O escrito Póstumo de Yannis Filidis



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Encontro28.10.2017
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O Escrito Póstumo de Yannis Filidis
Agora que me encontro em meio aos defuntos, embaixo de sete palmos de terra, dentro de um paletó de madeira e com todos os mistérios da morte revelados, que mais tenho a fazer senão escrever sobre o período em que meu coração batia, antes que tudo caia no esquecimento? Afinal, minha vida foi como qualquer outra, finita, e nesta eternidade que durará mais do que qualquer relógio possa contar, terei literalmente todo o tempo do mundo para esquecer-me de quando estava do lado de lá da tumba.

Falando em mistérios da morte, matarei a você, leitor, de curiosidade, ou talvez desgosto, pois não falarei palavra alguma em relação ao que acontece aqui. Sempre tive gosto em deixar as pessoas curiosas. Talvez porque eu mesmo tivesse agonia em não saber a solução de qualquer questão.

Colocando estas palavras sobre tudo, daqui, lembro-me das aulas de literatura, quando lemos Memórias Póstumas de Brás Cubas. Um defunto autor, assim como o protagonista, quem diria que este seria meu fim?

No obituário consta que a minha morte foi por ataque cardíaco, o que é bem provável, considerando que eu tinha constantes problemas de pressão e já tive doença sanguínea. Um episódio, aliás, que me foi marcante. Foi a primeira vez que eu me dei de cara com a Morte. A segunda me trouxe até esta cova.

Enfim, morri.

Acho que minha vida foi boa, mesmo que eu ainda quisesse fazer muito nela. (por que meu prazo de validade tinha de ser 17 anos?) Pretendia entrar em alguma faculdade, morar pelo menos um ano fora, na Europa, voltar e terminar o curso, viver feliz com mulher e três filhos. Já tinha até o nome das meninas: a primeira seria Ekaterini, em homenagem a uma grande amiga, e a outra, Carla, também nome de outra grande amiga. Quanto a meu filho, não sei que nome teria, só sei que herdaria minha coleção de CDs. Alguém teria que herdar minha coleção de CDs. Aliás, agora que sou defunto, com quem ela ficou?

Em se falando de herança, fui feliz pelo sangue que herdei: meio japonês, meio grego, com uma pequenina parte Ibérica. Pena que não passei adiante. A dualidade Greco nipônica até que caiu bem, apesar do contraste fortíssimo. Como dizia minha mãe, sempre que eu voltava da casa do meu pai, voltava grego demais, enquanto era japonês demais dentro da família helênica.

Minha mãe, como definida por alguns colegas de estudo, é a samurai. Obviamente não cortava cabeças, mas mantinha valores e virtudes tradicionais japoneses que me transmitiu junto com seu amor. Eu posso não os ter absorvido totalmente, mas isso me foi benéfico, ao passo que em alguns pontos o lado grego me salvara.

Meu pai é o oposto, bem helênico, principalmente em seu modo de ver o mundo.

Os dois se separaram quando eu tinha em torno de dois anos. Por um período de minha infância eu quis que eles voltassem a ficar juntos. Ao crescer um pouco, passei a não ter a mínima ideia de como um dia já foram unidos. Só por Deus mesmo.

Assim, de meu pai e minha mãe cheguei à Terra em 6 de Junho de 1995. Cresci no lado materno, visitando a casa de meu pai aos domingos. Minha infância, tudo o que lembro é que fui feliz. Não que minha adolescência não tenha sido boa, foi sim, mas o peso do amadurecimento começou a cair em meus ombros e em algumas pequenas questões não me foi agradável. Tudo bem que expirei aos 17, mas como estou do lado de cá, posso dizer que passei por esta fase da vida.

Nos últimos dias de minha existência, procurei por um sentido maior dentro da vida. Ao final achei, ou pelo menos pensei que encontrei.

Dizem que para deixar sua marca na Terra é preciso plantar uma árvore, escrever um livro e ter filhos. Como nunca gostei de plantas, não plantei árvore. Como não tive filhos, não deixei descendentes. Este escrito é tudo o que restou. Poderia ser colocado em minha lápide, para ser lido ao lado do meu local de descanso. Ou talvez em um encarte de um CD, adorei meus CDs.

Mas o melhor é que fosse publicado, para que pelo menos as pessoas que me conheceram pudessem ler. Assim como Brás Cubas, o título deveria se referir ao que permaneceu comigo em meu pós-morte.



“O Escrito Póstumo de Yannis Filidis”, está escolhido.


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