O jornalismo, entre nós, não é uma profissão: ou é eito, ou é escada para galgar posições



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Gustavo de Lacerda: o criador da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*



o jornalismo, entre nós,

não é uma profissão: ou é eito, ou é escada para galgar posições”.

(Gustavo de Lacerda)

As transformações tecnológicas, que foram surgindo nas primeiras décadas do século 20, marcaram a transição de uma imprensa artesanal para uma imprensa de cunho empresarial. Dentro da ótica capitalista, o jornalismo passou a ser visto como importante fonte de investimento. A valorização dos periódicos (jornais e revistas) está ligada à nova temporalidade de uma sociedade que adentrou o novo século, no qual o binômio, composto pelas palavras modernidade e progresso, era a tônica. O telégrafo, aliado a novas técnicas de impressão, possibilitou uma maior tiragem do jornal, mantendo a qualidade na produção. Havia uma demanda no mercado por informação, cada vez mais rápida, acerca dos fatos que ocorriam no Brasil e no mundo. Tempos modernos...

É neste contexto de transformações socioeconômicas, que despontará um jornalista mulato e pobre: Gustavo de Lacerda (1854-1909). Este foi responsável, em 07 de abril de 1908, pela criação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Já no distante ano de 1858, havia ocorrido a primeira greve dos tipógrafos no Rio de Janeiro, combatendo as injustiças patronais e os baixos salários. Nos primórdios da história do movimento sindical, o pioneirismo de uma greve nasceu no âmago da classe trabalhadora ligada à imprensa.



Um destino de luta

Em 18 de maio de 1854, nasceu Gustavo Adolfo Braga, em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (SC). Seu sobrenome foi substituído por Lacerda, aos 22 anos, quando teve permissão do Exército, para efetivar a troca. Ingressando nas Forças Armadas, em 08 de março 1870, chegou a conquistar o posto de segundo-sargento. Na Escola Militar de sua cidade, exerceu a função de secretário do gen. Tibúrcio de Sousa, que, ao perceber a sua inteligência, incentivou-o a estudar. Por divulgar os seus conhecimentos sobre o Socialismo, entre os colegas de carreira, foi desligado, em 1871, de suas atividades militares.

Autodidata, dominava o idioma português e escrevia com desenvoltura. Gustavo de Lacerda iniciou, também, estudos em francês, tendo acesso a livros que circulavam, entre amigos, sobre as ideias socialistas. Em 1875, mudou-se para o Rio de Janeiro, porém regressaria a Santa Catarina, ingressando, mais uma vez, no Exército onde permaneceu até 1881.

O jornalista

Buscando uma oportunidade de emprego, em Santos (SP), trabalhou como guarda-livros. Ao retornar ao Rio de Janeiro, em 1º de janeiro de 1884, lançou o primeiro número do seu jornal o “Meio Dia”. Neste periódico, ele se denominou republicano independente e apartidário: “Os partidos não tem programas nem princípios, menos ideias e união – só têm chapas”. O jornal teve existência efêmera e não chegou a completar um mês de circulação.



Completamente falido e sem condições de sobrevivência, ele aceitou o emprego de repórter de setor no jornal “O Paíz” (1884-1934). Neste periódico, Gustavo de Lacerda trabalharia até falecer.

Em suas atividades, como jornalista, Gustavo de Lacerda, ao mesmo tempo, foi repórter e revisor do jornal “A Imprensa”, de Rui Barbosa (1849-1923), e, durante o governo do presidente Campos Sales (1898-1902), trabalhou, também, no Jornal do Brasil.

Ao ocorrer uma greve de carroceiros, ele publicou uma reportagem a favor dos grevistas, resultando num atentado a tiros. O Jornal do Brasil, em seu editorial, acusou o ministro da Justiça. Epitácio Pessoa (1865- 1942), de ser o mandante: “...dois encostados da polícia atiraram para matar no nosso repórter Gustavo de Lacerda, na Ladeira do Castro, que denunciou as violências praticadas por ordem do governo contra carroceiros em greve”. De acordo com Nelson Werneck Sodré, “Gustavo de Lacerda, repórter ousado, ganhava notoriedade antes gozada por Ernesto Sena, do Jornal do Comércio, capaz de operar prodígios em busca da informação”.

João Melo descreve Gustavo de Lacerda, como: “Mulato comprido e alto, indivíduo nervoso, de aparência gasta e mal vestido; passo tardo e bigode caído; modesto de posses e por temperamento animado, porém, da ideia obsessiva de arregimentar os que trabalhavam na Imprensa”. E segue: “Pouco conhecido (...) o repórter exato em suas obrigações e correto narrador dos eventos de cuja divulgação se encarregou, era visto como um agitador e não como um jornalista (...) cumpridor dos deveres de sua profissão. É que lhe sabiam o pendor político”. Estas opiniões, sobre o criador da ABI, encontram-se na terceira edição do livro “História da Imprensa no Brasil” (1983), de Nelsom W. Sodré, na pág. 310.


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