O homem da Areia (E. T. A. Hoffman) Natanael a Lotar



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O Homem da Areia (E.T.A. Hoffman)


Natanael a Lotar

Sem dúvida, estão todos preocupados por não lhes ter escrito durante tanto tempo. Mamãe deve estar zangada, e Clara pode estar pensando que aqui levo uma boa vida, esquecendo por completo sua querida imagem angelical, tão profundamente gravada em meu coração e em minha mente. Mas não e assim; todos os dias e a toda hora penso em vocês todos, e em doces devaneios aparece a minha querida Clarinha sorrindo-me com seus olhos tão graciosos, como de costume, quando estava junto a vocês. Ah, mas como poderia escrever-lhes com o estado de espírito tão dilacerado, que vem me confundindo todos os pensamentos! Algo de terrível aconteceu em minha vida! Sombrios pressentimentos de um cruel e ameaçador destino estendem-se sobre mim quais sombras de nuvens negras, impenetráveis a qualquer benevolente raio de sol. Agora devo dizer-lhe o que me aconteceu. Reconheço que é necessário fazê-lo, mas, só em pensar nisso, escapa-me um

riso de louco. Ah, meu caríssimo Lotar, como farei para que de alguma forma você sinta que o que me sucedeu há alguns dias perturbou minha vida de maneira tão terrível? Se ao menos você estivesse aqui, poderia ver com seus próprios olhos; mas, tenho certeza, certamente vai me considerar um supersticioso visionário. Em suma, o terrível acontecimento em questão, de cuja fatal influência em vão esforço-me por evitar, consiste simplesmente em que, há alguns dias, exatamente no dia 30 de outubro, ao meio-dia, um vendedor de barômetros entrou em meu quarto e me ofereceu seus instrumentos. Não

comprei nada e ameacei jogá-lo escada abaixo, mas ele então saiu voluntariamente.

Você pode imaginar que somente circunstâncias bem particulares e marcantes de minha existência são capazes de explicar o significado desse incidente, e que a pessoa desse funesto caixeiro-viajante possa ter um efeito pernicioso sobre mim. De fato, todo sangue-frio me é necessário para, com calma e paciência, contar-lhe detalhes de minha infância, que permitirão a sua mente vivaz compreender tudo de maneira límpida e transparente.

Agora, quando começo, tenho a impressão de ouvir o seu riso e as palavras de Clara: "Tudo isso não passa de criancice!" Riam, por favor, riam muito de mim! Peço-lhes encarecidamente! Mas Deus do céu! Meus cabelos arrepiam-se, e é como se eu lhes implorasse, loucamente desesperado, para que riam de mim, como Franz Moor fez a Daniel. Vamos aos fatos!

À exceção da hora do almoço, eu e meu irmão pouco víamos nosso pai durante o dia. Ele talvez estivesse muito ocupado com os seus negócios. Depois do jantar, que segundo o velho costume era servido às sete horas, íamos todos, mamãe conosco, ao gabinete de papai e nos sentávamos em torno de uma mesa redonda. Papai fumava seu tabaco e bebia um grande copo de cerveja. Muitas vezes narrava-nos histórias maravilhosas, e aquelas narrativas entusiasmavam-no tanto, que o seu cachimbo sempre se apagava. Cabia a mim, segurando um papel em chamas, acendê-lo novamente, o que consistia no meu principal divertimento. Freqüentemente também, ele nos dava livros ilustrados, sentava-se mudo e inerte em sua poltrona e expelia espessas nuvens de fumaça, de forma que todos nós

ficávamos como que envoltos na névoa. Em noites como essas mamãe ficava muito triste e, mal soavam as nove horas, falava-nos: "E agora, crianças, para a cama, para a cama! O Homem da Areia está chegando, já posso ouvir seus passos." De fato, todas as vezes eu ouvia passadas pesadas e lentas subindo a escada; devia ser o Homem da Areia. Certa vez, aquele andar abafado causou-me uma impressão particularmente aterradora. Perguntei a mamãe, enquanto ela nos levava:

"Mamãe! Quem é mesmo o malvado Homem da Areia que sempre nos separa de papai? Como é ele?" "Não existe nenhum Homem da Areia, meu filho", respondeu minha mãe. "Quando digo que o Homem da Areia está chegando, isso quer dizer apenas que vocês estão com sono e não conseguem manter os olhos abertos, como se alguém tivesse jogado areia neles." A resposta de mamãe não me satisfez; em meu espírito infantil desenvolveu-se claramente a idéia de que mamãe só negava a existência do Homem da Areia para que não ficássemos amedrontados, pois eu ouvia quando ele subia pela escada.

Curioso em saber mais sobre aquele Homem da Areia e sua relação com crianças como nós, finalmente perguntei à velha criada que cuidava de minha irmã sobre que tipo de homem era aquele, o Homem da Areia. "Natanaelzinho", respondeu ela, "você então não sabe? É um homem malvado que aparece para as crianças quando elas não querem ir dormir e joga-lhes punhados de areia nos olhos, de forma que estes saltam do rosto sangrando; depois ele os mergulha num saco e carrega-os para a Lua, para alimentar os seus rebentos. Eles ficam lá, empoleirados em seu ninho e, com o bico recurvado como o das corujas, bicam os olhos das criancinhas travessas ". Aterrorizado, a partir de então considerei o Homem da Areia sob um aspecto noturno. A noite, bastava ouvir o ruído de passos na escada para tremer de medo e horror Mamãe só conseguia arrancar de mim o grito entre

lágrimas: "O Homem da Areia! O Homem da Areia! ", depois eu corria para o quarto, e durante a noite toda atormentava-me a temível imagem do Homem da Areia.

Eu já estava crescido o suficiente para compreender que aquela história contada pela ama-seca sobre o Homem da Areia e o seu ninho com crianças na Lua realmente não podia estar lá muito correta; todavia, o Homem da Areia continuava sendo para mim um terrível fantasma, e o terror me arrebatava quando o ouvia não apenas subir as escadas, como também abrir e entrar violentamente no gabinete de meu pai. As vezes passava muito tempo sem aparecer; depois vinha muitas vezes consecutivas. Isso durou anos, e não pude me acostumar à sinistra assombração — a figura aterrorizante do Homem da Areia não saía da minha cabeça. Suas relações com meu pai passaram a ocupar cada vez mais a minha imaginação, e um medo insuperável impedia-me de interrogá-lo sobre o assunto, mas, com os anos, sedimentou-se e germinou em mim a vontade de investigar o mistério, de ver o fabuloso Homem da Areia. Ele me conduzira para o caminho do maravilhoso, do romanesco, que com muita facilidade instala-se na alma infantil. Nada me agradava mais do que ouvir ou ler aterrorizantes histórias de duendes, bruxas e anões. Mas em primeiro lugar estava sempre o Homem da Areia, que eu desenhava com giz ou carvão, da forma mais estranha e abominável, em mesas, armários e paredes.

Quando fiz dez anos, minha mãe mudou-me do quarto de crianças para um pequeno aposento que dava para um corredor não muito distante do gabinete de papai. Mal batiam as nove horas e ouvíamos o desconhecido entrar, éramos obrigados a nos retirar rapidamente. Em meu quartinho, percebia quando ele entrava no gabinete de papai, e logo em seguida tinha a impressão de que se espalhava pela casa um vapor suave e de raro odor com minha curiosidade, cada vez mais ardia o desejo de, com coragem e determinação, travar conhecimento com o Homem da Areia. Muitas vezes, quando mamãe já havia passado, eu saía rapidamente do quartinho para o corredor, mas nada podia escutar, pois o Homem da Areia sempre havia ultrapassado a porta, quando eu chegava ao local de onde ele poderia ser visto. Levado por um irresistível impulso, decidi esconder-me no gabinete de papai e esperar o Homem da Areia.

Certa noite, pelo silêncio de papai, pela tristeza de mamãe, percebi que o Homem da Areia viria. Dei como pretexto um grande cansaço, deixei a sala antes das nove e me escondi bem junto à porta do gabinete, num cantinho. A porta da casa rangeu, e passos lentos, pesados e ruidosos atravessaram o corredor em direção à escada. Mamãe passou por mim apressadamente, com meus irmãos. Suavemente, bem suavemente, abri a porta do aposento de meu pai. Corno de costume, ele estava sentado com as costas voltadas para a porta; calado e imóvel, não percebeu minha presença, e rapidamente entrei e me escondi atrás da cortina que cobria um armário aberto ao lado da porta, onde estavam penduradas roupas de meu pai. Os passos aproximaram-se mais e mais. Do lado de fora, ouviam-se estranhas tosses, pigarros e um enigmático murmúrio. Meu coração pulsava forte, de medo e ansiedade. Perto, bem perto da porta, um passo mais nítido, um golpe violento no trinco, e a porta se abre com violência! Forçando-me a tomar coragem, ponho cuidadosamente a cabeça para fora. O Homem da Areia está no meio do gabinete e diante de meu pai, o brilho claro das velas ilumina o seu rosto! O Homem da Areia, o terrível Homem da Areia, é o velho advogado Coppelius, que às vezes almoça em nossa casa! Porém, a mais aterrorizante figura não me teria provocado tanto horror quanto aquele Coppelius. Imagine um homem grande, de ombros largos, com uma cabeça disforme e grande, rosto amarelecido, sobrancelhas fartas e grisalhas, sob as quais faiscava um par de olhos de gato, esverdeados e penetrantes, e um nariz gigantesco sobre o lábio superior. A bocarra retorcia-se com freqüência num riso malicioso, tornando visíveis manchas vermelhas nas bochechas. Um chiado estranho atravessava seus dentes cerrados.

Coppelius sempre aparecia num sobretudo cinzento de corte antigo, com o colete e a calça semelhantes, mas de meias pretas e sapatos com pequenas fivelas enfeitadas com pedraria. A pequena peruca mal lhe cobria o cocuruto, dois cachos postiços estavam colados acima das grandes e vermelhas orelhas, e um grande coque afastava-se da nuca, de forma que se via a fivela prateada que fechava o colarinho pregueado. A figura no conjunto era medonha e abjeta; mas para nós, crianças, o que nos chocava mais eram suas grandes mãos, ossudas e peludas, tanto que evitávamos pegar no que tocavam. Ele notara essa repugnância, e então se divertia em bolinar com as mãos, sob esse ou aquele pretexto, um pedaço de bolo ou uma fruta que a boa mamãe deixara furtivamente em nosso prato. Nós, com lágrimas nos olhos, não conseguíamos mais desfrutar; por nojo e aversão, as gulodices antes destinadas ao nosso prazer. A mesma coisa ele fazia em dias de festa, quando papai nos servia um pequeno cálice de vinho doce. Rapidamente, ele passava a mão em sua borda ou levava o cálice aos lábios azulados, rindo diabolicamente quando percebia que nos era permitido manifestar nossa irritação baixinho, aos soluços. Tinha por hábito nos chamar de "pequenas bestas". Não podíamos abrir a boca em sua presença e amaldiçoávamos aquele homem feio e hostil que conseguia estragar propositadamente a menor de nossas alegrias. Mamãe, como nós, parecia odiar o repugnante Coppelius; pois, quando ele aparecia, sua jovialidade, seu jeito de ser alegre e despreocupado transformava-se numa gravidade triste e sombria. Papai comportava-se como se fosse ele um ser superior, com cujos maus costumes devia-se ter paciência e conservar bom humor Bastava uma sutil sugestão sua, e preparavam-se seus pratos prediletos, que eram acompanhados de vinhos raros, abertos em sua homenagem.

Quando vi o tal Coppelius, a verdade se me revelou terrível e ameaçadora: ninguém senão ele poderia ser o Homem da Areia! Mas o Homem da Areia não era mais para mim aquele espantalho das histórias da carochinha, que vai arrancar os olhos das criancinhas para servir de alimento a sua ninhada de corujas na Lua. Não! Era um monstro fantasmagórico que carregava consigo, aonde fosse, aflição, miséria e ruína eternas.

Eu estava enfeitiçado. Frente ao perigo de ser descoberto e, como eu pensava, duramente castigado, continuei ali, ouvindo tudo com a cabeça para fora da cortina. Meu pai recebeu Coppelius cerimoniosamente. "Ao trabalho", exclamou este, com uma voz rouca e rascante, desembaraçando-se do sobretudo. Calma e sombriamente, papai tirou seu roupão, e ambos vestiram longas túnicas negras. Não percebi de onde as haviam tirado.

Meu pai abriu as portas de um armário, e então constatei que aquilo que eu sempre pensara ser um armário era na verdade um nicho profundo, onde estava um pequeno fogão. Coppelius aproximou-se, e uma chama azul ardeu. Havia ali todo tipo de aparelhos estranhos. Ah. Deus! Ao inclinar-se em direção ao fogo, meu pai parecia outro. Uma dor cruel e convulsiva parecia metamorfosear seus traços na mais horrenda e repugnante imagem diabólica. Ele se assemelhava a Coppelius! Este brandia tenazes incandescentes e com elas retirava da fumaça densa massas claras e cintilantes, que depois martelava com violência.

Tive a sensação de que rostos humanos tornaram-se visíveis a sua volta, mas não tinham olhos — ao invés deles, profundas e horrendas cavidades negras. "Que venham os olhos, que venham os olhos!", gritou Coppelius com uma voz surda e ameaçadora. Completamente aterrado, soltei um berro e, saindo de meu esconderijo, caí no chão. "Pequena besta! Pequena bestar, rosnou ele, rangendo os dentes. Subitamente me ergueu e jogou-me sobre o fogão, de maneira que as chamas começaram a chamuscar meu cabelo:

"Agora temos olhos — olhos —, um lindo par de olhos infantis." Foi o que murmurou Coppelius, pegando com as mãos um punhado de brasas incandescentes para atirar em meus olhos, enquanto meu pai implorava, erguendo as mãos e gritando: "Mestre! Mestre! Deixe os olhos de meu Natanael — deixe-os com ele!" Coppelius gargalhou estridentemente: "Que o rapazinho conserve os seus olhos para choramingar sua sina pelo mundo! Mas agora vamos observar atentamente o mecanismo das mãos e dos pés."

Com isso, pegou-me com tanta violência que minhas articulações estalaram, girando minhas mãos e meus pés e recolocando-os ora aqui, ora acolá. "Não ficam bem em lugar nenhum! E melhor deixar como estavam. O velho lá de cima entendia bem do riscado!" Assim Coppelius silvava e ciciava; mas tudo a minha volta tornou-se negro, escuro, uma súbita convulsão percorreu meus nervos e ossos — eu não sentia mais nada. Um sopro suave e morno passou pelo meu rosto e despertei como de um sono de morte. Mamãe estava inclinada sobre mim. "O Homem da Areia ainda está aí?", balbuciei. "Não, filhinho, já foi há muito, muito tempo, e não lhe fará mal!" Assim falou mamãe, beijando e acariciando o filho predileto, já restabelecido. Por que fatigar-lhe tanto, meu caro Lotar, contando-lhe todos esses detalhes, se tanta coisa importante ainda tenho a dizer? Em suma, fui descoberto enquanto espiava e cruelmente maltratado por Coppelius. Medo e susto causaram-me uma febre escaldante, e fiquei doente por várias semanas. "O Homem da Areia ainda está aí?" Estas foram as minhas primeiras palavras concatenadas e o sinal de minha recuperação, de minha salvação. Devo contar-lhe ainda o mais terrível momento de meus anos de infância; então ficará convencido de que não é culpa de meus olhos se agora tudo me parece descolorido, mas que realmente uma fatalidade cobriu minha vida com um denso véu de nuvens, que só com minha morte, talvez, se dissipará.

Coppelius não apareceu mais. Dizia-se que deixara a cidade. Mais ou menos um ano depois, estávamos sentados à noite em torno da mesa redonda, segundo o velho e imutável costume. Papai estava muito alegre e contava histórias divertidas das viagens que fizera na juventude. Foi quando de repente ouvimos, às nove horas, os gonzos da porta soar, e passos lentos e pesados como ferro avançaram em direção à escada. "É Coppelius", disse minha mãe, empalidecendo. "Sim, é Coppelius", repetiu meu pai com voz frágil e hesitante. Lágrimas rolaram dos olhos de minha mãe. "Meu amigo, meu amigo!", exclamou ela, "precisa ser assim?" "Pela última vez!", ele respondeu, "pela última vez ele virá aqui, eu juro. Agora vá, vá com as crianças! Vão para a cama! Boa noite!"

Eu estava como que petrificado, minha respiração vacilava! Vendo-me imóvel, mamãe pegou-me pelo braço. "Venha. Natanael, venha!" Deixei-me levar e entrei no meu quarto. "Acalme-se, acalme-se; vou pô-lo na cama. Durma, durma", pediu minha mãe. Porém, torturado pela angústia e presa de profunda inquietação, não consegui fechar os olhos. O odioso e repugnante Coppelius surgia a minha frente com olhos faiscantes e sorria hipocritamente. Em vão, tentei livrar-me de sua imagem. Já deveria ser meia-noite quando se ouviu um temível barulho, como se uma artilharia houvesse começado a disparar Toda a casa estremeceu, perto da porta de meu quarto passaram ruídos e rumores e então a porta da frente bateu ruidosamente. "É Coppelius!", gritei assustado, e saltei da cama. Então ouvi um lamento dilacerante e inconsolável e precipitei-me para o gabinete de meu pai; a porta estava aberta, um vapor sufocante se fez sentir, enquanto a criada gritava: "Ah, patrão, ah, patrão!" Diante do fogão fumegante, no chão, encontrava-se meu pai, morto, com o rosto terrivelmente desfigurado e queimado, e ao seu redor choravam e gemiam minhas irmãs; mamãe a seu lado, desmaiada! "Coppelius, maldito Satã, você matou meu pai! ", foi assim que gritei, perdendo os sentidos. Dois dias depois, quando foi colocado no caixão, seus traços voltaram a ser suaves e tranqüilos, como em vida. O que foi um consolo, pois imaginara em meu espírito que o seu pacto com o diabólico Coppelius poderia condená-lo à danação eterna. A explosão havia acordado os vizinhos. O acontecimento tornou-se público e chegou às autoridades, que queriam intimar Coppelius como responsável pelo fato. Este, porém, havia desaparecido sem deixar pistas. Se lhe disser, caro amigo, que aquele vendedor de barômetros era justamente o maldito Coppelius, você compreenderá por que interpreto sua hostil aparição como presságio de uma terrível desgraça. Usava outras roupas, mas a figura de Coppelius e os traços do rosto estão de tal modo impregnados em minha memória que não pude deixar de reconhecê-lo. Além disso, ele nem ao menos trocou de nome. Faz-se passar agora, como ouvi dizer, por um mecânico piemontês e se denomina Giuseppe Coppola. Estou decidido a enfrentá-lo e vingar a morte de meu pai, aconteça o que acontecer. Não conte nada a mamãe sobre a aparição desse monstro cruel. Dê lembranças a minha encantadora Clara; escreverei a ela com mais calma.

Saudações etc. etc.

Clara a Natanael

É verdade que você não me escreve há muito tempo, mas mesmo assim acredito que me carrega no coração e no espírito. Pois com certeza você estava pensando em mim quando, pretendendo destinar sua última carta a meu irmão Lotai; endereçou-a a mim. Com muita alegria abri o envelope e só então percebi o equívoco às primeiras palavras: "Ah, meu caríssimo Lotar!"

— Não deveria ter continuado a ler; entregando a carta a meu irmão. Às vezes você brincava comigo, acusando-me de possuir um temperamento tão calmo e ponderadamente feminino que, se a casa desabasse, eu agiria como aquela mulher que, antes da fuga rápida, ainda arrumou as cortinas da janela. Entretanto, posso assegurar-lhe que o início de sua carta me abalou profundamente. Mal pude respirar, meus olhos turvaram-se. Ah, meu querido Natanael, o que de mais cruel poderia ter acontecido em sua vida? Separar-me

de você, nunca mais voltar a vê-lo, a idéia atravessou minha cabeça como um golpe de punhal em brasa. Li, reli! Sua descrição do repugnante Coppelius e aterradora. Só agora soube como o seu bom e velho pai teve uma morte tão terrível e violenta. Meu irmão Lotar; a quem entreguei o que lhe era de direito, procurou acalmar-me, mas quase nada conseguiu. O fatal vendedor de barômetros Giuseppe Coppola me perseguia sem cessar, e — tenho até vergonha em confessar — conseguiu perturbar até meu sono, normalmente profundo, com toda espécie de sonhos estranhos. Mas, logo no dia seguinte, vi as coisas sob um aspecto mais natural. Não me leve a mal, portanto, meu querido, se Lotar lhe disser que eu, apesar de seu estranho pressentimento de que Coppelius irá prejudicá-lo, estou tão serena e despreocupada como sempre. Com toda a franqueza, quero confessar-lhe que, a meu ver, tudo de terrível e assustador de que você fala aconteceu apenas na sua imaginação e que o mundo exterior, real, teve pouca participação nisso tudo. O velho Coppelius era sem dúvida pouco atraente, mas o fato de odiar crianças é que despertou em vocês essa profunda aversão por sua pessoa. Naturalmente, em sua alma infantil, o terrível Homem da Areia dos contos da carochinha associou-se ao velho Coppelius, que permaneceu para você, acredite ou não no Homem da Areia, um monstro fantasmagórico, perigoso principalmente para crianças. As práticas sinistras com o seu pai, à noite, não eram nada senão experiências alquímicas secretas, com as quais sua mãe se afligia, já que certamente muito dinheiro era desperdiçado; além disso, como parece acontecer com quem pratica tais experiências de laboratório, o espírito de seu pai desviava-se da família, já que se concentrava por inteiro na busca ilusória de um saber supremo. Seu pai, com certeza por um descuido qualquer; causou a própria morte, e Coppelius não poderia ser acusado. Você acreditará em mim se eu disser que ontem perguntei a um farmacêutico experiente, meu vizinho, se era possível tal explosão, repentina e fatal? Ele disse: "Sim, claro", e descreveu-me, a sua maneira, detalhada e morosa, como isso poderia ocorrer, citando nomes que de tão estranhos não fui capaz de guardar. Agora você certamente está irritado com sua Clara e dirá: "Nesse espírito frio não penetra sequer um raio do Misterioso, que muitas vezes envolve os homens com braços invisíveis; ela contempla apenas a superfície colorida do mundo e alegra-se como uma ingênua criancinha com a fruta de brilho dourado, em cujo interior esconde-se o veneno mortal." Ah, meu bem-amado Natanael, pois você não acredita que também os

espíritos tranquilos, despreocupados e serenos podem abrigar o pressentimento de uma força obscura, que almeja apoderar-se de nossa consciência? Mas perdoe-me se eu, simplória moça que sou, atrevo-me a insinuar, de alguma maneira, o que na verdade penso sobre essa espécie de combate interior Afinal, quase não encontro as palavras certas e talvez você zombe de mim; não porque pense algo de muito tolo, mas porque o expresso de maneira tão desajeitada. Se existe uma força obscura que, hostil e traiçoeira, tece em torno de nós um fio com o qual nos agarra e arrasta através de um caminho pérfido e destruidor por onde normalmente não passamos, se existe tal força, ela então deve assimilar-se a nós mesmos, tornando-se, por assim dizer; parte de nossa essência; pois só assim acreditaríamos nela e lhe daríamos lugar em nosso coração para realizar sua obra secreta. Se tivermos a mente suficientemente fortalecida por uma vida serena para reconhecermos sempre, enquanto tais, as influências estranhas e hostis e seguirmos com passos tranquilos o caminho ao qual nossa inclinação ou vocação nos apontou, então essa força sinistra sucumbirá em seus vãos esforços para nos iludir. É também certo, acrescenta Lotar, que, se nos entregarmos a essas forças obscuras, nós mesmos produziremos o principio devorador que nos consome. Assim, seríamos nós mesmos que atiçamos o espírito que parece falar através dessas formas, exatamente como nossa loucura as faz imaginar: É o fantasma de nosso próprio ser; cuja estreita ligação e profunda influência sobre o nosso espírito mergulham-nos no inferno ou arrebatam-nos ao céu. Você pode observar; meu querido Natanael, que nós, eu e meu irmão Lotar; conversamos longamente a respeito de forças e poderes obscuros, assumo que agora, depois de ter escrito o essencial, e não sem dificuldades, parece-me bastante profundo. Não entendo muito bem as últimas palavras de Lotar, mas presumo o que ele pretendia dizer e sinto que está certo. Peço-lhe que esqueça o horroroso advogado Coppelius e o vendedor de barômetros Giuseppe Coppola. Convença-se de que essas figuras estranhas não têm poder sobre você; apenas a crença na força hostil delas ?ode de fato fazê-la hostil a você. Se cada linha de sua carta não expressasse a mais

profunda agitação do espírito, se o seu estado não me afligisse no fundo d'alma, eu poderia, afinal, zombar do seu Homem da Areia e do vendedor de barômetros. Tranqüilize-se, por favor! Decidi que serei para você uma espécie de espírito protetor e espantarei com uma gargalhada o hediondo Coppelius, se ele se atrever a introduzir-se em seus sonhos. Não tenho medo algum dele e de suas mãos feias; advogado ou Homem da Areia, ele não irá estragar minhas iguarias, tampouco lançar areia em meus olhos. Eternamente, meu bem-amado Natanael etc. etc. etc.

Natanael a Lotar

Foi muito desagradável para mim que, em função de minha própria negligência e distração. Clara recentemente tenha aberto e lido minha carta dirigida a você. Ela me escreveu uma carta bastante grave e filosófica, na qual demonstra pormenorizadamente que Coppelius e Coppola só existem em minha mente e são fantasmas de meu eu que se pulverizarão no momento em que reconhecê-los como tais. Aliás, é difícil acreditar que esse espírito, que muitas vezes brilha como um sonho bom naqueles olhos claros de criança, encantadores e sorridentes, possa fazer distinções teóricas dignas de mestre. Ela se refere a você. Vocês falaram sobre mim. Talvez você lhe tenha ministrado aulas de lógica, para que ela aprendesse a ordenar e distinguir tudo muito bem. Renuncie a isso! De resto, é praticamente certo que o vendedor de barômetros Coppola não seja o velho advogado Coppelius.

Tenho aulas com um professor de física, recém-chegado à cidade, que tem o mesmo nome do célebre naturalista Spalanzani, e é também de origem italiana. Ele conhece o Coppola há muitos anos e, além disso, vê-se por sua pronúncia que se trata realmente de um piemontês. Coppelius era alemão, mas não me parece que fosse legítimo. Não estou inteiramente tranqüilizado. Você e Clara podem me considerar um sombrio visionário, mas não consigo me livrar da impressão que o maldito rosto de Coppelius produziu em mim. Fico feliz que ele tenha deixado a cidade, como me informou Spalanzani. Esse professor é um tipo esquisito. Um homenzinho arredondado, o rosto de salientes bochechas, nariz afilado, lábios carnudos, olhos pequenos e penetrantes. Melhor que qualquer descrição, porém, é vê-lo num retrato de Cagliostro feito por Chodowiecki, num almanaque berlinense qualquer Spalanzani parece-se com ele. Recentemente, subindo as escadas, percebi que uma cortina, que normalmente permanece bem fechada sobre uma porta de vidro, estava um pouco aberta. Eu mesmo não sei o que me levou à curiosidade de espiar através dela. Uma mulher alta e muito magra, esplendidamente vestida, estava sentada no quarto diante de uma mesinha, sobre a qual pousara os braços, com as mãos cruzadas. Estava sentada diante da porta, de forma que pude ver com clareza o seu belo rosto angelical. Ela pareceu não me notar, e seu olhar tinha algo de fixo, diria até que não via nada, como se ela dormisse de olhos abertos. Aquilo me pareceu muito desagradável, e precipitei-me silenciosamente em direção ao anfiteatro que fica ao lado. Mais tarde soube que a figura que eu vira era a filha de Spalanzani. Olímpia, que ele mantém reclusa, por motivos singulares e suspeitos, de maneira que a ninguém é permitido aproximar-se dela. Talvez realmente haja algo de estranho com ela, talvez seja demente ou coisa parecida. Por que lhe escrevo tudo isto? Teria sido melhor narrar-lhe tudo pessoalmente e com detalhes. Saiba que em duas semanas estarei com vocês. Preciso rever meu doce anjo, minha querida Clara. Então se dissipará essa sensação que, devo confessar, quis apoderar-se de mim depois daquela judiciosa carta que me escreveu. É por isso que hoje não lhe escreverei.




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