O projeto de pesquisa em história



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“Fora Collor acontece apesar das divergências” e logo a seguir num subtítulo completava a notícia afirmando que a: “Passeata foi considerada desorganizada, mas participantes voltam às ruas no dia do impeachment.” (O POVO, 24/09/92, p.12A.) Não ficaram claros de maneira bem explícita quais seriam os motivos da tal desorganização ocorrida. Esta forma de dar notícia em partes se caracteriza um jeito proposital para dar margens às suposições é típico dos periódicos, uma tentativa de criar polêmicas ou versões intencionalmente distorcidas a respeito de determinado fato. O conteúdo da matéria jornalística seguia da seguinte forma:

Divergências partidárias afetaram ontem no final da tarde mais uma manifestação “Fora Collor”, que reuniu cerca de 15 mil pessoas, segundo policiais, e 50 mil na avaliação do Presidente da Central Única dos Trabalhadores, Raimundo Aguiar Ribeiro, 36. A CUT organizou o protesto e articulou a participação dos estudantes universitários e secundaristas, partidos políticos e sociedade civil organizada. O movimento que pretendia ser suprapartidário foi desorganizado e confuso pela falta de sintonia nos discursos e palavras de ordem proclamados nos diversos carros de som presentes (O POVO, 24/09/92, p.12A.)


Segundo então, o periódico, os motivos da desorganização giravam em torno de possíveis divergências partidárias. Vale relembrar aqui, pois já mencionamos a respeito num capítulo anterior, que os principais partidos de esquerda em Fortaleza estavam divididos em face as Eleições Municipais que se realizariam em outubro deste mesmo ano dos protestos pró-impeachment, e evidente que estas aglomerações populares foram usadas pelos partidos de esquerda para divulgarem seus candidatos e suas propostas tanto de governo como ideológicas. O PT e o PC apoiavam o sindicalista Fernando Branquinho; o PDT juntamente com o PCdoB e o PSB apoiavam Lúcio Alcântara e o efêmero PFS apoiava o também sindicalista Acrísio Sena107. Portanto, é perfeitamente possível que tenha acontecido de fato uma disputada, como dizemos no jargão político “por palanque” ou “pelo microfone” durante a passeata.

Outros prováveis motivos da desorganização decorrente das divergências políticas e/ou até ideológicas dos heterogêneos personagens políticos atuantes nesses protestos poderiam ter sido, a proposta da “democracia direta já!”, defendida por um setor dos manifestantes e o interesse de ampliar a participação e a organização dos atos para partidos não de esquerda, mas favoráveis ao afastamento de Collor. Nestes sentidos, primeiramente avaliaremos o que O Povo chamou de “primavera da democracia” ao registrar uma entrevista com a estudante universitária, Rosângela Pimenta, 20, que segundo afirmava o jornal ela dizia que acreditava que a população brasileira, especialmente a juventude, vivenciava um momento importante na vida do País. (O POVO, 24/09/1992, p.12A.) E continuava dizendo que:


“Precisamos varrer do Brasil a miséria e a injustiça” ressalta. Fantasiada de bruxa, ela diz que participa do movimento em favor do impeachment do Collor, na esperança de em breve mexer o caldeirão da democracia para transformar este País, construindo algo novo. “É nesse sentido que no próximo dia 29, mulheres e crianças participarão da Primavera da Democracia Direta”. (O POVO, 24/09/1992, p.12A.)
Esta mesma divergência apareceria novamente no dia do ato a ser realizado na data da aprovação do impeachment de Collor, quando segundo registrava o Jornal O Povo: “Duas manifestações movimentam a cidade”.
Duas manifestações favoráveis ao impeachment do presidente Fernando Collor estão marcadas para hoje em Fortaleza. A partir das 10 horas, na Praça do Ferreira, a CUT promove uma programação que constará de atividades culturais, políticas e artísticas. [...] Na Praça José de Alencar, a partir das 14 horas, a União das Mulheres Cearenses, Sindicato Unificado dos Trabalhadores em Educação, União das Comunidades da Grande Fortaleza, Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos e Grêmio Livre da Escola Técnica Federal do Ceará promovem a “Primavera da Democracia Direta”. (O POVO, 29/09/1992, p.1D.)
Esta ultima manifestação era organizada por um grupo político ligado à Deputada Federal Maria Luiza Fontenele e a professora Rosa da Fonseca, candidata a vereadora nas eleições que se aproximavam. Este agrupamento político defendia que ao ser afastado do cargo, o vice-presidente, Itamar Franco, não assumisse a presidência em substituição a Fernando Collor, exigiam que houvesse em lugar da posse do vice uma “democracia direta”. Como podemos aferir a partir do adesivo distribuído aos participantes, pretendiam realizar o “Fora Collor”, com ou sem o impeachment.

A UMES e consequentemente a entidade nacional da qual está agregada, a UBES, vinham de uma longa e dura campanha durante os anos 80, pela legalização dos Grêmios Livres108, extintos desde os tempos da Ditadura Civil Militar em nosso país. Estavam, portanto, de certa forma acostumada a irem às ruas naqueles idos. Daí quem sabe ser uma explicação para a maior participação de adolescentes nos atos do Fora Collor.

Outro exemplo desta amplitude existente nos atos e protesto em Fortaleza é visto ao analisarmos a matéria do O Povo, intitulada: “Fora Collor movimenta Antônio Bezerra109, quando o Movimento Estudantil se une com demais movimentos populares para reivindicarem muito além do simples afastamento do presidente Collor, quando exigiram providências a respeito da falta de professores numa escola pública estadual e também faziam críticas a uma medida do então Governo Municipal de Fortaleza que almejava limitar a meia passagem estudantil.


Com o dístico “Ordem e Progresso” inscrito na faixa branca da Bandeira brasileira, substituído novamente pelo “Fora Collor”, uma manifestação movimentada pela comunidade do distrito de Antônio Bezerra, na manhã de ontem. Com palavras de protesto contra as atitudes do presidente Fernando Collor, os manifestantes começaram a se concentrar a partir das 9 horas na praça matriz, de onde partiram às 10 horas.

[...]


Além do “Fora Collor”, a manifestação organizada pela União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (UMES), Grêmio Estudantil Araguaia, da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus José Bezerra de Menezes (Polivalente) e Juventude Católica Operária, foi um movimento de protesto contra a falta de professores em disciplinas essenciais no Colégio Polivalente e um alerta para a manutenção da meia passagem, com a ampliação do benefício para os estudantes das áreas metropolitanas de Fortaleza. Líderes da UMES denunciaram, na oportunidade, a intenção do Poder Municipal de criar o passe estudantil, medida que segundo eles prejudicaria os estudantes por limitar o número de viagens nos coletivos.

A presidenta do Grêmio Estudantil Araguaia, Francisca Lúcia Rodrigues Moreira, disse que a falta de professores no Polivalente atinge as áreas de Português, Física e Matemática, deixando uma carência em torno de 500 horas/aulas. (O POVO, 20/09/92, p.19A.)


Ou seja, é verificado num só ato de protesto organizado pelo Movimento Estudantil, no caso, a UMES e o Grêmio Estudantil de uma Escola Pública, uma série de reivindicações que vão do âmbito municipal (questão dos passes em ônibus para estudantes) até âmbito nacional (o impeachment do presidente), passando pela questão referente ao Governo Estadual (a carência de professores numa Escola Pública Estadual). E o jornalista que escreveu a matéria ainda destaca em seguida na mesma matéria: “Apesar da passeata ter outros objetivos além do ‘Fora Collor’, durante o trajeto os refrões entoados se referiam sempre a crise nacional.”. (O POVO, 20/09/92, p.19A.). O “apesar” citado pelo repórter e publicado no periódico remota a tentativa de tentar desassociar a luta com exclusividade de afastamento do Presidente Collor, das demais lutas embutidas no contexto das demandas e críticas da sociedade, que como é pautado neste trabalho tem relações intrínsecas entre si.

No dia da votação do impeachment, o Jornal Diário do Nordeste trazia como destaque a afirmação de que os: “secundaristas tomam conta do movimento”. Mesmo o ato como veremos ter sido organizado por outros setores da sociedade civil, basicamente a CUT.


Os secundaristas dominaram a passeata pelas ruas do Centro. Embora as manifestações sejam organizadas por centrais sindicais, partidos políticos e outras entidades, a maioria dos participantes são adolescentes. Confiantes, alegres e criativos, eles dão às manifestações dois fatores fundamentais: a quantidade e a vibração. (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.18.)
Teria a UMES em Fortaleza, pegado carona na organização da CUT? Ou teria a CUT sem força para aglutinar um contingente satisfatório de sindicalistas protestantes recorreu aos estudantes secundaristas para darem a manifestação o caráter de maciça participação da população? São dúvidas que neste trabalho monográfico ficaremos a dever. Mas que as divergências políticas e de encaminhamentos práticos entre os órgãos promovedores podem explicar. Numa matéria do Diário do Nordeste em 30 de Setembro, o diretor do Sindipetro-Ceará110, Carlos Henrique Ferreira Rabelo tentava explicar a hegemonia adolescente e secundarista nas manifestações pelo Fora Collor: “os estudantes secundaristas sempre foram a vanguarda desses movimentos porque eles vão sofrer o amanhã dessa política nefasta.” Logo em seguida, nesta mesma edição do jornal, o secundarista Francisco José de Oliveira afirmava: “A nossa geração não é mais a da Coca-Cola e sim, a do Fora Collor.” Numa certa contradição ao que dissera o líder sindical, pois, segundo o secundarista anteriormente a juventude estava um tanto quanto alienada e que agora teria se conscientizado da sua importante função social no combate a corrupção do Governo Collor. Porém, não fica claro em sua fala se essa geração pretendia apenas a deposição do presidente, ou se continuaria avançando na luta politica. Num sentido contrário ao do estudante, o presidente da UMES, Williame Coelho, ao tentar explicar a grandiosa participação dos secundaristas no ato proferia que: “os estudantes são a chama que ascende o combustível da sociedade. Talvez, nós tenhamos uma maior necessidade de muda-lo porque o nosso maior comprometimento é com o futuro. E o futuro aos estudantes pertence.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.18.) Assim como o líder sindical o líder estudantil compreendia a importância da continuidade da luta, tinha portanto clareza que para mudar a situação brasileira o movimento não poderia findar naquele momento de aparente vitória com a aprovação do impeachment.

Nesta mesma data histórica, o Diário do Nordeste relatou algumas declarações de lideranças do movimento “Fora Collor” e testemunhas oculares daquele momento histórico:


Copa do Mundo não está ligada diretamente à vida das pessoas e as Diretas Já não mobilizaram como esse movimento” (Williame Coelho, presidente da UMES); “O impeachment vai colocar para fora toda a alegria em saber que o povo teve a capacidade de determinar os destinos da nação” (Luizianne Lins, presidenta do DCE-UFC); “Para nós que somos a ressaca da ditadura de 64, foi muito importante vir às ruas novamente” (Carlos Henrique Rabelo, diretor do Sindicato dos Petroleiros no Ceará); “O brasileiro começa a entender o quanto é importante participar da vida política da sociedade” (Mário Mamede, deputado estadual pelo PT); “Hoje foi uma grande vitória e nos sentimos agora com uma imensa responsabilidade” (Adelaide Gonçalves, presidenta da ADUFC). (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.18.)
Entendemos que essas lideranças ao falarem sobre a aprovação do afastamento Presidente Collor com outras manifestações, evitaram cair na jogada da mídia de associar o Fora Collor coma Copa do Mundo ou com manifestações recentes como as Diretas Já! Ao mesmo tempo em que numa das falas é possível ver certo saudosismo com a juventude anos 60 que agora “adulta” voltava às ruas.

É evidente que para uma enorme parcela das pessoas que foram à Praça do Ferreira ou acompanharam a votação em outros lugares, o momento se assemelhava a final de Copa, porém, é equivocado generalizarmos, pois uma parcela mesmo que menor sabia que a situação política, econômica e social do Brasil não se transformaria simplesmente pela aprovação do afastamento do presidente. Mas, as falas destes personagens destaca a importante participação popular, o interesse que foi despertado em procurar se informar e protestar a respeito dos rumos políticos do País. Estes participantes, individuais ou em suas organizações e entidades, que viam além do visível, que enxergavam que a política econômica não seria alterada em sua essência, estavam certos de que a luta deveria continuar e isto é identificado no que mencionava, também nesta mesma matéria do Jornal Diário do Nordeste: “Cientes disso, as entidades que compõem o Fórum pela Ética na Política, em nível regional, pretendem se reunir na próxima semana para debater as estratégias de mobilização para a próxima fase.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.18.)

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