O oráculo Negro Texto e Direção Chico Nascimento



Baixar 43,75 Kb.
Encontro24.08.2018
Tamanho43,75 Kb.


O Oráculo Negro

Texto e Direção – Chico Nascimento

Figurino e Adereços – Antonio Venefrides

Grupo Afro Dance de Ibirapitanga – Bahia



Personagens: Kunta, Macambira e coreógrafos.

SinopseKunta, um guerreiro afrodescendente aparece sempre como um Oráculo Negro nos sonhos de Macambira. Ela se debruça nas lembranças das histórias contadas por sua mãe, acredita na existência de um herói negro que vem resgatá-la para uma nova vida e sonha. As cenas são permeadas pela dança e pelo canto negro de uma cultura que sobrevive na memória estética de um povo.

Prólogo

Narrador (Jean Carlos) - Os povos chamados de berberes foram considerados um dos primeiros povos que habitaram o norte da África. Esse grupo também ficou conhecido pelo nome de caucasoide. O termo caucasoide foi criado pelo estudioso Cristoph Meiners que, através dos estudos do crânio, decifrava a região em que determinados grupos se desenvolveram.  Assim, caucasoides foram aqueles que viveram em diferentes regiões do planeta, como Europa, Norte da África e Ásia Ocidental.  No Norte da África, os berberes desenvolveram-se ao longo da costa mediterrânea, do Egito ao Atlântico. Ainda hoje existem povos descendentes desse grupo que, segundo especialistas, são uma mistura de diferentes etnias. Contudo, o termo berbere atualmente refere-se mais ao idioma do que propriamente a uma etnia específica, pois é uma língua falada por milhões de argelinos e marroquinos. (2 minutos)

(I Coreografia Afro Dance) (5minutos)

Cena I – Lembranças de Macambira

Macambira – (Deitada na rede, iluminada por candeeiros, ouve-se um batuque forte, ela desperta assustada coloca os pés pra fora da rede, vai até a moringa pega água e toma lentamente, retira um candeeiro e vasculha o terreiro como se procurasse alguém) Ele esteve aqui. Eu sinto a sua presença, é como se tivesse tocado a minha pele. Às vezes eu fico assustada, sinto medo e arrepio. Outras vezes, sinto vontade de ver o seu rosto, tocar o seu corpo... Tudo me parece tão estranho... Nem sei se a imagem que vejo no sonho é fiel ao rosto do oráculo... Tenho a sensação de estar acordada, ouço os tambores e levanto em sobressalto, as minhas pernas tremem, por alguns momentos chego a perder o tato. Posso crer no meu sonho? Será que ele existe de verdade? Será que um dia vai aparecer pra mim? Meu Oráculo Negro, eu não sei o seu nome, mas consigo sentir o seu perfume. Tem cheiro de mato! Mato verde bem novinho, machucado com as mãos... (Senta-se num tamborete, pega um tecido estampado que estava pendurado na parede) Vou costurar esse vestido pro dia da sua chegada! (Coloca o tecido sobre o corpo como se estivesse experimentando) Assim ficou melhor! Hum... Já sei, vou fazer um decote na frente. Será que ele vai gostar? (Levanta-se, vai até a porta, suspira.) Meu Oráculo Negro, diga-me, qual é o meu destino? Sei que és majestoso e imponente! Agrada-lhe o meu jeito? Será que nos encontraremos um dia? Ou quem sabe numa dessas noites de lua cheia? (Entra uma música tribal, Macambira faz um solo, depois joga a metade do corpo sobre a rede, pega uma talha grande de madeira, começa despejar água quente pra se banhar, vai despindo-se e fica com as roupas íntimas. Senta-se no tacho e começa a cantarolar baixinho). Minha gente cantar junto, para o meu guerreiro chegar, ele vem sempre em meus sonhos, mas eu não posso pegar. Se ele existe de verdade, quero ver, quero tocar, o guerreiro é importante e a minha vida vai mudar... Desde que sonho com ele, sinto forte a minha dor, acredito ser prelúdio de um tempo para o amor! Hum... (Levanta-se, pega uma toalha que está dependurada num varal perto da talha de madeira, veste-se e senta-se na rede). O dia está amanhecendo, tudo parece tão confuso. Já não consigo distinguir o meu tempo... (Corta lenha, depois finge catar feijão, pega uma panela de barro, coloca água e ascende o fogão a lenha. Pega um bule com café e um caneco, despeja o café e vai em direção a porta) Não posso reclamar da vida. O meu nome é Macambira! Nome de planta braba lá do sertão da Bahia... Mainha escolheu esse nome porque sabia que ia ser dureza enfrentar o mundo sozinha. Ela e painho se amavam tanto, mas tanto, tanto que os dois enfrentavam todas as dificuldades da vida sem reclamar de nada... Foi ela quem me contou a história do Oráculo negro. Eu tinha nove anos... Mainha saiu cedinho pra cortar lenha. Painho foi andar por mais de duas léguas pra pescar caborje... O peixe era feio... Mas mainha sabia preparar muito bem... Foi nesse dia que a jararaca picou o pé de painho... Ele conseguiu voltar pra casa, mas teve febre, frio, dor de cabeça e não resistiu... Mainha ficou tão triste... A tristeza consumiu a sua beleza e a sua mocidade. Saímos daquele lugar pedregoso, inóspito... Lembro-me muito bem. Mainha deixou pra arrumar tudo depois do almoço, queria pegar caminho no finzinho da tarde, quando o sol já não ardia tanto sobre os nossos ombros. Ai dona Luanda, quanta saudades! Aguentou mais cinco anos sem o companheiro, depois foi ficando triste e desolada, perdeu o apetite, perdeu o vigor, as rugas se apressaram em mostrar a crueldade do tempo, até que me deixou em um dia de domingo, mas antes me contou a história do Oráculo negro! Era um homem. Mesmo sabendo que todo oráculo é a resposta de uma divindade, o meu oráculo negro é a personificação dos meus desejos! Um homem misterioso. Para a minha mãe ele aparecia em sonhos. Para mim, além de estar nos sonhos ele é tão real, mas tão real que consigo sentir o cheiro da sua pele. Nem preciso saber o seu nome, quero chamá-lo de Oráculo Negro... (Brinca com a sombra e a luz, vai seguindo, de forma coreografada, o facho de uma luz. Ouve um batuque e vira-se rapidamente, enxerga um vulto e curva-se diante dele). É você meu Oráculo? (10 minutos)

Kunta – Como pode ter tanta certeza da minha existência?

Macambira – Ouço as suas respostas?

Kunta – Sim, sou eu Macambira, mas, por favor, não me toque! Levante-se, venha para a luz...

Macambira – Eu não preciso da luz para confiar em você meu Oráculo!

Kunta – Mas eu preciso da luz para revelar a sua face e o seu destino...

Macambira – Compreendo! Aqui estou. Sinto-me flutuar...

Kunta – Macambira, quem espera a vida pela sorte, desespera-se pela agonia... O tempo é o senhor das razões, o destino pode ser o que não é, e tudo o que é pode ser o destino, mas o seu desejo é forte e disciplinado, por isso, trago-lhe as cores e indico-lhe caminhos, é preciso cuidar da emoção, mas a decisão torna-se escrava da sua fé!

Macambira – Fala dos meus sonhos Oráculo?

Kunta – Falo da sua vida, da sua descendência, da sua existência daqui e de lá, falo do tempo da invisibilidade, falo da fé e da escuta, falo da complexidade do ser e das escolhas dos seus olhos, falo do dito e do pensado, do sonho e do realizado, falo do amor sem reverenciar as guerras!

Macambira – Entendo meu negro. A minha mãe me falava do tempo das escolhas, da ordem e da sua inversão, dos caminhos percorridos, dos desvios e das visões. Das tempestades sofridas e não sentidas, dos sentimentos fugazes e das dores nas têmporas...

Kunta – Das ideias inacabadas, dos males desprezados e das verdades escondidas. É preciso estar-se inserido naquilo que lhe cabe e o mais dileto espetáculo do universo é a coesão da própria natureza, os seres, suas divisibilidades e suas incertezas...

Macambira – Fico encantada... Tomada por uma emoção que me elege incompleta, mas desejosa de tudo! (Por um instante revolta-se) Olorum, eu vos peço, se for para eu viver sem o meu Oráculo, pode me levar! Já estou cansada dessa espera cruel. As palavras da minha mãe sempre me alertaram para um mundo de perdas, mas eu não quero perder aquilo que ainda não tenho!

Kunta – Acalme o seu coração Macambira! Empenhei a minha palavra, o amor que me socorre agora é mais forte do que eu, por isso, empenho a minha palavra. Preciso apenas ritualizar a minha passagem! (6 minutos)



(Ijexá. Coreografia da passagem, Kunta Dança com o grupo). (7 minutos)

(Jean Carlos - carregando um facho de fogo recita o Poema Negro de Augusto dos Anjos)
Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.


Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!


Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia doida
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —


Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
— Faminta e “atroz” mulher que, a 1º de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,


Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.


Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo


Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!


Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!


Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,


Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.


Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!


Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,


Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.


Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha ideia


Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra


Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos


Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.


Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensanguento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração como um cristal, se quebre,


O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema


Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

(Curva-se na frente de Kunta e entrega-lhe o facho de fogo)

Vai guerreiro, segue o seu destino. O amor é mais forte que tudo! Serei o Oráculo Negro adormecido até que uma nova voz de fé venha me despertar! (10 minutos)



(Beatriz recita Dever de Sonhar de Fernando Pessoa)

Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,


pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Macambira, quem te impedirá de viver esse amor sonhado e sentido? (1 minuto)



Macambira – Venha Kunta, a noite quer deitar sobre nós, o tempo é livre e ninguém jamais se contentará com uma voz se o corpo pede um abraço e a boca pede um beijo.

(Macambira e Kunta se aproximam e se beijam. As luzes vão caindo até o Black total). (Tempo total estimado 42 minutos)



©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal