O dos Castelos



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Os Campos


O dos Castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.


O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa, in Mensagem




O dos Castelossistematização
A Europa é perspetivada pelo poeta como figura feminina cujo rosto é, indubitavelmente, Portugal – “O rosto com que fita é Portugal.

Porém, esta figura feminina “jaz”, melhor dizendo, está deitada sobre os cotovelos, numa atitude de hipotético adormecimento, ou de espera, vivendo das memórias de um passado, cujas raízes culturais estão associadas à Grécia, Itália e Inglaterra.

Desta atitude passiva, expectante, apenas o rosto parece estar animado de vida, porque fita, olha fixamente o Ocidente – o mar, onde a Europa se lançou através de Portugal, na grandiosidade das descobertas com a qual traçou o seu próprio futuro. Neste sentido, só Portugal parece estar pronto a despertar e o seu olhar é, simultaneamente, “esfíngico e fatal”, ou seja, enigmático e marcado pelo destino.

Assim, o poeta refere-se, sem dúvida, ao papel de Portugal como líder inegável de uma nova Europa, cujo futuro recuperará a glória do passado. A missão de Portugal está, desde logo, assinalada pela sua localização geográfica estratégica: conquistar o que está para ocidente, o mar, criando um novo império que dará continuidade à supremacia do restante império europeu.

O título do poema é uma alusão ao território português, protegido por os sete castelos que, uma vez conquistados aos mouros, definiriam a geografia de Portugal.

20 Eis aqui, quase cume da cabeça

De Europa toda, o Reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa,

E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floresça

Nas armas contra o torpe Mauritano,

Deitando-o de si fora, e lá na ardente

África estar quieto o não consente.
21 Esta é a ditosa pátria minha amada,

A qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.

Esta foi Lusitânia, derivada

De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros,

E nela então os Íncolas primeiro

Luís de Camões, os Lusíadas, Canto III


O dos Castelosintertextualidade
Tal como neste poema de Mensagem, a estrofe 20 do canto III d’ Os Lusíadas referencia Portugal como a cabeça da Europa – “quási cume da cabeça de Europa toda” – atribuindo-lhe uma missão predestinada. N’ Os Lusíadas, essa predestinação é ditada pelo “Céu” que quis que Portugal vencesse na luta contra os mouros.

Quer num texto, quer noutro, é percetível um forte sentimento patriótico, uma vez que o papel de Portugal face à Europa é enfatizado.

No texto camoniano, tal sentimento expressa-se tanto pela forma como o poeta vê Portugal como líder da Europa (“cabeça”), como na expressão do amor do narrador, Vasco da Gama, pela “ditosa pátria”, onde espera vir a morrer depois de cumprida a sua missão.

Já Pessoa valoriza o papel de Portugal junto da civilização ocidental, ao colocá-lo como resto que fita “O ocidente, futuro do passado”. É um sentimento muito patriótico aquele que leva Pessoa a antever a construção de um império muito para alem do material e é também esse sentimento o que o leva a apontar Portugal como cabeça e Itália e Inglaterra como cotovelos.




Os Campos
O das Quinas

Os Deuses vendem quando dão.

Compra-se a glória com desgraça.

Ai dos felizes, porque são

Só o que passa!

 

Baste a quem basta o que lhe basta



O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta:

Ter é tardar.

 

Foi com desgraça e com vileza



Que Deus ao Cristo definiu:

Assim o opôs à Natureza

E Filho o ungiu.
Fernando Pessoa, in Mensagem

O das Quinassistematização
O poeta faz uma série de afirmações paradoxais – “Os deuses vendem quando dão” -, ou baseadas em jogos de palavras – “Baste a quem basta o que lhe basta” – com um único objetivo: mostrar que para se atingir a grandeza, para se conquistar a glória é indispensável estar disposto a sofrer – “Compra-se a glória com a desgraça”.

Qual será, pois, o destino do Homem, mais particularmente o do Homem português? O mesmo de Cristo: tal como Ele, os portugueses só ascenderão a um plano superior, transcendendo-se, superando as limitações da própria vida, por natureza efémera – “A vida é breve, a alma é vasta”.

Estão, então, traçadas as potencialidades da alma portuguesa, uma alma que se afirma “vasta”, grande – será esta grandeza de alma que presidirá todos os heróis de Mensagem.

Se se descodificar o titulo do poema, “as quinas” correspondem às cinco chagas de Cristo, símbolo do sofrimento e morte redentores da humanidade. Por conseguinte, as quinas são, desde logo, a expressão de que só o sacrifício conduz à redenção e à glória, projetando a missão de Portugal para um plano de espiritualidade.



Os Castelos
Ulisses

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar nas realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

Fernando Pessoa, in Mensagem

Ulissessistematização
Pessoa remonta à figura mítica de Ulisses para explicar a fundação de Portugal.

Associadas à sua fundação, não está apenas o real, o factual histórico, mas igualmente o mítico, dificilmente explicável – “O mito é o nada que é tudo”. Ulisses, “sem existir”, porque é mito, “nos bastou”, e “por não ter vindo”, porque não é real “nos criou, ou seja, foi essencial para sermos hoje o povo que somos.

Ulisses é figura lendária do navegador errante, cujo espírito aventureiro o levou a enfrentar o mar durante dez longos anos, vivendo e ultrapassando os seus inúmeros e difíceis obstáculos, até, finalmente, aportar na sua ilha natal, Ítaca. Ulisses antecipa, assim, o destino de um Portugal voltado para a aventura marítima, celebrada na nossa história.

Embora não existindo, Ulisses aparece associado ao nascimento de Portugal, mais propriamente à cidade de Lisboa, o que evidencia, desde logo, a missão espiritual de Mensagem. Ele representa o mito que, juntamente com a história, dará vida a Portugal. Ele é o mito que fecunda a realidade, dando sentido à vida – “A lenda se escorre a entrar na realidade/E a fecundá-la decorre”.

O paradoxo inicial (tese) – “O mito é o nada que é tudo” é a seguir demonstrado:


  • O mito – a lenda – é o nada (não existe), mas, ao mesmo tempo, é tudo porque explica o real, fecundando-o: “Assim a lenda se escorre/A entrar na realidade,/E a fecundá-la decorre.”;

  • A importância da referencia a Ulisses:

  • Ulisses é um herói mítico – “Este, que aqui aportou,/Foi por não ser existindo.”;

  • A sua existência lendária não invalida a sua força criadora da identidade nacional – “Sem existir nos bastou./Por não ter vindo foi vindo/E nos criou.”;

  • A sua ligação ao mar explica o destino marítimo dos portugueses;

  • A terceira estrofe, iniciada pelo advérbio adjunto de modo “Assim”, sintetiza a tese inicial: com efeito, na terra – “Em baixo” – a vida real e objetiva – “metade/De nada” – apaga-se para que o mito se engrandeça e eternize.

  • Conclusão: Ulisses não é nada, porque é mito, explica o destino marítimo dos portugueses, que é tudo. É irrelevante que os heróis fundadores tenham ou não tido existência real, o que importa é que todos tenham funcionado com a força do mito que, não existindo, é tudo.


Ulissesintertextualidade
Canto VIII:

  • Armada estacionada em Calecut

  • Narrador: Paulo da Gama

  • Narratário: Catual de Calecut

4 (…)


Vês outro, que do Tejo a terra pisa,

Depois de ter tão longo mar arado,

Onde muros perpétuos edifica,

E templo a Palas, que em memória fica?


5 Ulisses é o que faz a santa casa

A Deusa, que lhe dá língua facunda;

Que, se lá na Ásia Troia insigne abrasa,

Cá na Europa Lisboa ingente funda.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VIII

Tal como em Mensagem, Os Lusíadas recuperam a lenda fundadora de Ulisses, atribuindo-lhe a fundação de Lisboa.

Os Castelos
D. Afonso Henriques

Pai, foste cavaleiro.

Hoje a vigília é nossa.

Dá-nos o exemplo inteiro

E a tua inteira força!

 

Dá, contra a hora em que, errada,



Novos infiéis vençam,

A bênção como espada,

A espada como bênção!
Fernando Pessoa, in Mensagem

D. Afonso Henriquessistematização
D. Afonso Henriques é apelidado pelo poeta de “Pai”. Ele é, simultaneamente, “Pai” e “cavaleiro” – Pai, porque fundador da nacionalidade e, por isso, pai dos portugueses; cavaleiro, porque, com a “espada”, defendeu e conquistou o território português, mas também se assumiu como defensor da fé. Então, o poeta pede-lhe que, nos dias de hoje, ele sirva de exemplo aos portugueses e que a sua força inspire a uma ação que vença os “novos infiéis”, ou seja, todos aqueles que se opõem à missão espiritual e providencial de Portugal que, para o poeta, é uma certeza inabalável.

Espada:


  • Confere luminosidade (tudo à sua volta se torna claro);

  • Defesa dos valores (morais, religiosos, nacionais);

  • Símbolo de cavalaria  união mística entre o cavaleiro e a espada;

  • Valor profético;

  • Símbolo:

  • Da Guerra Santa  da guerra interior;

  • Do verbo, da palavra;

  • Da conquista do conhecimento;

  • Da libertação dos desejos;

  • Da espiritualidade;

  • Da vontade divina;


D. Afonso Henriquesintertextualidade

43 Em nenhuma outra cousa confiado,

Senão no sumo Deus, que o Céu regia,

Que tão pouco era o povo batizado,

Que para um só cem Mouros haveria.

Julga qualquer juízo sossegado

Por mais temeridade que ousadia,

Cometer um tamanho ajuntamento,

Que para um cavaleiro houvesse cento.
44 Cinco Reis Mouros são os inimigos,

Dos quais o principal Ismar se chama;

Todos exprimentados nos perigos

Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.

Seguem guerreiras damas seus amigos,

Imitando a formosa e forte Dama,

De quem tanto os Troianos se ajudaram,

E as que o Termodonte já gostaram.


45 A matutina luz serena e fria,

As estrelas do Pólo já apartava,

Quando na Cruz o Filho de Maria,

Amostrando-se a Afonso, o animava.

Ele, adorando quem lhe aparecia,

Na Fé todo inflamado assim gritava:

— "Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,

E não a mim, que creio o que podeis!"

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III

N’Os Lusíadas, como não podia deixar de ser, é dado um destaque enorme a D. Afonso Henriques, figura que preenche as estrofes 28 a 84 do canto III. Ele é o fundador da nação, o escolhido por deus que legitima o seu poder ao aparecer-lhe na batalha de Ourique. De resto, a lenda de Ourique, muito alimentada desde o século XVI, serviu para conferir uma dimensão sagrada ao nascimento de Portugal. Na Mensagem, curiosamente, o poema dedicado a D. Afonso Henriques não refere a lenda, mas ela está lá, implícita, através da espada/bênção.



Os Castelos
D. Dinis
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo

O plantador de naus a haver

E ouve um silêncio múrmuro consigo:

É o rumor dos pinhais que, como um trigo

De Império, ondulam sem se poder ver
Arroio, esse cantar, jovem e puro,

Busca o Oceano por achar;

E a fala dos pinhais, marulho obscuro,

É o som presente desse mar futuro,

É a voz da terra ansiando pelo mar.
Fernando Pessoa, in Mensagem

D. Dinis sistematização

Pessoa evoca a figura histórica de D. Dinis, monarca português da 1ª dinastia, filho de Afonso III. A sua prioridade enquanto rei foi administrar e organizar o Reino português e não guerrear, tendo assinado a paz com Castela em 1297. Foram-lhes atribuídos os cognomes “O Lavrador” e “O Trovador”, tanto pelo impulso que deu ao desenvolvimento da agricultura, como pelo apreço manifestado pelo culto da arte de fazer poesia e pela elevação do português como língua oficial.

Os dois primeiros versos do poema remetem, de imediato, para essa dupla faceta – D. Dinis “escreve um seu Cantar de Amigo” e é “plantador de naus a haver”, sendo estas construídas com o produto dos pinhais por ele mandados semear. D. Dinis representa, pois, aquele para quem a poesia terá, entre outros, como objetivo cantar o império português e aquele que lançará a semente de futuros impérios.

Nos restantes versos, destaca-se toa uma serie de vocábulos que exprimem sons, vozes, rumores, como se de uma profecia se tratasse (“marulho obscuro”; “fala dos pinhais”; “o rumor dos pinhais”). Todos eles profetizam a grande epopeia marítima portuguesa dos séculos XV e XVI.

D. Dinis é, então, o profeta que sabe intuir, de forma sibilina (enigmática), o grande império das descobertas. Assim, o que se preconiza é o sonho fundador que permita a construção de um tempo futuro.

D. Dinisintertextualidade

96 Eis depois vem Dinis, que bem parece

Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,

Com quem a fama grande se escurece

Da liberalidade Alexandrina.

Com este o Reino próspero florece

(Alcançada já a paz áurea divina)

Em constituições, leis e costumes,

Na terra já tranquila claros lumes.
97 Fez primeiro em Coimbra exercitar-se

O valeroso ofício de Minerva;

E de Helicona as Musas fez passar-se

A pisar do Monde-o a fértil erva.

Quanto pode de Atenas desejar-se,

Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.

Aqui as capelas dá tecidas de ouro,

Do bácaro e do sempre verde louro.


98 Nobres vilas de novo edificou

Fortalezas, castelos mui seguros,

E quase o Reino todo reformou

Com edifícios grandes, e altos muros.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III

D. Dinis não poderia deixar de figurar na Mensagem, obra que se ocupa sobretudo dos mitos e à qual da História, interessa precisamente a matéria mítica. Nesse sentido, D. Dinis figura como um mito da iniciação, o antecipador da grande empresa de descoberta do mar desconhecido, aquele que soube escutar a voz do mar. Já n’Os Lusíadas, epopeia que se ocupa da matéria histórica elaborada como caminho para a construção do império, da glória e do heroísmo, D. Dinis merece pouco mais de duas breves estrofes, pois ele não é um rei guerreiro e os seus feitos não são feitos de armas.



As Quinas

D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

 

Minha loucura, outros que me a tomem



Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?


Fernando Pessoa, in Mensagem


D. Sebastião, Rei de Portugalsistematização

Este é o primeiro dos quatro poemas dedicados a D. Sebastião. Caracterizando-se como um “louco” porque “quis grandeza”, D. Sebastião admite com orgulho essa loucura, símbolo do inspirado, de todo aquele que está para além do comum da sociedade e transmite a ideia de que nem a morte a extinguiu ou poderá extinguir. O “ser que houve” morreu nos areais de Alcácer Quibir; o “ser que há”, esse não é perecível, porque o sonho também não o é.

Indo mais além neste discurso de “elogio da loucura”, D. Sebastião incita aqueles que o ouvem a herdarem a sua loucura. Trata-se de uma espécie de apelo à continuidade do seu sonho de grandeza.

Num remate de natureza tanto reflexiva como desafiadores, o poeta interroga-se sobre o que distingue o Homem dos restantes animais – é o sonho que permite que o Homem seja “mais que (...) cadáver adiado”. É o sonho que eleva o Homem e o faz ultrapassar a própria morte. D. Sebastião surge, então, como uma espécie de messias que traz a boa nova da salvação.

Num discurso na 1ª pessoa, D. Sebastião assume-se orgulhosamente como louco:


  • A recorrência da ideia de loucura – “Louco, sim, louco”; “Minha loucura”; “Sem a loucura”;

  • A loucura do rei, de sinal positivo, projeta-se no desejo de ultrapassar os limites do homem, na ousadia de transmitir o seu sonho aos outros – “Minha loucura, outros que me a tomem/Com o que nela ia”.

  • O jogo dos tempos verbais – “ser que houve não o que há” – exprime a dicotomia entre o ser mortal, o D. Sebastião histórico (que ficou no areal de Alcácer Quibir), e o ser imortal, o D. Sebastião mítico – o sonho, o desejo de grandeza;

  • Esta espécie de loucura, fecundante (que dá frutos), distingue o homem da “besta sadia,/Cadáver adiado que procria?”;

  • D. Sebastião é ais um agente da busca de realização do sonho objetivo da Mensagem pessoana;

  • D. Sebastião como figura messiânica.


D. Sebastião, Rei de Portugalintertextualidade

É a D. Sebastião que Camões dedica Os Lusíadas e é a este rei que o poeta dirige o apelo, no sentido de continuar a tradição dos antigos heróis portugueses, para fazer ressurgir a Pátria da “apagada e vil tristeza” do presente – Dedicatória. Na Mensagem, D. Sebastião (o Sebastianismo) é o mito organizador e articulador da obra, no sentido de que ele representa, precisamente, o sonho que ressurgirá do nevoeiro em que o Portugal do presente está mergulhado, impulsionando a construção do futuro, a utopia (que é a força criadora de novos mundos, quer a nível individual, quer a nível coletivo).



O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal,

Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fernando Pessoa, in Mensagem

Infante D. Henrique – grande impulsionador dos descobrimentos. Tendo defendido uma politica expansionista voltada para a descoberta, foi o responsável pela escola de Sagres e levou a cabo a realização de uma série de descobertas que englobam os arquipélagos dos Açores e da Madeira e a costa ocidental africana até próximo do equador.

O Infantesistematização

No poema que abre a segunda parte de Mensagem, Pessoa recupera a figura do infante D. Henrique, um herói, um dos eleitos por Deus que foi protagonista da vontade divina – “Deus quer” – e que cumpriu a missão para a qual foi designado – “a obra nasce”. é então reforçada, neste poema, a ideia do herói mítico, aquele que Deus manipula quase como um títere, o que obedece às suas ordens e cumpre os seus desígnios.

Essa obra foi grandiosa: a descoberta da Terra na sua totalidade e verdadeira forma, através da posse do mar – “E viu-se a Terra inteira, de repente,/Surgir, redonda, do azul profundo”.

Porém, o poeta antecipa o desfecho desventurado da saga marítima dos portugueses – povo que deu o mundo ao mundo, conquistando o mar, mas cujo império se foi progressivamente dissolvendo – “E o Império se desfez”.

O poema encerra, então, um tom desencantado – “Senhor, falta cumprir-se Portugal!” –, mas no qual se pretende a certeza de que é possível recuperar a grandeza perdida e construir um Portugal novo, fazendo alusão ao mito do Quinto Império.

O Mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tetos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo:

“El-rei D. João Segundo!”

 

“De quem são as velas onde me roço?



De quem as quilhas que vejo e ouço?”

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

“Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?”

E o homem do leme tremeu, e disse:

“El-rei D. João Segundo!”

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,



Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

D' El-rei D. João Segundo!”


Fernando Pessoa, in Mensagem

O Mostrengosistematização
Este poema simboliza a interminável e difícil tarefa da conquista do mai, o poeta narra o encontro – aquando da primeira passagem do cabo das Tormentas em 1488 – entre a figura horrenda do Mostrengo e o homem do leme, representante de todos os protagonistas da aventura marítima, os navegadores portugueses.

Numa relação clara de inferioridade física com o monstro marinho, o homem do leme não se deixa intimidar, e lança-lhe o seu desafio: dar cumprimento à vontade inflexível de D. João II.

Ao dominar o Mostrengo, o homem do leme protagoniza a vitória dos navegadores portugueses sobre todos os obstáculos que o mar oferecia: os medos e os inúmeros perigos.

Poema cuja extensão parece querer simbolizar o longo e difícil processo de conquista do mar:



  • O caráter narrativo do poema;

  • O dialogo a três vozes: sujeito poético, Mostrengo e homem do leme;

  • A simbologia do Mostrengo: todos os perigos, medos e obstáculos;

  • A dimensão simbólica do homem do leme: anónimo que dá voz ao sentir e à ousadia de um povo;

  • Poema eco da tradição lendária: o desafio do homem face aos limites da sua condição humana;

  • A insistência no numero três e sua simbologia.

O Mostengo:



  • Revela atitudes intimidatórias, ameaçadoras, amedrontadoras;

  • É informe (não tem uma forma concreta);

  • Está carregado de conotação negativa;

  • É pouco definido, pouco descrito (não tem identidade);

  • Simboliza os perigos do mar, os obstáculos, as adversidades e os medos.



O Mostrengointertextualidade
37 Porém já cinco Sóis eram passados

Que dali nos partíramos, cortando

Os mares nunca doutrem navegados,

Prosperamente os ventos assoprando,

Quando uma noite estando descuidados

Na cortadora proa vigiando,

Uma nuvem que os ares escurece,

Sobre nossas cabeças aparece.


38 Tão temerosa vinha e carregada,

Que pôs nos corações um grande medo;

Bramindo o negro mar, de longe brada,

Como se desse em vão nalgum rochedo.

"Ó Potestade (disse) sublimada:

Que ameaço divino, ou que segredo

Este clima e este mar nos apresenta,

Que mor cousa parece que tormenta?"


39 Não acabava, quando uma figura

Se nos mostra no ar, robusta e válida,

De disforme e grandíssima estatura;

O rosto carregado, a barba esquálida,

Os olhos encovados, e a postura

Medonha e má, e a cor terrena e pálida;

Cheios de terra e crespos os cabelos,

A boca negra, os dentes amarelos.


(…)
41 E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas

No mundo cometeram grandes cousas,

Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,

E por trabalhos vãos nunca repousas,

Pois os vedados términos quebrantas

E navegar meus longos mares ousas,

Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho.

Nunca arados de estranho ou próprio lenho:


(…)
43 Sabe que quantas naus esta viagem

Que tu fazes, fizerem de atrevidas,

Inimiga terão esta paragem,

Com ventos e tormentas desmedidas!

E da primeira armada que passagem

Fizer por estas ondas insofridas,

Eu farei de improviso tal castigo,

Que seja mor o dano que o perigo!


(…)
49 Mais ia por diante o monstro horrendo

Dizendo nossos fados, quando alçado

Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo

Corpo certo me tem maravilhado.—

A boca e os olhos negros retorcendo,

E dando um espantoso e grande brado,

Me respondeu, com voz pesada e amara,

Como quem da pergunta lhe pesara:


50 "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,

A quem chamais vós outros Tormentório,

Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,

Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Aqui toda a Africana costa acabo

Neste meu nunca visto Promontório,

Que para o Pólo Antarctico se estende,

A quem vossa ousadia tanto ofende.


51 Fui dos filhos aspérrimos da Terra,

Qual Encélado, Egeu e o Centimano;

Chamei-me Adamastor, e fui na guerra

Contra o que vibra os raios de Vulcano;

Não que pusesse serra sobre serra,

Mas conquistando as ondas do Oceano,

Fui capitão do mar, por onde andava

A armada de Netuno, que eu buscava.”

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V

Entre o Mostrengo de Mensagem e o Adamastor de Os Lusíadas há a considerar o facto, muito significativo, de ambos se situarem no centro das respetivas obras, funcionando como eixos estruturantes.

O Mostrengo e o Adamastor surgem como símbolo dos perigos e das dificuldades que se apresentam ao ser humano que quer conhecer novos mundos. São não só o símbolo dos problemas a enfrentar quando se pretende explorar o desconhecido, mas também quando o homem deseja descer ao interior de si próprio.

Camões procura, fundamentalmente, demonstrar que muitos dos “gigantes”, ou dificuldades, advêm da falta de conhecimento e do medo de correr riscos. O homem tem de se superar para ultrapassar os problemas com que se depara. Vencendo-se, vence os seus medos e pode descobrir o que lhe estava oculto.

A figura do Mostrengo mantém toda a simbologia do fantástico que se contava e que amedrontava mesmo os mais corajosos. O poema pessoano simboliza as dificuldades sentidas pelos portugueses na conquista do mar, contrapondo o medo com a coragem do marinheiro português perante aquele ser “imundo e grosso”, vencendo os seus medos.


O Gigante Adamastorsistematização
A exaltação do herói – exatamente por serem ditas por um ser tão temível, as palavras do Adamastor sobre a ousadia dos portugueses têm um efeito duplamente exaltante: aquela “gente ousada”, “mais que quantas/no mundo cometeram grandes cousas”, ignorou as interdições, ultrapassou os limites (“vedados términos”), para desvendar o desconhecido, “ver os segredos escondidos/da natureza e do húmido elemento”, o que nenhum ser, nobre o imortal, se tenha atrevido a tentar – é mais uma vez a conquista do conhecimento, do saber, ancorado na observação, que se coloca em destaque como um dos grandes feitos da viagem.
A afirmação do herói – a coragem do herói afirma-se pelo enfrentar do medo, por ousar conhecê-lo, decifrá-lo; assim, o uso da palavra, por parte de Vasco da Gama, interrompendo as palavras ameaçadoras da monstruosa figura, a pergunta sobre a sua identidade (“Quem és tu?”) são o momento simbólico de afirmação da grandeza do homem.
O desfazer do mito – tendo sobre os humanos a vantagem de conhecer para amem do presente, o que mostra ao profetizar desgraças futuras, o gigante, no final, retira-se com um “medonho choro”, depois de ter contado a sua história. Fora, afinal, vencido no amor e na guerra, iludido e aprisionado; assim, ao tornar-se conhecido, desvanece-se o seu caráter ameaçador.
Simbologia do episódio – o Gigante Adamastor representa o maior de todos os obstáculos na realização de qualquer viagem, seja qual for a sua natureza – o medo do desconhecido. Como vencer os limites paralisantes, por vezes, que a prudência impõe? Como preparar o confronto com não se sabe o quê? Com que armas se luta com o que se desconhece? Perante o desconhecido, os navegadores enfrentaram o terror, desvendaram os seus mistérios e o desconhecido deixou de o ser. Portanto, o episódio simboliza a vitória sobre o medo que os perigos ignorados da natureza provocavam – em “O Mostrengo”, encontramos naturalmente a mesma intenção simbólica.
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