O projeto de pesquisa em história



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A forma como se constrói a participação do jovem na política estudantil, seu engajamento no movimento e o significado a ele atribuído pelos militantes e pelos demais estudantes pode vir a lançar luzes sobre o protagonismo juvenil na vida civil do país, hoje em refluxo. Os motivos do ingresso dos jovens nesse movimento social fornecem pistas para entender a trajetória dos jovens militantes no movimento estudantil e o significado atribuído a essa participação política. É interessante também identificar nas trajetórias sócio-culturais-familiares prováveis influências da inserção desses jovens no movimento estudantil. (DE PAULA, p.1.).

O Movimento Estudantil, enquanto movimento social é um assunto que vem sendo muito abordado pelas Ciências Humanas, sendo um assunto que, atualmente, está fomentando novas abordagens de pesquisa, o advento de novas estratégias e a reformulação radical das hipóteses e criando consequentemente visões distintas de análise sobre este tema. Pois, ultimamente a forma como as Ciências Humanas tem visto o Movimento Estudantil, tem sido num tom muito reducionista do seu valor e da existência de conscientização em muitos daqueles que dele participaram. Há “uma revisão da literatura sobre o tema ‘juventude’ demonstra que são poucos os estudos que associam movimento estudantil, juventude universitária e engajamento e participação política.” (DE PAULA, p.5.)


Muitos movimentos estudantis, segundo Burg50, tiveram como efeito o de energizar movimentos de efeitos reformistas. Não raro, estiveram carentes de objetivos definidos. Os participantes e líderes dos movimentos representaram em geral a classe média ou mesmo elementos elitistas. Quanto à participação, quase sempre foi um percentual pequeno, de 10 a 20% do total, e às vezes menos que 2% da população estudantil. No tocante as ideologias adotadas, elas variaram bastante. A mais freqüentemente adotada foi provavelmente o marxismo. Um elemento sempre presente sob as ideologias contratantes foi o idealismo juvenil, e é este idealismo que tem inspirado a radicalização e o ativismo de muitos grupos. (SCHMIDT, 2001, p.189.)
2.1.2. As Origens do Movimento Estudantil.
O Movimento Estudantil tem as suas origens na Idade Média, de acordo com o diálogo realizado com a literatura encontrada, e era ligada de certa forma à doutrina da Igreja Medieval, não sendo necessariamente em seus momentos iniciais um movimento contestador da ordem eclesiástica dominante. A juventude da Idade Moderna, já dá sinal do desejo de romper com as amarras do Absolutismo da época. Esta evolução segue e contribui na construção e reconstrução dialética da própria História Universal.
Segundo informa David Burg, em sua Encyclopedia of Student and Youth Movements (1998), há registros de movimentos juvenis de natureza político-econômica ou religiosa já na Idade Média européia. A origem dos movimentos estudantis, por seu turno, se localiza em torno do ano de 1.200 – data aproximada do surgimento das maiores universidades do Ocidente. Na era moderna, os movimentos estudantis se caracterizam por objetivos de reformas políticas liberais, liberdade de expressão e reunião, direitos civis e outros imperativos éticos. (SCHMIDT; 2001, p.188-189.)
Portanto, como percebemos em seus primórdios o Movimento Estudantil não seria um movimento de contestação como geralmente a priori pensamos ser, ele vai se formando e adquirindo novos contornos nos séculos seguintes.

Se tratando da existência de algum marco inicial das ações do Movimento Estudantil em solo brasileiro, não temos uma data específica que possamos afirmar ser a correta. Este é um ponto em nossa pesquisa que não está totalmente conclusa, pois é possível que ao longo dos estudos a serem realizados posteriormente acharmos dados diferentes e mais preciso destes nos baseamos atualmente e vistos a seguir.

João Pedro Schmidt a respeito das origens do Movimento Estudantil no Brasil menciona que “a emergência de movimentos juvenis51 acontece nas primeiras décadas do século XX. Antes disso, apenas de modo individual pode-se notar a presença dos jovens brasileiros na arena política. (SCHMIDT, 2001; p.189.), ou seja, antes das primeiras décadas de 1990, não se constituía de fato num movimento organizado.

Em Lucíola de Paula, encontramos uma menção acerca desta presença de jovens ainda no século XIX, mas ela destaca que o Movimento Estudantil de forma organizada é iniciado já nos anos 1930, com a fundação da UNE52.


O movimento estudantil tem um percurso e uma trajetória, no Brasil, de associação e participação nos grandes movimentos sociais. Desde o século XIX, com a fundação dos cursos superiores no país, percebemos a presença dos estudantes participando de movimentos sociais, alinhando-se geralmente àqueles de cunho progressista. A partir da década de 30, o M.E. fortaleceu-se como movimento social organizado, principalmente após a criação da UNE, em 1937, marcando presença nas lutas pela democratização do país e no combate às estruturas conservadoras. (DE PAULA, p.8.).
Esta dúvida sobre as origens do Movimento Estudantil no Brasil fica mais evidente quando Andreza Barbosa afirma o mesmo: “existir desde os anos 30” (BARBOSA, 2008; p.53. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO), ou seja, para ela a origem do Movimento Estudantil se deu na década de 1930.
2.2. A Evolução do Movimento Estudantil no Brasil.
O Movimento Estudantil tem se destacado durante todo o século XX por sua presença em muitas delas na contestação da realidade existente e em outros momentos de completa apatia ou preservação de ideais do status quo vigente. Esta ambiguidade se reflete diante do que aponta a nossa historiografia. Uma ala mais conservadora o ver de uma forma, já uma ala mais progressista tecem outras análises a seu respeito.
É curioso notar que, apesar da juventude estudantil ter tido, durante todo o período dito “de modernização” do país (dos anos 30 aos 70), destacada presença em prol dos processos de democratização e combate às estruturas conservadoras, houve sempre certa ressalva com relação à eficácia de suas ações: para os setores conservadores, a suspeita de baderna e de radicalismo transgressor; para alguns setores da esquerda, a suspeita de alienação ou de radicalidade pequeno-burguesa inconsequente. (ABRAMO, 1997; p.27.)
O episódio mais marcante do início da atuação organizada dos jovens brasileiros, se dar na fundação da UNE, em 1937. Não podemos conclamá-lo como marco inicial do Movimento Estudantil no Brasil, pois já existiam outras entidades organizativas da estudantada em vários Estados e municípios antes da fundação desta entidade nacional.
Em 1934 acontece o 1º Congresso da Juventude Operária-Estudantil. O grande acontecimento, todavia, é a fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1937, evento que dar início a uma atuação organizada da juventude estudantil, principalmente da juventude universitária. (SCHMIDT; 2001 p.189.)
Nestes primeiros anos de atuação da UNE destacou-se a luta antifascista e ao mesmo tempo contribuindo para a derrocada do Estado Novo em meados dos anos de 1940. Sabemos que a UNE era assim como os sindicatos da época atrelados ao governo ditatorial varguista, porém, de forma ambígua muito comum pelas contradições existentes no campo político, as mobilizações estudantis contra o fascismo durante o contexto da Segunda Guerra Mundial (entre 1939 à 1945), promovidas pela UNE de certo contribuíram para a superação política da Era Vargas, pois a mesma era associada ao mesmo fascismo que combatera na Europa. Desta forma constatamos que o ano de:
[...] 1942 é o ano das grandes manifestações estudantis lideradas pela UNE de caráter antifascista e que exigiam a entrada do Brasil na guerra ao lado dos aliados, provocando crise no governo culminando na demissão de Felinto Müller, Francisco Campos e Lourival Fontes - setores do governo simpáticos às potências do Eixo. [...] a defesa dos ideais democráticos contra o nazifascismo por tabela atingia o Estado Novo, que fingindo não caber a si as críticas contra os regimes italiano e alemão, se viu obrigado a ceder espaços para a criação de oposições internas e de uma distensão política. (MUNIZ, 2004;)
A partir de então a UNE começa a construir a sua história, se sobrepujando sobre as entidades até então existentes, como por exemplo, o CEC53 no Ceará, que teve seu fim político juntamente com o fim do Estado Novo, como será visto mais adiante.

É sobre a batuta da UNE que a juventude começa de fato a se organizar e fundamentalmente a ser realmente representada no âmbito nacional, ao elaborar e desenvolver uma série de campanhas políticas de caráter nacional e com um cunho de conscientização da juventude. “Os estudantes marcam presença notável em eventos importantes no cenário nacional, como a campanha ‘O Petróleo é Nosso’ na década de 1950.” (SCHMIDT, 2001; p.189-190.). Houve também logo em seguida ainda na mesma década uma forte participação de jovens e estudantes:


No final dos anos 50 há o fortalecimento de tendências ligadas à Igreja Católica e aos partidos de esquerda. No caso da Igreja Católica, teve particular relevância a Juventude Universitária Católica – JUC, organização juvenil da inclinação à esquerda que estava em curso em segmentos importantes da hierarquia e dos fiéis católicos à época, e que antecipou importantes instituições da Teologia da Libertação que se fortaleceu a partir dos anos 1960. (SCHMIDT, 2001; p.190.)
Estas e muitas outras mobilizações estudantis, tendo a UNE participando diretamente ou indiretamente, demonstram como os estudantes foram se aproximando, cada vez mais das lutas populares. Porém, ao estudarmos o Movimento Estudantil brasileiro, não há como ocultar seu ápice, aquele período que até hoje é a marca histórica da UNE, da resistência estudantil aos militares e civis de direita que deram um golpe civil-militar no então presidente João Goulart.
No Brasil, tal movimento ganhou significado próprio, em função do regime ditatorial em que vivíamos. Silenciada essa revolta, recrudesceram os movimentos de guerrilha com recrutamento de parte da juventude estudantil. Trata-se de um assunto cuja magnitude importância às novas gerações não se deram conta. (CARMO, 2003; p.11.).
Foi exatamente neste momento, tendo a juventude estudantil organizada pela UNE, que a estudantada atuou de forma mais incisiva na defesa dos direitos civis de toda uma sociedade que estavam sendo destituído pelos governos militares da época. O Movimento Estudantil conduzido sob a batuta da UNE tornou-se praticamente a única força não institucionalizada de oposição política à ditadura, sua importância histórica é inegável.
Já em 1967, o primeiro ano do governo Costa e Silva, o diálogo prometido não ocorreu, mas, sim, a repressão, face às pressões do único movimento social ativo o estudantil. No ano seguinte, este movimento tomou um outro vulto, sobretudo no primeiro semestre, culminando o processo na chamada passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, que unificou as lutas estudantis com os protestos dos intelectuais. (REIS FILHO, 2003; p.7.)
Nesta fase da nossa História, parafraseando o trecho da canção “Vai Passar” (1984) de Chico Buarque de Holanda: ”num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada da memória, das nossas novas gerações”. Não só a juventude brasileira, mais a sociedade de um modo geral, desconhece a gravidade dos fatos relacionados aos 21 anos de período ditatorial no Brasil.

Desta forma a importância das instituições e dos movimentos que resistiram à tirania dos ditadores parece realmente que “desbotou da memória”. A UNE e o Movimento Estudantil como todo sofreram ataques dos governos dos presidentes generais, pois os efeitos de algumas destas medidas do regime provocaram consequências para as gerações posteriores.


Intensifica-se com o golpe militar de 1964. A Lei nº 4.464, de outubro de 1964, chamada Lei Suplicy de Lacerda, elimina a UNE como representação nacional, limitando a representação estudantil ao âmbito de cada universidade. O Decreto- Lei nº 252/67, em seu Artigo 2 vetou a ação dos órgãos estudantis em qualquer manifestação político-partidária, social ou religiosa, bem como apoio a movimentos de grevistas e estudantes. Esse clima de controle ameaça e insegurança individual atingiu todas as atividades relacionadas ao fazer educativo, principalmente com o conhecido Ato Institucional No5 (AI - 5) que, em dezembro de 1968, retira do cidadão brasileiro todas as garantias individuais, públicas ou privadas, institui plenos poderes ao Presidente da República para atuar como Executivo e Legislativo. Ou ainda, com o Decreto- Lei Nº 477, de fevereiro de 1969, que proibia todo o corpo docente, discente e administrativo das escolas a qualquer manifestação de caráter político ou de contestação no interior das universidades.54
Porém, esse mesmo movimento entrou em declínio a partir da década de 1970, quando os militares no governo intensificaram a repressão aos movimentos chamados de “subversivos”, que eram as guerrilhas urbanas e rurais, basicamente formada por jovens universitários de classe média, que foram na sua maioria trucidados pelo regime de cunho militar e fascista instalado no Brasil. Os sobreviventes tiveram que se esconder, fugir, fingir e as crianças que nasciam neste período foram “castradas” politicamente pelos instrumentos de controle ideológicos do Estado ditatorial. Este período produziu uma futura geração com características bem distintas daquele que o governo militar combatia então.
Os anos 1970 foram os anos de medo, e o medo trouxe a despolitização, a redução das atividades associativas e de adoção de estratégias egoístas de sobrevivência. [...] A chamada “Geração AI-5”, que viveu sua adolescência sob a ditadura e experienciou o medo, mesmo passado o autoritarismo da ditadura vive suas seqüelas. Entre elas, a desarticulação, a falta de referencial diante dos problemas, a solidão, a individualização, a revolta contra a família, o culto às drogas, o modismo psicanalístico ou a desarticulação do discurso. (SCHMIDT, 2001; p.190.)
É somente em meados dos anos 80 que o Movimento Estudantil se reorganiza e procura novamente voltar a ser um importante instrumento de luta política, o destaque principal além da refundação da UNE55 e já em:
Setembro de 1980, mobiliza cerca de um milhão de estudantes, numa greve geral de três dias, exigindo a anistia (ampla, geral e irrestrita) dos exilados e presos políticos, e em 1981, 400 mil estudantes realizam greve nacional diante da recusa do então Ministério da Educação e Cultura (MEC), em atender as reivindicações propostas pelos estudantes.56
Outro momento importante da participação da refundada UNE e do retorno do Movimento Estudantil ainda nesta mesma década foi à performance, mesmo como coadjuvante do Movimento pelas “Diretas Já!” entre 1983 e 1984, sendo praticamente não percebida a ação da juventude organizada nos protestos, comícios e demais mobilizações que tomaram conta do país, exigindo que o Congresso Nacional, aprovasse a chamada Emenda Dante de Oliveira57.
A redemocratização nos anos 1980 permitiu o ressurgimento do movimento estudantil, mas em moldes bastante diferentes dos anos 60. Não mais como vanguarda, e sim como um ator secundário. Presente no movimento das “Diretas Já” em 1984, o movimento estudantil oscilou entre as tentativas de reeditar a mobilização política das décadas anteriores e a busca de soluções à crise da universidade. (SCHMIDT, 2001; p.191.)
Esta tentativa de ressurgimento do Movimento Estudantil continua durante o restante da década de 80 com eventuais e raros momentos de destaques, e chega ao seu clímax logo no início da década seguinte. Entramos na última década do século passado e nela encontramos alguns momentos ímpares deste resgate dos tempos “áureos” do Movimento Estudantil, uma série de fatores internacionais e nacionais surgem e ajudam o retorno do Movimento Estudantil. Paulo Sérgio do Carmo, em, “Culturas da Rebeldia.” Cita que:
Os anos 90 começaram no Brasil com um novo presidente da República, o primeiro eleito diretamente depois de 1964, e com as conseqüências dos novos acontecimentos mundiais: caíra o Muro de Berlim e, com o fim do comunismo na Rússia, o mundo respirava a chamada “vitória” do capitalismo. (CARMO, 2003; p.161.)
E um destes momentos e provavelmente o mais importante foi sem dúvida o chamado “Movimento dos Caras Pintadas”, que em 1992, deu o ar de sua graça, sendo um elemento de suma importância para chamar atenção da opinião pública aos desmandos do Planalto Central e fomentou um amadurecimento político desta e das gerações futuras.

O processo de impeachment do ex-presidente da República Fernando Collor de Melo mesmo com este amadurecimento político de muitos de seus agentes, não significou uma efetiva cultura de mobilizações permanentes e engajamento efetivo de grande parte da sociedade nos assuntos políticos nacionais.


Nos primeiros anos da década de 90 pareceu que o movimento estudantil reerguer-se-ia com toda imponência. Quando ninguém esperava, milhões de estudantes, principalmente do ensino médio, estavam nas ruas, de rosto pintado, exigindo ética na política com a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello. E os jovens foram o ator mais visível do processo de impeachment, festejado nacionalmente em setembro de 1992. Mas, o movimento não teve continuidade, e as manifestações políticas foram episódicas em toda a década. (SCHMIDT, 2002; p.191.)
No momento em que parecia ter sido o fim do Movimento Estudantil em nosso país, o pós-ditadura, as condições históricas mudaram gerando um novo contexto cheio de novos e complexos paradigmas. Tivemos depois outras tentativas de estimular não só a juventude, mas o povo como todo em interferir mais ativamente no destino político do país, mas sem o mesmo brilho e sem ter uma continuidade com a mesma intensidade que teve naqueles meses de agosto e de setembro de 1992. Tivemos nos anos seguintes da década o Movimento Fora FHC, numa tentativa de copiar o sucesso do Fora Collor.
A ambigüidade da cultura política juvenil dos anos 1980 (e também nos 1990 – grifo meu) mantêm-se na década atual. Se a intensa participação estudantil nas manifestações do “impeachment” do ex-presidente Fernando Collor de Mello, demonstrou um interesse dos estudantes pelos acontecimentos políticos e um senso de eficácia política, pouca participação dos estudantes nas entidades estudantis, o pouco envolvimento dos jovens nas atividades e organizações políticas, o declínio no alistamento eleitoral dos jovens de 16 e 17 anos, são fatores reveladores da não-consolidação de uma cultura democrática participativa nos segmentos juvenis. (SCHMIDT; 2001, p.207-208.)
Os anos seguintes e a chegada do novo milênio não trouxeram mais momentos tão gloriosos como os protagonizados pelo Movimento Estudantil brasileiro tanto nos anos 60 e 70, como naqueles 1992, claro, guardado as suas devidas proporções. A atual juventude não tem os mesmos interesses, as mesmas motivações das juventudes de gerações anteriores, mas também não podemos dizer que são alienadas e desprovidas de senso de criticidade, apenas não possuem uma tradição política e participativa de forma efetiva do universo político.
2.3 As Origens do Movimento Estudantil em Fortaleza.
No início do século XX, elementos contidos na literatura que trata do Movimento Estudantil fortalezense nos levaram a fatos que acreditamos terem sido marcos históricos iniciais do Movimento Estudantil na capital alencarina, isto porque, segundo dizem as fontes desta pesquisa, “em 1908, a oligarquia Acióli58 divide os estudantes de Direito em campos rivais e cheios de ódio”59 (BARROSO, 1989:347; apud RAMALHO, 2002, p.54.). Mesmo não sendo uma ação política do conjunto dos estudantes universitários de Fortaleza, no caso, resumindo-se aos estudantes de direito, que mesmo sem uma entidade que os congregassem em sua totalidade. Podemos assim entender como uma primeira manifestação pública de uma expressão política contida no seio estudantil local.

Tivemos neste período a eclosão de muitas embrionárias entidades do meio estudantil, e que deram sua valorosa contribuição para a formação deste movimento em Fortaleza. Neste sentido, podemos listar e comentar, sem nos preocuparmos com a sua cronologia, alguns nascedouros de importantes entidades e organizações juvenis, como por exemplo, a importante fundação do CACB60, mesmo não se possuindo “dados precisos em relação às circunstâncias ou não da fundação do CACB. Pelas pesquisas efetuadas, deduz-se seu início no biênio 1926-27.” (RAMALHO, 2002, p.55.). Antes mesmo da existência do CACB, temos relatos da “existência de grêmios estudantis, literários e recreativos, alguns com traços corporativistas, (que) remontam às primeiras décadas do século”. (RAMALHO, 2002, p.59.). Neste contexto destacamos também a criação do CLEC61, que foi:


Fundado a 21 de abril de 1935 [...] é herdeiro do Clube Liceal de Estudos, agremiação que, nas primeiras décadas do século, desenvolveu atividades literárias e realizou alguns movimentos em defesa dos interesses dos discentes do Liceu do Ceará. (RAMALHO, 2002, p.64.)
Continuando nossas observações sobre o resgate histórico das origens do Movimento Estudantil em nossa capital, ainda na década de 1920, vimos esta juventude fortalezense dar seus primeiros passos na luta política, mesmo não tendo ainda uma pauta própria, os jovens estudantes pegaram carona no Movimento Operário62, que nos primeiros anos do século XX tinha uma grande atuação política, nos os círculos operários – principalmente o BOC63 – de orientação comunista e em outras organizações operárias sob a orientação da Igreja, realizavam protestos e greves em Fortaleza, como menciona o historiador e estudioso do assunto, Bráulio Ramalho em seu livro, Foi Assim 64. E uma parte da mocidade da época contribuiu para a realização desses eventos ligados ao movimento operário local.
[...] O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua (CACB), da Faculdade de Direito, manifesta solidariedade e declara que os acadêmicos irão prestar apoio moral e material. Assim, realiza subscrição entre os corpos discente e docente da Faculdade, organiza comissões para arrecadar dinheiro no comércio e participa de manifestações públicas em favor da greve (O Povo, 24/08/29:8 apud RAMALHO, 2002, p.17.)
Não sabemos ao certo se estes primeiros moços que ousaram contribuir com a luta do operariado em Fortaleza, tinham inclinações ideológicas comunistas, como os membros do BOC. Os primeiros agrupamentos juvenis alencarinos da qual a nossa pesquisa nos informa que tiveram algum tipo de influência ideológica foram àqueles influenciados pela Igreja Católica, no caso a UMC 65, que “em março de 1930 [...] desenvolve uma campanha anti-comunista.” (RAMALHO, 2002, p.18.).

Apesar de já existir uma participação da juventude local nas décadas de 1900 até 1920, ela ainda não se dava de uma maneira organizada e com uma participação mais efetiva, de um número considerável de estudantes. Sendo talvez por isso, que a historiografia local considere como marco inicial histórico do surgimento do Movimento Estudantil cearense, a fundação no ano de 1931, em Fortaleza daquela que se tornaria a mais importante entidade estudantil no Ceará naqueles idos, o CEC.
Estes os acontecimentos mais expressivos para caracterizar o clima político e sócio-cultural de Fortaleza quando da criação – a 11 de agosto de 1931 – do Centro Estudantal Cearense (CEC), fato que representa como início do movimento estudantil no Ceará. Esta data é considerada como marco inicial do ME no Estado, em virtude do CEC ter sido a primeira entidade a ter como escopo congregar e representar a totalidade dos estudantes cearenses. (RAMALHO; 2002, p.19.)
A fundação do CEC teve um significado de unidade da categoria, mas mesmo assim, não significou de imediato uma ruptura de intenções e práticas. De acordo com o que afirma o historiador Altemar Muniz 66, o CEC “reproduzia a experiência de uma outra entidade, a Casa do Estudante do Brasil, fundada em 13 de agosto de 1929 no Rio de Janeiro, e que segundo Poerner, tinha um caráter recreativo e assistencialista.” (MUNIZ; 2004). Ou seja, a princípio os movimentos que organizavam a estudantada estadual e nacional, tanto no âmbito secundarista como no universitário não se constituíam numa alternativa de rebeldia e nem de contestação ao “status quo” do momento histórico aqui apresentado, como geralmente nos acostumamos a ver na historiografia do Movimento Estudantil, principalmente durante a Ditadura Militar, nos anos 60 e 70 do século passado. Ao contrário, deste imaginário de organização “subversiva” o Movimento Estudantil em seus primórdios não desempenhava esta função.
Criou mitos em torno do caráter de suas práticas. Alguns destes caracterizam-no como contestador, idealista, livre de compromissos que o impedissem de lutar por causas e utopias igualitárias e libertárias. Segundo esta mística, seria algo inverossímil, a colaboração destacada de uma entidade estudantil, numa política governamental autoritária que despolitizava movimentos sociais, tornando-os instrumentos de preservação da ordem. (MUNIZ; 2004.)
Esta iniciativa da categoria estudantil fortalezense foi seguida por outros estudantes, já “que posteriormente, entidades semelhantes surgiram em cidades do Nordeste como Natal, João Pessoa e Teresina, sendo Fortaleza, ao que parece, a pioneira e modelo desta forma de organização no Norte e Nordeste”. (MUNIZ; 2004.). Em seu nascedouro no Ceará, e quiçá no Brasil, as principais entidades organizativas do Movimento Estudantil tinham entre suas obrigações essenciais a realização de festas comemorativas as datas cívicas, eventos escolares e a obtenção de alguns privilégios ou vantagens pontuais ao alunado associado. Estas práticas continuaram mesmo com a existência do CEC e também após esta, como podemos ver na citação a seguir.
No ano de fundação, o CEC iria conseguir para seus filiados redução de 50% no preço das entradas dos cines Luz e Paroquial. Abatimento idêntico foi obtido nos cinemas da Empresa Ribeiro, às segundas, quartas e sextas (a partir de 1938 o desconto seria diário). Redução de preço de 10 a 15% nas livrarias Humberto e Morais e outras vantagens relacionadas com assistência médica e dentária, barbearia e outros serviços. (O Povo, 25/11/31:3 apud RAMALHO, 2002, p.21.)
Portanto, a fundação do CEC não significou uma imediata mudança de atitudes das práticas exclusivamente assistencialistas das entidades estudantis da época. O seu aparecimento, porém, pode ser visto por outro viés, como o início do processo de mudança de atitude em relação às tradicionais atividades das agremiações estudantis existentes, pois, começou a fomentar outros sentidos e objetivos ao Movimento Estudantil cearense. Estas mudanças ficaram mais evidentes anos depois da fundação do CEC, como podemos averiguar no discurso de um orador do CEC por ocasião do Dia do Estudante, dito no Theatro José de Alencar, mencionado por Álvaro Lins Cavalcante na Revista do Clube de Estudos Complementares do Liceu do Ceará (Ano III, nº3) e citado por Bráulio Ramalho.
Teve como objetivo essencial congregar num só bloco a classe estudantina do Ceará, então empenhada nas pequenas pugnas tradicionais entre colégios ou abrasando-se no entusiasmo estéril dos grêmios literários, alheiada inteiramente do espírito ativo e combativo deste século. (CAVALCANTE, 1939:9 apud RAMALHO, 2002, p.19-20)
Só que a tal mudança de atitude não significou uma mudança de cunho radical nas práticas tradicionais das agremiações estudantis, ela não foi uma atitude de contestação da ordem vigente do Estado Novo Varguista. É bem verdade que houve uma maior participação dos membros do CEC na política, mas esta participação foi no intuito de amenizar ou até impedir a proliferação de ideais e de ações indesejadas consideradas nocivas para os vários segmentos da classe dominante em Fortaleza, dentre elas também o clero, muito conservador e influente naquela época.
Tais indicações parecem evidenciar que a criação do CEC foi uma forma de antecipar-se e/ou apaziguar movimentos estudantis mais radicais que germinavam. No período de 1930 a 1932, verifica-se nos jornais locais, notícias de manifestações contra a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas, do pagamento de taxas e pela conquista de meia entrada nos cinemas, bondes, teatros, ônibus e etc. Tais atos concentraram-se nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Normalmente culminavam em confronto com a polícia e foram bastante explorados pela imprensa conservadora da cidade, principalmente o jornal católico O Nordeste.

Estes fatos dão uma explicação ao medo inicial dos diretores das escolas, frente ao CEC. Estes temores, entretanto, logo foram vencidos quando o caráter assistencialista e colaborador da nova entidade evidenciaram-se. Já no ano de 1932, foi possível encontrar nos periódicos locais, notícias de festividades do CEC apoiadas pelos mesmos dirigentes.

De qualquer forma é inegável que a fundação do CEC, estava ligado à conscientização do momento propício para as aspirações arrivistas e corporativas dos estudantes. (MUNIZ, 2004.)
Aos poucos, porém, começamos a identificar algumas inclinações políticas e ideológicas de parcelas de jovens nos anos 1930, fruto com certeza dos acirramentos entre doutrinas ideológicas antagônicas no âmbito mundial, afinal, estávamos em pleno período entre as Guerras Mundiais, Crise do Capitalismo e surgimento dos Regimes Totalitários, de um lado o nazifascismo e do outro o stalinismo. “[...] a efervescência política nos anos 30 se fazia sentir no seio da entidade (CEC). Integralistas, comunistas e estudantes com posições de centro travavam infindáveis e acalorados debates.” (RAMALHO, 2002, p. 36.).

Neste sentido, nada mais comum que estes sentimentos ideológicos e políticos chegassem ao Brasil e também as terras alencarinas. “No início de 1935 foi fundada em âmbito nacional a Aliança Nacional Libertadora, sob orientação do Partido Comunista do Brasil. [...] No Ceará, é instalado em 22 de maio do mesmo ano uma secção da ANL67 (RIBEIRO, 1989:42 apud RAMALHO, 2002, p.67.). Neste contexto surge um agrupamento político com participação específica de rapazes com influências ideológicas e políticas da ANL e do PCB68 dando origem a uma nova entidade, a UDE69. Com o fracasso da Intentona Comunista de 193570, esta organização política e estudantil também “entra em refluxo. Permanece também inativa ao longo do Estado Novo71. Porém, em 1942, quando começam as primeiras mobilizações contra o nazi-fascismo72, a UDE ressurge”. (RAMALHO, 2002, p.69.). A partir de então, os jovens cearenses de esquerda, iniciam uma longa trajetória de participação efetiva no Movimento Estudantil, serão esses jovens esquerdistas que estarão à frente dos principais eventos na segunda metade deste século, tanto em Fortaleza como no restante do Brasil. Do outro lado ideológico, tivemos uma participação da juventude de direita, ligada tanto a Igreja como aos integralistas da AIB73. Esta mocidade era justamente a ligada ao CEC, a respeito disto Altermar Muniz comenta que:


Francisco Arruda – presidente do CEC por nove anos consecutivos – foi convidado para lançar-se deputado estadual ou vereador pela LEC. Recusou o convite, mas convocou uma assembléia centrista para a escolha de dois nomes, dentre os membros da entidade, para candidatarem-se. Foram escolhidos os nomes de Marcos Botelho (para vereador) e Lourival Corrêa Pinto (para deputado estadual). Ambos, filiaram-se na Liga Eleitoral Católica e elegeram-se. A opção pela LEC é mais uma comprovação pela opção por um projeto político específico.

A LEC foi criada pela Igreja Católica para influir de modo direto na vida política do país. Esta preocupação surgiu pelo fato da Igreja, no período de 30, ter mudado seu estatuto jurídico na sociedade brasileira. Menosprezada pelo Estado laico e liberal da República Velha, passou a prestar concurso espiritual e ideológico ao fortalecimento do Estado e do bloco das classes dominantes, face à ascensão política das classes subalternas. Como não agradasse à cúpula da Igreja a fundação de um partido político, optou-se por uma frente suprapartidária: a LEC. Possuía a finalidade de instruir, congregar e alistar o eleitorado católico, assegurando aos candidatos dos diferentes partidos a sua aprovação pela Igreja e conseqüentemente, o voto dos fiéis74. (MUNIZ, 2004)


Neste período é criada uma entidade que tinha a intenção de aglutinar em nível nacional todos os estudantes brasileiros, a UNE e o CEC tem participação importante nesta criação demonstrando mais uma vez o protagonismo e pioneirismo do Movimento Estudantil Alencarino e de sua entidade mais significativa, o CEC. Esta participação foi tão incisiva que rendeu ao Movimento Estudantil local, via CEC, a indicação à vice-presidência da UNE.
[...] até 1943, o CEC manteve-se como sinônimo de estudantes secundaristas e universitários no Estado do Ceará. Monopolizou tal representação também nos eventos nacionais, como na fundação da UNE em 1937. Neste, teve um papel de destaque, como se percebe da escolha do representante do CEC, Walter de Sá Cavalcante, para discursar em nome da entidade na audiência com o presidente Getúlio Vargas. Neste mesmo congresso, Walter de Sá é eleito primeiro vice-presidente da UNE.75 (MUNIZ, 2004)
Mas, o crescimento da UNE, juntamente com a sua campanha antifascista, vai ocasionar a decadência política do CEC:
A própria estrutura que dava sustentação ao CEC, entrou em crise; pois a defesa dos ideais democráticos contra o nazifascismo por tabela atingia o Estado Novo, que fingindo não caber a si as críticas contra os regimes italiano e alemão, se viu obrigado a ceder espaços para a criação de oposições internas e de uma distensão política. É sintomático que o fim da hegemonia do CEC coincida com a crise do Estado Novo. (MUNIZ, 2004)
O Movimento Estudantil fortalezense gradativamente participa de muitos dos mais importantes eventos históricos ocorridos ao longo da segunda metade do século XX, até chegarmos ao Movimento “Cara Pintada” em 1992, quando a juventude fortalezense teve importante e destacada atuação. Veremos esta atuação do Movimento Estudantil em Fortaleza mais adiante.

2.4. A Juventude no Contexto do início dos anos 1990.
Geralmente é comum termos em mente a memória de juventude combativa aquela que marcou o fim dos anos 60 e início dos 70, durante os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar em nosso país. Como aborda Andreza Barbosa:
Quase sempre, quando pensamos em movimento estudantil nos vêem à mente a imagem dos estudantes da década de 60 lutando contra a ditadura militar. No entanto, por que praticamente só nos recordamos dessa fase do movimento estudantil? O que teria acontecido ao movimento estudantil nos anos subseqüentes e, principalmente, a partir da década de 90? Teria ele se desarticulado ou desorganizado? Quais as causas responsáveis por sua desarticulação? A indignação cedeu lugar ao conformismo? Onde foi parar a utopia, tão necessária para o caminhar da história? (BARBOSA; 2008 p.53. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)
Porém, o engajamento político do Movimento Estudantil não foi algo restrito aos anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar, nos anos 60 e 70 do século passado. Os jovens do final do século demonstraram que apesar de viverem num momento histórico distinto, eles também deixaram sua marca combativa e de luta na historiografia brasileira.
Assim, para analisar o processo de socialização política dos jovens brasileiros dos anos 90 é preciso considerar os diversos aspectos do ambiente social em que vivem esses jovens. Considerando a globalização em curso, não se pode deixar de considerar os aspectos relacionados à situação internacional, que fazem parte do cotidiano, principalmente através da mídia de consumo. Mas, o foco das atenções é a realidade do país. (SCHMIDT, 2001; p.125.)
Mas, quem eram mesmo estes jovens? Nem todos eram organizados e politicamente conscientes de seu papel histórico, assim como também não podemos dizer que aqueles atores históricos não conscientes da sua força política, eram seres completamente alienados e totalmente alheios aos acontecimentos em sua volta. Não podemos generalizar, não podemos cometer um reducionismo, ao contrário precisamos observar com mais atenção, com análises mais profundas, como se portava esta complexa e tão ampla juventude dos anos 90.

Porém, obviamente, como eram seres de seu tempo e de acordo com pesquisas realizadas por especialistas no estudo acadêmico da juventude citada pela Revista Isto É! Podemos ter algumas noções de como pensava e agia uma boa parcela dos jovens brasileiros da década de 1990. “A geração dos anos 90 não quer mudar o mundo. Muito pelo contrário. Quer viver bem com muito prazer dentro do capitalismo, respeitando a família e a propriedade.” (ISTO É!, Abril de 1993; in: OLIVEIRA, 1993; apud SCHMIDT, 2001; p.195.).


2.4.1. As Influências da Mídia Entre a Juventude dos anos 90.
Neste sentido, o apagar das luzes do século XX, século este sem dúvida marcado por intensas atividades revolucionárias no âmbito do protagonismo juvenil em vários setores: como no cultural, com destaque no campo musical ao advento do Rock and Roll, com Beatles e Rolling Stones; entrando no aspecto da revolução sexual, no uso de drogas e entorpecentes; nas variadas formas de expressar a liberdade de expressão, como na evolução do vestuário e adereços e tantos outros que não caberia aqui discorrer sobre eles. Há também de se destacar como as diversas gerações assimilaram e/ou foram assimiladas pelo progresso da ciência e da tecnologia, pois novos incrementos científicos e tecnológicos tem também um grau de importante de interferência na vida cotidiana e marca uma geração, “fala-se, frequentemente também, que os meios de comunicação, particularmente a televisão, estariam alterando profundamente os hábitos e comportamentos dos cidadãos, especialmente os jovens.” (SCHMIDT, 2001; p.3.) A mídia vem seguindo os avanços, se adequando aos novos procedimentos técnicos e científicos, no caso específico da televisão, a intromissão social é algo que foi imensurável para as recentes gerações, o seu poder de moldar, de criar e destruir foi incisivo na formação da geração dos anos 90, pois aliadas aos novos paradigmas econômicos em voga nestas décadas, “abundam as interpretações que detectam na nova geração o predomínio do consumismo, individualismo, conservadorismo e descompromisso com o sendo comunitário.” (SCHMIDT, 2001; p.194.)
[...] a literatura recente indica que uma das facetas da juventude hoje é o aumento da sua diversidade. [...] Mas, por outro lado, a literatura também registra fatores homegeneizadores, que no contexto da chamada “globalização!, têm um alcance planetário. Entre tais fatores, no plano cultural o principal é a chamada cultura de massa – cujo principal instrumento é a mídia -, a qual difunde não só produtos, mas também valores, estilos de vida e orientações políticas. (SCHMIDT, 2001; p.192.)
Então, nessa tentativa de analisarmos as formas de pensar, falar, agir de moças e rapazes “no contexto da ‘videopolitica’ dos anos 90, vemos que “a televisão é um ator fundamental [...] um meio de comunicação com alto poder de incidência na formação da opinião pública, ainda mais considerando o nosso elevado índice de analfabetismo.” (SCHMIDT, 2001; p.158.), se faz fundamental realizarmos este estudo sobre a influência midiática sobre esta chamada “geração 90”.

Outro elemento, talvez, o mais importante do que o simples aparelho de TV é sabermos quem são os donos da mídia. Aqueles que controlam os meios de comunicação são os reais responsáveis por todo o processo de alienação, de comodismo, de anestesia social em que considerável parcela da população vivia nos anos 90 e ainda vivem nos dias atuais. Identificar os proprietários que controlam a mídia em nosso país nos ajuda a reconhecer quem são os membros de um poderosíssimo segmento de nossa elite política.


A concessão de canais de televisão até a Constituição de 1988 foi prerrogativa do Presidente da República, e não só os presidentes militares, mas também o Presidente Sarney (1983-1989)76 fez farta distribuição de concessões a grupos, boa parte deles chefiados por políticos de sua base de apoio. Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) apontou em 1994 que o Congresso nada menos de 76 parlamentares eram empresários da comunicação, alguns deles concessionários de várias emissoras77 [...] O rádio e a TV brasileira estão concentrados nas mãos de 9 grupos e famílias. O poder do Congresso previsto na Constituição de 1988, de decidir sobre a concessão e renovação de concessões, não alterando esse quadro. (LISBOA, 1994; apud SCHMIDT, 2001; p.159.)
Lembremos que os parlamentares no exercício do cargo em 1994, como indica a citação, faziam parte da legislatura (1991-1994), e foram, portanto, os parlamentares que julgaram favoráveis ao impeachment de Collor em 1992. Destaque também, na nota de rodapé que destrincha os “donos da mídia” no Brasil, observe o que o Grupo Verdes Mares é citado como dominado pela Família Jereissati, na verdade é pela Família Queiróz, o que na prática não tem muita diferença em termos de interesses na manutenção de determinada ordem política, social e econômica. Pois, “o aparato midiático constitui-se ele mesmo em força política, com interesses próprios e uma relativa autonomia, mas sem que isso nos faça esquecer vínculos com os agentes políticos e forças econômicas.” (SCHMIDT, 2001; p.159.)
As implicações da relação entre a mídia e política para o processo de socialização dos jovens é ambígua no que toca à consolidação de uma cultura política democrática e participativa. A mídia tem favorecido a desconfiança frente as instituições e agentes políticos, reforça por vezes a ineficácia politica do cidadão comum ao “naturalizar” os acontecimentos políticos e dá motivos para a apatia ou o descompromisso em relação à vida politica institucional. (SCHMIDT, 2001; p.161.)
Então, como veremos mais adiante quando formos nos aprofundar nas ações do Movimento Estudantil brasileiro nas mobilizações pelo afastamento do Presidente Fernando Collor, principalmente nesta atuação em Fortaleza, com a atuação da juventude local. Este assunto, mídia e política, voltará a tona, pois buscaremos demonstrar a intromissão midiática nos rumos que os agentes juvenis pretendiam incorporar ao movimento pelo Fora Collor, queriam alguns estudantes ultrapassarem as barreiras que limitavam aos protestos o infértil intuito de apenas depor o presidente, pretendiam alguns deles introduzirem um inimigo muito mais ofensivo para o Movimento Estudantil naquele momento, o projeto neoliberal e as consequentes privatizações do ensino público e gratuito.
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