O médico e o Wolverine. Wolverine Neto



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Encontro02.08.2017
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Wolverine

O médico e o Wolverine. Wolverine Neto.

Florianópolis. Ilha da magia. Janeiro de 2015. Verão. Quarta-feira, sete e quarenta e cinco da manhã. Profissionais chegando ao centro de saúde. Uma fila de cinco ou seis pessoas se aninha na entrada. Outros dois homens aguardam a abertura da unidade encostados no muro do outro lado da rua fugindo do sol quente e pesado.

- Eu sou a luz das estrelas. Eu sou a cor do luar...

A senhorinha sentada na entrada começa a se remexer. Olha pra um lado, olha pro outro. Olha pra amiga que aguarda na fila. Seu rosto ensaia uma hiperemia.



- Mas eu sou o amargo da língua. A mãe, o pai e o avô...

A cantoria é com a voz rasgada e com hálito de cachaça. Outras pessoas que aguardam na fila parecem incomodadas. O vermelho reluz na bochecha da senhora. Ela parece prestes a avançar no pescoço do rapaz. Dentro do posto de saúde, profissionais cochicham. Uns acham que devem botar a mulher logo pra dentro pra não dar confusão. Outros dizem para aguardar o posto de saúde abrir. O tempo fica suspenso por alguns instantes. Um breve silêncio.

Oito horas. Portas se abrem. Detinha, técnica de enfermagem e funcionária mais antiga da casa, se aligeira, pega o rapaz com aspecto de bebum e leva para a sala de procedimentos.

- Chama o cirurgião, moça. Tô cheio de pereba. Aqui ó (apontando para o cotovelo esquerdo). E aqui (no antebraço esquerdo). E aqui (no braço direito). E aqui também (aponta pras pernas). Tô todo emperebado. Tem cirurgião aqui?

A técnica limpa os ferimentos e chama o médico. O odor de álcool se espalha pelo corredor. O médico chega na sala acompanhado de 3 estudantes de medicina.

- Opa, como vai? Meu nome é Jesus, sou médico. Como te ajudo?

- O senhor é médico ou cirurgião? Porque eu preciso de um cirurgião!

- Me diga o que está acontecendo e vemos como posso te ajudar. Qual teu nome?

- Wolverine. Wolverine Neto.

- Muito prazer, Wolverine. O que houve?

- Doutor, tô cheio de pereba. Aqui ó (repete os gestos apontando para todas as partes que havia apontado antes). Tô todo emperebado. Tem que cortar fora e dar aquela injeção. Tem aquela injeção aqui? Benzetacil?

- Tem sim. Deixa eu dar uma olhada. Tá feio o negócio, hein?

- Tá né, doutor. Tô na rua. E sabe, vou montar uma banda. Sabe como vai chamar?

- Sei não.

- Os Variáveis.

- Mazá! É bom o nome! Gostei!

- É! É né, doutor? Tudo nessa vida é variável. Altos nome pra minha banda! Imagina só que uma vez me deram diagnóstico de bipolar. Eu já sou doutor nessas coisas da cabeça. Que tristeza achar que a pessoa é só bipolar. Quatro anos de Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Conheço todo mundo. O que já ensinei praqueles doutor não foi pouco.

- Imagino.

- Ô, nem imagina. Remédio já tomei de tudo: fluoxetina, carbamazepina, clorpromazina, o lítio então...

- Poxa! E hoje?

- Hoje não tomo nada. Cada um tem que se conhecer. E se aceitar como é. Só tomo água benta, doutor. É doutor Jesus, né?

- Deus de proteja, meu caro! Boto fé. É Jesus, sim. Tu tás certo. Mas deixa eu ver essas lesões?

- Aqui ó. E aqui. Ai ai, não toca que dói, doutor. Vai devagar.

- Tá certo. Assim, Wolverine: vamos drenar esse maior aqui (o abscesso do cotovelo) e depois fazer aquela injeção na bunda. Vai ter anestesia, mas vai doer um pouco, tudo bem?

- Tudo certo, meu doutor-médico-cirurgião!

Depois de uma boa conversa e muitos perdigotos alcoólicos, foi feito o acordo. Seria realizada a anestesia local e depois a drenagem do abscesso no cotovelo. Após o procedimento a técnica de enfermagem aplicaria uma injeção intramuscular.

- Não, não, doutor!

- Ué, eu tenho que fazer a anestesia antes. Não combinamos?

- Sim, mas é que dói. Tenho medo. Deixa eu fazer, doutor.

- Como assim? Pode deixar que eu faço.

- Deixa eu fazer, doutor. Eu já fui do pico, sabe? Já me piquei muito. Se eu aplicar a injeção não sinto dor. Se o doutor fizer vai doer.

- Mas...


- Deixa que eu faço, doutor.

E naquele instante, naquele breve diálogo de revelações e surpresas, na inquietação entre dar ou não a seringa com o anestésico para o paciente, muitas dúvidas povoaram a cabeça do médico. Deixar o paciente fazer a própria anestesia? Mas ele saberia fazer? Teria alguma doença “no sangue”? Será que ele não seria um louco que sairia picando o médico, a técnica e as estudantes? Em que aula o médico aprendeu a deixar o paciente fazer seu próprio procedimento? E se houvesse algum problema, o conselho de medicina não poderia processar o médico? Eram muitas as questões e muito pouco o tempo.

- Confia em mim, doutor, já me piquei muito. Conheço meu corpo. Se eu fizer, não vou sentir dor.

Dito e feito. Cada agulhada era que nem um gole d´água. Nem uma careta, nem um “ai”, nem uma puxada de braço.

- Aqui, doutor?

- Não, mais aqui pro meio. Injeta meio ml. Isso. Agora mais pro lado.

- Aqui? E quanto do anestésico?

- Isso, tá ótimo. Agora pode colocar tudo, até o final da seringa.



De maneira pitoresca e surpreendente, nunca antes vista naquele centro de saúde, foi realizada a anestesia pelo próprio paciente. A drenagem do abscesso foi o mais simples. O médico prescreveu a penicilina e orientou o paciente a retornar em 20 dias para nova aplicação. Saiu da sala antes de ver as nádegas do paciente e ouviu um “valeu, meu clínico geral-cirurgião!” Preconceitos foram revistos, e a prática médica foi ressignificada. A tão desgastada relação médico-paciente ganhou nova roupagem – moderna e pouco habitual, é verdade -, mas que agradou ao médico, ao paciente e às estudantes.

Passados os 20 dias, Wolverine é ansiosamente aguardado para mais um capítulo dessa história.


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