O projeto de pesquisa em história



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Chuva de “dólares” pede o impeachment de Collor.
Cinco milhões de cédulas imitando dólares e panfletos pedindo o impeachment do presidente Collor foram jogados do alto de um edifício na praça do Ferreira. O ato marcou a programação iniciada as 9 horas, pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e sindicatos filiados contra o atual Governo federal. (O POVO, 12/08/1992, p.9A.)
Mas, mesmo com a importância desempenhada por estas manifestações, digamos que, “simbolicamente”, tudo teria começado num domingo, 16 de agosto, quando uma parcela da população brasileira simultaneamente em várias cidades pelo país afora, usaram o preto como símbolo de protesto a um discurso de improviso proferido pelo Presidente Fernando Collor, em que ele pedia o apoio das massas populares em sua defesa, apelava para os fiéis “os descamisados”. Ele resolveu fazer esse discurso para atacar o evento da CUT.
O presidente Fernando Collor convocou ontem todas as pessoas que apoiam o Governo a saírem às ruas ou exibirem nas janelas, no próximo domingo, bandeiras e roupas com as cores verde e amarelo. O objetivo deste teste de força com a informal com a Oposição, que começou a fazer manifestações populares a favor do “impeachment”, é, segundo Collor, “dar um basta a tudo isto” e mostrar aos adversários que “custe o que custar, doa a quem doer, eu serei o primeiro a estar na defesa e no embate da nossa Constituição e da nossa democracia”. Em solenidade realizada ontem a tarde no Salão Oeste do Palácio do Planalto, transformada num autêntico comício, Collor aproveitou a presença de cerca de dois mil motoristas de táxis de todo o País – levados à Brasília em ônibus fretados pela Caixa Econômica Federal – para dizer que não se intimida com as denúncias de corrupção contra seu Governo. Ele afirmou que está pronto “para realizar e ganha o terceiro turno das eleições” e, num trocadilho com a CUT, chamou os seus adversários de “Central Única dos Conspiradores”.

- Quero pedir a todos vocês que, voltando a seus Estados, às suas comunidades, nos seus carros, nos seus táxis, afixem nas suas antenas ou em qualquer outro lugar a fita verde e amarela. Peçam às suas famílias para que no próximo domingo – e esta é uma mensagem que dirijo agora a todo o Brasil, a todos aqueles que têm essa mesma profissão de fé – que saiam no próximo domingo de casa, com alguma peça de roupa numa das cores da nossa bandeira, exponham nas suas janelas toalhas, panos, o que tiver nas cores da bandeira – convocou o presidente Fernando Collor, três dias após a realização de uma passeata em que 10 mil estudantes paulistas pregaram a sua renúncia.

- Quero pedir isso a vocês e irei cobrar de vocês este pedido que lhes faço, por que assim, no próximo domingo, nós estaremos mostrando aonde está a verdadeira maioria, na minha gente, no meu povo, nos pés descalços, nos descamisados, naqueles por quem fui eleito e para quem estarei governando até o último dia do meu mandato – afirmou, no tom e no estilo que usava na campanha eleitoral, dando murros no púlpito e sendo aclamado pelos motoristas, que gritavam “dá-lhe Collor e fora Lula”.

[...]


A solenidade foi organizada para ser uma manifestação de apoio ao presidente, mas não estava previsto o discurso de Collor, que resolveu falar depois da euforia instalada no Salão Leste do Palácio. (DIÁRIO DO NORDESTE, 14/08/1992, p.8)
A reação popular foi imediata, ou de forma espontânea, ou de forma organizada, o fato é que neste domingo que deveria ser pintado nas cores da Bandeira Nacional segundo o pedido do Presidente Collor, tornou-se num “domingo negro”, a manifestação foi ao contrário do que pretendia Fernando Collor, com a cor preta em destaque. Numa outra versão dos fatos, o Presidente quis se aproveitar de mais uma das, ainda incipientes manifestações, que já estavam programadas por alguns setores da sociedade civil organizada. E ele acabou motivando os descontentes acomodados a protestarem contra o seu Governo.
Para do dia 16 de agosto, domingo, algumas passeatas e atos tinham sido marcados. Provavelmente teriam o mesmo público modesto Mas, o presidente quis conclamar a manifestação popular para si: “O presidente terminou (o seu discurso na TV) pedindo que no domingo, dia 16, panos e toalhas nas cores da bandeira brasileira sejam expostas nas janelas e fitas verde-amarelas enfeitem as antenas de automóveis. (VEJA, 19/08/92, p.22. Apud GROPPO, 2008, p.40. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO).
Pelo que se consta na bibliografia pesquisada, a pioneira atividade pró-impeachment realizada pelo Movimento Estudantil teria acontecido “em 7 de agosto,[quando] Curitiba saiu à frente, com a primeira manifestação de peso pelo afastamento do presidente” (CARMO, 2003. p.164.). Por esta razão falamos anteriormente, que “simbolicamente” as manifestações começaram no chamado “domingo negro”, pois, na verdade não foi neste dia o início dos atos de protestos, mas ficou como uma data marcante para o sucesso desta campanha pró-afastamento de Fernando Collor da presidência. A juventude decidiu ir às ruas demonstrar sua desaprovação aos desmandos do Governo Collor antes dos demais movimentos da sociedade organizada e os estudantes secundaristas organizados por sua entidade nacional, a UBES87, foram quem de fato iniciaram os manifestos do Fora Collor. Como podemos aferir a seguir.
Nos meses de agosto e setembro de 1992 os estudantes secundaristas deram saída na mobilização popular em favor do impeachment do então presidente Collor de Mello, através de passeatas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

[...]


Dia 11 de agosto de 1992. Manhã de terça-feira. Cidade de São Paulo. Uma passeata de estudantes sai do Museu de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, e segue pela Avenida Brigadeiro Luis Antônio até o Largo São Francisco. São cerca de 10 mil jovens, cantando Geraldo Vandré (“Prá dizer que não falei das flores”) e Caetano Veloso (“Alegria, Alegria”); também começam a criar musiquinhas contra o presidente Collor e sua corte: “Se ballançar, ele cai”; “Rosane, que coisa feia, vai com Collor pra cadeia”. (Jornal do Campus, USP, São Paulo, 19/08/1992. Apud GROPPO, 2008, p.39. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
Os adolescentes secundaristas, “trazem faixas e bandeiras. A promoção da passeata foi da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) - a UNE (União Nacional dos Estudantes) só marcará presença nas próximas passeatas.” (GROPPO, 2008, p.39. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO). Este impulso reivindicatório surgiu paralelamente em outras cidades:
No mesmo dia, na cidade do Rio de Janeiro, os estudantes fizeram também uma passeata, enquanto cantavam: “Ai ai ai, empurra que ele cai”. Traziam também enormes cheques que Paulo César Farias teria assinado para ao presidente Collor, do Banco Rural. Um grupo de 20 pessoas se fantasiaram de “Ratazanas do Planalto”. Outros, de fantamas.

Tratavam-se das primeiras manifestações populares que conseguiram atrair um público relativamente grande, por ocasião do inquérito contra os crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente Fernando Collor de Melo. Este inquérito resultará no processo de impeachment de Collor e culminará na sua renúncia. (GROPPO, 2008, p.39. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO).


O país parou, mas não no sentido de imobilidade, ao contrário, o Brasil ou uma parte considerável dele, se mobilizou de várias maneiras e ao mesmo tempo foram testemunhas do que para alguns seria o ressurgimento do Movimento Estudantil, como trazia em sua Capa o Jornal O Povo: “Jovens saem às ruas para pedir o impeachment.”, se referindo a uma das primeiras manifestações no Rio de Janeiro, “com milhares de pessoas” dizendo que os “jovens de 14 a 17 anos eram a maioria na manifestação, que, segundo políticos e líderes sindicais, pode representar o renascimento do movimento estudantil no País”. (O POVO, 15/08/1992, Capa.)

Este mesmo jornal observava, porém, que este evento contestatório teria sido “bastante influenciado pela minissérie Anos Rebeldes” e logo em seguida constatava que: “os pedidos feitos pelo presidente Collor para que a população vista amanhã roupas nas cores verde e amarelo provocaram uma reação contrária: a maioria saiu ontem de roupa preta e combinava colocar, amanhã faixas pretas nas fachadas de suas casas” (O POVO, 15/08/92; p.8A.) A respeito deste aspecto bastante divulgado ligando as motivações das passeatas juvenis de 1992 à exibição de uma minissérie global, a abordaremos de forma mais destacada na sequência deste trabalho.

Como já mencionado anteriormente o pedido presidencial teve um efeito contrário a sua real intenção, e aquela aparentemente inofensiva manifestação de desobediência, gerou uma sequência de atos e protestos que de forma crescente e empolgante foram ganhando corpo e tomaram as ruas de praticamente todas as principais cidades brasileiras.
Esta grande manifestação popular veio, mas não ao seu favor. A cor escolhida pelos manifestantes – a maioria jovens estudantes – não foi o verde ou o amarelo. O dia 16 de agosto foi chamado de o “domingo negro”. Na interpretação da Revista Veja a idéia de “sair de preto” brotou instintivamente e disseminou rapidamente entre a população. Os partidos e grupos que organizavam as manifestações só assumiram depois a brilhante idéia. O que realmente pode ser destacado das primeiras manifestações é o seu caráter quase espontâneo. [...] Os protestos de 1992 chegaram às ruas sem o apelo de um único governador, sem a liderança de nenhum partido político, nem de oposição. Segundo a própria revista, isto parecia inédito. (VEJA, 19/08/92; p.22. Apud GROPPO, 2008; p.40. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
3.1.2. O Início das Manifestações em Fortaleza.
Em Fortaleza, os primeiros protestos estudantis de caráter anti-Collor começaram da mesma maneira que em outras capitais nacionais, ainda de maneira não muito contagiante e com pouco contingente de protestantes. O primeiro evento ocorreu no dia 11 de agosto, um feriado, em que coincidentemente ou não se comemora no Brasil o dia do estudante, este ato foi organizado pelo DCE-UFC88, mas contou com a participação e de outras entidades estudantis e sindicais de Fortaleza.
[...] Na Universidade Federal do Ceará (UFC), que ainda está ministrando aulas do primeiro semestre letivo deste ano, o feriado será amanhã. O Diretório Central dos Estudantes da UFC realizará, nesse dia, um ato de protesto contra o governo, contando com a participação de entidades sindicais e estudantis. (DIÁRIO DO NORDESTE, 10/08/1992, Capa.)
No dia 16 de Agosto, o chamado “domingo negro” contra o Presidente Collor, Fortaleza também se fez presente, o Diário do Nordeste publicou que, “houve uma carreata organizada pela CUT89 com concentração na Praça do Colégio Liceu do Ceará”. Mas, a reação contrária ao pedido presidencial teria se realizado de maneira espontânea e não atrelada necessariamente ao ato oficial programado pela CUT e as entidades do Movimento Estudantil.

É possível termos essa compreensão ao destacarmos o que informou o Diário do Nordeste a respeito da atitude do fortalezense naquele dia:


[...] Independente do ato organizado, mas também em clima de protesto grande parte da população saiu às ruas vestida de negro. Vários carros desfilaram pelas avenidas enfeitadas com faixas ou bandeiras pretas em contraposição ao pedido do presidente para que os brasileiros se vestissem de verde-amarelo em sinal de apoio ao seu governo. (DIÁRIO DO NORDESTE, 17/08/1992, p.11.)
A primeira atividade estudantil com boa visibilidade e conseguindo chamar a atenção da sociedade fortalezense aos protestos reivindicando o impeachment do Presidente Collor, foi realizada no dia 20 de agosto. Ela teria sido organizada, segundo o relato do O Povo, pelas principais entidades estudantis da cidade: o DCE da UFC e o DCE da UNIFOR90, a UNE e a UMES91. O citado jornal assim divulgou o ato, tendo o seguinte título: Estudantes saem em passeata repudiando o governo Collor.”.
Estudantes universitários e secundaristas de Fortaleza saíram às ruas, ontem a tarde, em repúdio ao governo do presidente Fernando Collor. Durante a concentração na Praça Clóvis Beviláqua, os representantes dos diretórios centrais da Unifor, UFC, UNE e UMES lembraram que enquanto as verbas para educação são desviadas para campanhas eleitorais, as instituições de ensino entram em decadência. (O POVO, 21/08/1992, p. 8A.)
Vale destacar, de acordo com as informações contidas no O Povo, a ausência do DCE da UECE92 (que era atuante na época) e da UBES. Mas, ao pesquisarmos este mesmo ato em outros jornais, estas entidades são citadas. Assim tratava o periódico Tribuna do Ceará, com o título da matéria dizendo: “Estudantes em passeata pedem o impeachment” e continuava comentando a respeito:
Cerca de 2.500 estudantes participaram de ontem de uma grande passeata que percorreu as principais ruas do Centro da Cidade. Essa foi a primeira grande manifestação de rua de estudantes secundaristas e universitários em favor do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. O movimento contou com o apoio dos Diretórios Centrais de Estudantes das três universidades, da UNE, Escola Técnica Federal, UMES, UBES e de todos os partidos que vêm apoiando nacionalmente a saída do presidente. (TRIBUNA DO CEARÁ, 21/08/1992, p.18C.)
Enfim, a partir de agosto de 1992, jovens de várias idades e cidades, de diferentes matizes políticas, partidárias e ideológicas saíram às ruas para protestar contra a corrupção do Governo Collor. O que veremos a seguir é que a maior parte dessa massa se conteve com a palavra de ordem destes atos políticos, que era o Fora Collor; outras como será visto mais adiante neste trabalho, foram além dos limites do impeachment do Presidente, introduziram uma série de questões políticas e econômicas ao movimento, trouxeram esta indignação para o âmbito local, tentando estabelecer um “fio condutor” que ligaria os acontecimentos nacionais aos regionais, e porque não também, a conjuntura internacional.
3.2. As Disputas de Interesses e os Significados do Movimento “Cara Pintada”.
Evidentemente, não podemos deixar ocultos os motivos da adesão ao movimento Fora Collor daqueles setores não tão populares, por exemplo: os parlamentares preocupados com as eleições municipais de outubro deste mesmo ano; os empresários e outros membros das elites econômicas; a mídia, representante dos interesses desta elite e obviamente formada por alguns de seus membros. Estes setores estavam mais preocupados em evitar que as denúncias contra o Presidente Collor atingissem as mudanças na estrutura econômica iniciadas por ele em seu curto governo, como podemos identificar recorrendo outra vez ao artigo de Oswaldo Barroso publicado no Jornal O Povo.
Agora, seus antigos patrocinadores aderem ao “Fora Collor”, em nome da continuidade da política por ele iniciada. O Presidente, além de ter misturado projetos de enriquecimento pessoal com as reformas pretendidas (há fortes indícios de que o esquema PC-Collor ter se beneficiado nas negociações de venda das estatais), tornou-se nome que compromete a imagem de qualquer política á qual se ligue. Então, sacrifique-se o desastrado para a manutenção do objeto. (O POVO, 17/09/1992, p.8B.)
Neste amplo e complexo emaranhado de interesses, aparece a juventude e o Movimento Estudantil com suas principais entidades e lideranças, também influenciados pelo contexto histórico e óbvio, portadora também de intenções políticas. O artigo mencionado vai mais longe, ele questionava o papel exercido pelo movimento pró-impeachment de acordo com aquilo que ele observava sobre os acontecimentos. Assim Oswaldo Barroso dizia que:
No caso Collor, não é só o caráter do Presidente que está na mesa. Também sua política. É importante que no interior do movimento “Fora Collor”, ao lado do resgate da ética política, comece a se discutir tais questões. Afinal, muitos dos empresários, que tiveram suas contas alimentadas por PC Farias fazem parte da “modernidade” brasileira. (O POVO, 17/09/1992, p.8B.)
Havia também, interesses daqueles que foram derrotados nas eleições presidenciais de 1989, e que faziam oposição ao Governo Collor, e que estavam meio sem rumo diante das profundas e rápidas transformações na geopolítica mundial com reflexos no Brasil.

O então Professor Universitário da UnB93, Cristovam Buarque94, num artigo publicado pelo Jornal O Povo, em seu Caderno Opinião, denominado: “O risco das ilusões”, conseguiu dar uma versão bem esclarecida dos bastidores do movimento pelo impeachment de Collor, dando ênfase ao medo da direita em perder o controle deste movimento, numa análise que tem certo grau de sintonia com a avaliação do jornalista Oswaldo Barroso.


As lideranças políticas brasileiras parecem todas assombradas, uma parte aterrorizada, outra deslumbrada com a súbita mobilização da população. A direita fica apavorada com o risco de perder o controle de uma população passiva pelo desencanto. A esquerda imagina que as manifestações significam um apoio as suas teses.

Ao ver apenas classe média e rica na rua, o governo comete um grande erro se achar que a maioria de excluídos aprova o banditismo oficial. Ao deslumbrar-se com manifestações de ricos e da classe média, as oposições cometem um erro ainda mais grave, ao achar que ali estão, automaticamente, as bases políticas para um Brasil democrático, sem apartação social, eficiente. [...]

Os jovens estudantes que, felizmente, voltaram às ruas, não estão dando um recado apenas ao ainda-presidente Collor e aqueles que o apóiam apesar de tudo. Estão manifestando um desejo de moralidade, mas, sobretudo, dando um recado contra as manipulações, contra o conservadorismo das propostas de todos os partidos, e mostrando a ânsia por uma mensagem nova que seja capaz de fazer um Brasil diferente: democrático, soberano, sem corrupção, sem apartação social, com eficiência no uso de seus recursos. (O POVO, 03/09/1992, p.7A.)
Para Cristovam Buarque, portanto, a juventude não se deixou levar pela empolgação da mística que muitos criaram em torno daquelas manifestações estudantis. Para ele, o movimento tinha um tom político consciente, mas não partidário como outros imaginavam. Claro, ao verificarmos bem nossas fontes, é possível constatarmos interesses partidários e eleitorais, mas de fato não podemos afirmar que a juventude que foi às ruas em 1992, foi somente a mando de partido tal e com estes intuitos eleitorais.

As principais lideranças estudantis passaram a serem vistas como uma espécie de mitos que relembravam a época das lutas contra a Ditadura Civil Militar nos anos 60 e 70, viu nesse novo contexto a possibilidade de reavivar o movimento, que durante toda década de 80 teve dificuldade em mobilizar os estudantes para grandes lutas. Numa entrevista concedida ao Jornal Folha de São Paulo, o então Presidente da UNE em 1992, Lindbergh Farias95 dizia que:


Foi precipitado dizer que o movimento estudantil estava morto. Ele continuava vivo, só que ligado a problemas específicos. Agora apareceu a bandeira que unifica todo o nosso sentimento de revolta. É a indignação com esse Brasil de corrupção, miséria e desemprego; o inconformismo diante do sucateamento de nossas universidades públicas, da prostituição e do extermínio de meninas e meninos de rua. É a luta contra os escândalos e os desmandos neoliberais do governo Collor (FOLHA DE SÃO PAULO, 15/08/1992)96
É possível identificarmos posicionamentos que unem tanto o que afirmou o ex-presidente da UNE, como os relatos de Cristovam Buarque e Oswaldo Barroso, em todos podemos perceber um sentimento para além do impeachment do Presidente. Se não vejamos: é possível identificarmos um antagonismo de interesses dentro do seio do movimento Fora Collor. Um determinado setor pretendia que todo este processo deveria ser realizado com uma postura de manutenção da proposta de modernidade, entenda-se projeto neoliberal e seguindo esse intuito este mesmo setor desejava manter a revolta popular sob controle. Numa posição contrária encontrávamos o anseio de uma parcela dos manifestantes em dar o impeachment também aos motivos que provocam o sucateamento de serviços essenciais à população, como no caso citado às Universidades Públicas em processo de privatização seguindo o ideal neoliberal governamental. Ou seja, fica óbvio percebermos de que o movimento não era tão homogêneo em torno de um só objetivo, nele haveria outros interesses entre os diversos e divergentes personagens deste importante e recente acontecimento histórico.

Mas nem todas as avaliações coadunavam com a do ex-Presidente da UNE, muitos intelectuais e para a maioria da opinião pública o que ficou de concreto nos atos pró-impeachment promovidos pelo Movimento Estudantil, era a versão oficial da mídia e dos setores dominantes que não pretendiam perder o controle do movimento. A literatura existente consegue constatar que a indignação popular não teve a continuidade devida, consegue compreender que a mídia não divulgou estes “perigosos” outros interesses para além do ponto crucial que era o afastamento de Fernando Collor, ao contrário, a literatura oficial tratou e ainda trata o movimento com uma grande festa para jovens e adolescentes. O que percebemos é que houve manipulações das ações e acabaram por produzir intencionalmente estes limites para o Fora Collor. Criou-se uma espécie de “sentimento oficial” deixando para a opinião pública o pensamento que se bastava apenas retirar o corrupto presidente do cargo, nada mais do que isto e que aqueles rapazes e moças que foram às ruas, assim fizeram sem terem muita noção do que estavam protagonizando.



A nossa historiografia detecta este tal “sentimento oficial” das manifestações pelo Impeachment do Presidente Collor, realizadas em 1992, ao afirmarem que as mesmas foram inesperadas, intensas e efêmeras e que não brotaram nenhum tipo de significado político para as lutas posteriores.
Tudo isso remetia a pensar que o Brasil contava com o renascimento político do movimento estudantil, mas isso não aconteceu de fato, visto que essas manifestações foram episódicas, caracterizando alguns momentos de euforia coletiva sem muita articulação sólida de sustentação, ou ainda, sem perspectiva de se manter como forma organizativa mais permanente ou como eventual possibilidade de interferência histórica nos processos que se seguiriam. (BARBOSA, 2008; p. 55. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
Uma das táticas usadas para se criar este “sentimento oficial”, produzindo e reproduzindo um pensamento de limites às manifestações estudantis de 1992, foi compará-las com as manifestações estudantis da década de 60. Procurando desqualificar a geração 90 e supervalorizar a de 60. Como podemos ver a seguir, quando:
O jornalista Marcelo Rubens Paiva alerta sobre uma diferença que seria crucial entre as passeatas dos anos 1960 e as de 1992. Nos anos 1960 a repressão policial e militar saía contra os jovens. Agora, a polícia protege os manifestantes, as autoridades auxiliam na organização dos comícios e até discursaram, a imprensa escrita divulga o roteiro das passeatas e até a Rede Globo parece apoiá-los. (GROPPO, 2008, p.48. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
Foi formado um raciocínio concreto de afirmação de que a “geração 90” era totalmente alheia aos acontecimentos políticos, diferentemente daquela “geração 60” que se doou na luta pelo retorno ao regime democrático. Este antagonismo de interesses das gerações está bastante presente e é muito ressaltado na historiografia existente e nas pesquisas científicas e acadêmicas sobre a temática da juventude. Podemos mais uma vez perceber este reducionismo e esta generalização sobre o movimento “Cara Pintada”, ao verificarmos a citação a seguir extraída de uma matéria que foi publicado na edição comemorativa de 25 anos da Revista Veja, na seção Sucessão e mencionado por Paulo Sérgio Carmo.
Nas pesquisas realizadas, detectou-se que ao contrário da geração dos anos 60, cheia de certezas, atrevida, revolucionária, a dos anos 90 apresenta muitas dúvidas. “Quer mudanças, mas não é revolucionária”. A idéia de novos valores, uma utopia que iria salvar a humanidade, os jovens dos anos 90 preferem usufruir o aqui e agora, o “carpem diem” (aproveitem o dia presente). São conservadores, mas não são reacionários. Diversos e contraditórios, “podem ser narcisistas, mas estão longe do egoísmo”, avalia Zuenir Ventura. (VEJA, abril 1993, Apud CARMO, 2003, p.167.)
Mas o que pensavam os jovens e adolescentes que estavam nas ruas sobre essa comparação com aqueles dos anos 60 que eram retratados na TV Globo? A seguir o depoimento de uma estudante secundarista em Fortaleza, ao ser entrevistada pelo Jornal O Povo, em uma das primeiras manifestações pró-impeachment, em solo fortalezense: “Estamos vivendo os anos 60 em menor proporção, mas se queremos um país digno e sem corrupção, temos que lutar” – observa Juliana Gadelha, 14, estudante do Colégio Cearense. (O POVO, 21/08/1992, 8A.) Ou seja, o sentimento político da juventude dos anos 60 não era algo totalmente repudiado pelos novos agentes históricos, ao contrário, era para ser usado como referencial, guardado as devidas proporções como disse a estudante citada. Podemos verificar de fato que a luta dos anos 90 tinha outra conjuntura, mas isso não a faz melhor ou pior do que a luta de outra geração, cada qual te o seu tempo e suas angústias. E a opinião de uma estudante cearense não deveria ser tão dispare em relação à dos estudantes no restante do Brasil, não podemos generalizar, mas também não podemos apartar os pensares.

A imprensa [...], reescreve os discursos enunciados e emite o seu próprio discurso, através de editoriais, artigos e entrevistas. A imprensa se apresenta como apartidária e isenta, colocando-se como representante da sociedade.” (SCHMIDT, 2001, p.160.) A mídia contribuiu e muito para que o movimento “Cara Pintada” fosse retratado para a opinião pública como algo festivo de uma juventude que estava indignada com os crimes praticados pelo presidente e seus assessores, mas que não estava tão consciente dos interesses por trás do simples objetivo de tirar o Collor da presidência. Vale lembrar que foi esta mesma mídia, vide principalmente a Rede Globo de Televisão que fez esta mesma opinião pública achar Fernando Collor de Mello em 1989, a melhor opção para a presidência, como confessou anos depois o próprio presidente das Organizações Globo, o senhor Roberto Marinho, na reportagem a seguir retirada do O Povo, com o título: Globo ajudou Collor a se eleger, admite Marinho”.


Ele lembrou ter colocado a TV Globo na campanha e contribuído para a vitória de Collor nas eleições de 89. [...] O jornalista garante que não se arrepende de ter apoiado Collor em 89, porque ele era a “melhor opção” entre Lula e Brizola. “Acho que dei a Rede Globo para ele (Collor) e devo ter contribuído para sua vitória.” (O POVO, 12/09/1992, p. 8A.)
De uma maneira semelhante à mesma Rede Globo e outros importantes veículos de comunicação deram o tom anti-Collor para a opinião pública, cuidando apenas para que este movimento fosse realizado de forma segura para os interesses que ela defendia e um deles era dar apenas um tom festivo as passeatas da garotada na campanha pró-impeachment, ou destacar somente essa simbologia entre os jovens manifestantes. Em julho de 1992, a TV Globo iniciou a apresentação da minissérie, Anos Rebeldes, que tratava justamente da luta dos jovens dos anos 60 contra a Ditadura Militar e isto contribuiu para criar um pensamento sobre o movimento tanto para quem visse as manifestações juvenis de fora, como para os jovens que decidiram atrelarem-se as passeatas. Essa descrição da luta juvenil criada pela Globo, infiltrou no imaginário de muitos daqueles jovens que eles eram os próprios personagens da minissérie e para a opinião pública, aquilo que se passava diante de seus olhos em carne e osso, era uma espécie de uma outra exibição de Anos Rebeldes, só que com pessoas reais e não atores e atrizes de televisão.
No entanto, para muitos, tratava-se apenas de uma imitação ingênua das passeatas estudantis – e universitárias, por sinal – dos anos 1960. Principalmente porque nesta mesma época a TV Globo transmitia a minissérie “Anos Rebeldes”, retratando justamente o movimento estudantil dos anos de 1960 e 70, de modo romantizado e novelesco. (GROPPO, 2008, p.41. in: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO.)
Este aspecto do movimento pró-impeachment é largamente apresentado por nossa historiografia acerca deste assunto, como vimos acima a maneira de Luís Antônio Groppo tratar deste aspecto. Logo a seguir é possível termos uma leitura do mesmo episódio em Paulo Sérgio do Carmo:
Em outros tempos a juventude já fora capaz de se indignar com os rumos que o país seguia. Esse sentimento foi reativado pela minissérie “Anos Rebeldes”, realizada pela TV Globo, em julho de 1992, ambientada na época do movimento estudantil de 1968 e da guerrilha. A série, significativamente, foi exibida meses antes da realização das passeatas dos caras-pintadas. [...] Poucos jovens conheciam essa obscura passagem da história do país. Muitos haviam sido presos, torturados e banidos para, mais tarde, darem-se conta de que nada havia mudado. Agora, embora a revolta fosse geral, ninguém dava o primeiro passo. Foram os estudantes da nova geração que se puseram em marcha, a partir de agosto de 1992. (CARMO, 2003, p.163.)
Sobre esta tentativa por parte de setores da mídia e até da academia de reduzir a complexidade existente no Movimento “Cara Pintada”, Luís Antônio Groppo, afirma:
Contudo deve se discordar de uma análise simplista que associe as passeatas pelo impeachment a um mero reflexo pré-programado pela mídia através de um seriado novelesco. A influência, a imitação e mesmo a admiração pelos “anos rebeldes” existiu até certo ponto, mas não foi supra-determinante. (GROPPO, 2008, p.41. in: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO.)
Outro elemento colocado neste processo de controle do movimento, buscando cada vez mais fortalecer este “sentimento oficial” dos fatos. Era fazer um grande alarde as brincadeiras e provocações dos estudantes existentes nas passeatas, as invenções e inovações da juventude como a marca principal deles que era o gauche nos rostos, daí o termo: “Caras Pintadas”, além das musiquinhas feitas de improviso ou já orquestradas como: “Ah ah, uh uh uh, queremos Collor no Carandiru.” (alusão a uma música dos Titãs) e “Ô Fernandinho, vê se te orienta, já sabem do teu furo no imposto de renda”. (alusão a uma canção de Raul Seixas.) (GROPPO, 2008, p.42. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO.).

Mas, não eram somente de brincadeiras irreverentes que o Movimento Estudantil vivia em seus atos, passeatas e demais eventos, neles podemos constatar que nem todos os seus participantes viviam numa fantasia imaginária nos moldes da minissérie global. Claro, sem dúvida não podemos negar que a minissérie Anos Rebeldes, contribuiu para dar uma maior quantidade de adolescentes nas ruas gritando Fora Collor! e se achando um ator global. Por outro lado, esta sua contribuição não teria sido no sentido de estimular muitos jovens a se envolverem e a participarem de algo relacionado ao futuro de seu país.

Numa tentativa de fugirmos deste reducionismo e neste sentido procuramos analisar nas entrelinhas o que publicavam os jornais da época observaremos a passeata realizada no dia 3 de Setembro, em Fortaleza, vista pela ótica do Jornal O Povo, com a matéria intitulada: “Cinquenta mil estudantes gritam fora Collor.”.
O clima de anos rebeldes, que empolga a juventude de todo o País, teve sua versão nordestina, ontem, em Fortaleza. Ao som de frevo, forró e Alegria, Alegria – canção de Caetano Veloso, tema da minissérie da Rede Globo – milhares de estudantes adolescentes saíram às ruas exigindo o impeachment do presidente Fernando Collor. [...] Nos intervalos dos discursos das lideranças estudantis, pares formavam-se para dançar lambada e fricote. As palavras de ordem contra Collor eram entoadas ao ritmo de remelechos e requebros. [...] Um aluno do Liceu falava da “Gazetagem politicamente correta”: matamos a aula por um motivo nobre, nossos pais não vão reclamar.”.

Marinheiros de primeira passeata, muitos acompanharam a manifestação com misto de deslumbramento e desconfiança. Outros gritavam palavras de ordem com o entusiasmo de quem defende as grandes causas.



No percurso da manifestação, o som de Caminhando, de Geraldo Vandré, dava um tom de nostalgia ao movimento. Antigas lideranças abraçavam-se, relembrando “os velhos tempos”. (O POVO, 04/09/1992, p.10A.)
Nela podemos aferir um pouco dos efeitos da minissérie global. É possível ver diversão? Sim, sem dúvida e, além disso, conferimos que muitos estavam ali pela primeira vez, talvez influenciados pela minissérie (quem sabe? provavelmente sim, é possível), alguns com certos desconfortos em se inserir nos aspectos mais politizados do ato (é bem verdade, por timidez ou por não concordarem ou entenderem os procedimentos típicos dos movimentos sociais), mas é visto que tantos outros sabiam o porquê estavam ali e não eram apenas para fazerem a tal “gazetagem politicamente correta” como afirmou um aluno entrevistado, mas estavam ali com “o entusiasmo de quem defende as grandes causas”, apesar do tom irônico do jornalista (Paulo Mota – especial para O Povo.), percebemos que de fato havia muitos jovens que tinham um pensamento para além das brincadeiras irreverentes dos Caras Pintadas.
Os meios de comunicação de massa têm-se encarregado de ditar modas e comportamento visando quase sempre a interesses econômicos. Isso não quer dizer que os jovens aceitam passivamente o que lhes é imposto. Veremos alguns grupos e movimentos que contestam ou resistem aos modismos dos meios de comunicação criando espaços próprios de atuação. (CARMO, 2003, p.10-11.)
Podemos avaliar este mesmo raciocínio, analisando outra matéria publicada pelo Jornal O Povo, se reportando a preparação de outra passeata a ser realizada em Fortaleza no dia seguinte, 24 de setembro. Nesta entrevista com a então Presidenta do DCE-UFC, Luizianne Lins97, fica manifestado claramente a demonstração do pensamento que envolvia uma boa parcela dos personagens ativos no Fora Collor em Fortaleza, principalmente daqueles que dirigiam os atos deste movimento. Eles percebiam claramente que não bastava apenas tirar o Presidente Collor do Governo e substituí-lo por outro, no caso o vice Presidente, era necessário uma mudança mais profunda, pois o projeto neoliberal manteria-se praticamente intacto num futuro Governo de seu vice de chapa. Afinal, trocava-se tão somente o nome do seu condutor por outro.
A passeata da comunidade universitária sairá da Reitoria às 15 horas em direção a praça Clóvis Beviláqua, quando se unificará com os demais movimentos sociais em passeata até a praça José de Alencar. Segundo Luizianne Lins, os brasileiros não podem admitir que o vice-presidente Itamar Franco98 seja apontado como a solução para o resgate da ética da política, quando este é companheiro de chapa e ações governamentais de Collor. (O POVO, 23/09/1992, p.8A.)
Contudo, mesmo com a intenção e usando todos os recursos possíveis para manobrar e ter o domínio dos passos das mobilizações Fora Collor, percebemos que esse intuito midiático não conseguiu abranger todos os agentes envolvidos nos eventos anti-Collor. Pois, compreendemos que “a mídia e a TV são atores políticos decisivos, mas não são onipotentes.” (SCHMIDT, 2001, p.158.)
3.1.3. Simbologias no Movimento “Cara Pintada”
Durante as atividades estudantis pró-impeachment do Presidente Collor, constatamos como já mencionados aqui, uma juventude alegre, descontraída, mesclava a participação politica com a irreverência. Estas formas de irreverência são uma das marcas destas passeatas, mas sem romper totalmente com os intuitos políticos do movimento.

Esta forma de se protestar pode ser vista em várias cidades, no Rio de Janeiro, como forma de criticar o Governador Leonel Brizola, que ainda não estava convicto de aderir ao Fora Collor, a estudantada de forma criativa gritavam: “Pecê, pecê, seu dinheiro coloriu o Pedetê” (aludindo ao PC Farias e ao PDT, partido de Leonel Brizola) (VEJA, 19/09/1992, Apud GROPPO, 2008, p.41. In: GROPPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO.) Em São Paulo, era percebido também o mesmo sentimento de protestar e ao mesmo tempo fazer daquele protesto algo criativo e alegre.


Respondendo ao presidente, manifestantes trazem a bandeira do Brasil em nova versão: em vez do verde-amarelo, branco e preto, em vez de “Ordem e Progresso”, lia-se “Fora Collor”. Também há pirulitos gigantes em que está escrito “X Collor”. Há uma simbólica venda de “mãos de corruptos” (mãos de manequim) com nomes de Collor e PC Farias. Fantasias de fantasmas e de mentirosos com grandes narizes de espuma roxos. Bonecos de Collor e PC Farias vestidos de presidiários. Ratazanas de bigode e óculos, representando PC Farias. Enterro simbólico do presidente, com caixão dourado, Rosane, PC Farias, dólares e porquinhos. (GROPPO, 2008, p.41. In: GROPPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO.)
A campanha pelo impeachment do presidente Collor, claro e evidente, não podemos nos furtar em confirmar isto, teve sem dúvida a estampa da irreverência de seus protagonistas, aonde os rostos pintados de preto e verde e amarelo, foram superexpostos e supervalorizados pela mídia é daí inclusive que vem o termo com o qual o movimento ficou conhecido: os “Caras Pintadas”. Outro importante destaque evidenciado pelos meios de comunicação e pela literatura sobre o tema foram às inúmeras e sempre divertidas passeatas.
A marca mais visual mais presente está nos rostos dos jovens, pintados com tinta guache preta. Por causa disso, foram chamados de juventude carapintada. [...] Além do guache nos rostos, outra marca fascinante das passeatas são as musiquinhas e refrões criados ou adaptados pela irreverente criatividade dos estudantes. (GROPPO, 2008, p.42. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
No Estado do Ceará, as mobilizações também se apresentaram de maneira bastante irreverente, algo inclusive típico do “jeito moleque” de ser do cearense, com bastante “bom humor”. No interior do Ceará, na cidade de Uruburetama, tivemos um ato que mesmo não estando dentro do nosso objetivo, explica bem essa irreverência recheada de bom humor, sátira e claro, sem deixar o conteúdo político de fora. Publicado no Diário do Nordeste com o título de “‘Jumentada’ arrasta milhares em defesa do ‘impeachment’, tratava-se de “uma passeata de jumentos. Esta foi a maneira criativa que as lideranças políticas e comunitárias de Uruburetama criaram para protestar [...] e se posicionar em defesa do “impeachment” do presidente Collor de Mello.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 29/09/1992, p.11.)

Em Fortaleza, os símbolos do movimento “Cara Pintada” eram percebidos de forma muito assemelhada aos dos símbolos das passeatas em outras capitais brasileiras. Na primeira e talvez a maior passeata do Fora Collor, o Diário do Nordeste citava que a estudantada se comportava da seguinte forma, com “pinturas nos rostos, camisas pretas, faixas e bandeiras de protesto, canções e palavras de ordem.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 04/09/1992, p.14.) Numa outra passeata, esta realizada no dia 23 de Setembro, constatamos nas matérias jornalísticas consultadas que as “palavras de ordem [...] repetiam os versos já cantados pelos jovens de todo o País. Não faltaram os jovens travestidos de fantasmas, bonecos e palhaços, expressando o momento de crise vivido no País.” (O POVO, 24/09/1992, p.12A.)


“Se gritar: pegar ladrão! No Planalto não fica um meu irmão!”, “Fora Collor – eleições gerais!” foram algumas das frases que os manifestantes carregaram com entusiasmo. [...] A alegria, animação e irreverência dos estudantes que gritaram, cantaram, bateram palmas, pintaram seus rostos e agitaram bandeiras para pedir o impeachment do Presidente da República foram o destaque a manifestação. (O POVO, 24/09/1992, p.12A.)
Um dia antes da histórica votação do impeachment, a criatividade da estudantada já em contagem regressiva para o sucesso da queda do Presidente, se expressava numa paródia da “Valsa da Despedida”, cantada durante a manifestação realizado mais uma vez pelo centro de Fortaleza. “Ai ai ai ai, está chegando a hora!/ Estudante já está na rua meu bem/ O Collor tá indo embora!” (O POVO, 29/09/1992, p.1D.)

No dia da votação do impeachment de Collor, 29 de setembro, a Praça do Ferreira, o conhecido “coração da cidade”, estava tomado por uma multidão, os estudantes secundaristas eram a maioria e “entre um ato público e outro, [...] criaram vários símbolos. Músicas carnavalescas foram parafraseadas e surgiram bonecos como o “minhocão da democracia direta” e as esponjas para “limpar o País”. (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.18.) O O Povo destacava a questão dos símbolos da juventude “Cara Pintada” em Fortaleza, ao afirmar que em coro com o “cantor da terra” Calé Alencar a estudantada cantava: “Fora Fernandinho, Fernandinho fora, fora Fernandinho já chegou a sua hora.” E logo em seguida continuava a matéria afirmando que “a simbologia esteve presente na manifestação [...] na ‘cara-pintada’ com o número 336 [o número de deputados necessários ao impeachment] do jovem Eduardo Jorge, 14, estudante do 1º grau” (O POVO, 30/09/1992, p.8D.)



Todos estes símbolos dessa nova geração que entrava os anos de 1990 são essenciais para uma compreensão das expressões deste segmento social, para a análise científica de seus costumes, certezas e inquietações. Eles obviamente foram destaques e tiveram sua contribuição no processo do impeachment de Fernando Collor, assim como teria nos protestos contras os sucessores de Collor (Itamar Franco e F.H.C. )

Porém, nossa intenção neste trabalho é evidenciarmos a conscientização de uma parcela da juventude que não apenas protestou exigindo o fim do Governo Collor, mas que tinha entre seus objetivos, avançar para além da deposição do Presidente.


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