O projeto de pesquisa em história



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INTRODUÇÃO
O presente trabalho monográfico tem como objetivo central buscar contribuir na investigação histórica de um dos mais importantes acontecimentos da História recente, que foi o processo de afastamento de Fernando Collor de Mello da Presidência da República, culminando com a perda do seu mandato de chefe do executivo federal ao final do ano de 1992, apesar do mesmo ter renunciado ao cargo para evitar sua condenação. Nesta pesquisa acadêmica, tivemos a pretensão de analisar o impeachment1 de Fernando Collor, através principalmente da visão que o Movimento Estudantil2 teve do mesmo, pois foi justamente a ação dessa juventude organizada em torno das principais Entidades Estudantis existentes a época, como a UNE3, a UBES4, os DCEs5 e a UMES6, que organizou e protagonizou em parceria com outros setores dos movimentos sociais organizados, as principais manifestações de rua durante o Fora Collor. Entretanto, foi o Movimento Estudantil que ao longo destes eventos se constituiu no mais marcante segmento social envolvido no fim da Era Collor no Brasil.

José d’Assunção Barros, cita em seu livro, o projeto de pesquisa em história, que “iniciar uma pesquisa, [...] é partir para uma viagem instigante e desafiadora.” (BARROS, 2005, p.9.). Sendo assim, este trabalho monográfico a princípio, quando ainda se encontrava na fase de projeto, tinha como principal objetivo realizar uma análise histórica das principais ações políticas do Movimento Estudantil, em Fortaleza, durante toda a década de 1990. Porém, ao nos defrontarmos com a complexidade e a amplitude deste recorte, nos foi posto a necessidade de mudá-lo e refazê-lo com novos contornos. Novamente nos pautando em José d’Assunção Barros, a pesquisa na História “é um instrumento flexível, [..] todo projeto é provisório, sujeito a mutações, inacabado (BARROS, 2005, p.10.). Portanto, após leituras e releituras, depois de um retorno ao passado através das fontes existentes, também tendo como um ponto norteador às memórias deste historiador que vos escreve - contemporâneo do período histórico aqui recortado - caminhamos em direção de uma nova proposta, decidimos focar nossas atenções e intenções na atuação do Movimento Estudantil em Fortaleza durante o Fora Collor, em 1992.


O caminho da pesquisa deve ser construído a cada momento pelo próprio pesquisador. Até mesmo a escolha do lugar a ser alcançado ou visitado não é mera questão de apontar o dedo para um ponto do mapa, pois este lugar deve ser também ele construído a partir da imaginação e da criatividade do investigador. (BARROS, 2005, p.9.)
Com essa nova delimitação temática, fomos colocados diante da produção desafiadora de um estudo acerca de um evento bastante recente, muito presente ainda nas relações pessoais, sociais e políticas no Brasil. A respeito deste desafio o antropólogo Roberto Da Matta:
Tece alguns comentários que devem ser considerados: a eventos distantes no tempo corresponde uma predominância de interpretações acadêmicas em contraste com interpretações políticas; o evento está mais “frio”, para usarmos um qualificativo usado por Lévi-Strauss. Concomitantemente, um evento mais próximo do tempo é um fato ainda se desenrolando entre nós. Um episódio que não esgotou suas ondas de impacto. Daí, certamente, as dificuldades de uma interpretação “fria” acadêmica e a multiplicidade de interpretações políticas. Trata-se de um episódio “quente”, que se desenrola diante dos nossos olhos, e que ainda depender de nossa ação sobre ele. 7 (BARROS, 2005, p.29.)
Em nossa percepção, este trabalho, torna-se relevante justamente por se tratar de um tema ainda muito “quente” parafraseando Da Matta e sendo assim, com muitas possibilidades para serem percorridas, muitas dúvidas a serem questionadas, ou seja, é um momento da nossa História que anseia ser estudado e melhor compreendido para conceder a sociedade “novos olhares” a seu respeito. Neste sentido, além de ser uma temática com muita relevância - não somente para a academia, mas a sociedade como todo - ainda nos proporciona inquietações, por se constituir numa pesquisa original, pois, o nosso objeto geral de estudo, o Movimento Estudantil, de fato tem sido recorrentemente trabalhado na academia, assim como o nosso tema central, o “Fora Collor”. Porém, a nossa proposta com recorte espacial em Fortaleza praticamente não possui abordagens que se debrucem em cima de seus sentidos e de suas interpretações.

A problemática desse trabalho monográfico será procurarmos identificar e entender alguns dos motivos que trouxeram os jovens de volta aos protestos de rua, a participação política e cidadã diante de um quadro de grave crise política gerada por denúncias contra o Governo Collor. Esse questionamento é essencial, pois, o Movimento Estudantil estava ausente das lutas políticas em nosso País desde os idos da resistência contra a Ditadura Civil Militar, nos anos 1960. E neste sentido, surgem várias hipóteses relacionadas ao nosso objetivo central desses jovens: estariam eles apenas interessados no afastamento do Presidente Collor? Ou seja, esse retorno estava ligado somente à questão da ética na política e no combate a corrupção nas instituições governamentais? Mas, será que haveria outras motivações para o retorno das maciças mobilizações estudantis? Poderíamos identificar que essa nova geração teria sido influenciada pelas recentes e profundas mudanças conjunturais, tanto a nacional como a nível internacional? E ao pensarmos na situação política do Estado do Ceará e em sua capital naquele momento histórico, quais teriam sido os possíveis elementos locais acrescentados que podem ter favorecido o renascer de um sentimento de rebeldia e contestação na juventude fortalezense naquele início de década?

Nesta monografia usamos mesmo que ainda de forma superficial algumas fontes e recorremos às referências bibliográficas contidas na literatura existente e acessível, visto que, como já mencionamos, a historiografia pesquisada aborda essencialmente o movimento Cara Pintada e o Fora Collor no eixo Rio-São Paulo. No decorrer desta pesquisa apareceram novas perspectivas dentro desta nossa investigação e por ser ter sido um trabalho bem flexível em relação aos instrumentos utilizados, recorremos a jornais e revistas, que a princípio não estavam contemplados em nosso projeto, mas que durante a investigação se tornaram necessários para contribuir com uma maior amplitude das informações necessárias a concretização deste trabalho. Na utilização de jornais, pretendíamos usar os jornais locais O Povo e Diário do Nordeste, mas acabamos por incluir também os jornais Tribuna do Ceará, Folha de São Paulo e o potiguar Tribuna do Norte. Nessas análises de jornais procuramos tecer uma leitura não dogmática dessa fonte, segundo a orientação de José Honório Rodrigues8: “Embora tornasse o jornal como uma das ‘principais fontes de informação histórica’, ponderava que ‘nem sempre a independência e exatidão dominam o conteúdo editorial’, caracterizando como ‘mistura do imparcial e do tendencioso, do certo e do falso’” (DE LUCA, 2008, p.115-116 in: PINSKY.). No que se refere ao uso de revistas, usamos as revistas “Veja” e “Isto É”, mesmo sabendo que as referidas revistas fizeram um apanhado mais voltado ao eixo Rio-São Paulo, isso se fez importante para termos uma noção da compreensão nacional do momento histórico e realizarmos uma comparação aos seus reflexos em Fortaleza.

Entretanto, é de fundamental importância que esta investigação não tenha um caráter de neutralidade científica. Não podemos e nem pretendemos realizar algo como tal, pois o engajamento político-ideológico está contido na formação do pesquisador e justamente por sabermos que “os interesses dos historiadores variaram no tempo e no espaço, em relação direta com as circunstâncias de suas trajetórias pessoais e com suas identidades culturais.” (JANOTTI, 2008, p.10. in: PINSKY.) Ressaltamos também que mesmo esse recorte temático tenha sido por motivado e sofrido influencia devido à inquietação pessoal do historiador autor deste trabalho, não tivemos a pretensão de personalizarmos e nem de doutrinarmos esse trabalho acadêmico, mas sem rejeitarmos o engajamento entre o pesquisador e a pesquisa.


O argumento em favor das vantagens do engajamento deve ser o que faz a ciência avançar. Ele pode fazer isso, e assim o fez, na medida em que fornece um incentivo à mudança dos termos do debate cientifico, um mecanismo para injetar, a partir de fora, novos tópicos, novas perguntas e novos modelos de resposta. (HOBSBAWN, 2000, p.150.)
No primeiro capítulo deste trabalho, pretendemos dar alguns passos cronológicos para trás em relação ao objeto principal desta nossa pesquisa, ou seja, caminharemos primeiramente de volta ao ano de 1989 aonde veremos com se deu a construção do fenômeno eleitoral Fernando Collor de Mello, “o caçador de marajás”.
As eleições presidenciais de 1989 apresentaram singularidades importantes. [...] A mística das eleições diretas – das quais, por tanto anos, o País fora privado – exerceu forte influência sobre os ânimos dos homens públicos, assim como o povo. (SANTOS, 2010, p.109)
A vitória de Fernando Collor será vista por vários olhares neste momento, para o próprio a confirmação de seu personalismo, de sua suposta força inatingível junto às camadas mais carentes e a certeza de que era imprescindível para uma grande parcela abastada da população; para esses setores abastados, Collor, era o “mal menor”, pois fora quem impediu o “mal maior”, as vitórias de Lula ou de Brizola; para os eleitores, era a certeza de que a situação de miséria e a falta de perspectivas iria mudar e finalmente para os setores de esquerda derrotados, ele seria um caos, com o seu projeto de modernidade.
No caso aqui focalizado, nas eleições de 1989 os eleitores levaram ao poder não o semelhante a eles, como Lula representava do ponto de vista simbólico, mas seu antípoda. Nessa relação, o outro, por ser diferente essencialmente por isso, representa o salvador. Collor não se apresenta em nenhum momento como igual às massas, talvez por isso mesmo canalizando suas esperanças. [...] Collor realizará através da imagem o desejo da massa de ser rica, fisicamente saudável e “moderna”. [...] Nesse sentido, Collor surge como uma imagem espetacular que reflete dois imaginários: a representação como moderna que de si faz a elite e a representação que de si constrói a maioria do eleitorado, ou seja, como suficiente débil para reclamar um protetor, um salvador. (MENDONÇA, 2002, p.183-184.)
Em seguida continuaremos tentando identificar os acordos estabelecidos, as rupturas ocorridas e os embates surgidos entre o então presidente Fernando Collor e seus aliados, ex-aliados e antigos adversários ao longo de seus dois anos e meio de mandato (março de 1990 até setembro de 1992), ou seja, da posse como Presidente da República até o seu afastamento oficial do cargo. No intuito de termos uma visão mais abrangente do momento histórico vivenciado pelo Movimento Estudantil em Fortaleza em 1992, na campanha que culminou com a renúncia do então Presidente Fernando Collor, precisamos entender como se deu a construção e a representação de sua imagem. Numa receita muito parecida da usada pelo regime militar para garantir seus interesses, o uso da mídia foi de fundamental importância para o sucesso da criação do “Caçador de Marajás” 9. Podemos relacionar esses momentos a partir do que afirma Daniel Aarão Reis Filho, na obra, Ditadura militar, esquerdas e sociedade no Brasil”:
Havia um processo não mensurável em réguas ou em números, o da integração do país pelas redes de TV, principalmente pela Rede Globo. Aí estava o lazer fundamental para a população. O mundo das novelas, principalmente, e o das variedades e o do telejornalismo. Aquela teia conseguiu estabelecer uma notável interlocução com a sociedade, confrontando, integrando, embalando, anestesiando, modernizando. (REIS FILHO, p.8)
A mesma mídia foi essencial também para a deposição de Collor quase três anos após a sua eleição, a respeito, João Roberto Martins Filho, em sua obra, “A guerra da memória: a ditadura militar nos depoimentos de militantes e militares” cita que:em câmara lenta – cujo nome já diz tudo – tornou-se uma das fontes inspiradoras do roteiro da mini-série Anos rebeldes, que foi ao ar em julho de 1992, a tempo de alimentar a rebeldia juvenil que se expressou na campanha pelo impeachment de Fernando Collor”. (MARTINS FILHO, 2003, p.5)

No segundo capítulo fizemos um rápido resgate histórico do Movimento Estudantil, procurando identificar a sua gênese de forma sucinta em nível mundial, nacional, até chegarmos às suas origens em Fortaleza. Em seguida observaremos o processo de fortalecimento e a construção histórica do Movimento Estudantil ao longo do século XX em nosso País, na ocasião discutimos brevemente a velha dicotomia existente na literatura histórica entre a juventude dos anos 60 com a dos anos 90. Percebemos a necessidade de discorrer sobre um breve resgate histórico deste contexto, visto que em meados dos anos 1980 houve o declínio de um regime totalitário em nosso país10. De acordo com a versão oficial o Movimento Estudantil estava em declínio a partir da década de 1970 e somente em meados dos anos 80 do mesmo século é que o mesmo ressurgiria, porém, como menciona Andreza Barbosa, já não seria para muitos o mesmo Movimento Estudantil de outrora.


Nas décadas de 80 e 90, o movimento estudantil tornou-se totalmente fragmentado e desarticulado. [...] O “ano de 1992 parece ter sido um importante exemplo de reaproximação efetiva dos jovens da política, através da participação no processo de ‘impeachment’ do então presidente Fernando Collor de Melo”. (BARBOSA, 2008, p.54-55. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO)

Sendo considerado por boa parte da historiografia oficial como a consolidação do ressurgimento do Movimento Estudantil, pois o mesmo encontrava-se paralisado e talvez pela falta de “inimigos”, como foi a Ditadura nas décadas anteriores. É quando, no início da década de 1980, iniciou-se mundialmente uma nova ordem geopolítica com o nascimento do chamado neoliberalismo no Reino Unido e nos Estados Unidos durante os governos de Margareth Tatcher e de Ronald Reagan respectivamente. Também neste mesmo período, o mundo foi abalado com a crise do chamado “Socialismo Real”11 que culminou com a Queda do Muro de Berlim12 em 1989 e o fim dos Governos ditos socialistas e em 1991 com o fim da U.R.S.S 13. A repercussão dessa nova conjuntura geopolítica, com interferências econômicas e sociais chegou ao Brasil praticamente na data da eleição do novo Presidente da República14, Fernando Collor de Melo, em 1989 colocou o Brasil no rol dos países que aderiram ao projeto neoliberal em sintonia com os anseios dos interesses capitalistas internacionais: “os eleitores do Brasil, elegeram para Presidência com base em que devia ser digno de confiança, pois nunca tinham ouvido falar nele antes”. (HOBSBAWN, 1995, p.407.) Só que o primeiro sinal dessa política neoliberal já começava a ser sentido no Brasil com a ascensão ao governo estadual do Ceará do grupo político capitaneado pelo então jovem empresário Tasso Ribeiro Jereissati, que deu início ao ciclo político que ficou conhecido como o “Governo das Mudanças” 15: “O Ceará fez pioneiramente no Brasil o que o jargão neoliberal chama de ‘ajuste fiscal’, isto é, fortaleceu as finanças públicas, fosse aumentando as receitas, fosse diminuindo as despesas”. (FARIAS, 2007, p.308.)

Após já termos nos capítulos anteriores ambientado o nosso tema principal na conjuntura da construção e desconstrução da imagem de Collor e da aplicação do seu projeto político neoliberal (capítulo 1) e de contextualizar o Movimento Estudantil e os dilemas da juventude brasileira entre as décadas de 1980 e 1990 (capítulo 2) é que finalmente entramos no terceiro capítulo tratando do ponto central de nossa monografia, que é a ação e a compreensão da juventude fortalezense no processo político de afastamento do então presidente Fernando Collor. É justamente neste capítulo que encontraremos a indagação central do nosso trabalho, pois segundo a historiografia oficial a respeito do tema a juventude que participou das manifestações populares em defesa do afastamento do Presidente Collor, estava ali sem uma compreensão mais profunda dos seus reais motivos, era uma juventude totalmente alheia aos significados políticos e ideológicos existentes naquela crise governamental. Procuramos através das fontes buscar outro sentido a esta visão oficial, identificamos que muitos daqueles rapazes e daquelas moças que foram as ruas em Fortaleza, tinham sim, um entendimento político e ideológico que superava o simples afastamento do então presidente Collor. Pretendia, este segmento da juventude ir além da palavra de ordem reformista: “Fora Collor”.


  1. A ASCENSÃO E A DEPOSIÇÃO DO PRESIDENTE “COLLORIDO”.

A História republicana na chamada Era Brasil Novo16, se faz presente e com fundamental importância para a elaboração deste estudo acadêmico. Pois, no intuito de realizarmos um olhar mais amplo sobre os acontecimentos que tanto levaram o senhor Fernando Collor à presidência da República em 1989, como anos depois, em 1992, o subtraíram deste mesmo cargo. Este procedimento metodológico permitirá um maior acúmulo saberes entre a eleição e a deposição do Presidente Fernando Collor de Mello. A partir da posse e análises destes elementos pretéritos, poderemos produzir um entendimento do posterior movimento “Cara Pintada” em Fortaleza. Com este critério, buscaremos fazer o estudo do nosso objeto não de forma isolada e desconectada da realidade conjuntural daquele momento, mas, como um evento político interligado ao complexo contexto existente no cenário nacional durante o episódio do “Fora Collor”. Portanto, essa reflexão sobre o pensar História neste trabalho entra em sintonia com:


A História Imediata, [...] ela não existe sem as experiências pretéritas, ela se abre sempre para possibilidades mais ou menos palpáveis, sem descartar o acaso – e não para um vazio. Este estar entre o passado e o futuro realça a necessidade teórica, pedagógica e política de se pensar sobre a História Imediata, sem nela permanecer, e expressa um projeto de Conhecimento Histórico auto-reflexivo, que pretende refletir sobre seu processo e a sociedade em que ocorre, sem assumir um mero papel legitimador daquele mundo e de si mesmo. (SILVA, 2006, p.94.)
Mantendo este mesmo “fio condutor”, entendemos que:
O Conhecimento Histórico ganha muito quando incorpora o imediato em seu universo, mas perde mais se ficar restrito a este mundo, como presente contínuo. Um de seus objetivos pode ser sair deste círculo vicioso, permitindo a compreensão de experiências sociais em diferentes temporalidades. (SILVA, 2006, p.85.)
Deste modo, a nossa pesquisa, que se edifica na análise de um evento histórico imediato, produzindo um conhecimento de experiências em temporalidades distintas compactua também com o jornalista cearense Arnaldo Santos, que em sua recente obra denominada “Impeachment – Ascensão e Queda de um Presidente” menciona que:
O impeachment de um presidente deve ser estudado desde o momento das articulações da sua candidatura. [...] que se busque a compreensão do alijamento de um presidente pelos laços de compromissos que tenham sido formados e rompidos, constituindo apoio e, mais tarde, quando de sua destituição, isolamento, respectivamente. (SANTOS, 2010, p.79.)
Assim, a partir do raciocínio de Arnaldo Santos, o movimento pró-impeachment do presidente Fernando Collor deverá ser compreendido a partir de uma observação que se inicia desde as articulações políticas feitas ainda no processo eleitoral de 1989, passando pelas circunstâncias existentes na formação das alianças de sustentação política do Governo eleito e continuando com as ocorrências que provocaram o rompimento dessas alianças durante a crise política estabelecida e concluído finalmente com o fim da denominada “Era Collor”.

Em outras palavras, o impeachment de Fernando Collor de Mello seria, portanto, resultado de um processo que fez parte de um projeto de poder de setores da sociedade brasileira, que foi construído com a eleição de Collor, descontruído com o seu afastamento e novamente reconstruído após a sua renúncia com o estabelecimento de um novo governo.




    1. A Formação do Mito na Eleição Presidencial de 1989.




      1. A Eleição Presidencial de 1989.

Após vinte e nove anos, a população brasileira enfim retornaria as urnas para escolher de forma direta e democrática seu futuro Presidente da República.


O Brasil vinha de um longo período de exceção, sem eleições diretas para a Presidência. Remontava ao ano de 1960 o último prélio presidencial. Saudava-se a democracia – com grande entusiasmo – pela imprensa. E a sociedade em geral partilhava deste entusiasmo (SANTOS, 2010, p.87.).
A euforia era notória e contagiante em vários segmentos da sociedade nacional. Também era eufórica a pretensão de vários candidatos que lançaram seus nomes ou os tinham lançados por correligionários à presidência, cada um, cada grupo e cada partido refletindo sobre as suas reais condições de sucesso no pleito que se aproximava. Dentre esses candidatos, havia um até então desconhecido, tanto para a maioria das massas populares como para a maioria dos setores da classe dominante nacional. “O clima político assim formado favorecia a imagem de auto-sufieciência, por parte de um jovem líder politico, entusiasmado com a sua própria consagração popular” (SANTOS, 2010, p.87.). Este jovem era Fernando Afonso Collor de Mello, então Governador de Alagoas.
A eleição de Fernando Collor de Mello para a Presidência da República representou uma surpresa para os analistas do quadro político brasileiro. Embora já fosse esperada no final da campanha, dados os resultados das pesquisas de intenção de votos, a verdade é que poucos foram capazes de prevê-la quando o candidato mostrou disposição de concorrer no início de 1989. De fato, era difícil imaginar que um “outsider” pudesse derrotar simultaneamente todos os partidos mais ou menos estabelecidos no país, todas as máquinas governamentais e as demais lideranças, nacionais e regionais, que também pretendiam se candidatar. (SINGER, 1990, p.135. In: LAMOUNIER; 1990.)
Fernando Collor possuía certa tradição familiar na política, o avô, Lindolfo Collor, fora ministro do Trabalho no Governo de Getúlio Vargas; o pai, Arnon Mello, fora Senador da República; o jovem político tinha um histórico até certo ponto considerável, apesar de ainda ser desconhecido para o grande público, ele havia sido deputado federal, prefeito de Maceió [prefeito biônico] e governador [Alagoas]. Ele, Fernando Collor, era jovem, bem apessoado, cosmopolita, poliglota, bacharel em Economia, tendo um título de graduação na área de Comunicação Social. (SANTOS, 2010, p.123.). Collor começou a ficar conhecido, quando eleito pelo PMDB em 1986, (alavancado pelo sucesso momentâneo do Plano Cruzado17) tornando-se Governador de Alagoas. Durante o seu Governo notabilizou-se por perseguir os servidores públicos estaduais, ganhando a alcunha de “Caçador de Marajás”18. Tudo não passou de uma inteligente jogada de marketing publicitária, que tanto servia para criar uma imagem de honestidade e bom administrador, como para iniciar a legitimação de uma nova política econômica e social usando o serviço público como vilão. Ou seja:
Para suprir o imaginário do mundo invertido, o outro como bode expiatório dos males sociais. Esse outro é representado pelos funcionários públicos, colocados todos no caldeirão do “marajaísmo” de um Estado “paternalista” e “ineficiente”. (MENDONÇA, 2002, p.75.)
Esse repentino sucesso o fez ao final de 1988, colocar-se como um dos presidenciáveis, bem da verdade, o governador [de] Alagoas não esperava eleger-se Presidente. Além de um ministério, do Senado Federal, cogitava [a] Vice-Presidência da República. (SANTOS, 2010, p.107.)

Antes mesmo de chegar o ano da tão aguardada disputada pela presidência da República, tanto nos bastidores dos altos escalões das decisões políticas, como nos ambientes mais populares, já se comentavam ansiosamente a respeito da pugna presidencial que se aproximava, havia um envolvimento amplo de segmentos da sociedade civil e social, que apostaram suas fichas em determinados candidatos e a recíproca também existiu, quando candidatos correram atrás dos apoios essenciais desses segmentos para o sucesso de sua epopeia eleitoral.


Partidos precisavam de candidatos eleitoralmente viáveis; Estados e forças regionais, federações sindicais, igrejas, federações empresariais, grupos sociais difusos, todos procuravam um candidato, ou uma personagem para o papel de candidato a presidente e para o papel de presidente. Os dois papéis são diferentes. É preciso escolher um ator que saiba desempenhar os dois papéis. E os candidatos buscavam apoios nas expressões da sociedade civil, tais como federações de sindicatos e de empresários, igrejas e demais exemplos citados. (SANTOS, 2010, p.81.)
Eram os principais favoritos ao pleito presidencial de 1989, os candidatos dos dois maiores partidos no Congresso Nacional e detentores da maioria dos governos estaduais, eram eles: Ulysses Guimarães (PMDB)19 e Aureliano Chaves (PFL)20, abertas as urnas seus resultados foram pífios. No rol daqueles que poderiam surpreender estavam os dois principais nomes da esquerda nacional naquele momento eram eles: Leonel Brizola (PDT)21 e Lula (PT)22. Na lista dos que estavam “correndo por fora”, havia outras candidaturas com certo poder de inserção entre o eleitorado, como as de Mário Covas (PSDB)23, que representava a social-democracia, um candidato que representava um avanço como uma segurança para as elites locais. Com reduzidas condições de vitória, mas querem do manter-se em evidência política, tínhamos as candidaturas de Paulo Maluf (PDS)24, que representava o segmento social saudosista “dos tempos dos militares”; Afif Domingos (PL)25, que poderia ter sido o representante-mor dos setores da elite financeira nacional; os demais candidatos daquele pleito não tinham grandes chances, esta eleição serviu mais para lhes projetarem nacionalmente ou regionalmente para os pleitos seguintes26. Ao final, vence a eleição, Fernando Collor de Mello, que concorreu pelo desconhecido PRN27, partido este que “não contava em seus quadros com nenhum governador de Estado. Também não podia exibir em suas fileiras nenhum representante, no Senado da República, de qualquer Estado da Federação”. (SANTOS, 2010, p.125.)


      1. A Criação Mítica e a Simbologia do Candidato Fernando Collor.

Em 1989, Collor, tornou-se um verdadeiro fenômeno eleitoral junto às massas populares, que viam nele uma espécie de “salvador da pátria”, criando nestas camadas sociais um imaginário do “novo”, daquele que traria esse mesmo “novo” ao Brasil, este “imaginário da ascensão de Collor foi tecido sobre um mito de herói salvador, fundamentalmente sobre a imagem do ‘novo’, de ‘um jeito novo de se fazer política’” (JORNAL DO BRASIL, 15.03.1990, apud MENDONÇA, 2002, p.69.). O viam também como o homem de fibra, destemido e que não tinha (ao menos aparentemente) nenhum envolvimento nem com os antigos (Ditadura Civil Militar) e nem com os atuais (Governo José Sarney) donos do poder. Portanto, “esse imaginário se baseará na ruptura simbólica como o passado expressa no voto: “com o voto de 15 de novembro o país irá zerar uma etapa de sua história” (VEJA, 08.11.1989, apud MENDONÇA, 2002, p.69.). Neste sentido complementa Kátia Mendonça.


Tal representação será definida, em relação às práticas que envolvem o exercício do poder, como não-corrupta e audaz e, em relação ao personagem, como jovem e não-comprometido com os antigos políticos, exigências presentes na comunidade de imaginação. (MENDONÇA, 2002.p.70.)
Esta imagem foi transmitida à opinião pública, ocultando o passado de Fernando Collor, sua intrínseca relação com a Ditadura Civil Militar e com o Governo Sarney, “saíra do PMDB por não compactuar com as posições do partido durante do Governo do Presidente Sarney, pelo menos passava esta imagem, embora tivesse saído por absoluta falta de espaço no partido”. (SANTOS, 2010, p.123.). E também tinha em seu histórico o voto em Paulo Maluf por ocasião da eleição indireta de 1984 que elegeu a dobradinha Tancredo e Sarney.

Se Fernando Collor já era bem visto pela enorme parcela da população carente que ele mesmo denominava de “descamisada e pés descalça”, ele ainda não era bem visto por alguns setores das elites nacionais. A partir de certo momento durante a campanha eleitoral de 1989, estes setores do poder econômico, órfãos de uma candidatura com “musculatura eleitoral” que pudesse frear as ameaças esquerdistas de Brizola e Lula, passaram a investir em Collor.


O poder da mídia difunde o mito, encantando a sociedade, atuando na “comunidade de imaginação”, que é o ambiente propício à produção e recepção do imaginário em sua forma específica. [...] Nota-se que o poder o destaque à atuação da mídia não quer dizer que ela tudo possa, criando o imaginário social. Seu papel, na verdade relevante, não explica tudo, como atrás de cada líder houvesse a pena audaciosa e a palavra extravagante de Goebbels. O mito para prosperar, com base nos anônimos aclamadores que o intoxicam, deve preencher uma função integratória, na ordem política. Entre a construção da imagem – a imagem que se incorpora no mito – e a recepção da imagem há mais do que a mídia, devendo-se acrescentar outros meio de manipulação. (FAORO, apud MENDOÇA, 2002.)
Essa tal “função integratória”, que Raymundo Faoro identifica, entende-se em virtude da necessidade que um setor da elite econômica tinha em ter um postulante ao Palácio do Planalto que pudesse derrotar as candidaturas “ameaçadoras” para os seus privilégios econômicos e políticos. Explicando assim o crescimento das matérias jornalísticas que colaboraram na construção da imagem mítica e às vezes até messiânica de Fernando Collor, como podemos ver a seguir.
[...] centenas de mãos desesperadas, mãos súplices estendidas em direção ao helicóptero [...] “o frade e o presidenciável descem do céu... de helicóptero”, [...] “Diante da Igreja da Virgem dos Pobres, o rebanho de frei Damião, 91 anos, também eleitor de Collor de Mello, demonstrou fidelidade aos líderes. São dois santos! gritava a multidão numa aclamação apoteótica”. (MENDONÇA, 2002, p.133.)
Podemos ver a construção da relação íntima entre Collor e Frei Damião na figura a seguir.

Este sentimento popular é fruto como já vimos tanto do anseio por um “mito salvador” como também é estimulado em virtude dos interesses daqueles que ditam o que essa grande mídia deve produzir e reproduzir, construir e desconstruir. Afinal, as empresas de comunicação estão geralmente do lado das elites dominantes e/ou fazem parte também da própria. Vale ressaltar, todavia que Collor não era o candidato dos sonhos da maior parte desta elite nacional, “o apoio a um candidato pode resultar da falta de opção. A escolha pode não representar uma preferência, mas uma aversão maior a outro postulante” (SANTOS, 2010, p.86.), Brizola e Lula. “Os empresários aceitaram a candidatura Collor por falta de opção.” (SANTOS, 2010, p.94.).

Para a construção desse mito, a mídia teve papel importante, interferindo sempre que possível para enaltecer o candidato representante das forças dominantes brasileiras em detrimento das candidaturas ameaçadoras para essas forças. O ideário de “salvador” foi fortificado junto às massas ansiosas por alguém com o perfil que representasse a juventude e a mudança. A simpatia midiática pró-Collor se tornava cada vez mais evidente e perceptível, principalmente no segundo turno do pleito daquele ano, quando se opuseram, os dignos representantes da direita e da esquerda, respectivamente, Collor (PRN) e Lula (PT).


Nas eleições de 1989, [...] a mídia da época atribuirá aos signos corporais exibidos por Lula uma conotação de ameaça e de caos [...] Porém, o corpo de Collor apresenta-se como uma promessa messiânica de uma imagem futura, a qual poderia ser atingida pelo homem comum, subordinada ao mito do progresso. (MENDONÇA, 2002, p.175.)
Seguindo este raciocínio de Kátia Mendonça, sobre os signos corporais dos dois principais candidatos, mostra a provável conseqüência “nefasta para as elites econômicas de uma possível vitória de Lula, vista pela ótica totalmente “parcial” da mídia.
Agora se levar a melhor sobre seu adversário no segundo turno das eleições, o primeiro colocado Fernando Collor, pode acontecer de os maiores empresários do país serem obrigados a marcar audiência para serem recebidos no 3º andar do Planalto por um operário barbudo, que fala português errado e não tem o dedo mínimo da mão esquerda. (VEJA, 22/11/1989, apud MENDONÇA; 2002, p.175.)
Portanto, o saldo do processo eleitoral de 1989, foi a vitória daquele que representou os interesses de um forte grupo econômico, que posteriormente, em 1992, numa espécie de 3º turno das eleições com o apoio de outros setores organizados da sociedade civil derrotaram o Presidente eleito três anos antes. É neste contexto que inserimos a participação da Juventude e de suas Entidades representativas nos fatos que originaram o fim da Era Collor no Brasil.


    1. A Construção do “Brasil Novo” e o Neoliberalismo “Collorido”.




      1. A Formação do Governo Collorido.

Brasília, março de 1990:

Às 9 da manhã da última quinta-feira, Fernando Collor de Mello saiu de casa a bordo de um Galaxie cinza-escuro, vestido com terno azul e gravata bordô, saltou para o banco traseiro de um Rolls-Royce conversível e dirigiu-se para o edifício do Congresso Nacional em Brasília. (...) O novo presidente dispensou a tradicional boca-livre com que seus antecessores costumavam festejar a posse, em festanças históricas promovidas nos salões do Itamaraty, e recebeu os convidados no num sóbrio coquetel com vinho do Rio Grande do Sul. Depois de curvar-se para receber a faixa presidencial de seu antecessor, José Sarney, quase 20 centímetros mais baixo, Collor apanhou sua caneta Mont Blanc para assinar suas primeiras medidas como presidente. (VEJA, 21.03.1990)
Após a divulgação do resultado oficial do pleito de 1989, o Presidente eleito começou a formar seu Governo. É justamente neste hiato entre a vitória nas urnas até a posse de um Presidente, que são construídos através de conchavos a solidez de um Governo, ou no caso de Fernando Collor a fragilidade de sua base parlamentar e política de sustentação.
[...] o período compreendido entre a diplomação e a posse dos eleitos é marcado por intensas articulações – com destaque para a composição ministerial e demais cargos – [...] neste período o que se verifica é uma continuidade dos contatos e negociações com vistas à formação da base parlamentar do Governo. (SANTOS, 2010, p.81.)
Admite-se, ainda, ser na campanha que os agentes semeiam mágoas, ressentimentos e adversidades, por vezes poderosas e inconciliáveis.” (SANTOS, 2010, p.80.) Os atores políticos que atuaram na vitoriosa campanha de Fernando Collor, não eram homogêneos em seus interesses, logo, o “Brasil Novo” já nascia com anseios políticos distintos. O Governo Collor foi gestado através das rupturas e das permanências do processo eleitoral de 1989. As rupturas podem ser vistas como o início dos atritos no “casamento” entre o Presidente eleito e aqueles segmentos que lhe apoiaram na campanha; como permanências a manutenção de práticas midiáticas que o novo Presidente trouxe da mesma campanha e também a sua ilusória autoconfiança num eterno apoio político das camadas mais desfavorecidas do país, apoio que no momento crítico de seu mandato não foi às ruas em sua defesa, apesar do Presidente Collor acreditar e incitar essa manifestação de solidariedade, como no seu pronunciamente em 3 de julho durante a crise política de 1992: “se continuarem a conspirar contra a vontade do povo, acabarão excomungados pela multidão fiel e silenciosa.” (O POVO, 30/09/1992, p.12D.)

O “Brasil Collorido” foi à cara do seu Presidente, autoconfiante no seu apoio popular, era uma espécie de anti-político, quando se nega a discutir com os “grandes caciques” da política nacional os rumos de seu Governo, quando subestimou o poder das forças derrotadas na recente eleição; quando achava que por ter sido útil nas eleições há alguns setores influentes ao evitar a vitória da esquerda nacional, estes teriam por ele uma enorme dívida de gratidão e que não devia nada a estes setores, incluindo aí até mesmo os Órgãos de Imprensa, como a toda poderosa Organização Globo.


“A consciência de não ser o preferido – mas o mal necessário -, pode influenciar a conduta de um líder jovem, consciente da força do seu nome junto ao eleitorado, eleito presidente, que se considere necessário e descompromissado”. (SANTOS, 2010, p.86-87.)
O aplauso da multidão ignara convence o próprio demagogo, também ele ignaro, de que é portado de qualidades que não possui.” (PLATÃO apud MENDONÇA, 2002, p.213). Portanto, se imaginando superior aos possíveis aliados políticos, o recém-empossado Presidente da República, tinha ou pensava ter um controle interminável de alguns políticos, de alguns partidos que faziam parte da coalizão governamental, sem que estes lhes fossem preciso agradá-los com as beneficies oriundas das barganhas do Planalto Central. Dentre estes partidos além do partido do PRN, partido do Presidente, podemos citar o PTB, o PFL, o PDS e o PMDB, outros partidos menores (PSC28 e PDC29) que se agruparam em torno desta frágil coalização.

Mas, independente do que ele achava sobre a sua força sedutora na formação da opinião pública e da sua suposta independência em relação aos grupos econômicos e forças suprapartidárias que contribuíram decisivamente para a sua eleição, o Presidente Collor tinha que formar o seu governo e para isso, precisava ter um arco de aliança para este fim. Afinal, “governar constitui desafio distinto daquele que é disputar e vencer uma eleição. Exigências de campanha diferem das necessidades da governabilidade.” (SANTOS, 2010, p.185.) Entretanto, o seu quadro ministerial em sua maioria não foi formado por indivíduos oriundos da divisão partidária, como é comum nas partilhas de governo entre os grupos e partidos vencedores. “Os nomes indicados pelo Presidente Collor para ocupar os cargos de ministro, em muitos casos, não representavam agremiações partidárias ou quaisquer outros segmentos sociais expressivos.30(SANTOS, 2010, p.191.) Dentre, todavia, os que tinham atrelamento partidário, destacaram-se os filiados ao PMDB31, em cargos de destaque na composição ministerial. Vale lembrar que o PMDB era um partido que ao menos oficialmente era de oposição, mas tradicionalmente híbrido, como se tornou costume em seu histórico nos pós-ditadura militar, também acaba participando dos governos que por ventura existam isto em todos os âmbitos da federação.


[...] O PMDB era o maior partido do Congresso Nacional. Detinha o honroso título de partido da resistência democrática durante os longos anos do regime de 1964, e com mágoa pela derrota de seu velho líder [...] e, seguiu humildemente pelo caminho ambíguo de ser um partido ubíquo. Localizando-se ao mesmo tempo na oposição e no campo de apoio ao Governo, o PMDB seguiu respaldando com os seus votos todos os projetos do Poder Executivo, nos primeiros tempos do polêmico Governo Collor. (p.89)
Em relação aos chamados “descamisados”, Collor acreditava também que este apoio lhe seria fiel durante o seu Governo, sem exigir nada em troca. No caso desta camada desorganizada politicamente, o que pretendiam era a prometida melhoria das condições de vida. E isto não veio a se realizar, tornando esta camada não mais tão apaixonadamente defensora do mito de anteriormente. Mas, o Presidente procurava mantê-la sob o seu domínio, usando de sua habitual demagogia.
Eu tenho o compromisso expresso de impedir que esse quadro de miséria continue, um compromisso de governar, sobretudo, para os mais humildes, para os descamisados, para os pés descalços, aqueles que estiveram sempre alheios ao processo do desenvolvimento, porque nunca lhes coube nenhuma parte desse processo. (VEJA, 31.03.90)
O Presidente Fernando Collor, usufruiu do marketing do seu carisma midiático, em seu Governo, repetindo uma receita vitoriosa da sua campanha. Este homem ultramoderno é percebido por Kátia Mendonça em seus mínimos detalhes, em objetos por ele usado e forçosamente exibido pela mídia para promovê-lo junto à parcela da população que fora a sua força eleitoral propulsora em 1989 e quem sabe, até ampliá-la àqueles que ainda lhe tinham certa repulsa fruto do embate eleitoral passado.
Na produção de um imaginário fundado no objetual, o destaque será concedido às marcas famosas. São fotos de Collor com agasalhos Reebok pilotando motos Kawasaki, publicadas em diferentes revistas e jornais, formando uma conotação encadeada sobre o mesmo tema, a modernidade, numa sintaxe na qual se manifesta o retorno de formas arcaicas e degradadas de glorificação de personagens sob o manto do novo.

A transformação do universo privado de Collor em objeto de consumo público torna-se assim a única forma de anunciar o novo – modo do qual mesmo à imprensa que se pretende crítica não consegue escapar. (MENDONÇA, 2002, p.136.)


Collor, se aproveitando dessa cobertura midiática de cada movimento seu, de cada gesto feito em seu cotidiano, conseguiu se manter na opinião pública. Embutindo e concretizando na mente de seus apoiadores oriundos de uma parcela da classe média e das mais baixas, uma imagem de homem saudável, moderno, destemido, decidido, com visão de futuro, totalmente inserido no chamado “Mundo Globalizado” e nas recentes transformações tecnológicas, econômicas e sociais.
Mas, o imaginário da modernidade é o do descartável, do imediato. O presidente desafia a barreira do som no vôo supersônico, pratica jogging, mostra-se célebre em suas decisões. Essa rapidez é exaltada pela mídia, obedecendo à “ética do instante”,32 sob o manto da qual constrói o Brasil Novo. (MENDONÇA; 2002, p.88.)
Seus ex-aliados momentâneos durante o processo eleitoral, iniciaram uma reavaliação de seus atos, começaram a perceber que a cria se tornava uma ameaça, apareceram às primeiras adversidades que vão ganhando corpo até chegar ao momento que não é mais possível manter as aparências, pois as divergências se tornam evidentes.
As forças organizadas da sociedade civil, ou algumas delas, buscaram garantias contra as ameaças que pudessem afetar os seus interesses. Ou buscavam vantagens. Quando, porém, não se pode ter um parceiro, escolhe-se alguém que pelo menos não seja inimigo. Passado o perigo, ou o que se considerava perigo, a avaliação pode mudar. (SANTOS, 2010, p.82.)
Empresários e demais grupos abastados da sociedade brasileira vão aos poucos se indispondo com o seu ex-candidato. O agora Presidente da República passa a ser um produto a ser descartado, tão logo, seja possível ou necessário e isto viria acontecer em 1992.


      1. O Advento do Neoliberalismo no “Brasil Collorido”.

O legado da modernidade fazia parte da propaganda eleitoral do mito Collor desde a campanha de 1989 e se concretizou em seu curto mandato presidencial, só que para obter apoio da maioria dos amplos estamentos sociais brasileiros, o Presidente Collor, taxou esse seu reajuste macroeconômico de “liberalismo social”, tentando passar a imagem de algo que legitimasse os dias nefastos que se aproximavam.


O conteúdo neoliberal dessas polarizações é encoberto pelo discurso da salvação dos “pés-descalços” e revestido com a roupagem da utopia da modernidade, em favor da qual o governo busca mobilizar as energias da nação e justificar medidas sacrificiais e recessivas. (MENDONÇA, 2002, p.72.)
Tentando resgatar o tema dos “marajás”, dos funcionários da máquina governamental, querendo por a culpa do “sabor amargo” das medidas econômicas a setores da classe média urbana ligada as beneficies do Estado. Este intuito presidencial é visto numa matéria concedida pelo próprio Fernando Collor ao Jornal do Brasil.
Existem as elites nesse país que são as elites responsáveis, que se consideram partidárias de um processo de desenvolvimento que exige sacrifícios de parte a parte. No entanto, existe uma outra parte das elites que faz que qualquer situação atinja a beira do caos absoluto, como esse que estamos vivendo. São aquelas elites favorecidas pelas benesses do Estado, agarrada as vantagens que o Estado lhes possa conceder, são as elites que não são competitivas e se escondem atrás de cartórios para impedir que seja vista sua incapacidade e sua falta de condição de gerenciar seu próprio negócio. São os acovardados diante da lei de competição, das leis da economia de mercado. É exatamente a essas elites que eu quero me referir. (JORNAL DO BRASIL, 15.12.1990, apud MENDOÇA, 2002, p.72-73.)
A passagem da década de 1980 para a de 1990, marcou uma transformação geopolítica como a crise do modelo econômico de planejamento estatal, característico da U.R.S.S. e de seus países satélites. Aliada a este colapso econômico da Cortina de Ferro, surge, o modelo econômico neoliberal. Junto com essa nova prática capitalista, brotam novas formas de convivência e de comportamento.
Em 1990 temos um cenário onde, por um lado, prevalecem a fragmentação do Estado, o apogeu dos novos ricos yuppies, a queda do Muro de Berlim colocando em crise o pensamento de esquerda, a reorganização capitalista sob o ideário do neoliberalismo, a racionalidade instrumental em seu apogeu controlando as relações éticas, as proclamações sensacionalistas sobre o “fim da história”, a exclusão de milhões de pessoas da cidadania e do processo produtivo. [...] permanece a estrutura na qual cristalizadas estão as relações de dominação, que resistindo às mudanças conferem novas formas às imagens. Retomando o passado, prefigurando o futuro, em última instância as citações revelam que, em especial no mito político da salvação, 1989 atendeu ao medo das classes dominantes, ao sonho das classes médias e ao desespero de massas deserdadas. (MENDONÇA, 2002, p.115-116.)
Buscando está em sintonia com o mundo globalizado o novo Governo Federal iniciou oficialmente a implantação do projeto neoliberal no Brasil, como ficou claro na afirmação do próprio Chefe do Executivo Federal:
A definição de um novo padrão de intervenção do Estado na economia, que permita superar essa crise financeira, é condição para a viabilização do projeto de desenvolvimento que se busca definir para o País. Para isso, dois fatores são fundamentais: primeiro, que o ajuste fiscal ganhe dimensão estrutural e, segundo, que o aparelho estatal seja modernizado mediante ampla reforma. (COLLOR, 1991, p.26.)
Dentre esse novo padrão de “intervenção estatal”, proposto pelo Governo teria com um dos principais elementos, a privatização das empresas estatais como fica clara numa outra afirmação de Fernando Collor: A reforma do aparelho do Estado, necessária para adequá-lo às suas novas funções, está sendo realizada por meios da desregulamentação, da privatização e da reforma administrativa. (COLLOR, 1991, p.30.)
Na década de 1980 e início da de 1990, o mundo capitalista viu-se novamente às voltas com problemas da época do entreguerras que a Era do Ouro parecia ter eliminado: desemprego em massa, depressões cíclicas severas, [...] em meio a rendas limitadas de Estado e despesas ilimitadas de Estado. Os países socialistas, agora com suas economias desabando, vulneráveis, foram impelidos a realizar rupturas igualmente – ou até mais – radicais com o seu passado e, como sabemos rumaram para o colapso. (HOBSBAWN, 1995, p.19.)
O tal neoliberalismo teve seu gênese no final dos anos 70 e início dos 80, quando Margareth Tatcher e de Ronald Reagan, assumem os respectivos governos do Reino Unido e dos Estados Unidos. Sobre este novo modelo econômico, Eric Hobsbawn comenta que:
Na verdade, não havia política econômica neoliberal única ou específica, a não ser após 1989 no ex-Estados socialistas da região soviética, [...] O maior dos regimes neoliberais, os EUA do presidente Reagan, embora oficialmente dedicado ao conservadorismo fiscal (isto é, orçamentos equilibrados) e ao “monetarismo” de Milton Friedman, na verdade usou métodos keynesianos para sair da depressão de 1979-82, [...] Na verdade, os regimes mais profundamente comprometidos com a economia de laissez-faire eram também as vezes, e notadamente no caso dos EUA de Reagan e da Grã-Bretanha de Thatcher, profunda e visceralmente nacionalistas e desconfiados do mundo externo. (HOBSBAWN, 1995, p. 402.)
O fato é que o neoliberalismo trazia em sua essência as mesmas mazelas de antes, e “[...] os defensores da liberdade individual absoluta não se abalaram com as evidentes injustiças sociais do capitalismo de mercado irrestrito, mesmo quando [No Brasil durante a maior parte da década de 1980] não produzia crescimento econômico”. (HOBSBAWN, 1995, p.400.)

Em seu Programa de Governo, intitulado de “Brasil: Um Projeto de Reconstrução Nacional”, Collor introduzia as seguintes medidas modernizantes em sua Reforma do Estado:


1.3 – Programa Nacional de Desestatização

Coordenado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, o Programa Nacional de Desestatização é fundamental para a redefinição da atuação do Estado, restringindo o investimento às áreas em que ele é necessário. Constitui, também, instrumento de redução da dívida pública, concorrendo, assim, para o saneamento financeiro das contas governamentais.

1.4 – Empresas Estatais

A escassez de recursos e a necessidade de uma política macroeconômica que dê prioridade aos gastos dos setores mais carentes induzem à União a exercer, com firmeza, o direito de o acionista obter dividendos. Desta forma, será possível adequar os recursos gerados no conjunto do setor empresarial estatal às necessidades de investimentos nos setores priorizados pela União. Sem estes objetivos e métodos persistirá o desperdício de recursos, determinado por aumentos desnecessários de salários e demais custeios e pela realização de obras não urgentes em setores específicos. A utilização ineficiente dos recursos tem como principal consequência o incremento do endividamento do setor público, que não encontra outro caminho para a realização de investimentos indispensáveis. (COLLOR, 1991, p.32-33.)


Essa introdução do neoliberalismo nos serviços essenciais fica evidente quando o Governo Collor cria prioridades para a tão anunciada reconstrução nacional:
O Governo Collor iniciou, ao lado da política de estabilização, um programa abrangente de reformas estruturais visando à modernização produtiva da economia brasileira. [...] O ponto de partida para essas ações é o entendimento de que a reestruturação da economia requer a participação ativa de todos os agentes econômicos, públicos e privados. A fonte de dinamismo desse processo deverá ser a iniciativa privada. [...] Caberá ao Estado suplementar a atuação do setor privado criando as condições macroeconômicas, infra-estruturais e institucionais que dêem suporte e potencializem a criação de vantagens competitivas pelas empresas. (COLLOR, 1991, p.38-39.)
E para que este modelo fosse satisfatório aos anseios governamentais e dos mercados nacionais e mundiais, se tornava essencial à participação e a entrada dos capitais estrangeiros e a participação livre os investidores internacionais.
Estabilidade econômica e oportunidade de investimentos que estejam em conformidade com as tendências globais do investimento internacional são os principais componentes para a formação de um clima favorável. Neste sentido, o Programa de Estabilização, as mudanças estruturais que ora se processam e a estabilidade de regras deverão se constituir no principal fator de atração do investimento estrangeiro. (COLLOR, 1991, p.65.)


    1. A Crise Política do “Brasil Collorido”




      1. O Início da Crise Política.

Em maio de 1992 Collor foi acusado por seu irmão de associação em esquema de corrupção gerenciado pelo tesoureiro de sua campanha eleitoral. Em seguida, formou-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito que confirmou seu envolvimento.” (SALLUM JR. & CASARÕES, 2011, p.163.) É o início da mais forte crise política do Governo Collor e apesar das tentativas do Presidente em minimizá-las, elas encontraram um terreno fértil: os interesses dos setores que o apoiaram meio a contra gosto prevaleceram aliados aos interesses dos setores de oposição.



Teria sido uma disputa de poder entre Pedro Collor e PC Farias que motivaram as denúncias que detonaria a crise, isso em razão da intenção de PC de criar um Jornal fazendo concorrência as Empresas Arnon de Mello, em Maceió, dirigidas justamente por Pedro Collor de Mello.
Os desentendimentos entre o irmão caçula de Fernando Collor, Pedro Collor de Mello e o empresário Paulo César Farias, o PC, começaram em setembro de 1991, quando PC anunciou o lançamento do jornal “Tribuna de Alagoas” para concorrer com a “Gazeta de Alagoas” da família Collor. (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.6.)
As divergências entre Pedro Collor e PC Farias continuaram e ganharam proporções maiores quando Pedro concedeu entrevistas a Revista Isto É e logo depois a Revista Veja, que trazia no título da matéria. “Chegou ao Planalto - Os ataques de Pedro Collor a PC Farias atingem em cheio o presidente e abrem uma crise política.” Logo a seguir no corpo da matéria a Veja acrescentava:
De uma obscura briga pelo mercado editorial alagoano, a disputa entre os empresários Pedro Collor de Mello e Paulo César Farias transformou-se em poucos dias numa parábola bíblica, num drama familiar de tinturas shakespeariana, num debate médico sobre sanidade e demência, numa piada aguda e numa crise que agita os meios políticos. (VEJA, 27/05/1992, p.16.)
Apesar dos irmãos Collor de Mello, por razões familiares sempre tivessem seus estranhamentos mútuos, isto por si só não explica a movimentação de Pedro. Nesta mesma matéria da Revista Veja, inclusive os irmãos receberam as alcunhas de “Caim e de Abel” e de acordo ainda com a publicação da revista, a chefa do clã Collor de Mello, Dona Leda, “sob pressão [...] destituiu Pedro Collor da direção das empresas da família, alegando que ele não está em pleno domínio de suas faculdades mentais.” Sendo esta a desculpa oficial tanto do Governo como da matriarca da Família Collor de Mello. Mas, não era resultado de “insanidade”, tecer sobre a conhecida relação entre Fernando Collor e PC Farias, pois:
O Brasil inteiro sabe que PC foi o gerente da caixa de campanha de Collor à Presidência. Desde a posse, em 15 de março de 1990, não há roda de políticos e empresários que não comente exemplos de como, com o beneplácito do presidente, Paulo César Farias transita pelos meandros do governo, nomeando altos funcionários do Estado e, através dele, fechando toda a sorte de negócios. (VEJA, 27/05/1992, p.16.)
Porém o que pesou foi que desta vez Fernando Collor tinha interesse de quebrar o monopólio da filial da TV Globo em Alagoas e incentivou seu amigo e ex-tesoureiro da campanha presidencial a seguir em frente. “O que mais irritou Pedro foi a suspeita de conivência do irmão Fernando com os planos de Farias de concorrer com as organizações Arnon de Mello, que possuía uma gráfica, em emissora de TV coligada a “Globo” e quatro rádios em Alagoas.” (DIÁRIO DO NORDESTE, 30/09/1992, p.6)

Na entrevista de Pedro Collor à Revista Veja, ele menciona que seu irmão presidente o teria desmotivado criar uma empresa jornalística em Maceió, Fernando Collor teria dito: “Não, não leve a idéia do jornal adiante, porque eu vou montar um rede de comunicação paralela em Alagoas com o Paulo César e essa rede terá um jornal” (VEJA, 27/05/1992, p.18.) Este dado nos leva a entender um dos motivos que levou a Organização Globo a atacar o Presidente Collor, esta disputa pelo mercado midiático não envolveu apenas os irmãos Collor de Mello e PC Farias, as grandes empresas de comunicação provavelmente sentiram que seus interesses estavam ameaçados e/ou poderiam ficar futuramente.

A partir de então o desenrolar dos acontecimentos já é conhecido:
Em setembro, a Câmara dos Deputados autorizou por ampla maioria a abertura do processo de impeachment, em meio a uma onda de manifestações populares que demandavam isso do Congresso. Em dezembro, o Senado Federal aprovou o impeachment do presidente e o baniu da vida pública por oito anos (SALLUM JR & CASARÕES, 2011, p.164.)


      1. A Nova Postura dos Meios de Comunicação em relação ao Presidente Collor.

O tema do outro, das imagens e contra-imagens de que se formam e o que elas refletem em termos de constituição do sujeito que as cria será, decerto, dominante na queda de Collor, impregnando o simbolismo do Bode Expiatório que também naquele momento emerge. Então se conformará a imagem da “República das Alagoas” como símbolo de um “outro Brasil”, do país “arcaico” em contraposição do Brasil “moderno”, de um país “bárbaro”, “atrasado”, do qual Collor será, segundo a mídia, a expressão última e culpado único pela corrupção, nepotismo e outros vícios políticos presentes. Ao “estadista” das imagens heróicas iniciais se contrapõe agora, na execração, o “representante da República das Alagoas”. (MENDONÇA, 2002, p.182.)


A mudança da mídia em relação ao presidente começa a se tornar notória, a brusca variação de atitude dos principiais veículos de comunicação nacional demonstravam que havia alguma coisa não se encaixando na engrenagem entre o Governo Collor e os interesses dos grandes grupos econômicos ligados aos principais órgãos de comunicação.
Revelando as intenções exibicionistas do personagem, a imprensa começa a desnudá-lo e a quebrar a magia de suas ações. O ano de 1991 marca o início das críticas mais acirradas ao governo por parte da imprensa. Não conseguindo, porém, escapar do universo reificado da política moderna, as críticas também serão feitas tornando-se como referência os mesmo instrumentos de glorificação. (MENDONÇA, 2002, p.142.)
Esta mudança de atitude por parte da grande mídia nacional, em sintonia com os anseios de uma parcela da classe dominante, requer alguns cuidados. O alvo era a figura do Presidente indesejado e não o projeto de modernidade de que ele até o momento era o grande baluarte. Era preciso desgastar a imagem de Collor sem que isto implicasse em manchar o desejo de modernidade de certos grupos dominantes.
[...] a imagem de Collor não será mais, como no início do governo, uma réplica da modernidade; antes, a mídia promoverá sua desidentificação em relação ao Primeiro Mundo, este sim espaço onde o espetáculo para ela faz sentido.

Essas críticas à manipulação do imaginário têm, entretanto, a característica de se limitarem ao personagem, não abrangendo a essência do processo, ou seja, a política como objeto de consumo. Em última instância, ao privilegiarem-se críticas que têm como núcleo de referência as imagens materiais que cercam Collor, há na verdade a legitimação de relações de poder reificadas, onde é deslocado o debate de questões essenciais para o espetáculo em que se transforma o universo da política. (MENDONÇA, 2002, p.143.)


Para tanto, a mídia buscou desconstruir a ligação que naquele momento histórico era quase umbilical entre Fernando Collor e a modernidade, a imagem do presidente foi perdendo o seu ar de modernidade e em pouco tempo tornou-se um ser arcaico.
Nesse jogo de imagens, se, num primeiro momento, Collor é “moderno” para a elite, num momento seguinte é focalizado como o “arcaico” a ela oposto. A “República das Alagoas” torna-se, então, um símbolo do Brasil “atrasado”, vinculado a auto-imagem que as elites têm de si como modernas. (MENDONÇA, 2002, p.185.)
Tão logo surgiram as primeiras denúncias com forte teor de real possibilidade de se tornar agravante a ponto de se livrar do incomodo chefe do Executivo Federal, os grupos anti-Collor começaram a agir, as denuncias de corrupção vindas de seu irmão Pedro Collor, o envolvimento de seu tesoureiro de campanha Paulo César Farias entre outros, resultaram com as investigações e a formação da CPI na Câmara Federal, que culminaram no processo de impeachment do Presidente Fernando Collor.

O processo do impeachment teve início por provocação da OAB e da ABI. Embora sejam imprensa e advogados grupos corporativos com interesses e paixões específicos, tal iniciativa conta com o respaldo de expressa autorização do ordenamento jurídico brasileiro. A provocação foi acolhida pela Câmara dos Deputados. O então presidente da Câmara Baixa, deputado Ibsen Vals Pinheiro, demonstrando grande indignação com a gravidade das denúncias e com a abundância, senão de provas, pelo menos de indícios de corrupção passiva, advocacia administrativa, concussão ou ilícitos assemelhados a tais tipos penais, capitaneou o esforço de mobilização dos deputados para a decretação da abertura do processo politico. (SANTOS, 2010, p.58-59.)


O fim do Brasil Novo foi saudado por quase a unanimidade da população brasileira na época. Mesmo sabendo dos seus limites, o fim da Era Collor, simbolizou um grande passo para a consolidação das instituições democráticas em nosso país, e mais ainda, estimulou a participação popular, que teve contribuição importante para que os rumos feitos levassem ao afastamento e em seguida a renúncia do Presidente Fernando Affonso Collor de Mello no final do ano de 1992. Mas, as rédeas da transferência do governo não teve as mãos populares, quem tomou a direção do processo da mudança do controle do executivo nacional foram as mesmas forças políticas que levaram Collor à presidência com o apoio das forças derrotadas em 1989 e que agora festejaram a sua vitória numa espécie de terceiro turno da derradeira eleição presidencial.
Quase três anos depois, a caneta Mont Blanc seria novamente utilizada, desta feita na hora da deposição do presidente. Antes glorificada, agora em desgraça:

“Um rito sumário. Logo depois de assinar com sua caneta Mont Blanc a comunicação oficial de afastamento do cargo de presidente da República, Fernando Collor, de mãos dadas com Rosane, encaminhou-se para o helicóptero que o levaria à Casa da Dinda. (MANCHETE, 26.12.92, apud MENDONÇA, 2002, p.145.)


1.4. A Conjuntura Politica no Ceará e em Fortaleza.
1.4.1. O Contexto Político Estadual e Municipal durante a Crise da Era Collor.
No Ceará a conjuntura já em meados da década de 80 dava sinais da presença de um projeto político e econômico semelhante ao que Fernando Collor implementou em Alagoas e posteriormente implantou no Brasil. Há assim, semelhanças no gerenciamento do Estado entre os Governos alagoano e cearense neste período.

Houve obviamente uma reação dos setores de oposição formado por segmentos da sociedade civil organizada contrária a introdução este projeto “mudancista”33 no Ceará. Num artigo publicado por Róbson Torres Bandeira e Maria Enésia da Silva Neta encontramos algumas indicações neste sentido, ao afirmarem que:


A elite empresarial tassista construiu uma idéia de ruptura com as práticas patrimonialistas e clientelistas, que, entretanto, continuaram a permear a estrutura burocrática do estado, sendo necessárias que foram para a manutenção do poder desses novos governantes. Inclusive, tal elite ascendeu ao poder fortalecendo o princípio de participação da sociedade, embora tenha muitas vezes reprimido autoritariamente movimentos e grupos políticos contrários ao projeto neoliberal. Constitui-se, portanto, o caráter e modernização conservadora presente no período Tasso Jereissati. (BANDEIRA e NETA, 2008, p.5.)34
O início dessa nova fase política local dar-se em 1986 com a eleição para Governador do Estado do senhor Tasso Jereissati35, que representava um grupo de jovens e atuantes empresários cearenses organizados no CIC36, que pretendiam introduzir uma série mudanças nos aspectos político e econômico em nosso Estado, em tese, modernizar o Ceará naquilo que era moderno para a visão deles. E isso trazia embutido a implantação do projeto neoliberal, tornando o Ceará um dos Estados pioneiros no Brasil na adesão ao neoliberalismo. A respeito disso recorremos novamente Róbson Bandeira e Enésia Neta.
Tasso começou a implantar seu programa modernizador focado no combate ao clientelismo e ao empreguismo na máquina pública, visando a moralização da política do governo e a 8 modernização e enxugamento da máquina pública, este último sendo potencializado pela precarização do serviço público estadual e pelo processo de privatizações, demonstrando o caráter neoliberal do projeto tassista, onde o estado apenas garantiria as condições para o crescimento econômico baseado no setor privado. ((BANDEIRA e NETA, 2008, p.7-8.)
Em Fortaleza, este mesmo grupo político “mudancista” obteve difícil vitória eleitoral nas eleições municipais de 1988, elegendo o também jovem Ciro Gomes37, oriundo de uma tradicional família oligárquica da região norte do Estado. Ciro, em 1990, se tornaria governador em substituição a Tasso, seguindo os trâmites políticos e econômicos do chamado “Governos das Mudanças” do seu antecessor. Essa hegemonia dos Governos do PSDB da chamada “Geração Cambeba” durou praticamente vinte anos no Ceará, iniciando como já dito com o primeiro Governo Tasso em 1987 e indo até o Governo de Lúcio Alcântara entre 2003 à 2006.

Em 1990, com a eleição de Ciro Gomes ao Governo estadual, assumiria em seu lugar na prefeitura de Fortaleza, o senhor Juraci Magalhães38, médico e membro do tradicional setor político estadual, mas sem experiência no comando do executivo. Em 1992, era avaliado como o melhor prefeito das capitais brasileiras. Neste mesmo ano, Juraci logrou sucesso ao eleger seu sucessor, Antônio Cambraia, também do PMDB, numa desgastante campanha eleitoral realizada paralelamente ao processo de crise política do Governo Collor.

Mas, vale ressaltar que tanto o PSDB de Tasso e Ciro, como o PMDB de Juraci e Cambraia, em nível nacional deram sustentação a Fernando Collor, principalmente no que se refere as medidas de mudança macroeconômicas implantadas no Brasil neste curto período da Era Collor: os partidos de centro – PMDB e PSDB – não se oporem ao conjunto das políticas de Collor, contribuindo com suas vitórias quando estavam em jogo iniciativas liberalizantes.” (SALLUM JR. & CASARÕES, 2011, p.197.)
1.4.2. A Situação Política e Eleitoral em Fortaleza durante o Fora Collor.
1992, foi um ano eleitoral, em 3 de Outubro seriam realizadas as Eleições Municipais em todo Brasil e obviamente o Movimento Fora Collor, tanto usou as eleições como forma de pressão, como também da mesma forma foi usado por muitos candidatos como um excelente palanque eleitoral para seus propósitos.

Em todo o País muitos parlamentares e chefes dos Executivos Estaduais e Municipais que eram pró-Collor, estavam sendo cooptados e/ou se deixando cooptar pelos apelos das oposições e pelo medo da crescente insatisfação popular ao Governo Collor. Não era fácil para os situacionistas se declararem como tal, muitos iam dormir pró-governo e acordavam anti-governo, era realmente uma situação muito difícil e muitos ficaram em cima do muro esperando pelo desenrolar dos fatos para tomar à medida que lhe fossem mais convenientes. Um artigo denominado “Metamorfose Ambulante” do renomado jornalista Gilberto Dimenstein, publicado no Jornal O Povo em seu Caderno Nacional afirmava que:


Não está fácil para os governistas sustentarem sua posição publicamente. Sobram verbas, mas faltam verbos. [...] Do confronto entre verbas e verbos gera-se a tensa expectativa sobre a decisão de hoje do Supremo Tribunal Federal – será definido, entre outras coisas, o tipo de voto, se aberto ou fechado. Caso aberto, parlamentares [...] vão relegar sua inclinação íntima a favor do Governo pela conveniência pública – ou seja, não querem perder eleitores.

Em conversas reservadas, dirigentes oposicionistas reconhecem: se o STF decidir pelo voto secreto, o Governo ganha. Um deles admite: “será uma surra”. Mas do contrário, articuladores de Collor confidenciam que Itamar Franco pode ir providenciando sua mudanças para o terceiro andar do Palácio do Planalto. (O POVO, 23/09/92; p.4A)


Em Fortaleza, a situação não era distinta o uso eleitoral durante a Propaganda Eleitoral na TV, nos debates realizados entre os postulantes ao Paço Municipal eram frequentes. Tanto na mídia escrita como falada, o tema Fora Collor ganhava destaque e não foram só pautados pelos candidatos da esquerda, mas também pelos da direita, aonde alguns faziam de tudo para se desvencilhar-se da imagem do atual Presidente e outros para lembrarem aos eleitores de que seus adversários apoiaram Fernando Collor nas eleições de 1989 e/ou durante seu curto Governo. O fato era que ninguém queria ser lembrado como uma vez colorido durante a campanha eleitoral de 1992, esta ligação com Collor poderia significar perda de votos e consequentemente da pugna eleitoral que se avizinhava.

No Caderno Política do Jornal O Povo, recortando os principais pontos de um debate televisivo entre os principais candidatos à Prefeitura de Fortaleza, observamos algumas denuncias neste sentido: “Quem ajudou o Collor a se eleger no Ceará foi o PSDB e o PMDB, foram as lideranças dos partidos de Assis e Cambraia. Quem está no governo hoje é o PSDB, por isso ele é co-autor, é responsável por tudo que está acontecendo” (O POVO, 22/09/92; p.2A), feitas pelo então candidato a Prefeito de Fortaleza pelo PDT (em coligação com o PCdoB, PMN e PSB), Lúcio Alcântara39. Mas adiante o mesmo candidato afirma: “Enquanto isso, nós trabalhamos para eleger Brizola e votamos no segundo turno em Lula.”.

Neste mesmo sentindo, criticando a postura do PSDB do Ceará, que apoiou no segundo turno da Eleição de 1989 o então candidato Fernando Collor e que agora, em 1992, no auge da crise política do Governo que ajudou a se eleger, se posiciona ao lado das oposições. O Deputado Estadual Antônio Câmara, líder da bancada do PMDB na Assembleia Legislativa do Ceará, numa nota no Caderno Política do Jornal Tribuna do Ceará lembrava “que o seu partido desde o início, tomou posição de apoiar o resultado da Comissão Parlamentar de Inquérito.” E mais adiante também recordava que:
Desde a campanha presidencial que o PMDB “está do lado da trincheira contra Collor. Primeiro estivemos com Ulysses Guimarães depois com Lula. Nunca sentamos na mesma mesa que o Governo. Isso foi feito pelo PSDB que agora tenta jogar sobre nós a pecha de apoiar Collor. (TRIBUNA DO CEARÁ, 25/08/1992, p.3A.)
Ainda sobre a mudança de atitude dos tucanos cearenses, numa carta de um leitor (Edson Sousa, morador da Aldeota) publicada neste mesmo jornal, Tribuna do Ceará, intitulada de “Ingratidão”, dizia que: “o Tasso Jereissati é um ingrato. Dizia-se amigo de José Sarney e Fernando Collor quando eles estavam por cima. Recebeu benefícios e se afastou dos dois nos momentos difíceis.” (TRIBUNA DO CEARÁ, 26/08/1992, p.11A.). Os dois principais líderes políticos do tucanato local, inclusive foram ao Congresso Nacional por ocasião da aprovação do impeachment de Fernando Collor e comemoraram bastante o resultado, como afirmava uma nota na Coluna Vertical do Jornal O Povo: “Tasso Jereissati e Ciro Gomes vibraram muito ao final da votação.” (O POVO, 30/09/1992, p.4A.) Ficando claro, que realmente o PSDB Cearense havia como a maioria dos apoiadores do Governo Collor, mudado de lado em virtude das circunstâncias.

Numa outra matéria publicada na Tribuna do Ceará, o Governador Cearense, Ciro Gomes, de acordo com o jornal: “Integrante do grupo de oposição ao presidente Collor de Mello” lamentava “a situação politico-administrativa do País.” e concluía que após a leitura do relatório da CPI40 demonstrando que: “as provas substancias apenas definem que o ‘impeachment’ é a saída.” (TRIBUNA DO CEARÁ, 25/08/1992, p.3A.)

Mas não era apenas o PSDB que tinha dificuldades para se colocar como oposição, o PMDB como visto anteriormente neste mesmo capítulo, era um partido híbrido, uma parte dava sustentação parlamentar ao Governo Collor, outra lhe fazia uma oposição “branda”. Mas, com o crescimento da crise politica, tornou-se uma oposição severa, o Prefeito de Fortaleza, membro dos quadros partidários do PMDB, assim definia sua análise da leitura do relatório da CPI que investigava o Presidente Collor:
No seu entender a classe política – aí entenda-se Senado e Câmara – terão de adotar providências em torno das denúncias e que caso haja comprovação de irregularidades deve-se tomar as medidas necessárias para se condenar o culpado. (TRIBUNA DO CEARÁ, 25/08/1992, p.3A.)
Juraci foi mais longe ainda em seu posicionamento, defendeu até mesmo uma proposta defendida por setores mais a esquerda, que era a pedindo Eleições Gerais em vez de substituir o Presidente pelo seu vice Itamar Franco. Isso de acordo com uma nota na Tribuna do Ceará: “O prefeito Juraci Magalhães (PMDB) está defendendo a realização de eleições gerais em 90 dias a contar do impeachment do presidente Collor de Mello.” (TRIBUNA DO CEARÁ, 26/08/1992, p.4A.).

Mas, mesmo com uma considerável parcela do PMDB local tendo apoiado Collor no segundo turno em 1989, assim como fizera o PSDB, estas ligações com Presidente, não alteraram as intenções de voto em Fortaleza, inclusive o Prefeito Juraci Magalhães, era na época apontado com o melhor índice de aprovação entre os prefeitos das principais capitais brasileiras.


O prefeito Juraci Magalhães tem a sua administração aprovada por 96 por cento da população de Fortaleza, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística 41, realizada entre os dias 21 e 22 de Setembro, ouvindo um universo de 800 fortalezenses. (DIÁRIO DO NORDESTE, 29/09/1992, p.5.)
Uma nota da Coligação “Nosso Povo, Nossa Fortaleza”, composta pelo PDT, PSB, PCdoB e PMN, que tinha como postulante a prefeitura de Fortaleza, Lúcio Alcântara, chamada de “A Hora da Verdade”, denunciava tanto o PSDB como o PMDB de “Farinha do mesmo saco”. Ela dizia que:
[...] De repente alguns candidatos passaram a usar seus espaços de rádio e televisão para pedir a saída de Collor. Assis Machado e Antônio Cambraia querem nos fazer esquecer que foi com seu apoio que Collor chegou à Presidência da República e pôde governar em proveito próprio. Quando se acusam um ao outro, Assis e Cambraia são como o sujo falando do mal lavado, porque ambos tem o rabo preso com Fernando Collor. São como ratos abandonando o navio que afundou. [...] Assis Machado, Ciro e Tasso queriam apoiar Collor desde o primeiro turno. Collor rejeitou o apoio de Tasso porque ele queria três ministérios em troca, inclusive o da Economia. Por isso, eles foram de malas e bagagens para o PSDB de Covas. No segundo turno, eles negaram apoio a Lula e ficaram livres para votar no candidato de sua preferência. O PMDB de Cambraia também negou apoio a Lula no segundo turno para poder votar livremente em Collor. (TRIBUNA DO CEARÁ, 28/08/1992, p.5A.)
Mas, nem todos os parlamentares e políticos profissionais estavam preocupados com a opinião pública, muitos eram fiéis ao Presidente Fernando Collor, tanto a nível nacional como o Deputado Federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), considerado o chefe da tropa de choque de Collor no Congresso, como no Ceará, sendo alguns deles eram os Deputados Federais, Carlos Virgílio (PDS), Aécio de Borba (PDS), Etevaldo Nogueira (PFL) e Antônio dos Santos (PFL).
Aécio de Borba que é presidente do PDS no Ceará não esconde o seu incomodo com a situação. “O PC que começou o roubo não foi preso. O sócio do PC não foi preso. Ninguém foi preso, mas já querem julgar o Presidente” desabafou. Ele acha que o processo está sendo conduzido de forma injusta para Fernando Collor. (O POVO, 25/09/1992, p.25A.)
Deste mencionados, somente Aécio de Borba, mudou de posição no dia da votação do impeachment, já Antônio dos Santos não foi à Brasília se ausentando assim de tomar partido a este respeito. Etevaldo e Virgílio votaram contra o pedido de impeachment. Na capa do jornal O Povo, vinha o destaque daqueles parlamentares cearenses que foram a favor de Fernando Collor: [...] “Dentre os deputados cearenses, houve dois que votaram contra o impeachment: Carlos Virgílio e Etevaldo Nogueira. Por sua vez, Antônio dos Santos não compareceu à histórica sessão da Câmara.” (O POVO, 30/09/1992.)

Já os candidatos dos partidos da esquerda, que estavam mais envolvidos no Movimento Pró-Impeachment, estiveram presentes em praticamente todos os eventos programados. No Caderno de Política do Jornal O Povo, constatamos este envolvimento eleitoral pela agenda dos candidatos42 dos prefeituráveis lá publicada.


O candidato do PFS, Acrísio Sena, faz às 8 horas, panfletagem no Centro de Humanidades da UECe; às 15 horas participa do ato “Fora Collor”, no Centro.

O candidato do PT, Fernando Branquinho, às 9 horas participa de passeata pelo “Fora Collor”, no centro de Humanidades da UFC; às 15 horas vai a outra passeata pelo “Fora Collor” que parte da Faculdade de Direito da UFC. (O POVO, 03/09/92; p.3A)
No ato marcado paralelamente a decisão da Câmara dos Deputados, no dia 29 de setembro ficou evidenciado que os candidatos da esquerda marcaram presença buscando com isso obter apoios e votos para seus propósitos eleitorais, como divulgou o Jornal O Povo: “A campanha para a prefeitura também esteve presente. Os candidatos da vereador levaram suas bandeiras, a charanga e até claques organizados. Fernando Branquinho do PT e Acrísio Sena, do PFS, candidatos à Prefeito, também compareceram.” (O POVO, 30/09/1992, p.8D.)

O candidato petista, Branquinho em sua avaliação sobre a campanha eleitoral de seu partido mencionou:


A conjuntura nacional marcada pela crise política foi outro fato que proporcionou “acréscimos” em sua campanha. Para Branquinho a movimentação nas ruas pelo “fora Collor” bem como a atuação do PT na linha de frente das denúncias contra Presidente – “acabou fazendo com que os jovens se identificassem com a minha candidatura” (O POVO, 26/09/1992, p.3A.)
Disputadas sob o impacto do movimento Fora Collor que resultaria na queda do presidente da República, as eleições foram benéficas para a esquerda que conquistou doze capitais,” Mas, o PT, não soube potencializar para si eleitoralmente esta campanha pelo “Fora Collor”, tanto em Fortaleza como nas demais capitais do Brasil. Os petistas conseguiriam eleger apenas os prefeitos de Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Goiânia (GO) e Rio Branco (AC). Ou então, podemos crer que o PT não fez do interesse eleitoral o seu real intuito naqueles meses de intensas manifestações políticas, contra o Presidente Fernando Collor. Concomitantemente em outras capitais, “entretanto as vertentes conservadoras preservaram zonas de influência.”.43.

2. AS JUVENTUDES ORGANIZADAS EM MOVIMENTOS SOCIAIS.
A História brasileira é marcada pela ocorrência de vários e importantes momentos de agitações sociais, motivadas pela atuação de diferentes setores da nossa sociedade, e que são ocasionadas por uma leva de interesses políticos, sociais e econômicos destes agentes históricos. Dentre estes diversos atores envolvidos na contínua construção e reconstrução da realidade brasileira, encontramos as ações nossa juventude.

No caso específico deste segmento social, identificamos que “os movimentos juvenis são particularmente favorecidos por ambientes políticos instáveis.” (SCHMIDT, 2001, p.189.). Um destes “ambientes” aconteceu no Brasil, quando em 1992, considerável parcela da juventude organizou e participou ativamente das manifestações pelo impeachment do ex-Presidente Fernando Collor. O Movimento Estudantil tornou-se o movimento social mais visível nestes atos.



Estes acontecimentos realizados entre os esses de agosto e setembro e ganharam um grande incentivo provavelmente em virtude de um pronunciamento equivocado por parte do então Presidente Collor, quando o mesmo veio a público pedir apoio do povo brasileiro. Assim como relata a reportagem do Jornal cearense, O Povo, em seu Caderno Vida & Arte.
Tudo começou na tentativa do governo em querer reverter uma situação que lhe era desfavorável. Collor foi a TV, e num gesto de desespero, instigou a nação a sair às ruas, com bandeiras e roupas verdes e amarelas em apoio a ele. [...] A resposta foi impressionante. Manhã de domingo,23 44, o povo foi às ruas sim, mas desfraldou foi a bandeira negra da repudia a todos os atos de corrupção do ex-tesoureiro da campanha presidencial e que envolvem de uma forma vergonhosa a figura do presidente. Foi um domingo diferente. No meio das ruas, gritando palavras de ordem contra o presidente e entoando velhas canções de protestos retiradas de outras passeatas, o brasileiro se vestiu de luto. E, ao que se sabe, pela primeira vez na vida, o preto virou festa”. (O POVO; 01.09.92, p.18.)
Apesar de não ter este sido neste dia o início oficial da campanha pelo Fora Collor, este, domingo de agosto, foi um “estopim” que incitou e empolgou a sociedade a ir às ruas para efetivar algumas das maiores demonstrações de participação popular dos últimos anos no Brasil, no mês seguinte a tendência era ocorrência de mobilizações em quase todas as capitais do país. Assim registou o Jornal Folha de São Paulo.
Em setembro, a tendência do movimento também foi a de se espalhar pelas capitais do país. No dia 15 de setembro, a cidade de Curitiba viveu a maior manifestação de sua história, com ato e passeata reunindo 45 mil pessoas (segundo a Polícia Militar) ou 80 mil (segundo os organizadores). No dia 18 há manifestações em João Pessoa (Paraíba), reunindo cerca de 25 mil pessoas; em Natal (Rio Grande do Norte), com 12 mil pessoas; em Rio Branco (Acre), uma passeata com 5 mil pessoas; e um protesto em Porto Velho (Rondônia). (FOLHA DE SÃO PAULO, 19/09/92; p. I-10 apud GROPPO, 2008; p.44. In: GROPPO, MACHADO e ZAIDAN FILHO).
Estas mobilizações com grande presença de jovens e adolescentes eram registradas pelos jornais de todo o território nacional, dos paulistas aos cearenses, pois as manifestações ganhavam as ruas de norte a sul do Brasil. Assim registrou o Jornal O Povo de Fortaleza, Ceará.
Os estudantes voltaram ontem às ruas do Centro do Rio de Janeiro para exigir o impeachment do presidente Fernando Collor. [...] Em Curitiba, o “Fora Collor” de ontem reuniu cerca de 60 mil estudantes universitários e secundaristas. [...] Trabalhadores, estudantes, sindicalistas, militantes de partidos de oposição e até agentes da Polícia Federal promoveram uma passeata, pelo impeachment do presidente Fernando Collor, ontem a tarde, nas ruas centrais de Maceió. (O POVO; 16.09.92, Matéria de Capa e p.8A.)
O afastamento do Presidente Collor, foi causado por uma série de fatores, alguns deles já expostos no capítulo anterior. Mas, podemos considerar e um deles foi à inesperada, mas fulminante atuação do Movimento Estudantil em vários cantos do país numa campanha que ganhou a opinião pública e gerando uma enorme pressão popular e que culminou a renuncia do Presidente Collor ainda neste mesmo ano.

Estes episódios, prestes há completarem vinte anos são ao lado da heroica participação dos jovens dos anos 60 - na luta pela democracia frente à repressão promovida pelo regime ditatorial em vigor - os principais retratos da memória do Movimento Estudantil na nossa História.


2.1. O Movimento Estudantil.
2.1.1. Algumas Conceituações sobre Movimento Estudantil.
O Movimento Estudantil tem se tornado longo dos tempos uma das mais importantes formas de organização de luta social, ele foi se construindo em decorrência das experiências adquiridas nos embates protagonizados pela juventude na transformação da realidade, ou na tentativa de se manter uma determinada ordem vigente. Portanto, como um movimento social baseia-se na atividade coletiva de indivíduos em um determinado tipo de ação histórica contribuindo dessa forma na construção histórica da humanidade.
“A ação é privilégio exclusivo do homem e depende completamente da presença dos outros, sendo assim, é a atividade política por excelência. Entretanto o fato de sermos todos humanos, sem que ninguém seja precisamente igual a qualquer outra pessoa, faz da pluralidade a condição da ação humana. Essa atividade humana, ao se comprometer em criar e manter corpos políticos dá origem a condição para a lembrança para a história.” (ARENDT Apud FRAGA, 1996; p.3.)45
Assim como qualquer outro movimento social, o Movimento Estudantil possui algumas especificidades. Os jovens de uma forma geral necessitam realizar algum tipo de ação coletiva e geralmente formam grupos de acordo com as necessidades de seu convívio e dentre esses grupos encontramos o Movimento Estudantil, que se torna na maioria dos casos a primeira participação de forma organizada na sociedade. Esses rapazes e essas moças tem no Movimento Estudantil neste caso seu primeiro grande aprendizado de luta social e por ser algo temporário, torna-se uma espécie de gestação da maturidade política do cidadão.

Ao estudarmos Movimento Estudantil, precisamos identificar quem são seus membros e eles têm uma participação temporária neste movimento, a idade cronológica seria um elemento intrínseco nesta análise. Segundo João Pedro Schmidt “o pressuposto fundamental da discussão é que a idade é um fenômeno social e não apenas biológico. Historicamente, nem sempre houve crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.” (SCHMIDT, 2001; p.184.).

Outro dado importante a ser avaliado é que a existência de indivíduos de uma mesma faixa etária não os faz necessariamente um setor homogêneo com anseios sociais inerentes e iguais. Pois por terem diferentes realidades cotidianas, seus desejos não são originários simplesmente por terem uma mesma idade cronológica.
Utilizar o termo juventude para “falar dos jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e relacionar esses interesses a uma idade definida biologicamente” é, para ele, uma manipulação evidente e um formidável abuso da linguagem. (BOURDIEU, 1983, p.114-115; apud SCHMIDT, 2001; p.185.).
É difícil dividir e estabelecer parâmetros cronológicos para diferenciarmos e escolhermos quem são os membros dos movimentos políticos ditos como sendo da juventude. Como avalia João Pedro Schmidt, a respeito deste quesito “há uma diversidade de pontos de vista entre os pesquisadores” (SCHMIDT, 2001; p.186.). Todavia, a UNESCO46: adota como limites para designarmos pessoas jovens as idades de 14-25 anos, sendo o período inicial, dos 14 aos 18 anos, denominados de adolescência. Já no Brasil, o ECA47, considera, no seu artigo 2º, como adolescente a pessoa entre 12 e 18 anos de idade.

São as diversidades defrontadas, os interesses de classe ou corporativos, as ações políticas cotidianas e os obstáculos surgidos tanto nos lugares em que estão inseridos como nas épocas vivenciadas que moldam a juventude e consequentemente o movimento por eles formado. Desta forma, pensa a socióloga Lucíola Augusta Lino de Paula48, quando:


Sabemos que os fenômenos sociais são sempre relacionais, e que o processo de constituição dos sujeitos históricos deriva-se da tensão entre estrutura e sujeito, o que impede a desarticulação entre indivíduo e sociedade se queremos nos referir à produção da cultura e das várias representações sociais. Ora, a história e a cultura são dinâmicas e implicam em possibilidades continuas e incessantes de construção de novos valores ou da ressignificação de valores e visões tradicionais, no âmbito da tessitura social. (DE PAULA, p.6.).
E a mídia tem desempenhado grande influência na formação destes jovens e adolescentes, pois ela tem realizado em eficiência um papel de moldar um adulto de acordo com os interesses de um determinado statos quo. A pesquisadora de temas relacionados à juventude, Helena Abramo, vem observado que:
Tem crescido a atenção dirigida aos jovens nos últimos anos no Brasil, tanto por parte da “opinião pública” (notadamente os meios de comunicação de massa) como da academia, assim como por parte de atores políticos e de instituições, governamentais e não governamentais, que prestam serviços sociais. Entre os meios de comunicação de massa, da televisão à grande imprensa, passando pelas rádios, revistas etc, assistimos a uma avalanche de produtos especialmente dirigidos ao público adolescente e juvenil (os cadernos teen nos grandes jornais, programas de auditório na televisão, programas só de rock ou de rap nas rádios e canais de televisão, revistas de comportamento, moda e aconselhamento etc.), mas também ao crescimento de noticiário a respeito de jovens. De forma geral, e a grosso modo, pode-se notar uma divisão nestes dois diferentes modos de tematização dos jovens nos meios de comunicação. No caso dos produtos diretamente dirigidos a esse público, os temas normalmente são cultura e comportamento: música, moda, estilo de vida e estilo de aparecimento, esporte, lazer. Quando os jovens são assunto dos cadernos destinados aos “adultos”, no noticiário, em matérias analíticas e editoriais, os temas mais comuns são aqueles relacionados aos “problemas sociais”, como violência, crime, exploração sexual, drogadição, ou as medidas para dirimir ou combater tais problemas. (ABRAMO,1997; p.25.)
Mas, adiante, neste trabalho, abordaremos mais outros elementos a respeito da ação midiática sobre os jovens do nosso período estudado.

É algo bastante característico das juventudes em qualquer lugar e tempo, a inquietação diante dos mais distintos problemas do seu dia a dia49. “A juventude não existe como fenômeno universal supra-histórico. O que existe em cada período histórico é um conjunto multifacetado de jovens, condicionados e interagindo com o meio social em que vivem”. (SCHMIDT, 2001, p.188.).

Causas para se lutar é que não faltam, desde algo bem específico do segmento discente, passando por uma luta contra um governo autoritário, um projeto político ou econômico, até as mais recentes “bandeiras de luta”, como o combate ao machismo, a homofobia dentre outras formas de engajamento político deste segmento social que é a juventude. Neste sentido, recorremos novamente a Lucíola de Paula, ao mencionar destacando os elementos inseridos na construção de uma juventude participativa, pois:

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