O gesto e o seu duplo



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Encontro18.08.2018
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O gesto e o seu duplo

O que é um gesto? A resposta mais imediata, aquela que assoma ao espírito num primeiro impulso, pertence à ordem da visualidade: haveria um corpo estático, abstracto de tão imóvel, e um movimento dos braços que quebra esse modelo, introduzindo-nos numa ordem diferente de relações entre o torso, as mãos, os pés, a cabeça e o fundo sobre o qual esta ordem se modificou. Este é o gesto mais gratuito, aquele que apenas se encontra nas artes do corpo. Um gesto, em suma, desligado de outra finalidade que não esteja no domínio puro do visível, da excepção e da sua consequência, a beleza.

A excepção, dizíamos nós. Como excepção, esse gesto não está sujeito à repetição quotidiana, condição da aprendizagem. André Leroi-Gourhan, um dos primeiros antropólogos que se debruçou sobre a especificidade do gesto humano, ensinou-nos que esse gesto estava condicionado pelo esqueleto e pela curiosidade que, desde que o homem é homem, caracteriza a nossa espécie. Sem a estatura erecta nem a possibilidade de olhar em frente (em vez da necessidade de pesquisar continuamente o solo à procura de alimento ou sinais de predadores) o homem não teria desenvolvido esse conjunto de gestos repetidos de geração em geração que lhe permitiram afeiçoar uma lâmina em sílex ou moldar a terra em recipientes para armazenar grão. Ou, acrescentaremos nós, alguns milénios mais tarde, desenhar de um traço só bisontes, cavalos, mamutes, signos gráficos femininos ou masculinos. O gesto está lá, subjacente, já não puramente gratuito mas ligado à finalidade que o faz nascer: útil.

Ana Sério, na sua pintura e mais ainda nestas suas obras sobre papel, efectua uma espécie de arqueologia do gesto. Atente-se, em primeiro lugar, ao suporte: o papel apresenta sempre bordas irregulares, como se a artista sentisse que a urgência da própria pintura a impedia de dissimular os restos do seu próprio processo de trabalho. Não há aqui embelezamento ou tentativa de apagar o tempo que passou ou a sequência de formas escolhidas e tintas utilizadas. As cores são quase unicamente as primárias –o azul, o vermelho e o amarelo -, combinadas com o negro e o branco, e as poucas complementares que encontramos parecem resultar de uma mistura feita apressadamente sobre o próprio papel. Tudo, nestes trabalhos, exuma rapidez, urgência, e o gesto subjacente que produziu o resultado final.

Esse gesto é um gesto original, no sentido que procura regressar á própria génese da pintura, para além da história que ela gerou e que conhecemos bem a partir de todos os testemunhos que se exibem em todos os museus do mundo ocidental. E essa história diz: a horizontal que divide o céu da terra, a vertical que marca a figura que dá sentido ao espaço, o duplo (de forma, de cor) que está na origem da própria tentativa de representação. Regressemos a Leroi-Gourhan: os antílopes pintados nas paredes e abóbodas de Lascaux não são representações de animais, mas sim materializações de ideias e conceitos que se servem da possibilidade da representação para existirem. O real, em Lascaux, nunca é duplo do visível. Mas teremos sempre a certeza de que o homem que o pintou partiu da observação da fauna que o rodeava para materializar a ideia que tinha em mente.

Duplicar: um número significativo de obras sobre papel de Ana Sério evoca este processo, através de uma linha que divide a cor em dois planos distintos. Do mesmo modo, um rectângulo desenhado a negro é a matriz da caixa representada que, no fundo, o espaço perspectivado da pintura ocidental sempre foi. Ou, dito de outra forma, do palco do teatro do mundo onde tudo se passa: a origem e a história. Numa outra série se trabalhos, esta caixa chega a concretizar-se tridimensionalmente, e o processo de duplicar o visível é realizado por um espelho que nos integra a nós, espectadores, na própria obra.

Assim, a partir do gesto, deixado visível em toda a sua obra, Ana Sério refaz incessantemente a história da pintura: a pintura tal como a conhecemos hoje, e o processo que a deixou chegar aqui. É de tempo, de um tempo que começou milénios atrás, que se trata aqui. Condensado aqui num gesto que possui a gratuidade de um dom, e a utilidade da beleza.

Sines, Agosto de 2012



Luísa Soares de Oliveira


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