O padre jesuíta Samir Khalil Samir diz que todas as partes envolvidas precisam de seguir o conselho do Papa Francisco e trabalharem juntas no processo de paz



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Encontro14.09.2017
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O padre jesuíta Samir Khalil Samir diz que todas as partes envolvidas precisam de seguir o conselho do Papa Francisco e trabalharem juntas no processo de paz.

Por Edward Pentin


O padre jesuíta Samir Khalil Samir é professor de filosofia, teologia e estudos islamicos na Universidade de S. José, em Beirute, Líbano. Também lecciona no Instituto Pontífice Oriental, em Roma.

A 27 de Agosto, o P.Samir, natural do Cairo, discutiu a situação precária do Egipto - onde os simpatizantes da Irmandade Muçulmana têm usado as Igrejas os Católicas Coptas e Cristãs como alvo de retaliação pela queda do Presidente Mohammed Morsi - e da Síria - onde a guerra civil e o uso de armas químicas tem feito aumentar o conflito até ao ponto de os Estados Unidos estarem a considerar uma intervenção militar na zona do Médio Oriente.

Quais as suas principais preocupações relativamente à situação actual na Síria?

A situação é, de facto, muito grave. Não vemos nenhuma solução, e não há solução, quanto a mim, porque ambos os lados decidiram levar isto o mais longe possível.

Porquê? Para [o Presidente Bashar] Assad, a derrota pode significar não só a sua derrota ou a do regime, mas a derrota da comunidade Alauíta. Hoje, o problema não é simplesmente um problema interno da Síria. O povo Sírio começou por reagir contra a ditadura e pedir a democracia e liberdade. Entretanto, e rapidamente, chegaram elementos vindos de fora, de todo o mundo, e esses elementos são essencialmente fundamentalistas Sunitas. O problema vem do confronto entre os Sunitas, de um lado, e os Xiitas, do outro, representados pelos Alauítas.


Portanto, temos dois grupos: o exército, orientado para combater e, muitas das vezes, brutalmente, e o outro - muitos grupos que decidiram lutar em nome do Islamismo – o Islão Sunita. Já não é uma questão de democracia e liberdade. É esta a situação geral da Síria, como nós a vemos.

O que sabemos sobre o maior problema dos poderes de representação?

A Síria é o centro de uma estratégia mais ampla no Médio Oriente, que envolve o Irão, o Líbano, a Turquia, Israel, a Arábia Saudita, o Qatar, uma parte da Jordânia e o Ocidente. À medida que o conflito tem evoluído, o Irão tem vindo a apoiar Assad, tal como o Hezbollah. Este é um dos lados.

A península Árabe apoia a oposição, tal como a Turquia e outros indivíduos do estrangeiro. Israel tem observado a situação, mas suponho que, se o Irão entrar no conflito, Israel irá reagir. Se o Ocidente entrar no conflito, então teremos um conflito com a Rússia de um lado e os Estados Unidos do outro. A Europa não se uniu, Graças a Deus.

Qual a sua visão do ataque de armas químicas? Como podemos ter a certeza que o ataque veio do exército Sírio, como diz o governo dos Estados Unidos?

Pode ter vindo de ambos os lados. Pessoalmente, eu nunca decidiria nada relativamente a um ponto tão importante sem provas. Vimos o que aconteceu com o Iraque há 10 anos. E não serão os Ocidentais a pagar o preço, mas os Sírios… A situação na Síria actualmente é muito má, muito ruim, mas como podemos ter a certeza que uma intervenção irá resultar em algo melhor? Esta é a questão. Isto não é um tipo de jogo em que somos bem sucedidos ou mal sucedidos. É uma questão de vida ou de morte de dezenas de milhares de Sírios.



Não está claro qual é o caminho para alcançar a Paz na Síria?

Não é nada claro, e para mim o que faz a situação menos clara é que existem demasiadas partes interessadas envolvidas que não estão unidas. Algumas das quais com interesses religiosos. Os Sunitas veêm os Xiitas como infiéis, piores que Judeus e Cristãos. Nós ouvimos isto de muitos líderes Sunitas. Temos pequenos grupos a aterrorizar outros.

A única solução é dizer: está bem, temos duas posições Sírias. Temos o governo, com pessoas a apoiar o governo, e temos a oposição, com pessoas a apoiar a oposição. As únicas pessoas que podem decidir são os próprios Sírios, mas não o podem fazer sem a ajuda da comunidade mundial.

Agora, qual é o objectivo? É chegar a uma decisão comum, respeitando ambas as posições - encontrar um compromisso sério entre os dois lados. Se uma das partes ganha, ou Assad ou a oposição, teremos uma guerra ou um prolongamento da guerra.

Portanto, este é o ponto mais importante, que deve ficar claro: não pode haver um vencedor; tem de haver um compromisso, com ambos os lados a colocar na mesa as suas críticas e as suas exigências. Não se pode colocar uma condição prévia nisto: que este ou aquele grupo, ou aquela pessoa, não podem participar.

Depois, deverá haver um árbitro neutro também, como as Nações Unidas. Não é fácil, mas não vejo outra possibilidade.



O Papa Francisco pediu a todas as partes que se encontrassem e dialogassem. É essa a sua visão, também?

Certamente. Não há outro caminho. E sem condições sobre quem representa cada uma das partes; deve ser cada uma das partes a decidir quem a representa. Uma das partes não pode excluir Assad, por exemplo, ou algo semelhante.



Quanto é que esta violência está relacionada com o próprio Islamismo e o facto de alguns Muçulmanos terem sempre acreditado no uso da força?

Há qualquer coisa disso no Islamismo. O Papa Bento XVI tocou nesse ponto, no seu famoso discurso de Regenburg, a 12 Setembro de 2006, quando falou, em termos gerais, que qualquer religião que use a violência para defender a sua posição ou fingindo defender Deus está a agir mal. Não podemos nunca, nunca, usar a violência por uma boa razão. A violência é má por si só. Portanto, não pode ser usada para convencer as pessoas. Todos deveríamos concordar com isto.

O que está a acontecer actualmente é que quase todos os grupos extremistas e fundamentalistas estão a usar este modelo - para sempre. Maomé foi capaz de unificar uma boa parte das tribos Árabes sob o nome comum de Islamismo, que foi uma realidade cultural, social, política e religiosa. Este facto, esta realidade pode ser entendida de duas maneiras diferentes: tanto para usar como um modelo a ser aplicado para sempre ou para ser tomada como uma situação prática válida nesse tempo.

Neste momento, a violência está, infelizmente, muito difundida em todos os movimentos fundamentalistas Muçulmanos. Além disso, o fundamentalismo tem tido uma grande expansão nos últimos 50 anos no mundo Muçulmano, mas a interpretação fundamentalista não é o Islamismo oficial. Podemos ver no Egipto, por exemplo. A Universidade Al-Azhar(o principal centro de estudos do Islão, no Cairo), que representa a maioria dos Muçulmanos no Egipto e talvez até em todo o mundo, esteve contra a Irmandade Muçulmana e o ex-Presidente Mohammed Morsi, e ainda está.

Portanto, não se pode dizer que a Irmandade Muçulmana representa a maioria dos Muçulmanos - bem antes pelo contrário. Eu diria que os Muçulmanos fundamentalistas são certamente uma parte do Islão, como oposição a quem diz: "Isto não tem nada a ver com o Islão; o Islamismo significa tolerância. Isso é blá, blá." Isto (a violência) foi sempre uma parte do Islamismo, como é entendido. Isto não é o Islamismo por completo, e obviamente que a maioria dos Muçulmanos não apoia o terrorismo. Mas quem o apoia não o faz em seu nome ou em nome dos políticos, mas em nome de Deus e do Islamismo. Eles têm sempre um Mufti(doutor da Lei Muçulmana) a dar um Fatwa(resposta a algo, aplicando a Lei Islâmica), a dizer que têm de lutar contra esse grupo em nome de Deus, seguindo o Corão.


O P.Samir é natural do Egipto. Neste momento, quais as suas preocupações sobre a sua pátria? 

Devo dizer, tal como tenho dito em outros locais: o que eu oiço do ocidente é absolutamente errado. Quando eu oiço: "Finalmente, Morsi é o primeiro presidente eleito democraticamente" - isso é absurdo! Se olharmos para isso juridicamente, ele foi eleito democraticamente, mas, juridicamente, também Nasser, Sadat e Mubarak. Desde a revolução de 1952 que temos um presidente eleito. Portanto, apenas alguém que não seja Egípcio pode afirmar que Morsi é o primeiro presidente eleito democraticamente.


Por outro lado, sabemos que há razões que explicam porque é que Mohammed Morsi foi eleito: porque os jovens(os principais impulsionadores da revolução de 2011) não estavam organizados como partido e porque quem estava associado a Mubarak e ao antigo regime foi excluído. Assim, finalmente, o único grupo que estava politicamente organizado e que tinha o direito de ser eleito era a Irmandade Muçulmana. Mas, onde está a democracia?

Os militares, tradicionalmente, nas últimas décadas, estiveram sempre com o povo, estivesse este com o governo ou com a oposição. Durante a revolução de Janeiro de 2011 e as semanas que se seguiram, o exército apoiou a oposição. Então, porque não falamos de um golpe militar? Porque o golpe veio do povo, e os militares vieram e disseram: "Está bem, o povo não quer este governo, e a Irmandade Muçulmana não aceitou."

Então, eles disseram: "Está bem, nomearemos um governo provisório". E nomearam um magistrado, não um militar, que já foi nomeado pelo próprio Morsi! E quando pediram a todas as partes para participar no governo, a Irmandade foi o único partido a recusar, mas os Salafistas, que são mais extremistas que a Irmandade, entraram neste governo provisório. Ninguém disse nada.

Portanto, isto significa que é democrático, e é provisório. Eles não fizeram uma brincadeira e disseram: "Nós criamos uma constituição num mês, e numa semana o povo irá votar(como a Irmandade Muçulmana fez)". Eu não conseguiria ler a constituição numa semana - eu tentei. Escrever uma constituição também demora anos. Fazer uma constituição num mês - ora, isto é um golpe de estado. E todos vimos, no chamado governo democrático (da Irmandade Muçulmana), que eles colocam as suas próprias gentes nos mais importantes ministérios do Estado. Eles colocaram os seus próprios governadores em nove províncias, de uma só vez, antes do fim do governo.

O que eles fizeram foi piorar a economia. Houve escassez de comida, e venderam o petróleo ou deram-no a Gaza. Estive lá em Abril, e podia-se ver filas de 1Km de carros à espera três, cinco ou oito horas para conseguir provisões. Deram ao Hamas e a Gaza livre acesso a 40% do Sinai para treinarem os seus Mujahedin… e mataram um padre Copta e alguns Cristãos, além de 27 soldados. Portanto, é bom que o povo os expulse dali para fora.

O povo fez a sua parte, manifestaram-se, e o exército protegeu o povo e fez a sua parte.

Porque é que, tal como o Cardeal Maronita Bechara Rai disse recentemente, os Cristãos têm sempre de pagar o preço mais elevado no Médio Oriente? Porquê isto, quando eles são os mais pacíficos de todos os povos da região?

Em primeiro lugar, é óbvio que é fácil atacar uma minoria. Em segundo lugar, é mais fácil quando a minoria é pacífica e não armada. Podíamos ter uma luta com uma minoria, mas não é o que se passa com os Cristãos.

Mas estas são razões secundárias. A principal razão é ideológica. Quem está a lutar contra Cristãos e a destruir igrejas? Não é o meu vizinho Muçulmano, mas grupos que excluem os outros. Se temos Sunitas a excluir Xiitas, eles irão obviamente excluir Judeus e Cristãos. Qualquer grupo exclusivista é um terrorista em potência - ele aparece quando a ocasião o permite. Temos visto isso no Egipto, por exemplo.

Mas o que estamos a pedir como Cristãos - na verdade, eu não digo como Cristãos, mas como cidadãos - é para não colocar a palavra "religião" na constituição. Nós não devíamos colocar "homem" ou "mulher", "rico" ou "pobre" ou fazer qualquer distinção. Basta pôr "cidadãos".


O que estamos a pedir é para aplicar de forma honesta e totalmente a "Carta Universal dos Direitos Humanos", incluindo a liberdade de consciência e o direito de escolher qualquer religião e mudar se assim se quiser.

Portanto, por estas razões, eu penso que os Cristãos são atacados espontaneamente no Egipto. Na Síria, sob o regime de Assad, eles eram tão protegidos como os Muçulmanos, porque o regime adoptou a ideologia do Partido Baath, que é considerado secular. A religião era algo positivo e visto pelo regime como algo que ajuda os cidadãos a fazer o bem.

Deste modo, eu penso que isto deve ser o objectivo, mas com uma condição: se nós queremos atingir este objectivo em 10 anos, então temos de começar hoje. Mas se dizemos que o Egipto não está preparado para isso, e não começamos a tomar medidas, isso é uma brincadeira. Temos de começar por fazer as diligências necessárias, como quando se começa uma construção. Se dizemos que leva muito tempo mas nunca começamos, não estamos a ser sérios. Assim, temos de definir regras e pô-las em prática neste momento.

Estou seguro que o Egipto e os Egípcios estão dispostos a iniciar uma nova etapa na sua vida política. Estão dispostos a ter um governo mais democrático. Estão dispostos a acabar com a discriminação entre homens e mulheres, Muçulmanos e Cristãos, pobres e ricos, etc.



Esta é a verdadeira revolução, e estou convencido que este é o desejo do povo. O exército devia ajudar o povo a realizar este "sonho" até um novo governo ser eleito e finalmente organizado. Insha'Allah (Deus queira)!

Edward Pentin é o correspondente do Register, em Roma. Terá uma contribuição frequente para o programa de televisão EWTN News Nightly, que estreará a 3 de Setembro.
http://www.ncregister.com/daily-news/middle-east-scholar-paints-stark-but-realistic-picture-of-the-situations-in/


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