O marxismo no campo das ideias: Brevíssimas reflexões de um aprendiz resumo



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O marxismo no campo das ideias:

Brevíssimas reflexões de um aprendiz




RESUMO: Problematizamos os aspectos constituintes da teoria social crítica – o materialismo histórico-dialético – discorrendo alguns elementos que o estruturam, apontando, ao mesmo tempo, a atualidade que o mesmo possui para a compreensão da realidade histórica que nos cerca e indicando os desafios que se apresentam para a tradição marxista na contemporaneidade.
PALAVRAS-CHAVE: Marxismo. Materialismo histórico-dialético. Tradição marxista.

ABSTRACT: Confront the constituent aspects of critical social theory - the historical and dialectical materialism - by addressing the elements that structure, pointing at the same time, the actuality that it has to understand the historical reality around us and on the challenges that arise for the Marxist tradition ...
KEY-WORDS: Marxism. Historical and dialectical materialism. Marxist tradition.
1- Introdução
Na entrada do século XXI, depois de assistirmos a ocorrências como o fim da URSS e o advento da pós-modernidade, muitos autores e pensadores insistem, reiteradamente, em querer decretar o fim do marxismo e do método materialista-histórico-dialético de análise e interpretação da realidade, consumando-se um momento no qual, “ser marxista dá um pouco a impressão de ser um animal em extinção” (NETTO, 1990, p. 02). Diferentemente da concepção supracitada, teimo – mesmo com todas as limitações que tenho, enquanto sujeito que vivencia um processo de maturação intelectual ainda incipiente – em defender a atualidade que tem esta corrente para nos subsidiar no entendimento dos complexos, dinâmicos e contraditórios fenômenos que se espraiam por todas as latitudes do globo terrestre.

E teimamos, não por acaso, mas por que a experiência cotidiana, especialmente nos espaços de militância e pesquisa acadêmica nos quais tenho me inserido, têm contribuído para clarificar-me sobre esta assertiva de maneira muito latente. De fato, mais que nunca, as contradições que emergem de uma sociedade marcada pela existência de classes sociais antagônicas do ponto de vista da posse ou não dos meios de produção; a ocorrência de sucessivas crises, ou melhor: de uma crise estrutural, longa e duradoura, conforme análise de Mészáros (2009) entre outras coisas, me dão a certeza da atualidade histórica que tem as ideias da tradição marxista nesta conjuntura.

As elaborações de Marx e Engels, na aurora de seu surgimento, ganham corpo quando se registra na história o acirramento da luta de classes especialmente a partir de 1848, fomentando, como nos faz crer Netto (2006) à divisão do pensamento em dois campos divergentes. Estes “[...] dois campos delimitam o terreno das grandes matrizes da razão moderna: a teoria social de Marx e o pensamento conservador, produto da conjunção dos veios restauradores e românticos” (NETTO, 2006, p. 14). De lá até hoje, as contradições expressas na divergência radical de interesses entre os sujeitos permanece ocorrendo com as particularidades e singularidades históricas que assolam nossa época. De lá até hoje, a elaboração marxiana continua servindo para explicar e desvelar a realidade, sendo-nos, portanto, imprescindível!

Nesse sentido, o texto que ora discorro tem a pretensão de expor, ainda que de maneira breve e introdutória – o que já é tarefa bastante difícil, dada a complexidade do pensamento marxiano – alguns elementos e reflexões que sirvam para reafirmar a perspectiva teórico-metodológica que a trancos e barrancos estou ousando seguir filiado. Penso ser necessário reforçar o papel e o lugar que o marxismo tem ocupado na batalha das ideias e acredito que todos os esforços nesse sentido são sempre bem vindos.

Assim, espero que as linhas que se seguem sirvam, em certa medida, para inquietar e encantar os leitores, de modo a incitar o surgimento de novas produções, reflexões e exposições sobre o marxismo.

2- A propósito do método
A corrente teórico-filosófica que buscaremos tecer algumas consirerações, ao longo deste texto, é a marxista, ou seja, aquela que toma como método o materialismo-histórico dialético. Uma análise da estrutura de palavras contida na expressão materialismo-histórico dialético mostra que, por meio dela, conseguimos pensar que os fatos estão postos na realidade e nos instiga a entender e encontrar as explicações nela. Como afirma Marx, “O modo de produção da vida material determina o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência” (MARX, 1936, p.05) – e é aí que reside o materialismo.

O materialismo que embasa Marx e Engels na elaboração de seu constructo teórico-metodológico se contrapõe à maneira idealista de conceber a realidade, formulado principalmente por Hegel. Para este ultimo autor, as ideias e abstrações são responsáveis por dar forma à realidade (a título de exemplo, poderíamos lembrar que para Hegel o Estado forma a sociedade, enquanto Marx acreditava justamente no contrário, ou seja, que a sociedade civil é a responsável por engendrar esse Estado), ao passo em que, fazendo a crítica a esta concepção, Marx então, iria fornecer “[...] uma explicação coerente do ser em todas as sua modalidades, que seria o materialismo dialético e, especificado ao ser social, constituiria o materialismo histórico” (NETTO, 1990, p. 04). Diz o pensador alemão:


Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento – que êle [sic] transforma em sujeito autônomo sob o nome da idéia – é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o matéria transposto para a cabeça do ser e por ele interpretado (MARX, 1873, p. 17).

Além de ter posto a dialética de Hegel de cabeça para baixo1, Marx também fez a crítica à economia política clássica. Smith e Ricardo foram os representantes mais conhecidos dessa vertente, que se assentava segundo Netto e Braz (2008) numa dupla dimensão, quais sejam: a necessidade de entendimento do conjunto das relações sociais que emergem no período posterior ao feudalismo de um lado e, de outro, a maneira pela qual os expoentes desta corrente tratam as diferentes categorias, tomando-as, sempre, como naturais e imutáveis. Nesse sentido, fica evidente que essa ciência estava atrelada a garantia dos interesses da burguesia. Partindo dessa realidade, Marx vai fazer a crítica a esta maneira de enxergar o mundo que, em verdade, é a “maior e mais típica ciência nova da sociedade burguesa” (LUCKÁCS, 1968, p. 50), observando que a sociedade “[...] é uma forma de organização social histórica, transitória, que contém no seu próprio interior contradições e tendências que possibilitam a sua superação, dando lugar a outro tipo de sociedade [...]” (NETTO & BRAZ, 2008, p. 24).

Assim, a crítica ao idealismo hegeliano, e a economia política são aspectos importantes para entendermos a formulação de Marx. Todavia, não são os únicos; há também a crítica ao socialismo utópico, que se realiza tendo por base o pensamento de sujeitos – dos quais Saint-simon é exemplar – que se propuseram a projetar supostas mudanças na sociedade, a partir do delineamento de sistemas racionais, mediante a ampliação da justiça, dos direitos, etc. forma esta, que era muito descabida, como explicou Engels (1880, s/p): “suas teorias incipientes não fazem mais do que refletir o estado incipiente da produção capitalista, a incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais latentes ainda nas condições econômicas poucos desenvolvidas da época”.

Como podemos perceber através das questões supramencionadas, a crítica é um elemento bastante presente na teoria social crítica de Marx e Engels, o que é facilmente observado se nos reportarmos às obras que eles compuseram, individual e/ou coletivamente: Para a crítica do direito de Hegel; A sagrada família ou crítica da crítica crítica; Para a crítica da economia política, entre outras, são alguns exemplos desta assertiva. Mas, é importante indicar que o sentido dessa crítica não reside, fundamentalmente, em promover uma desqualificação do constructo dos sujeitos e sim, uma maneira de diálogo e debate que questiona, (re)interpreta e avança a partir do que está posto; é, nesses termos, um elemento que permite a fundamentação e estruturação do pensamento. Senão, vejamos: “A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote” (MARX, 2012, p.76).

Retomando a análise da estrutura de palavras da expressão, e detendo-nos mais especificamente no que concerne ao aspecto histórico, temos que ele permite-nos entender que a realidade não é eterna e imutável, sendo resultado de processos, ou seja, é algo cotidianamente construído por homens e mulheres, dotados de uma práxis. Noutras palavras, afirma que a realidade está relacionada às constantes mudanças que se sucedem no seio da sociedade e, quem está inserido nela, torna-se sujeito partícipe, na medida em que passa a interferir e sofrer interferências dela.

Já em relação à dialética, expõe a dinamicidade da realidade, informando, por isso mesmo, que ela se encontra num movimento contínuo e ininterrupto, avaliando, dentro disso, a contradição de certos fenômenos, encarados aqui, como inerentes às mais diversas formações sociais. Ou seja, a dialética é responsável por captar “o movimento do objeto, a sua lógica de constituição, [como também perceber] [...] o que o objeto é e como chegou a ser o que é (seu processo de constituição), quais seus fundamentos, sua capacidade de transformar-se em outro” (GUERRA, 2009, p. 706).

Entendemos também, através desse método, que, na sociedade, nada se encontra isolado. Ou seja, os fenômenos estão vinculados a um conjunto de mediações, de ordens diversas (econômicas, políticas, culturais etc.) que, quando compreendidas, nos fornecem uma visão mais ampla e crítica da realidade, sendo preciso, por isso, vê-lo dentro de um conjunto de relações mais globais, na exata medida em que passa a sofrer determinadas influências (diretas e indiretas) desse contexto. Nesse sentido, ao perceber as ligações entre os diversos fenômenos postos na sociedade, entendendo, concomitantemente, a forma como os mesmos se inter-relacionam, caminhamos para obter um conhecimento na perspectiva da totalidade.

O conhecimento da totalidade, por sua vez, nos permite chegar à essência dos fatos, ultrapassando sua aparência, a qual, numa sociedade de classes, como é a que vivemos, é fundamental para os que dominam, pois permite mantê-los na superficialidade, camuflados por uma carcaça que não revela a realidade como é. Isso por que, como já nos alertava Marx:


A pesquisa científica livre, no domínio da Economia Política, não enfrenta apenas adversários da natureza daqueles que se encontram também em outros domínios. A natureza peculiar da matéria que versa levanta contra ela as mais violentas, as mais mesquinhas e as mais odiosas paixões, as fúrias do interesse privado. (MARX, 1867, p. 06).

Ianni (1986), por sua vez, também nos alerta sobre os incômodos que o desenvolvimento de estudo crítico ocasiona aos estratos de classe dominantes, por que, segundo ele: “[...] os objetos não são inocentes. Os objetos não estão soltos no espaço como eles estivessem saído do nada. Na verdade eles já estão carregados de significado. Então, a critica precisa passa pela ideologia, que, por assim dizer, recobre o objeto” (IANNI, 1986, p. 05).

Daí a importância de não nos apoiarmos nas informações que chegam a nós de maneira imediata, realizando um esforço de compreender as minúcias e o contexto em que cada fato se insere ou, em síntese: ultrapassar a aparência desses fenômenos, construindo, concomitantemente, vias para conhecer sua essência.

Ora, são as sucessivas aproximações com o real, que nos permite enriquecer os fenômenos com novas determinações, complexificá-los ao nível das apreensões e análises que dele podemos desenvolver. Nesse movimento de aproximar-se da realidade, nos deparamos com a aparência – que é fundamental no processo de investigação, tendo em vista que nos permite ter um primeiro contato com os fenômenos. Assim, o método marxista não nega a relevância da pesquisa empírica, mas alerta para o fato de que a aparência expressa uma dimensão da realidade, todavia essa dimensão é, como nos faz crer Ianni (1986) uma entre muitas outras. De fato, como proferiu Marx (1985, p. 271): “toda ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem imediatamente”.

Nessa direção, voltando-nos a um dos poucos textos em que Marx se dedicou a escrever diretamente sobre o método2 – Introdução à crítica da economia política – nos deparamos com um fragmento através do qual conseguimos clarificar a questão supracitada. Senão, vejamos:
Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia Política, começamos por sua população, sua divisão em classes, sua repartição entre cidades e campo, na orla marítima; os diferentes ramos da produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias etc. Parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva. [...] No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que isso é falso (MARX, 2012, p. 254 – grifos meu).

Assim, podemos identificar no método dois momentos que conformam o processo de produção do conhecimento, quais sejam: um ponto de partida, no qual o sujeito se depara com o empírico, ou seja, com as informações que lhe chegam de maneira imediata, direta; e um ponto de chegada, que expressa um estágio no qual o sujeito conseguiu formular uma interpretação ideal do movimento do real no pensamento. Com essa ação, o concreto deixa de ser puramente concreto, e transforma-se em concreto pensado. Mas, o ponto de chegada é, tão somente, um novo ponto de partida, ou de fazer a “viagem de volta”, como indicou Marx. A diferença é que dessa vez, o pesquisador não vai se dedicar a pensar acerca de seu objeto como representação caótica, incompleta e/ou obscura da realidade e sim sobre um objeto mais maturado.

Na sequência de seu texto, diz Marx:
Pela população, teríamos uma representação caótica do todo e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise chegaríamos a conceitos cada vez mais simples. Chegados a esse ponto teríamos que voltar e fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo com a população, mas desta vez não como uma representação caótica do todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas (Op. Cit. p. 254).
Observando a trajetória de Marx, poderíamos mesmo identificar estes dois pontos: o lapso temporal que vai até 1847/1848 seria um ponto de partida para ele, de aproximação e estudo das ideias hegelianas, da economia política através do artigo de Engels3, etc. e a partir do acúmulo, das críticas e estudos sistemáticos, teríamos um ponto de chegada, entre os anos de 1857/1858, momento este em Marx consegue, com maior precisão e rigor, amadurecer sua concepção teórico-metodológica, convergindo para, entre 1866/1867 lançar ao público sua obra mais expressiva, qual seja: O capital – crítica da economia política.

Merece atenção o fato de que não estamos querendo afirmar, com isso, uma separação entre um Marx jovem e um Marx maduro, pois acreditamos que a sua construção teórica ocorreu de maneira processual, o que não significa, evidentemente que deu-se de modo linear.

Cabe lembrar, neste ponto de nossa abordagem, para não correr o risco de cairmos numa perspectiva positivista de análise4 da realidade, a qual se pauta na possibilidade da não influência do sujeito, em sua imparcialidade etc. que, para nós, o indivíduo tem um papel ativo no processo de apropriação da realidade: “[...] o sujeito deve ser capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los, revisá-los e deve ser dotado de criatividade e imaginação. O papel do sujeito é fundamental (grifos originais) no processo de pesquisa” (NETTO, 2011, p. 25).

Corroboramos que o movimento que nos leva a desvelar o real, não poderia ser diferente. Até por que a realidade nunca esgota as possibilidades de investigação e estudo. Por isso os intelectuais se dedicam, como expõe Ianni (1986) a saturar, reiteradamente, obstinadamente, incansavelmente, seus objetos de estudo. Ora, Marx dedicou à vida inteira a buscar compreender a sociedade burguesa – desafio que, inclusive, está posto a tradição marxista, que vem formulando, a partir das alterações das diversas ordens pelas quais vem passando a sociedade.

Assim, os avanços obtidos por meio dos estudos de Lênin – com seu conceito de capital imperialismo – e de Gramsci – com a teoria que afirma a existência de um Estado ampliado –, por exemplo, nos mostram que o processo de entendimento do real ocorre a partir da verificação e entendimento das alterações que se processam em cada conjuntura histórica. Por isso mesmo, a ortodoxia à Marx e Engels não consiste em receber e aceitar, passivamente, todas as formulações que eles desenvolveram. Em verdade, a fidedignidade à doutrina marxiana consiste em incorporar, à análise da realidade, o rigor do método e não das formulações teóricas, até por que elas são historicamente determinadas.

É interessante mencionar também que o desenvolvimento da pesquisa na ótica marxiana, conforma o processo sob o qual repousa, se quiséssemos demarcar num plano puramente formal, de um lado, o método de investigação, o qual se caracteriza pelo mergulho na realidade bem como pela aproximação e reflexão crítica das múltiplas conexões e determinações dos fenômenos (mediação do pensamento) e, de outro, o método de exposição, que se configura como um momento no qual depois de realizado o esforço de conhecer a realidade, há a exposição suas conclusões; exposição essa que deve acontecer não de um modo mecanicista e pragmático e sim de apoiando-se numa construção crítico-reflexiva, por meio da qual consiga-se captar a lógica, as contradições e o movimento da realidade.

Noutras palavras:
[...] A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão íntima que há entre elas. É somente depois de concluído êsse [sic] trabalho, é que se pode descrever, adequadamente o movimento do real. Se isto se consegue, ficará espalhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a priori. (MARX, 1873, p. 16).

Salutar registrar, ainda, que todo o processo de investigação recorre, com bastante intensidade, ao estudo e análise de algumas categorias que, por isso mesmo, tem adquirido um espaço nuclear, central, para o entendimento da teoria marxista, quais sejam: totalidade, contradição e mediação. Isso é verdade, na exata medida em que é esse arsenal de categorias que possibilitam a compreensão do movimento de produção e reprodução do real e, portanto, do exame dos fenômenos sociais de maneira mais consistente, do ponto de vista teórico-metodológico.

Para nós, também é expressiva e latente a dimensão política que compõe o método marxista, ao passo em que identificamos que o sentido dos esforços teóricos e metodológicos da tradição inaugurada por Marx e Engels – esforços estes que continuam tentando ser materializados pelos sujeitos que, mesmo diante de todas as intempéries, permanecem trilhando no campo do marxismo – olvidando esforços para compreender as condições de gênese, desenvolvimento, crise e decadência do modo de produção capitalista, aconteciam certamente com vistas a potencializar atitudes que concorressem para permitir a supressão desse sistema. De fato, como apregoou Lênin, sem teoria revolucionária não há prática revolucionária. Isso significa que a descoberta das múltiplas determinações que pairam na realidade, devem instrumentalizar os sujeitos na condução de rupturas e transformações, afinal, como o próprio Marx expôs na 11ª de suas teses sobre Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo diferentemente, importa é transformá-lo” (p. 166).

Certamente, o respaldo e importância que o protagonismo político tinha para Marx e Engels se expressa na forma e sentido que deram às suas vidas. Ora, a título de exemplo poderíamos relembrar das vezes nas quais Marx atrasou o prazo estabelecido com as editoras em função direta do envolvimento com os projetos da classe trabalhadora, ou ainda de sua participação intensa na liga comunista, e na provera dos povos, juntamente com Engels que, por sua vez, poderíamos citar a função na direção do Partido Social-Democrata alemão. No transcorrer dos tempos, os indivíduos que abraçaram a teoria social crítica também envolveram-se na organização e articulação de muitas lutas. Entre eles, Lênin, Rosa Luxemburgo, Gramsci etc. são figuras emblemáticas, nesse sentido.

Contudo, se de um lado identificamos a imprescinbilidade da articulação entre teoria e prática, de outro, temos assistido na atual conjuntura marcada no campo da política pelo descenso das lutas e movimentos sociais e, no campo do “saber” pelo avanço das proposições pós-modernas, que a fidelidade ao método marxiano vem tendo dificuldades em fazer-se presente ou, quando são assumidas, acontecem de maneira parcial.

Destarte, manter viva a atualidade da obra de Marx e Engels, requer o esforço histórico de defender o que está sendo atestado de ultrapassado, obsoleto. Mais que nunca é preciso ter coragem e ousadia para pensar, com a tradição marxista, o passado, o presente mas, sobretudo, o futuro que nos aguarda.


3- Considerações finais

À guisa de conclusão, lembro-me das reflexões que Bretch deixou para os que viessem depois de nós, questionando-se acerca dos tempos sombrios em que vivemos. Certamente, o lastro temporal que estamos presenciando e vivenciando são de crise e de perda de direitos para a classe trabalhadora. São tempos de exploração aguçada do trabalho, de fome, miséria e barbárie generalizada. E são nesses tempos que a teoria marxista precisa espalhar-se e ganhar visibilidade por todo o globo, como via necessária para dar início à verdadeira história da humanidade, como conspirou Marx.

Mas, contraditoriamente, também estamos numa época na qual se quer apregoar, a todo custo, a ideia equivocada da conjunção entre desenvolvimento econômico e distribuição de riqueza, de aprofundamento da cidadania e ampliação do sistema de proteção social, ou em síntese: da possibilidade de unificação entre os interesses do capital e do trabalho, numa forma de sociabilidade em que as contradições se acirram a cada dia, elevando-se a enésima potência.

Assim, os desafios de reivindicar a atualidade e pertinência do conjunto da teoria marxiana em tempos de avanço da neoliberalização do capital (HARVEY, 2008) e seu aporte ideológico que nega e esconde as incongruências engendradas nos interior do modo de produção capitalista, as quais são responsáveis por nutrir a existência de classes sociais inteiramente antagônicas, exigem de nós o esforço de afirmarmos e defendermos, a presença e atualidade do marxismo, para que os poucos, pouco a pouco, transformem-se em muitos; talvez nos muitos coveiros que como previram Marx e Engels, iriam dar fim ao capitalismo...



O conhecimento 
caminha lento feito lagarta. 
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe 
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas, 
cava trincheiras, 
ergue barricadas. 
Defendendo o que pensa saber
levanta certeza na forma de muro,
orgulha-se de seu casulo. 

Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imagina saber
ou guardava preso o que sabia. 
Voa alto sua ousadia 
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mas o voo mais belo 
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar: 
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim: 
ri de si mesmo 
e de suas certezas.
É meta de forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo 
como a asa.

(Mauro Iasi)

Referências

ENGELS, Friedrich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1880/socialismo/index.htm. Acesso em: 19 Mai. 2013.

GUERRA, Yolanda. A dimensão investigativa no exercício profissional. IN: Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília; CFESS/ABEPSS: 2009. (p. 702 - 717).

HARVEY, David. O Neoliberalismo: história e implicações. Tradução: Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

IANNI, Otávio. Construção da categoria. Transcrição de aula do curso de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-SP. 1986.

LUKÁCS, G. El Assaltoa la Razón. Barcelona: Grijalbo, 1968.
MARX, Karl. Para a crítica da economia política. In: _______. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril cultural, coleção Os pensadores, 1978, pp. 101-132.

_______. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Vozes, 1936.

_______. Teses sobre Feuerbach. In: NETTO, José Paulo (Org). O leitor de Marx. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

_______. Para a crítica da filosofia do direito de Hegel. Introdução. In: NETTO, José Paulo (Org). O leitor de Marx. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.



______. O Capital: crítica da economia política. Tradução de Reginaldo Sant'Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. (Livro 1, Volume I ). 

______. O Capital. Livro III, Tomo II. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

_______. Posfácio da 2ª edição d’Ocapital. Londres, 24 de Janeiro de 1873.

_______. Prefácio da primeira edição d’Ocapital. Londres, 25 de Julho de 1867.

_______. ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. Ridendo Castigat Mores, 1999.
NETTO, José Paulo (Org). O leitor de Marx. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

_______. O que é Marxismo? São Paulo: Brasiliense, 2006 (coleção primeiros passos: 148).

_______. O Método em Marx. Transcrição de Miriam Veras Batista. Programa de Estudos pós-graduados em serviço Social da PUC. São Paulo: 1990.

_______. Introdução ao estudo do método em Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

_______. BRAZ, Marcelo. Economia Política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2008

MÉSZÁROS, Istvan. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2009



1 Marx afirma: “Em Hegel a dialética está de cabeça para baixo. É necessário pô-la de cabeça para cima, a fim de descobrir a substância racional dentro do invólucro místico(2002, p. 28-29). Isso, contudo, não deve ser pensado e analisado por nós de maneira simplista; é preciso considerar os esforços teórico-metodológicos que o pensador alemão desenvolveu durante o processo de crítica à dialética hegeliana.

2 Cabe destacar que, diferentemente de outros pensadores clássicos, como Durkheim ou Weber, Marx raramente se deteve na construção de escritos que se reportassem para seu método: o método da economia política ou materialismo histórico-dialético.

3 Tal artigo, intitulado “Esboço de uma crítica da economia política” chega a Marx quando, juntamente com Ruge, solicitam a colaboração de textos para compor os Anais Franco-Alemães que então editariam em Paris, por volta de 1844 (Cf. O leitor de Marx. Introdução).

4 O físico observa os processos da Natureza quando se manifestam na forma mais característica e estão mais livres de influências perturbadoras, ou, quando  possível, faz ele experimentos que assegurem a ocorrência do processo em sua pureza. O que eu tenho de investigar nesta obra [O capital] é o modo de produção capitalista e as relações de produção e de troca que lhe correspondem” (MARX, 1867, p. 04).


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