo grau, Colégio GEO). (O POVO, 04/09/92, p.10A.)
Pelo que entendemos isto só reforça o nosso pensamento de que o Movimento Cara Pintada, não era composto apenas por um bando de alunos despolitizados e alienados, que estavam ali apenas para se divertirem, faltarem aulas e namorarem. Eles poderiam até fazer isto também, mas estavam cientes de seu papel naquele momento da História política nacional.

No Diário do Nordeste na edição do dia seguinte, como é possível ver na foto acima, a passeata afirmava que as duas “manifestações reuniram ao longo do dia, segundo seus organizadores, cerca de 70 mil pessoas na Praça José de Alencar.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 04/09/1992, p.14.) Em sua manchete assim tratou o ato de protesto do dia 3 de Setembro.


Milhares de estudantes e trabalhadores realizaram ontem duas manifestações de protestos – uma pela manhã e outra à tarde –, nas ruas centrais de Fortaleza para pedir a renúncia do presidente Fernando Collor. Encapuzados e, portanto faixas e bandeiras pretas, ou vestidos de fantasmas os manifestantes diziam palavras de ordem como “Fora Collor”. O movimento que pretendia reunir 100 mil pessoas teve adesão de sindicatos de trabalhadores, partidos políticos e transeuntes. (DIÁRIO DO NORDESTE, 04/09/1992, p.1.)


No dia 23 de setembro, estava marcada mais uma atividade pelo Fora Collor, assim dizia o comunicado publicado no O Povo do mesmo dia, o percurso praticamente não era alterado, concentração na Praça Clóvis Beviláqua (mais conhecida como Praça da Bandeira) defronte a Faculdade de Direito da UFC, saindo em direção ao centro da cidade, indo pela rua General Sampaio até chegar na Praça José de Alencar, aonde palcos eram montados para a realização dos atos políticos da campanha pró-impeachment.
Logo mais às 18 horas, na Praça José de Alencar, entidades representativas da sociedade e partidos políticos progressistas vão estar unidos num só coro: ‘Impeachment Já!’ Antes, porém, haverá, a partir das 16h 30 min, na Praça Clóvis Beviláqua, uma concentração para uma passeata a ter seu final no local do protesto. (O POVO, 23/09/92; p.4A.)
Para este dia 23 de setembro, as principais entidades dos movimentos sociais em Fortaleza estavam preparando a construção de um ato que deveria ser o maior até então realizado na capital cearense. Pretendiam levar cerca de 50 mil pessoas igualando o feito da passeata do dia 3 de setembro. Esta intenção estava marcada nas páginas do O Povo, dizendo: “Protesto – Fora Collor pode reunir hoje 50 mil manifestantes.”.
O movimento pró-impeachment do Presidente Fernando Collor no Estado espera reunir hoje em Fortaleza mais de 50 mil pessoas em passeata organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – seção Ceará. A concentração será na Praça Clóvis Beviláqua, em frente à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), a partir das 16 horas. A saída da passeata está prevista para as 17 horas, em direção a Praça José de Alencar, onde está programado um ato-show às 18 horas pelo Fora Collor.

A coordenação do ato decidiu durante a reunião da ultima segunda-feira, na sede da Associação dos Docentes da UFC (ADUFC), realizar a Plenária Estudantil e Sindical, amanhã, na sede dois do Sindicato dos Bancários, além de organizar outra manifestação para o dia 28 deste mês. (O POVO, 23/09/92; p.8A.)


As entidades estudantis e as demais do conjunto da comunidade universitária da UFC, em razão da questão envolvendo a simultânea campanha contra o interventor Antônio Albuquerque, combinaram com as demais entidades dos movimentos sociais, em especial a CUT e a OAB realizaram uma passeata de repúdio ao interventor marcada para o mesmo dia 23 de setembro, só que esta específica da comunidade universitária da UFC seria antes da passeata unificada. Este intuito ficava evidente de acordo com a entrevista dada para o Jornal O Povo, pela então presidenta do Diretório Central dos Estudantes da UFC, Luizianne Lins: “Os estudantes, professores e servidores fazem hoje112 uma passeata Fora Collor e seu interventor na Universidade Federal do Ceará (UFC) [...] A concentração será na Reitoria, quando vai ser defendida a Universidade pública e gratuita, a partir das 14 horas.” (O POVO, 23/09/92, p.8A.) A passeata dos estudantes da UFC e demais membros da comunidade universitária se juntaria em seguida com os demais segmentos sociais em luta pró-impeachment em Fortaleza numa passeata em maior proporção.

Outro dado que nos chama a atenção é a disparidade entre os números apresentados pela polícia e os apresentados pela organização do ato. Vale também destacar uma tentativa de capitalizar para a CUT o evento. Teria sido por parte do jornal ou realmente o presidente da CUT tentou passar essa ideia para o jornalista? Se voltarmos para o que dizia a reportagem do jornal O Povo no dia anterior ao ato houve de fato uma segregação entre os membros organizadores do ato. De um lado a CUT e a OAB e de outro as entidades representativas da comunidade universitária da UFC.


Para Aguiar Ribeiro, a passeata pelas principais ruas do centro de Fortaleza e o ato-show na Praça José de Alencar foram um ensaio para a manifestação suprapartidária que vai acontecer no próximo dia 28. “Esse movimento que deve reunir mais de 100 mil pessoas deve acontecer na véspera da votação do impeachment do presidente Collor e como preparativo par a greve geral dos trabalhadores” – explica. (O POVO, 24/09/92; p.12A)
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