O pentelho Príncipe (com rabiscos da autora) Por Antonia dos Santos Exus Peris



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O

Pentelho

Príncipe

(com rabiscos da autora)

Por Antonia dos Santos Exus Peris

1
Eu me chamo Antonia dos Santos Exus Peris. O “Santos” é porque minha família é metade católica, o “Exus” é porque ela é metade africana e o “Peris” é porque ela é metade indígena. Opa! Três metades? Tem alguma coisa errada aí. Nunca gostei muito de matemática mesmo. Minha aula preferida era a de desenho.

Quer ver a primeira coisa que eu desenhei na vida? Foi isso aqui:



Mostrei minha obra-prima para algumas pessoas e elas disseram.

- É um chapéu!

- É um ovo frito visto de perfil!

- É um careca passando do outro lado do muro!

- É uma bola de sorvete que caiu no chão e está derretendo!

E teve alguém mais tonto ainda que disse que era uma cobra gigante que engoliu um dinossauro. Aí, se tirassem um raio-x do desenho, ele ficaria assim:


Todos esses palpiteiros erraram. Na verdade, meu desenho era só um traço com a metade de uma bola em cima. As pessoas gostam de pensar que as coisas são mais interessantes e misteriosas do que parecem.

Bom, como ninguém entendeu o que eu fiz, desisti de ser desenhista. E, como todo mundo sempre falava que eu era bonita, decidi ser uma miss. Uma miss profissional.

Ganhei um monte de concursos. Na minha cidade fui Miss Verão, Miss Primavera, Miss Outono e Miss Inverno, que foi um concurso muito difícil, porque tivemos que usar casacos de peles e o ar condicionado estava quebrado.

Depois, na minha região, fui eleita Miss Festa da Uva, Miss Festa da Laranja, Miss Festa da Banana e Miss Festa do Morango, o que foi um problema, porque eu tenho alergia a morangos e tive que comer um bocado deles. Acabei ficando vermelha e empipocada feito um morango mesmo.

Então passei a concorrer em concursos de misses pelo Brasil. E ganhei vários. Por exemplo: Fui Miss Nova Iorque (no Maranhão), Miss Barcelona (no Rio Grande do Norte) e Miss Buenos Aires (em Pernambuco). Essas cidades existem mesmo, podem procurar no mapa.

Por fim, passei a disputar concursos de beleza pelo mundo. Assim aprendi um pouquinho de cada língua. Por exemplo, sei perguntar “Meu batom está borrado?” em francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, japonês, chinês, finlandês, zulu e até em dlimi, uma língua do Nepal, porque uma vez concorri a Miss Everest (acabei desclassificada, porque ninguém me avisou que tinha que ter mais de dois metros de altura para participar do concurso).

Não parece, mas ser miss dá muito trabalho. É quase como ser uma princesa. Você deve estar sempre sorridente, maquiada e penteada, e jamais, jamais!, pode ter um pedacinho de couve entre os dentes.

Além disso, uma miss deve evitar:

- soltar gargalhadas, para não ter pés-de-galinha,

- chorar, para não estragar a maquiagem,

- tomar sorvete, para não estragar o batom,

- assoar o nariz, para não deixá-lo vermelho.

E isso é bem difícil, porque não dá para viver sem rir, chorar, tomar sorvete e assoar o nariz.

Mas não é a minha vida de miss que eu quero contar. O que eu quero contar é um encontro muito estranho que eu tive num lugar muito estranho com um sujeito muito estranho.


2
Tudo aconteceu quando eu estava indo participar do concurso de Miss Pirâmide. Esse é um dos mais disputados do mundo, porque o prêmio da vencedora é casar com um príncipe lá das arábias.

Isso mesmo, um príncipe de verdade. E bem rico!

Logo que desci no aeroporto, aluguei um carro (o mais barato que encontrei) e peguei a estrada para as pirâmides (o concurso era em cima de uma delas). Mas, bem no meio do deserto, quando só tinha areia para todo lado que se olhava, ele parou de funcionar.

Levantei o capô para dar uma olhada no motor. Logo percebi que eu não tinha um problema, mas dois.

O primeiro era que o carro não funcionava.

O segundo era que eu não entendia nada de mecânica.

Tive vontade de chorar mas me segurei. Sabia que não podia desperdiçar água.

Fiquei esperando que alguém passasse por ali, mas a estrada estava mais deserta que o deserto. Não apareceu nem um beduíno montado num camelo.

Quando começou a anoitecer, entrei no carro, coloquei todas as minhas faixas de miss para me esquentar um pouco (eu sempre viajava com elas para dar sorte) e dormi.

Na manhã seguinte acordei com um “toc, toc” na minha janela.

Me levantei o mais rápido que pude. Nem tinha tirado as remelas dos olhos quando vi que do lado de fora do carro havia um serzinho muito estranho. O melhor que consigo desenhá-lo é isto aqui:

Não ficou muito bom, eu sei. É que eu parei desenhar há muito tempo e só estou voltando agora. Talvez até o fim do livro eu melhore.

Mas isso não importa.

O que importa é que, quando eu vi aquele serzinho, soltei um assustado “Aaaaaaaaah!”,

Não é uma coisa muito inteligente para se dizer, mas o quê vocês queriam que eu fizesse? Não esperava que ninguém me acordasse no meio do deserto, ainda mais um sujeito minúsculo usando uma capa.

Então esfreguei bem os olhos (para tirar as remelas e para enxergar direito) e cocei a cabeça (isso sempre me ajuda a pensar). Foi quando tive um clique!

Aquele menino, com aquela roupa, naquele deserto, só podia ser o personagem principal do meu livro favorito!

Tá, era o único livro que eu tinha lido, mas era meu favorito mesmo assim.

Então saí do carro, fiquei cara a cara com ele e gritei!

- Você é o Pequeno Príncipe!!!!!!!!!!!!

E foi assim mesmo, com um monte de pontos de exclamação. Ele tampou os ouvidos com as duas mãos e disse:

- Eu sou pequeno, mas não sou príncipe. E também não sou surdo!

- Mas e essa capa?

- Um monte de super-heróis usa capa e eles não são príncipes.

- E essa coroa?

- É só o meu cabelo que é meio espetado. Você não é muito esperta, né?

- Ei, você nem me conhece e já está me xingando! Não podia mesmo ser o Pequeno Príncipe. Está mais para Pentelho Príncipe.

- Pentelho?

- É. Significa irritante, impertinente, atrevido, insolente, rabugento.

- Vou considerar um elogio.

- O Pequeno Príncipe nunca consideraria.

- Ele era príncipe de que país?

- De nenhum. Veio de outro planeta...

- Eu também.

- O quê?!?!?!

Fiquei com a boca aberta de espanto. Ainda bem que não havia moscas por ali. Aquilo era muita coincidência. Então perguntei para o Pentelho:


3
- De que planeta você veio?

- De um asteroide que fica entre Marte e Júpiter.

- E qual é o nome dele? O do Pequeno Príncipe era B 612. O seu é B 613?

- Não. Eu o chamo de “casa” mesmo.

- Será que foi um astrônomo turco quem descobriu o seu asteroide? No livro que eu li, foi um astrônomo turco quem descobriu o planeta do Pequeno Príncipe.

- Ué?! Mas se o tal do Pequeno Príncipe já morava lá, ninguém descobriu o asteroide.

- Como assim?

- Quem descobriu o lugar onde você mora?

- Na escola eu aprendi que foi o Pedro Álvares Cabral, um navegante português. Ele que chegou aqui no Brasil primeiro e viu que tinha um monte de índios.

- Ué?! Se já tinha índios aqui, o Cabral não foi o primeiro nem descobriu nada. Quem descobriu foram os índios.

- Não é assim que está nos livros.

- A gente tem que desconfiar dos livros de vez em quando.



4
Aquela história não me deixou satisfeita. Então falei:

- Eu sempre ouvi que Cristóvão Colombo tinha descoberto a América e Pedro Álvares Cabral tinha descoberto o Brasil.

- Só por que foram os primeiros estrangeiros a chegar?

- Claro.


- Se for assim, você tinha que dizer que fui eu quem descobriu o seu planeta.

- Você?


- Claro. Algum outro alienígena já tinha vindo aqui antes?

- Que eu saiba, não.

- E você acha justo que eu diga: “Descobri a Terra, agora ela me pertence”?

- Não mesmo! Antes de você chegar já tinha muita gente aqui.

- Pois é.


5
Enquanto tomávamos café da manhã (eu tinha um monte de sucos light e bolachas diet no meu carro), continuei fazendo perguntas para o Pentelho Príncipe:

- Como é que você faz com as sementes de baobá?

- O que é baobá?

- É uma árvore imensa, bem alta e gorda.

- Desenha uma para mim?

Aí eu tentei desenhar uns baobás, e eles ficaram assim:

Quando ele viu meus desenhos, falou:

- Caraca! Que árvores legais!

- No seu planeta não tem semente de baobá?

- Não mesmo.

- Ah, que pena... No livro que eu li, o Pequeno Príncipe contava que seu planetinha era cheio de sementes de baobá.

- E o que ele fazia com elas?

- Todo dia pela manhã, ele procurava as sementes e as arrancava antes que começassem a crescer.

- Não acredito!

- Mas é verdade. Ele não era nada preguiçoso.

- Não era preguiçoso, mas era meio burro.

- Não fale assim do Pequeno Príncipe! Ele é o meu ídolo!

- Poxa, mas quem é que não ia querer ter uns baobás gigantes no seu asteroide?! Se eu pudesse, teria um monte! Eles fariam sombra, eu construiria casas nas suas copas e pontes entre os galhos, penduraria balanços, faria escorregadores e brincaria de macaco o dia todo.

- Parece divertido...

- Claro que é! Não entendo como alguém não ia querer ter uns baobás.

- Ele disse que o planeta podia rachar.

- Mas é justamente o contrário! O solo racha em lugares sem árvores. Esse seu Pequeno Príncipe não manjava nada de agricultura!

- Bom, talvez ele quisesse dizer que a gente tem que cortar as coisas más enquanto são pequenas e cultivar as coisas boas para que cresçam.

- Esse negócio de bom e mau é muito relativo. O que é bom para um às vezes é mau para o outro. Para mim, por exemplo, o baobá seria uma maravilha.

E aí ele pediu que eu desenhasse o planeta dele com baobás, e ficou assim:

6
Vendo aquele desenho, que eu, modéstia à parte, achei lindo, perguntei para o Pentelho Príncipe:

- O seu planeta é deste tamanho que eu imaginei?

- Mais ou menos.

- Então, como ele é bem pequeno, você pode fazer que nem o Pequeno Príncipe e ver um monte de pores do sol. É só sentar numa cadeira bem gostosa e ir chegando para trás de vez em quando. Aí você ia poder ver o sol sempre assim:



- Um pôr-do-sol por dia já é o suficiente. Mais que isso enjoa.

- Imagina! É a coisa mais linda do mundo! Você devia assistir ao sol se pôr 44 vezes seguidas, que nem o Pequeno Príncipe.

- Ele viu o mesmo pôr-do-sol 44 vezes?

- Viu.


- Nossa! Que falta faz uma televisão, hein?
7
Bom, como não aparecia ninguém por aquela estrada, resolvi eu mesma dar um jeito no carro. Tinha que ganhar aquele concurso e casar com o príncipe-árabe-milionário de qualquer jeito.

Então peguei umas ferramentas que estavam no porta-malas e comecei a apertar porcas e parafusos. Mexi daqui e dali, e até entrei embaixo do carro para ver se tinha algum vazamento. Acabei toda suja de graxa. Quando o Pentelho Príncipe me viu, perguntou:

- Você vai concorrer a Miss Pirâmide ou a Miss Petróleo?

- Em vez de fazer piadas sem graça, você podia me ajudar.

- Não entendo nada de mecânica.

- Entende de quê?

- De jardinagem. É o que eu mais fazia no meu planeta.

- Ah, então mesmo bancando o durão, você gosta de flores?

- Quem não gosta? No cinturão de asteroides há flores lindas.

- Como elas são?

- Ah, existem vários tipos:

* tem a flor-zebra, toda rajada de preto e branco,

* as flores-gêmeas, que sempre nascem coladas uma na outra e brigam até se despetalarem,

* a flor-livro, que tem letras em suas pétalas e às vezes formam palavras,

* a flor-estrela, que fica piscando à noite,

* a flor-borboleta, que só tem duas pétalas e parece mesmo uma borboleta,

* a flor-arco-íris, que tem uma pétala de cada cor,

* e a flor-gambá, que cheira muito mal.

- Qual é a sua favorita?

Eu pensei que ele responderia bem rápido, mas o Pentelho Príncipe respirou fundo, sentou no para-choque do carro, ficou olhando para a ponta dos seus sapatos e só uns segundos depois é que respondeu:

- Olha, acho que eu gostava da Rosa.

- Uma rosa comum?

- Não, ela não tinha nada de comum. Era uma Rosa gullosicum! Uma espécie muito rara. Ela era assim, olha:

Quando eu vi aquele desenho, não aguentei e disse:

- Poxa. Parece até que ela tem uma boca!

- Não parece. É uma boca mesmo.

- Sério?!

- Sério.


Eu fiquei tão curiosa com aquilo que enchi o Pentelho de perguntas:

- Ela tem dentes? Tem língua? Tem estômago? Come? Faz cocô?

Mas ele só me respondeu no capítulo seguinte.

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