O omelete delirante de brown



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O OMELETE DELIRANTE DE BROWN

Segundo disco solo do homem da Timbalada viaja por todas as sonoridades

Jamari França

Jornal do Brasil, Caderno B / Outubro de 1998

Carlinhos Brown é o discípulo maior da máxima do grande filósofo brasileiro Abelardo Chacrinha Barbosa, do “vim para confundir e não para explicar''. Sua língua é uma metralhadora, o discurso delirante, o talento imenso. Uma verdadeira força da natureza que só o sincretismo cultural e genético do Brasil poderia produzir. Mano Brown passou a quarta-feira soltando o verbo (e o sujeito e o predicado) para uma romaria de jornalistas que subiram às alturas da aprazível Travessa Leocádia, onde Copacabana parece o Jardim Botânico, em busca de uma luz para compreender Omelete Man , seu segundo disco solo para a EMI.

Carlinhos não é um só, mas muitos. Com 20 anos de carnaval nas costas, o som baiano que domina as ondas médias e as freqüências moduladas destes brasis tem nele um dos artífices. Mas CB gosta de se proclamar candidamente como um principiante com apenas dois anos de carreira, contando do lançamento de seu primeiro CD solo há dois anos Alfagamabetizado . “Continuo com aquela ansiedade de iniciante, sou um veterano principiante, sei que é uma ousadia cantar uma coisa que não se tem muita propriedade. Ainda mais para mim, que sou ousado. Poderia estudar bel canto mas quero manter meu canto rústico brasileiro.''

Quando se trata de gravar, ele vai na contramão de seus colegas baianos, que repetem sempre o mesmo disco para engrupir as massas. A ordem é confundir, mudar sempre, até esconder-se atrás de cordas mantovanicas com uma voz irreconhecível, como acontece em Músico: ``cada música deve ter um timbre de voz, uma cara. Não me interessa ter um canto regular que não surpreenda. A voz é um instrumento. Se eu posso mexer no som da guitarra, porque não posso mexer no som da voz?''

Na febre de inovar, CB chamou uma colega, Marisa Monte, para produzir o disco: “Ela [até] sabe qual o microfone que se deve usar mas isso só não faz um bom produtor. Para mim o principal é o gosto musical. Tive Marisa como minha cúmplice, eu avaliava cada gesto e cada feição dela, era olhar para a cara e saber como continuar. É uma pessoa com quem me identifico muito musicalmente. A gente via o que estava funcionando na garagem com os Renovados Baianos, que são Dadi, que é Novos Baianos e Davi Moraes, filho de Moraes Moreira. Novos Renovados Baianos, vamos dizer assim. E Marisa e [o produtor] Tom Capone, de Goiânia,'' diz ele referindo-se ao grupo básico que trabalhou na maioria das faixas.

Eles partiram de um repertório de 120 músicas para gravar 19 e chegar às 15 que estão no disco, enxugado em 43 minutos e batizado de Omelete man, um herói com cara de ovo.

O disco que flutua como a Terra

Carlinhos Brown justifica o nome do disco: “Omelete é algo que flutua como a Terra. Disco é uma coisa que flutua. Você não vê disco jogado no chão, só em mudança de casa. Disco deve ser o mesmo jogo do Cosmos, só que a gente não vê a mão de Deus ou de seus arcanjos: mexe a Terra pra cá, bota uma luz bonita na luneta e o cara grita ‘descobri um planeta'”. Entenderam? Mais claro, impossível.

Carlinhos disse que toda a gama complexa de convidados do disco, do guitarrista americano Nile Rodgers ao maestro Eumir Deodato, passando pelo grupo Época de Ouro e a Banda da Base Aérea de Salvador. “A pergunta era: será que ele pode? Pode? Tenho uma base seu Eumir e os vocais.”E assim foi com Soul to soul, arranjada por Eumir Deodato que tem uma cara danada de Beatles e seu (deles) produtor George Martin. CB rebate: “É mais Renato e Seus Blue Caps, mais Fevers. Tenho maior orgulho quando detectam influências do Brasil na minha música, mas fico incomodado quando dizem que alguma coisa minha possa parecer com James Brown.” Ele diz que adora o xará americano mas prefere se parecer com Evaldo Braga, `”um dos maiores cantores do Brasil''. E canta: “sorria meu bem, sorria.''

CB diz que concebeu Omelete man como um antiherói, mirando-se em Macunaíma, e começa a recitar a letra: ``Antigama recarregada sem ti/ Tive nua a sentença/ Anuncio que acabou em chic/ Omelete man. (ri) o que é antigama? (ri) Talvez anti raio mas também daquilo que não se apega. Antigama recarregado...de gostar de novo da mesma pessoa. Pode ser isso, tem vários sentidos. Sem ti é sentir nua a sentença, Passei por algum momento na vida que superei, você entende? Omelete man. Transformei. `Que o mentor mentecapto', parece muito mais Fernando Sabino do Grande mentecapto, parece Giramundo. `O réu dele é rei/ Quando o frio acatar/ Queima mal e má/ Adivinho melado melhor/ Na lona rente.' É o que tiram de nós às vezes mas, às vezes, fica a experiência, a essência fica quando é bem estruturada na base.''

Ele ri muito ao ouvir que cada disco seu exigiria um curso de seis meses para se entender as letras e se dispõe a explicar Vitamina ser, que começa com estes límpidos versos: ``Pente, escova de dente/ Remédio pra gripe, lavanda e sabão/ Pra andar no sonho dela/ Com os pés na multidão'': ``Isto é necessário. Não adianta você amar e ser sujo, entende? Esta interação é favorável no Brasil. As pessoas estão namorando com quem querem realmente namorar, independente de classe social, mas o baixo poder aquisitivo precisa entender que pobreza não é sujeira, não é andar bebum pelo chão e nem viver no meio do luxo produzido por eles mesmos.'' A seguir a letra fala de ``Boulevard dos alquimistas/ Boulevard do tamborim/ Boulevard vai ser possível/ Boulevard do teu sorrir''. ``Olha Jorge Ben aí. É a possibilidade que terá o tráfego da rua como um todo. Essas ruas que a gente chama de sem saída são as que tem mais saída.''

Carlinhos está concluindo em Salvador a sua escola de percussão Pracatum, financiado pelo BNDES com apoio da Unicef, para dar apoio aos jovens pobres do bairro popular do Candeal, onde ele nasceu. CB não endossa o coro dos que denunciam o racismo e a discriminação social: ``Não acho que a Bahia seja um lugar que se discrimine. Talvez é o lugar que mais se aproxime socialmente. Se isso havia não está no meu âmbito. As comunidades devem se organizar e as atividades sociais que as nossas atividades afro têm, já devíamos ter feito isso há muito tempo. Quem vai cuidar senão nós?''

Crítica: Disco Omelete man

Em clima de antologia precoce

TÁRIK DE SOUZA

Da corrente alfagamabetizada da MPB _ a de Jorge Ben Jor, Tim Maia, Luis Melodia e até Djavan _ que privilegia o sentido surreal e rítmico das palavras, Carlinhos Brown pulveriza sua feira de estilos no segundo disco solo, Omelete man (EMI). Dessa vez ele incorpora o que a própria produtora do CD, Marisa Monte, chama de broken english _ algo que Jorge Ben inaugurava (num viés diferente das ironias de Lamartine Babo) em Jorge Well ("Take it easy girl/ I'm Jorge Well"), em 1965. O caleidoscópio browniano passa por títulos como Water my girl, Tribal united dance, Hawaii e you, Busy man, Cold heart e a faixa título. Mas a ponte com o rhythm & blues, consolidada na guitarra de Nile "Chic"Rodgers, nos teclados de Bernie "Funkadelic" Worrell e nas vozes de Diva Gray e Tawatha Agee (também do Chic) tem alicerces nas influencias africanas comuns. Avesso ao estereótipo batuqueiro, CB não fica na liga afoxé/funk ou reggae. Seu leque de caligrafias sintoniza até seresta (Mãe que eu nasci), com direito ao chorão Época de Ouro e a novena no Hino de Santo Antonio, que fecha o desfile do CD empipocada de fogos de artifício.

A cantora e parceira autoral Marisa Monte, que formatou o projeto ao lado dos co-produtores Tom Capone e Andrés Levin (da Red Hot Organization), delimita com nitidez o paradoxo de concisão/dispersão do astro do disco. "Com rigor estético ele trabalha a música como se ela fosse massa plástica, matéria prima, a que dá forma e cor com as mãos enquanto toca ou rege. Sua arte é tátil, visual, auditiva, mais sensorial que racional", admira ela. Ao mesmo tempo, desde seus primeiros contatos com Brown, ela admitiu-se "atordoada diante de tantas músicas lindas". Tentava classificá-las, separar por assuntos, famílias. Omelete man passa esse clima de antologia precoce ou pau de sebo de vários autores correlatos. Há do reggae rasgado quase dance hall (Vitamina ser) à balada de tessitura delicada (um pouco adocicada demais pelo arranjo) linha chiclete de ouvido (Hawaii e you). A família do reggae é a mais encorpada do disco com modelagem orquestral (Soul by soul, arranjo de Eumir Deodato) ou apoio r & b (Water my girl).



As faixas foram alinhadas numa seqüência que deságua em carnaval baiano nas combustoras Cachorro louco (reforçada pela banda Dois Sapos e Meio) e Faraó, ambas de ressuscitar Ramsés. Em (des)compensação a pompa de Músico passa alguma sonolência. Amantes cinzas (parceria com Arnaldo Antunes) casa sambafoxé, remetendo no "tupac/tuplim" ao sambista da chave (e da bolinha de sabão) Orlan Divo. Entre evocações e estranhamentos o estilingue pop de Brown nem sempre atinge o alvo, Mas enriquece o ouvido aberto à contribuição milionária de todos os erros.


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