O povo o povo de Carlos Augusto de Almeida Moreira / Adaptada do texto “o povo”de Luís Fernando Veríssimo. Cena I



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Encontro13.07.2017
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O POVO

O POVO
De Carlos Augusto de Almeida Moreira /

Adaptada do texto “O Povo”de Luís Fernando Veríssimo.

Cena I
Cenário: No banco da praça, dois loucos discursam como se fossem políticos em dia de comício.

Personagens: Militino e João Trabuco.


Militino - Compadre, ainda serei governador dessa terra.Porei muita ordem nesta bistunta, nunca vi governantes tão burros, compadre, não sabem nada.

João Trabuco - Tem razão o compadre. Este prefeito que está ai não sabe nada, não liga pra nada, nem para a catrupia de jegues de Doutor Cunegundes, que vive de um lado para o outro, trotando o tempo todo, o senhor não acha que devia ter cadeia pra jegue, compadre?

Militino - Não se preocupe compadre quando for eleito resolverei tudo isso.

(subindo no banco da praça começa a discursar, enquanto o outro bate palmas e dá viva)

Povo dessa redondeza quadrada, quando for eleito, prometo que colocarei água elétrica e luz encanada.Os lampiões vão se aposentar e os candeeiros também.

João Trabuco - Fala dos jegues compadre.

Militino -O quê?

João Trabuco -Dos jegues.

Militino -Oh! Sim. Os jegues. Os jegues o quê compadre? Ah! Deixa os jegues pra depois.

Vou dá escola de graça pra as crianças que querem estudar, quem não quiser vai trabalhar.

Vou construir calçamento nas vias públicas para todos os pederastas passarem.

Vou construir hospícios pra os políticos e aposentadoria especial pra os loucos, cadeiras para os jegues de Doutor Cunegundes que meu compadre não agüenta mais as andanças dessa catrupia de jegues. Falei compadre!

Meu governo será para o povo, pelo povo e do povo.

O povo terá respeito no meu governo.

(o outro sobe noutro banco e começa a discursar também)

João Trabuco - Educação será prioridade em meu governo. Votem em mim, pois sararei a saúde de todas as suas enfermidades, cultura e loucura, ou será loucura e cultura? O importante é que estarão juntas no progresso dessa terra.

Militino -É louco! Não escute ele, é louco, varrido.

João Trabuco -Louco é quem me chama.

Militino -Diga de novo seu covarde. Diga.

João Trabuco -É louco. É louco e é louco. Dê o jeito.

Militino -Fique ai teimoso que eu não sou louco pra brigar no meio da rua.

(começam uma briga que acabam rolando no chão, param, levantam, olha um para o outro e como se fossem recomeçar a briga partem um para o outro e se abraçam, dão risadas e perguntam pra o público se eles acreditaram, é só brincadeira. Políticos não brigam, brincam para enganar o povo)


Militino- E falando em povo compadre, eu não posso deixar de concordar com algumas coisas que o senhor disse.

João Trabuco - E o que eu disse compadre?

Militino- Que o povo é culpado de todas as mazelas da sociedade.

João Trabuco -Louco é quem quer ser político.

Militino- Mas o que fazer compadre, já estou eleito. E agora é a hora da verdade.

O povo que me perdoe, mas ele merece o governante eu tem. Não plantou, que colha.



João Trabuco - É uma posição impopular, compadre. Desse jeito não será mais eleito.

Militino- Bobagem compadre, o povo gosta de sofrer. Se comporta mal em qualquer lugar, nos shows, nas partidas de futebol, em casamentos, nos parques, nas vias pública, o povo é desordeiro, quebra tudo, se não fosse o povo a gente comprava uma carteira para a escola e ela servia até ficar velha, todo ano se compra carteira para as escolas, livros, orelhões para telefones, bancos para as praças, e quem quebra.

João Trabuco - O povo.

Militino- Eu não posso ir mais longe, tenho minha posição a preservar, preciso ter escrúpulos, a política exige, além do mais não sei quando estou ao vivo ou não. Compreende compadre.

João Trabuco - Perfeitamente. Mas eu não sou político. O povo é corrupto, tem boca porca, é imundo, não tem educação... e ainda vota em quem não deve. Não me elegeu.que se dane.

Militino- Pare com isso compadre, vou lhe mandar prender.

João Trabuco - Pois que mande compadre. O povo tem péssimas maneiras. O Povo se veste mal, nunca algo que se dê prazer se olhar, o povo não usa perfume, fede por todo o corpo.

Militino- - Nisso o senhor tem razão, o povo fede, e como fede.

João Trabuco -O povo faz xixi e coco em escala industrial, ninguém consegue fazer rede de esgoto para o povo. O povo não tem higiene, joga lixo em toda parte. Se não houvesse o povo não teríamos os problemas ecológicos.

Militino- - É problema ecológico é coisa séria. É a comida compadre. O povo não sabe comer. Alimenta-se mal e não quer ficar doente. Não cozinha bem os alimentos, não os mastiga bem, e além do mais tem um gosto deplorável. Já viu o que esse povo come. Até lixo.

João Trabuco -Não penteia os cabelos, não escova os dentes, não toma banho.

Militino- O povo é insensível. Vulgar. A chamada explosão demográfica é culpa exclusivamente do povo, que se reproduz numa proporção verdadeiramente suicida.

João Trabuco - O povo é promiscuo e sem vergonha.

Militino -Compadre. (Colocando a mão na boca) o Senhor pegou pesado.

João Trabuco - A super população nos grandes centros, se deve ao povo. As lamentáveis favelas que tanto prejudicam nossa paisagem foram inventadas pelo povo. E não adianta fazer leis sanitárias, não a cumprem. O povo é quem primeiro descumpre as leis. É uma verdadeira sonegação de impostos, sonegam o IPTU, INSS, a taxa de lixo e tantas outras.

Militino-Não tenho dinheiro para pagar nem sequer os meus impostos, e como governantes, tenho que manter a ordem.

João Trabuco - Eu não pago. Não preciso.

Militino - O povo é brega, escolhe a piores cores para pintar seus barracos. Deviam sair do centro da cidade já que queriam fazer suas palhaçadas, mas não, fazem suas favelas nas áreas nobres, enfeiam nossa arquitetura urbanística, não se pode mais nem abrir as janelas dos apartamentos, fumaça, fedor, balas...

João Trabuco -É compadre, esse negócio de violência, ta pegando. Mas me responda sem meias palavras. O que o senhor tem feito com respeito à violência?

Militino -Tudo. Tudo. Tudo. Compadre.Tenho feito tudo o que posso.

Mas compadre, me responda agora o senhor. Haveria os problemas de trânsito se não fosse o povo? Usa qualquer carroça e diz que é carro. Seus restos automotores atrapalham o trânsito a todo o momento: Quebrou a cruzeta! Arrebentou a direção! Faltou freio! E o pior de todos : Não tem combustível, e ai começa a procissão de pobres empurrando o carro do outro. Guincho? Alguém tem algum tostão para pagar um? O povo é um estorvo.



João Trabuco - E na política!É notória a incapacidade do povo. O povo não sabe votar. Não sabe em quem vota. E quando vota, vota errado. Uns erram por não saberem ler, outros por acharem que sabem alguma coisa. Elegem sempre candidatos populares que tudo prometem e nada cumprem. Pergunte ao povo o candidato que ele votou na eleição passada que ele não sabe responder.

Militino - O povo não tem memória. Não tem cabeça. O povo é burro. No ano seguinte vota novamente no mesmo candidato, mesmo sem ter cumprido suas promessas. O povo não tem fidelidade partidária. Vota em quem dê mais.

João Trabuco - O povo não tem ideologia. Não é saudável. 90% do povo tem cáries dentárias. O povo não vai ao dentista. O índice de morte por má nutrição entre o povo é assustador.

Militino - O povo tem piolhos, caspas, seborréia e outras imudícies por não lavarem a cabeça.

João Trabuco -O povo não vai ao médico. E quando vai não tem dinheiro pra comprar o remédio. Se vai para o hospital. Coitado. Morre de infecção hospitalar.

É esfomeado, guloso, ml educado. Não sabe andar nas ruas. 80% dos acidentes fatais é entre o povo. O povo não é qualificado para o trabalho e ainda reclama dos salários. É preguiçoso, manhoso, lento, e por cima põe sempre a culpa ou nos governantes ou no patrão.



Militino -É compadre, o povo não gosta de trabalhar esta é a verdade. Prefere ficar nos bares jogando ou bebericando, ou então debaixo das pontes e viadutos. Não gostam de trabalhar e quando arranja trabalho são sempre ignóbeis e aviltantes.

João Trabuco - Se não fosse o povo não teríamos pobre, desemprego, fome e outras mazelas sociais.

Militino - Imagine só compadre, o Brasil já deveria está no rol do primeiro mundo. É do povo a culpa por não estarmos. Não estuda, não trabalha, não produz renda, não faz nada.

É imprestável.



João Trabuco - O banditismo campeia entre o povo. A violência é causada pelo povo. Os piores crimes é o povo que pratica.

Militino -O povo é ladrão, compadre, rouba até a própria consciência.

João Trabuco -O tráfico de drogas é feito pelo povo, o maior índice de viciados está entre o povo. Produtor, distribuidor e consumidor das drogas.

Militino - O povo é um perigo. É como boiada estourando. Temos que ter muito cuidado com o povo. Constroem-se hoje milhares de escolas, presídios, hospitais, e também hospícios, só por causa do povo. É dinheiro jogado fora. Não tem retorno.

O povo não quer estudar não compadre, quebra as carteiras, rasga os livros, destrói as escolas e ainda reclama da má qualidade da educação. Quem é louco de todo ano gastar mais e mais com o concerto das escolas.



João Trabuco - O Senhor compadre, o senhor que é político.

Militino - Sou político compadre, mas não sou besta, sou daqueles que sabem que com bala e bolo se engana a tolos, que com pão e circo o povo é iludido, que muita conversa e pouca ação é que agrada o povão. É por isso que fui eleito compadre.

João Trabuco - Sem meu voto. Não sou louco de votar num cabra assim. Compadre.

Militino - Então quer dizer que não votou em mim, amigo da onça.

João Trabuco -Não votei e não voto.

Militino - Eu também não votei em você.

João Trabuco -Eu já sabia.

Militino -Deu pra adivinha agora foi.

João Trabuco -Não jumento. Fui eu adversário.

Militino -Ah! compadre foi mesmo.

João Trabuco -Compadre eu tive pensando. Será que o povo gosta de ouvir boa música?

Militino -Boa música não é para povo, é para elite. E o povo sabe lá o que é boa cultura, sô.

Um bom livro, um bom vinho, um bom filme, uma boa peça, um bom sarau, uma boa exposição, uma viagem ao exterior, uma boa comida! Eta vida boa sô.

O senhor tem cada pergunta. O povo sabe lá o que é bom. O povo sabe mesmo é pinchar parede, quebrar monumento, destruir a natureza, estragam tudo, derrubam as matas, matam os animais para saciar os desejos, poluem os rios e fontes, é uma desgraça.

João Trabuco -É compadre, se o povo soubesse bem nem existiria. É uma vergonha para nós, elite do país.

Militino -É deprimente mais é verdade compadre. O povo é a peste da terra, calamidades, epidemias, pestes, o povo é o culpado.

João Trabuco -Só nos traz infelicidades. Não é feliz nem deixa o outro ser.

Militino -Compadre. Eu tomei uma decisão. E é preciso agir urgente.

João Trabuco -Qual compadre.

Militino -O povo deve ser exterminado.

João Trabuco -Muito bem . Muito bem.

Sugestões de Músicas para utilizar na peça:



  • Vida de gado (Admirável gado novo);

  • Dizem que eu sou louco;

  • A burguesia fede;

  • Cidadão –Gonzaguinha;

  • Bebida é água;

  • O inferno é aqui;

  • Neste mundo louco – Marina.





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