O projeto de pesquisa em história



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2.4.2. A Geração 90 diante da Nova Ordem Mundial
Todavia o que nos importa aqui são efetivamente os avanços na atuação política desta juventude. Mas, uma geração ao se formar, não absorve apenas um aspecto único, para entendermos uma geração se faz necessário compreendermos a realidade histórica de sua época, daí a importância de fazermos uma rápida averiguação do contexto histórico que nos debruçamos. E os anos 90, surgiram como sendo a década da vitória do capitalismo sobre o comunismo, a década sem a Guerra Fria, seriam anos de modernidade, de desenvolvimento econômico, de consumismo, enfim, de Globalização. E é nesta década que a geração “castrada” pela Ditadura Civil Militar, chega à adolescência e a mocidade.
A década se iniciava com a crença de alguns no “fim da história”, no sentido da vitória da democracia sobre o fascismo, o nazismo e o comunismo e, no plano econômico, da hegemonia do modelo neoliberal. Globalização começava a se tornar a palavra mais usada para designar novos tempos. (CARMO, 2003; p.162.)
Mas, seria realmente correto afirmamos isto? Aqui partiremos do pressuposto de que nem toda a juventude é atuante politicamente, assim como não é completamente despolitizada. Pois esta dicotomia entre as gerações de 1960 e 1990 pode provocar uma verdade absoluta que não coaduna com a realidade, afinal nem todos os jovens da década de 1960 pegaram em armas contra as forças de repressão, assim como nem todos os jovens que participaram das manifestações do Fora Collor em 1992, estavam ali apenas para curtirem um dia sem aula e se divertirem. No seio do Movimento Estudantil havia jovens que tinham participação política e partidária orgânica eram militantes de alguns partidos, principalmente os de cunho ideológico de esquerda, socialista e marxista, dentre eles os principais eram: o Partido dos Trabalhadores (PT)78, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB)79, o Partido Socialista Brasileiro (PSB)80, o Partido Comunista Brasileiro (PCB)81, o Partido Democrático Brasileiro (PDT)82 e até o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)83. Alguns destes jovens militantes partidários estavam numa espécie de crise de identidade ideológica, em virtude da crise do “Socialismo Real” no Leste Europeu84.
[...] o movimento estudantil e juvenil brasileiro, segundo a literatura pertinente, tem se construído em uma presença democrática, participativa, nacionalista e favorável a transformações estruturais na sociedade. [...] Ideologicamente, tem predominado um orientação identificada com o ideário socialista e anarquista. Isto ao menos até os anos 1990, anos caracterizados pela queda dos referencias internacionais de esquerda, em que se instala o desencanto e a ausência de grandes utopias. (SCHMIDT, 2001; p.192.)
Devemos destacar que a passagem da década de 1980 para a de 1990 foi marcada em nível internacional com repercussão no Brasil, por eventos como a Queda do Muro de Berlim em 1989, a Revolta da Praça da Paz Celestial em Pequim também em 1989, o fim da URSS em 1991 e bem antes, ainda em 1985 com as reformas políticas e econômicas denominadas de Glasnost e de Perestroika na então URSS, pelo líder soviético na época Mikhail Gorbatchev85. Estes acontecimentos em nível internacional causaram algumas mudanças e interferiram ideologicamente nos partidos de esquerda no Brasil, em especial naqueles que tinham uma clara orientação pró soviética e stalinista86. Vem, portanto, daí, esta espécie de sentimento de orfandade da parcela da nossa juventude engajada, pois para alguns seus referenciais de esquerda, de socialismo, de marxismo tinham sido sepultados pelos ventos que varreram os regimes ditos socialistas do Leste Europeu.

O Movimento Estudantil neste contexto de final dos anos 80 e início dos 90 encontrava-se situado entre alguns dilemas, o que talvez explique a sua aparente apatia em comparação as décadas e gerações anteriores. O fim da Ditadura Militar parecia ter postado em muitas pessoas que o retorno ao Estado de direito significasse a vitória da democracia e, portanto, não era mais necessário se lutar e reivindicar.



Ao mesmo tempo ocorria como já referido anteriormente, o chamado “Fim da História”, afirmação do nipo-americano, Francis Fukuyama, em consequência da propensa vitória do pensamento capitalista. Neste sentido, a juventude brasileira estava consequentemente órfã de um motivo para se lutar e também de pilares ideológicos anticapitalistas. Sobre o que teorizava Francis Fukuyama acerca da nova ordem mundial, o jornalista articulista do Caderno Vida & Arte do Jornal O Povo, Oswaldo Barroso, assim resumia num artigo neste mesmo jornal citado:
Segundo Fukuyama, a derrota do chamado Socialismo Real, determinara para o Primeiro Mundo, o fim da História, isto é, a vitória absoluta e definitiva do capitalismo e da democracia liberal. Absoluta, porque já não haveria forças antagônicas capazes de a ele se opor. Definitiva, por que tal regime representaria não apenas o estágio mais alto da evolução social, como significaria o fim dos conflitos e o encontro do homem com a sua natureza. (O POVO, 18/09/92; p.8B.)
Oswaldo Barroso acrescenta ainda, segundo sua ótica, o que seria a tal nova ordem mundial para Fukuyama, no mesmo artigo da menção acima:
A Nova Ordem Mundial teria se instalado com o desaparecimento da União Soviética e dos regimes burocráticos autoritários do Leste Europeu. Seu líder e fiador, George Bush, o Presidente norte-americano. Seus promotores, a Europa Unida e o Japão, além dos Estados Unidos. Ideólogo principal, Francis Fukuyama, intelectual nipo-americano, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, atualmente na Rand Corporation, instituição privada que faz pesquisas e análises para o governo americano. (O POVO, 18/09/92; p.8B.)
Retornando para a análise dos motivos que levaram a juventude a ter uma postura apática nos anos 80 e início dos 90, nos reportamos ao que pensa Andreza Barbosa, que tem a compreensão de que existiriam três motivos que poderiam ter sido essenciais para o afastamento da juventude às ruas:
O primeiro deles diz respeito à apatia que se abateu sobre o meio estudantil e sobre a população brasileira como um todo após o ano de 84, com o término do regime militar. Essa apatia pode ter ocorrido em decorrência das marcas de medo que a ditadura deixou muito forte nas pessoas que viveram essa época. No entanto, o que me parece mais provável é que, nesse período, predominava a sensação de que não se tinha mais pelo que lutar. Os estudantes estavam acostumados a uma forma de organização do movimento estudantil que só cabia no regime militar e, por isso, não se encaixava no novo contexto político brasileiro. [...] O segundo motivo que poderia ter causado o desaparecimento do movimento estudantil das ruas é o individualismo da sociedade brasileira que vem como conseqüência da política neoliberal e globalizante que vivemos. Por fim a terceira e última hipóteses da desarticulação do movimento estudantil a partir da década de 90 e, talvez, a mais forte delas, é a partidarização do mesmo. ((BARBOSA; 2008 p.63. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
Estes elementos postos por Andreza Barbosa podem a princípio para uma considerada parcela terem contribuído para uma estagnação do Movimento Estudantil. Porém, também podem ter proporcionado efeito contrário para outra parcela da juventude brasileira neste período. Ao invés de derrotados compactuando com o pensamento de Fukuyama, estes jovens resolveram enfrentar de frente novos obstáculos surgidos à sua frente, ou seja, se redefinirem ideologicamente e substituírem o combate à Ditadura Militar pelo combate ao projeto Neoliberal em voga mundialmente e que já dava sinais de está presentes em solo brasileiro, sendo assim, o advento do neoliberalismo através do Governo Collor de Mello no início dos anos 90 provocou interferência na organização partidária de esquerda no Brasil.

O propósito neoliberal do Governo Collorido baseava-se na privatização e na redução da ação estatal e isto “atingiria em cheio” a educação, basicamente a educação de nível superior, a privatização das Universidades Públicas estava em voga e isto contribuiu para mexer com os brios do estamento estudantil universitário e porque não também, o secundarista que futuramente se tornaria universitário. Podemos constatar as intenções do Governo Federal através da análise do seu projeto de governo naquilo que tangia a educação:


1.8 - Educação

O compromisso com a modernidade vincula-se à tarefa maior do processo educacional, que é a construção permanente da pessoa em busca de uma cidadania plena, indispensável à consolidação do regime democrático e ao fortalecimento das instituições.

Nesse processo, a apropriação de conhecimentos científicos e tecnológicos, ao lado de sua finalidade produtiva, deve construir-se em instrumento que dê condições de modernização cultural e social para o País.

Sob esse prisma, exigi-se do setor educacional a necessária qualificação dos recursos humanos para fazer frente aos desafios da modernidade produtiva.

1.8.1 - O novo papel do governo federal na educação.

A educação é uma das áreas onde a presença do Estado é fundamental. À iniciativa provada cabe um papel complementar importante, mas que nunca será desempenhado a contento se não houver, por parte do setor público, uma oferta educacional adequada à demanda da população e às necessidades do sistema econômico. [...] A maior liberdade de atuação, seja quanto a preços, seja quanto à esfera pedagógica e curricular, do setor provado, deve corresponder uma melhora da educação pública. Só assim, o próprio mercado se encarregará de definir patamares mínimos de qualidade e máximo de preços.

1.8.2 – Principais Linhas de Ação

1.8.2.4 – Ensino Superior

a) implantação da autonomia universitária por meio de um processo de desregulamentação, iniciando com a revisão da legislação atual, e culminando na elaboração de leis complementares que darão ênfase aos procedimentos de avaliação, supervisão e gestão administrativo-financeira, patrimonial e didático-científica;

[...]


c) obtenção de maior eficiência na gestão das universidades federais, instituindo um novo sistema de alocação de recursos financeiros articulados à avaliação de desempenho para incentivar ganhos de produtividade e de qualidade no ensino assim como integração da pesquisa e extensão; implantação de projetos de desenvolvimento institucional e capacitação gerencial nas universidades; estímulos às universidades buscarem recursos extra-orçamentários para complementar seus orçamentos de pesquisa, sobretudo junto às empresas;

[...]


e) discussão da gratuidade indiscriminada do ensino público de graduação e da dimensão da oferta de vagas pelo Governo Federal; (COLLOR, 1991; p.66, p.67, p.70-71.)
De forma bem resumida, o projeto neoliberal pretendia, de acordo com o escreveu Oswaldo Barroso no seu já citado artigo no Jornal O Povo: “As nações do Terceiro Mundo, Fukuyama reserva a tarefa de caminhas em direção ao Primeiro, através de reformas liberais, com o Estado retirando-se da economia e a economia do país sendo orientada para os mercados capitalistas globais”. (O POVO, 18/09/92; p.8B.)

3. O MOVIMENTO “CARAPINTADA” EM FORTALEZA DURANTE A CAMPANHA PELO FORA COLLOR.
3.1. O Movimento Estudantil no Fora Collor.

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3.1.1. O Início das Manifestações.


Em meados de 1992, o País ficou estarrecido diante das denúncias de corrupção contra o Governo eleito com a promessa de combatê-la. Na primeira quinzena de agosto deste mesmo ano, a população brasileira começou a acompanhar de forma atônita as passeatas e os protestos organizados e protagonizados por uma nova geração de jovens.
Iniciava-se nova era. Estavam ficando para trás os heróicos feitos da geração dos anos 60. Era necessário passar o bastão para uma nova geração: não se podia viver do apego às lutas do passado. Uma alegre e irreverente troca de gerações anunciava a chegada de novos personagens. (CARMO, 2001, p.165.)
A CUT, logo na primeira quinzena de agosto, resolveu levar às ruas a indignação a respeito das suspeitas de corrupção no Governo Federal e fez isso com o apoio dos partidos políticos de oposição e da sociedade civil organizada, incluindo neste rol, o Movimento Estudantil e suas várias entidades representativas.
Os dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) decidiram transformar em “uma manifestação estrondosa” o ato marcado para o próximo dia 8, às 15 horas, na Praça da Sé, para protestar contra a corrupção e exigir a renúncia do presidente Fernando Collor.

“Vamos convidar todo mundo, incluindo o governador Luiz Antônio Fleury e o empresário Antônio Ermínio de Moraes”, disse o secretário-geral da CUT, Gilmar Carneiro dos Santos, depois de almoçar com os dirigentes estaduais da Central.

[...]

No entender de Gilmar, a opinião pública ainda está apática em relação às denúncias por achar que elas vão dar em nada. “Os políticos têm que assumir suas responsabilidades para reverter esse estado de espírito e preservar as instituições e a democracia”, afirmou. (O POVO, 02/08/1992, p.11A.)


Para esta manifestação, como vimos na citação do O Povo, foram chamados representantes de praticamente todos os setores que estavam a frente das denúncias contra o Presidente Collor e com isso tentaram criar um clima de agitação popular visando uma resposta positiva por parte da população, que até aquele momento ainda se sentia acanhada e descrente quanto ao prosseguimento das apurações das denúncias e mais ainda, com os resultados dessas investigações. A CUT, portanto, que tentou iniciar o movimento pelo Impeachment, teve um relativo sucesso, causou certo impacto, mas ainda faltava algo para incendiar de vez os protestos e animar a sociedade, dando-lhes razões para crer numa solução a respeito de todos os atos criminosos praticados por membros do Governo Collor.

Nem mesmo os opositores de Collor até aquele momento pensavam seriamente em mobilizar setores da população. Tudo começou com ‘passeatas colegiais’ e com um discurso impensado do próprio presidente.” (GROPPO, 2008, p.41. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO). É bem verdade que uma boa parte das oposições, seja ela partidária ou de segmentos outros, não estavam tão dispostas a por “as massas às ruas”, havia resistência, certos temores por parte de personalidades das elites dominantes contrárias ao Governo Collor, como podemos aferir nas palavras do então presidente nacional do PSDB, o empresário e ex-governador cearense, Tasso Jereissati: [...] “Faz-se, portanto, necessário que as elites assumam o controle dessa crise moral, para apresentar a população brasileira de que é possível uma solução.” (O POVO, 02/08/1992, p.4A.).



Era sem dúvida, uma clara tentativa de impedir que a insatisfação popular se tornasse algo sem controle, era necessário que setores das elites tivessem o total controle da grave crise política existente. Porém, o ato do dia 8 de agosto em São Paulo transcorreu de forma positiva, por trazer para as ruas a insatisfação já existente em boa parte da sociedade, muito em virtude da mudança de estratégia adotada, pelas principais lideranças partidárias de oposição ao Governo Collor:
O ato público pela moralidade política de hoje marca uma mudança de estratégia dos partidos envolvidos. Nas reuniões quase semanais que vem mantendo, os presidentes dos três principais partidos de oposição – Lula (PT), Orestes Quércia (PMDB) e Tasso Jereissati (PSDB) – concluíram que somente colocando o povo na rua será possível pressionar o Congresso Nacional a votar pela abertura do processo de “impeachment”. (O POVO, 08/08/1992, p.20A.)
Na charge a seguir de autoria do chargista Válber, extraída do Diário do Nordeste, que simula uma partida de futebol aonde o Presidente Collor é posto em impedimento, marcado pelo árbitro (no caso, o presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro – PMDB/RS), é possível identificarmos a formação deste um bloco suprapartidário anti-Collor, formado pelo PMDB, PT e PSDB, representado por seus respectivos presidentes nacionais, Quércia, Lula e Tasso (que formam a linha de impedimento).

Sendo assim, não podemos afirmar que o Movimento Estudantil foi o único pioneiro nas ações pró-impeachment. A juventude ao se engajar contribuiu em quantidade e qualidade aos atos, exalou irreverência, disposição, criatividade e deixou transparecer para muita gente que aqueles jovens até então, calados, encolhidos, estavam agora cientes que tinham o poder de transformação, mesmo não sendo os mesmos um conjunto homogêneo nas suas intenções. O evento do dia 8 de agosto, em São Paulo, apesar do importante sucesso, ainda não sensibilizou completamente a sociedade brasileira. Mas, foi importante para demonstrar que de fato o caminho a ser seguido pelos movimentos sociais era a mobilização popular, que mesmo debaixo de chuva compareceu e mostrou que estava disposta a lutar.
Nem a chuva fina que caiu no final da noite de sábado dispersou as cerca de 10 mil pessoas, pelos cálculos da Polícia Militar, que participaram do Ato Público pela Ética na Política, organizados pela Central Única dos Trabalhadores e por dezenas de entidades civis com o objetivo de pressionar o Congresso a votar o “impeachment” do presidente Collor. (O POVO, 10/08/1992, p.4A.)
Em Fortaleza, também foi realizada um protesto promovido pela CUT, no dia 11 de agosto, como relata O Povo, com o título em sua capa:
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