O nome de Deus



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O Nome de Deus

Carregar e trazer consigo o nome de Deus é pertencer a Ele. Deus quer e é agradável ao Senhor manter a relação com o seu povo como uma relação de pai e filho: “Eu serei o vosso Deus e vocês serão o meu povo” (Ex 6,7; Lv 26,12; Dt 26,17-19; 29,12). Esta expressão também é muito frequente nos profetas Jeremias e Ezequiel.

E por causa do seu grande Nome (1Sm 12,22) Deus não abandonará o seu povo porque este povo é seu. Os sacerdotes colocavam o nome do Senhor sobre o povo como um sinal ou como um segredo, e isso significava que o povo pertencia ao seu Deus (cf. Is 44,5; Ez 9,4; Ap 7,3; 14,1; etc.). Para Israel, esta pertença representava a fonte das bênçãos dele recebidas. É Ele o Criador da Terra e de tudo o que existe. “Eu sou Iahweh; não há nenhum outro” (Is 45,18; cf. Dt 32,39).

O nome dá autoridade a quem o possui. Ao contrário, aquele que não tem nome é desprezado, é como afirmar que ele não existe, que é nulo, caótico, pois “o nome é como a alma da pessoa”. Já no princípio da criação Deus deu um nome ao homem e à mulher e depois pediu a Adão para que desse nome a todos os seres criados (cf. Gn 2,19).

Saber o nome divino é conhecer Deus como Ele se revelou. Não existiam nomes divinos secretos em Israel, porque o uso mágico do nome de Deus era proibido e porque o nome de Deus é santo (Sl 103,1; 105,3; 106,47; 145,21; 1Cr 16,35; 29,16) e glorioso (Sl 72,19; 1Cr 29,13). Tanto assim que se procurou guardar bem o seu nome contra o abuso na maldição (Lv 24,11.15s); no juramento (Lv 19,12), porque quem fazia dessa forma estava profanando e violando o nome de Deus (Pr 30,9).

Portanto, segundo a Bíblia, é bendito aquele que caminha no nome do Senhor (cf. Sl 118,26). Por isso colocar o nome de Deus sobre o povo era uma expressão semítica que indicava o favor divino. O nome do Senhor era pronunciado três vezes na bênção (Nm 6,24-26), e isto assegurava a Israel a presença do Deus que caminhava com o seu povo e o protegia. O povo de Israel compreendia que a bênção divina era a condição necessária e fundamental da qual dependia o verdadeiro êxito da sua existência. Sem uma relação harmoniosa com Deus, a vida humana não podia encontrar o seu sentido autêntico nem chegar a seu verdadeiro desenvolvimento.

Mas então, qual é o verdadeiro Nome de Deus, segundo a Bíblia? Quando Deus ouviu o clamor do povo que estava escravo no Egito, e desceu para libertá-lo, Moisés disse a Deus: “Mas quando eu for aos israelitas e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e eles me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’ o que eu devo dizer?”. Deus respondeu: “Eu Sou Aquele que é”. Disse mais: “Assim dirás aos israelitas: ‘EU SOU me enviou ate vós’” (Ex 3,13-14). A grafia e pronúncia é incerta: a mais provável é que seja Iahweh (ou talvez Iahwô).

Muitos textos bíblicos escritos sobre fatos que aconteceram antes de Ex 3, já trazem o nome de Deus. Em Gn 2,4b é onde o nome de Iahweh aparece escrito pela primeira vez. A Bíblia diz que foi Enós o primeiro a pronunciar o Nome de Iahweh (cf. Gn 4,26). No entanto, parece que foi mesmo a Moisés que Deus revelou o seu verdadeiro Nome. “Deus falou a Moisés e lhe disse: ‘Eu sou Iahweh. Apareci a Abraão, a Isaac e Jacó como El Shaddai; mas meu nome Iahweh, não lhes fiz conhecer” (Ex 6,2).

Então devemos entender que o correto é que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó era “El Shaddai”, que quer dizer “Deus das montanhas; Deus das campanhas”. Este nome foi traduzido nas nossas Bíblias como: “Todo Poderoso, Onipotente... ou se manteve o original El Shaddai”. Porém, não é correto traduzir como “o Dominador” (como fazem algumas traduções), porque é uma expressão muito negativa para nós.

Disso resulta que o nome de Deus, com o qual Ele quer ser chamado é (YHWH), o famoso tetragrama hebraico. Este nome (Iahweh) aparece 6823 vezes na Bíblia Hebraica (Antigo Testamento). E provém de uma forma verbal simples do verbo hyh (hyh, ‘ser’ em hebraico) e que tem o significado de “Ele é”, “Ele se mostra eficaz”. Mas Deus falando de si mesmo, não pode usar outra forma que a primeira pessoa “EU SOU”. O hebraico pode ser traduzido ao pé da letra: “EU SOU AQUELE QUE SOU”, que seria o correspondente a “EU SOU AQUELE QUE É”, ou “Eu sou o Existente”...

A pronúncia do Nome Sagrado passou por diversas fases na história de Israel. Primeiro se podia falar e pronunciar o Nome de Deus, assim como nós fazemos hoje. Mas alguns começaram a abusar do Nome divino. Juravam e blasfemavam em nome de Deus. Com o isso o Nome foi proibido de ser pronunciado e só podia ser recitado pelos Sacerdotes no Templo e nas sinagogas. Depois, só o Sumo Sacerdote podia dizê-lo. Mais tarde, só uma vez por ano, no dia da festa do Yom Kippur (Dia da Expiação). Por fim, o Nome foi totalmente proibido e ninguém mais podia pronunciá-lo. Quando se lia o texto bíblico, em vez do Nome Divino, se pronunciava “Adonai” que quer dizer “Senhor” e, é assim que se pronuncia na comunidade judaica até o dia de hoje. Os últimos livros do AT já nem mais escreviam o nome de Iahweh, mas colocavam lae (El) ou ~yhlia{/ (Elohîm), que quer dizer Deus.

É bom lembrar que o texto hebraico da Bíblia (AT) foi escrito só com as consoantes. Não existiam as vogais. Por isso, depois de algum tempo o Nome não se pronunciava mais, e já não se sabia bem qual era mesmo a verdadeira vocalização. Só os rabinos e escribas mais estudados é que poderiam ter o segredo. E também não se podia modificar o texto escrito. Lá o nome permanecia como foi revelado.

Nos séculos VII-VIII dC os massoretas colocaram as vogais em todo o texto hebraico da Bíblia e quando tiveram que vocalizar o tetragrama do nome de Deus, colocaram as vogais do nome de yn"doa] (Adonai).

Fizeram isso para evitar que se pronunciasse o nome de Deus. Se alguém que devia ler o texto, mesmo que estivesse um pouco distraído, não iria ler o nome de Deus. Essa era considerada uma falta gravíssima! Ou seja, a tradição hebraica mantinha um respeito grandíssimo pelo nome de Deus, considerava o Nome algo tão Sagrado que nenhum ser humano poderia pronunciá-lo.

Mas em 1874, Charles T. Russel, fundou os Testemunhas de Jeová, nos EUA. Estes não conhecendo bem o hebraico, e muito menos toda a história do nome de Deus, traduziram o tetragrama com as consoantes hebraicas do nome divino e com as vogais de Adonai. Eles julgavam ter descoberto o “verdadeiro nome de Deus”, e por isso traduziram o nome por “Jeová”, “Iehovah” ou “Gehova”. O que é difícil de ser correto. Jeovah provém provavelmente de uma tentativa inadequada de combinar as consoantes hebraicas YHWH, que originalmente pode ter sido pronunciadas Yahveh, com vogais de Adonai, nome hebraico do Senhor, que foram sobrepostas a YHWH. Nos tempos pós-bíblicos, YHWH ou Yahveh foram substituídos por Adonai, quando, como sinal de temor e respeito, o Nome inefável não foi mais pronunciado por judeus

Hoje as Bíblias traduzem o nome divino com: a) o Eterno (Torá Hebraica); b) Iahweh (Bíblia de Jerusalém), é uma tentativa de tradução e pronúncia fiel do Nome; c) Javé (Edição Pastoral), é a versão popular do nome de Deus, do jeito como o povo fala; d) Senhor (várias Bíblias), seguem mantendo o respeito pelo Nome divino. Mas no AT Deus aparece ainda com outros nomes, como: “Altíssimo”, “Santo”, “Onipotente”, “o Único”, “Eterno” etc.

Jesus, que também era hebreu, parece que nunca pronunciou o Nome de Deus. Em Marcos 12,30 e 12,36 Jesus utiliza textos do AT que tinham o nome de Deus, mas Jesus deve ter pronunciado “Adonai” ou “Senhor” e não “Iahweh”, pois o original grego traz kurios (kyrios = Senhor).

Jesus foi fiel à tradição do seu povo. Mas falando de si mesmo e querendo revelar a sua natureza divina, Jesus utilizou o mesmo verbo com o qual Deus se manifestou em Ex 3,13-14. É importante analisar esta expressão no Evangelho de João. O evangelista conhece a fundo o AT, conhece a cultura e a religião hebraica. Por isso, neste Evangelho é interessante ver como o verbo “ser” é muito frequente. Portanto, nos interessa muito que em João por três vezes (número da unidade) Jesus utiliza para si a expressão “EU SOU” sem que tenha algum complemento (Jo 8,24.28; 8,58; 13,19)4.

Jesus mesmo se identifica com Deus Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Em outra passagem, Jesus diz: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). O NT também afirma que “O Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1) e que Jesus “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15).

Outra constatação importante é que, no Evangelho de João, quando Jesus usa o complemento ao verbo, o faz por sete vezes. Ou seja por sete vezes (o número perfeito) Jesus diz o que Ele é!

1) Eu sou o Pão da Vida (6,36.41.48.51);

2) Eu sou a Luz do mundo (8,12; 9,5);

3) Eu sou a Porta (Jo 10,7.9);

4) Eu sou o Bom Pastor (Jo 10,11.14);

5) Eu sou a Ressurreição e a Vida (Jo 11,25);

6) Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6);

7) Eu sou a Videira Verdadeira (15,1.5)
Bibliografia
BIBLE WORKS 5.0. Programa bíblico para computador. Texto, dicionário e gramática (PIB, Roma 2002).

BÍBLIA DE JERUSALÉM, TEB e EDIÇÃO PASTORAL. Introduções e notas de rodapé.

DÍEZ MACHO, A. – BARTINA, S. – GUTIÉRREZ-LARRAYA, J. A. (ed.), Enciclopedia de la Biblia 6 voll. (Barcelona 1963).

JENNI, E. – WESTERMANN, C. ed. Dizionario teologico dell’Antico Testamento. Tradução italiana do original alemão

(Torino 1982).

J. L. MACKENZIE. Dicionário Bíblico. Tradução do original por CUNHA A. et al. (Paulus, São Paulo 72002).

SELTZER, R. M. Povo Judeu, Pensamento Judaico I (Judaica 1, Rio de Janeiro, 1990).

REYMOND, P. Dictionnaire d’Hebreu et d’Araméen Bibliques (Paris 1991). Traduzione italiana: SOGGIN J.A. ed. Dizionario di ebraico e aramaico biblici (Roma 1995).



Autor: Ildo Perondi (ildo@sercomtel.com.br)
Exercicios


  1. O que significa carregar e trazer consigo o nome de Deus?

  2. O que significa saber o nome divino?

  3. Segundo a Bíblia, o que significa colocar o Nome de Deus sobre o povo?

  4. Em que versículo da Bíblia aparece pela primeira vez o nome de Deus?

  5. Quantas vezes aparece o tetragrama sagrado no Antigo Testamento?

  6. Como foi traduzido pelo Novo Testamento o tetragrama?

  7. Como Jesus se apresenta no Evangelho de Joao?


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