O instinto fala obscuramente e em sentido figurado. Se é mal entendido, surge uma falsa tendência



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É o Racionalismo a melhor opção para vida?

o instinto fala obscuramente e em sentido figurado. Se é mal entendido, surge uma falsa tendência”. Friedrich Schlegel.

Salomão Santana

Mestrando em Filosofia (PPGF/UFS)

Psicanalista Clínico.

Resumo: A partir da análise do texto Razão e anti-racionalismo de A.C.Grayling pretende-se demonstrar que a interpretação racionalista da existência é uma perspectiva que desterritorializa o sentido da vida e sua plenitude. A leitura do texto em questão suscitou algumas perguntas: Que tipo de razão [ou anti-razão] emerge das investidas dos filósofos e da ciência contra a hegemonia da razão? O fio condutor que irá nos guiar neste ensaio será a filosofia de Nietzsche e seu posicionamento diante da razão: Seriam legítimas as tentativas de Nietzsche em apontar novas formas de experiências do ser das coisas, do pensar e da própria linguagem para além do domínio e controle da razão?

Palavra-chave: Razão – Anti-racionalismo – vida.

A odisséia do pensamento ocidental começa na Grécia antiga, precisamente no século VI antes de Cristo. Essa data marca o nascimento da filosofia e, com efeito, da razão. Para Kant a filosofia nada mais é que “o conjunto de todo saber humano relacionado com os fins essenciais da razão humana”. Essa crença nos poderes da razão não será apenas admirada por Kant. O ser humano pode ser definido pela razão e consequentemente pela linguagem, o que podemos dizer que sem a linguagem não haveria racionalidade. Assim como a razão e a linguagem são sinônimas pode-se inferir que o embate de ideias, as ideologias existentes em vários segmentos do saber são frutos de uma conduta racional diversa que se manifestam na linguagem/argumentação.

A racionalidade surge em circunstâncias paradoxais: Ela surge quando os primeiros pensadores se deram conta das ilusões provocadas pelas interpretações mitológicas da realidade. Contudo, seria a interpretação racional também uma ilusão na medida em que acredita encontrar uma interpretação mais segura e viável da realidade e da vida.

Aqueles que pretendem solucionar conflitos inspiram-se na razão e a têm como termômetro para avaliar e dissolver todo e qualquer conflito. Não obstante, de todos os conflitos o que possuem proporções da própria história são aqueles produzidas pela própria razão, pois o conflito de idéias, posturas ideológicas não só determinam convicções morais como arrastam as pessoas para paz ou podem promover a guerra. (GRAYLING 2004)

Segundo Grayling, se a razão for tomada como o armamento das ideias, uma espécie de munição que é aplicada no combate onde os pontos de vistas são os resultados destes conflitos ela, a razão, cria inimigos.

O relativismo e as religiões são, segundo Grayling, os inimigos mais comuns da razão: o primeiro apontando para direção de que diferentes opiniões e formas de pensar são validas, a segunda que a verdade não pode ser descoberta pela investigação humana. (GRAYLING 2004). Ora, a tradição racionalista amplamente dominante na cultura ocidental engaja a razão em uma orientação edificante. Para essa tradição, a razão não pode ter exterioridade. Sendo transparente e reflexiva a razão é autofundadora. (Auroux 2009, 79). Essa é a posição da filosofia transcendental: A razão não é produto da história, ela é a priori, ou seja, ela é a própria origem de sí mesma. Para alguns é possível ver aí uma semelhança entre esta postura e a da religião. Por um lado, a filosofia se assemelha a religião na medida em que constrói um edifício teórico no além do sensível, e de que o acesso a esse mundo se dá pela via da reflexão, que por sua vez na religião ocorre pela via moral.(Foucault 1992. P. 79).

Quanto ao relativismo, o próprio Grayling nos oferece a resposta:

Nestas circunstâncias, as vozes das sereias fazem-se ouvir mais alto: acreditemos em deuses, dizem elas, ou poções, ou configurações planetárias, como forma de nos orientarmos. Ou, na linguagem pós-modernista: reconheçamos que só há “discursos”, cada um tão válido como qualquer outro. (GRAYLING 2004)


Para Grayling, a experiência humana fragmentária “debilita a razão” e que os defensores da razão, apesar dos pesares, veem na razão ainda o melhor guia para sairmos da crise que estamos vivendo. Mas a razão é o melhor guia para nos conduzir para fora da crise? Grayling conclui seu texto afirmando que a falha dos anti-racionalista reside no fato de que os inimigos da razão propõem uma lista de “virtudes” como substituto da razão e adverte:

Reparamos imediatamente que todas elas, a não serem governadas pela razão, são exactamente aquilo que alimenta o fanatismo e as guerras santas. E aqui jaz a pobreza da perspectiva anti-racionalista. (GRAYLING 2004)

A leitura que acima apresentamos mostra uma descrição da realidade calcada na racionalidade e mesmo as consequências que surgem com o mau uso da razão serem evidentes, não podemos ignorar suas conquistas. Mas é a perspectiva racionalista benéfica para vida? Essa faculdade do espírito tem trazido consequências positivas para vida como os antibióticos salientados pelo autor do texto? Ou a pergunta deve ser feita de outra forma: onde se legitima as pretensões da razão que fundamenta a cultura como a melhor e eficaz interpretação da realidade?

Alguns filósofos colocaram sob suspeita a razão. Entretanto ninguém suspeitou de maneira tão vigorosa como Nietzsche. Sua crítica à razão começa com a civilização grega sob o domínio das tragédias. Esse período, segundo Nietzsche, é dominado por uma postura de afirmação da vida em todas as suas dimensões. Com o advento da razão, da ciência e da filosofia, a busca pela verdade e o conhecimento passou a ser prioridade e cuja instância a vida e seus desdobramentos são avaliados e controlados pelo logos. (NIETZSCHE 1978 p. 57).

Portanto, é entre os gregos que começa a subordinação da vida à razão, a inversão do pensar e do agir para lógica e a gramática. Podemos concluir que a interpretação racional da existência e suas consequências tratadas no texto de Grayling dependeram de decisões e atitudes tomadas entre os gregos e o nascimento da epistemologia. Assim Nietzsche se refere à razão no ocidente:

(...)No homem essa arte do disfarce chega ao seu ápice., aqui o engano,o mentir e ludibriar, ... representar, o viver em glória de empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si, em suma, o constante bater de asas em torno dessa única chama que é a vaidade, é a tal ponto a regra e a lei que quase nada é mais inconcebível do que como pôde aparecer entre os homens um honesto e puro impulso à verdade." (NIETZSCHE, 1978. p. 45-)


A critica que Nietzsche faz a razão consiste em não acreditar que não exista um pensamento que seja legislador por obedecer somente à Razão, mas existe um pensamento que pensa contra a razão, o que torna impossível a racionalidade. O ante racionalismo nietzschiano opõe à Razão uma nova forma de pensar, de interpretar e avaliar os sintomas da cultura, da ciência, os tipos de forças e sua genealogia (sua origem). O que é contraposto à Razão é o próprio pensamento, o que é contraposto ao ser racional, é o próprio pensador, pois as forças que operam no ato de pensar não são oriundas da razão. (Nietzsche 1978 p.74)

Com relação aos embates de ideias provenientes da razão e as construções ideológicas afirmadas por Grayinling em seu texto, Nietzsche afirmará: “Sob cada pensamento, ideias habita um afeto” (NIETZSCHE 1987, p.61]). “Os pensamentos são signos dum jogo e de um combate de afetos: sempre estão ligados às suas raízes ocultas” (NIETZSCHE 1987, p.75]). Essas duas citações apontam para uma inversão que o filósofo faz a tradição racionalista: a razão é simplesmente corpo.

A tradição filosófica que supervaloriza a razão vê no corpo um empecilho. A alma deve triunfar sobre o corpo, pois este representa desejos, paixões e instintos, tudo que se opõe a razão. Assim Nietzsche afirma:

Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão (NIETZSCHE, 1983, p. 51).

Portanto, para Nietzsche, a humanidade não se elevou desde o surgimento da razão, pois a vida em sua plenitude foi negada, ou mesmo ignorada. Freud, irá seguir nesta linha de interpretação ao afirmar que “a razão quando surge, surge a promessa de transformar a vida suportável, pois viver é insuportável”. (FREUD 1987 p. 88) A fome, a miséria, a doença são forças que atuam na vida e as tecnologias, as invenções e os avanços da ciência são formas humanas de neutralizar essas forças, tornando assim a vida suportável. Em Nietzsche, podemos inferir, portanto, que a elevação da humanidade em uma forma superior de vida que possuirá sua conclusão no homem superior, só será possível se ouvirmos o corpo, obrigação inerente a todos os seres vivos, da qual só homem se desviou de elevar a vida ao seu grau máximo de intensificação. São os afetos que nos guiam e que devem orientar a razão.

A razão, com efeito é para Nietzsche, assim como a consciência um órgão de direção. Ela se desenvolve como capacidade comunicativa. A razão e a consciência são órgãos que o ser vivo se utiliza para se direcionar e se relacionar com o mundo exterior (Barbosa 2000 p. 23).

Para concluir, podemos afirmar que a perspectiva de Nietzsche talvez não seja a única, mas com certeza seja a mais intrigante, pois ela vai engendrar novas perspectivas. A razão nunca esteve a serviço da vida, ela criou ao longo da sua história “amortecedores psicológicos”, uma espécie de mecanismo de defesa que amortece o impacto de que nossa vida terá um fim. Foucault afirma que “talvez o único impulso verdadeiro para o filosofar e para a episteme seja capacidade de saber e refletir que teremos um fim”. Se tomarmos a vida como “um conjunto de funções que resistem a morte” (Foucault 1992 p. 59) a razão deve estar a serviço da vida, explicando e analisando as melhores formas de viver e não o contrário como afirma Nietzsche.

O filósofo alemão não sugere que sejamos irracionais, um retorno a barbárie, ele também não nega as conquistas alcançadas pela razão. Ele propõe que outros aspectos da vida seja explorado, aspectos que há muito foi esquecido pela lógica racionalista. Neste sentido, a perspectiva anti-racionalista nietzschiana propõe uma análise dos afetos para fugir do niilismo, monstro construído a partir da razão e que colocou a vida em crise, a crise da razão. Talvez nesse sentido possamos fugir da profecia de Wittgenstein que afirma que “quando todos os problemas da lógica e da ciência estiverem resolvidos, o problema humano sequer terá sido arranhado”.

BIBLIOGRAFIA.

AUROUX, Sylain. Filosofia da Linguagem. São Paulo: Parabola, 2009

BARBOSA, Marcelo Giglio. Critica ao conceito de Consciência no Pensamento de Nietzsche. São Paulo: Editora Beca, 2000.

GRAYLING, A.C. O significado das coisas. Lisboa: Gradiva, 2004.

FOUCAULT, M. O que é o autor. Lisboa: Veja, 1992.

FREUD, S. Pequeno Esboço da Psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasiliense, 1987.

MARTON, Scarlett. Nietzsche: Das forças cósmicas aos valores humanos. São Paulo: Brasiliense, 1990.

________________. (Org.). Nietzsche Hoje? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.

MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. A doutrina da vontade de poder em Nietzsche. Trad. Oswaldo Giacóia. São Paulo: Annablume, 1997.

NIETZSCHE, F. Wilhelm. Assim Falou Zaratustra. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1983.

____________________. O livro do Filósofo ( org. postumamente). São Paulo, Ed. Moraes, 1987.

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__________________. Obras Incompletas. In: Col. Os Pensadores. Trad. Rubens Rodrigues T. Filho. 3ª edição, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

________________ A Gaia Ciência. Trad. Mário Puliese et al. São Paulo: Ed. Hemus, 1981.

________________ . Ecce Homo - como se chega a ser o que é. Trad. Paulo Cesar Souza. São Paulo: Ed. Limonad, 1985.

________________ . Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra Moral. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1978. (Col. Os Pensadores, vol. I).



POLONIO, Arthur. Como Escrever um ensaio. , 2006.


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