O cotidiano Inspirado nos Princípios da Arte



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Encontro06.09.2018
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Terras do Nosso Quintal

Essa fotografia é de um mural da minha sala e as pinturas são produções das crianças da minha turma. Resolvi explorar uma imagem de um mural que compus para refletir sobre as aproximações e distanciamentos do que me parecia familiar.

De um modo geral, nós temos a mania da “síndrome do óbvio”. Como se o nosso envolvimento com a proposta do local onde trabalhamos bastasse para revelar um tanto de sentidos, intenções, propostas que estão por traz de um trabalho exposto. Implicada nessa questão, me distanciar ao máximo, foi uma tentativa de trazer à tona mais de um ponto de vista. O primeiro ângulo que utilizo é o da professora Carol, da turma Ashaninka Manhã 2015, na escola Oga Mitá.

Todo ano temos a “Festa do Campo” na escola. É uma festividade que envolve todas as turmas. O alicerce dessa festa é o trabalho junto às crianças de valorização do homem do campo, por meio de pesquisas diversas e histórias. Geralmente fazemos um contraponto campo – cidade, abordando o tema de modo que amplie os conhecimentos no campo da interação social, mas sem deixar de lado as áreas de conhecimento que nos cercam.

Uma das crianças da turma levou para a escola a história “Chapeuzinho de Couro”, de Agostinho Ornellas. O cenário explorado nessa história é marcado por diferentes tonalidades de marrom. Essa percepção chamou atenção das crianças que concluíram: - “Nossa, essa história é muito marrom!”; - “Ela é feita de barro?”. Algumas crianças contaram experiências vividas em viagens que fizeram com a família para o nordeste, em um cenário completamente diferente do que perceberam na história. E foi ótimo esse contraponto. De fato, o nordeste vai muito além do barro, do marrom, embora esses elementos também sejam parte da cultura dessa região.

A partir dessa conversa, surgiu a ideia deles levarem para escola, fotografias do passeio feito em outras partes do nordeste, para partilharmos com o grupo esses outros cenários. Partindo do contexto da história, as crianças também pesquisaram, sobre cactos, animais, comidas típicas, músicas e ritmos próprios do nordeste, a arte com argila, em tecidos, dentre outras nuances do cenário nordestino. Foi uma troca muito rica e, sobretudo, necessária, por deixar clara a ideia de que o nordeste transcende a seca, a falta, a infertilidade, a aridez.



Voltando ao livro e as tonalidades de marrom que eram nítidas na ilustração do cenário, realizamos um estudo sobre as cores. Aproveitei a curiosidade despertada em relação à cor e seus tons, não só do solo, como também, das paredes das casas, vestimentas e objetos e planejei uma oficina de produção de tintas com terra. Partimos da coleta de terra, com diferentes tons, encontrada no pátio da escola. As crianças cavaram buracos nos canteiros em busca de tons diferentes e descobriram três tons. Lá ficamos mergulhados num atelier incrível que ultrapassava a dimensão do espaço físico. Essa experiência nos remete ao pensamento de Gandini (2012, p. 76) ao afirmar que “em vez de apenas um espaço físico, creio que o verdadeiro atelier seja um estado de espírito”, que ao longo das experiências vai sendo internalizado, tanto pelas crianças quanto pelo professor.





Após coletarmos a terra, acrescentamos doses de água e cola. Essas misturas deram origem a tintas cheias de texturas. As crianças pintaram com as mãos, e observei que elas passaram um bom tempo explorando. Os que sentiram nojo foram encorajados e os que se recusaram a usar as mãos como pincel, recorreram ao pincel tradicional.



Ao longo do processo, algumas crianças se deixaram levar pelo movimento livre das mãos para se expressar e outras buscaram traços mais definidos, compondo cenas. E outro grupo de crianças usou as mãos como carimbo. Nesse contexto, concluímos que a sala de aula concebida como um atelier, “traz a intensidade e a alegria do inesperado e do incomum para o processo de aprendizagem; ele sustenta uma mudança conceitual que vem de se enxergar a realidade cotidiana por intermédio de uma lente poética. É isso que alguns definem como “projeto estético”.” (GANDINI, 2012, p.16)

Em roda, conversamos sobre a experiência, sobre as sensações de usar as mãos para fazer a pintura, e sobre as percepções durante todo o processo de preparo das tintas. Foi bem interessante ouvir e registrar os relatos. Assim como as imagens, as falas compunham a documentação da nossa experiência estética. Nosso objetivo com essa proposta vai ao encontro do pensamento de Gandini (2012), que reconhece a importância da inclusão das linguagens expressivas no currículo escolar e dentro de um contexto cultural, já que são essenciais (em vez de opcionais ou marginais) tanto quanto as disciplinas que costumam ser privilegiadas. Isso pode tornar a experiência de aprendizagem e o processo educacional mais completo e mais integral.

“A tinta estava cheia de coisinhas dentro.”

“Me deu muito nervoso porque ela ficou grudando nos meus dedos.”

“Eu adorei!”

“A tinta não obedecia muito, então eu fiz muitas marquinhas, tipo carimbo.”

“Caraca! Eu não sabia fazer tinta, agora eu sei.”

“Eu posso pegar outras coisas de outras cores em pó e colocar um pouco de água e um pouco de cola. E misturar bastante. Aí vai virar tinta, não é?”

“Colocar as mãos foi muito gostoso. Foi legal!”

“Eu não sabia que aqui no pátio tinha tantas cores de terra.”

“Será que cavando mais o canteiro, a gente encontra outras cores?”

“Eu nunca pintei com terra.”

“A terra não é feita só terra... Vocês viram? Tem muitas coisinhas, a gente só não achou minhoca.”

“Eu gostei de misturar as coisas, mas não gostei muito de pôr as mãos.”

“Se a Carol deixasse, eu ia pintar meu corpo todinho. Mas, eu pintei só até meu cotovelo.”

“A tinta ficou muito parecida com coco mole.”

“Parecia chocolate derretido também.”

Os comentários das crianças citados acima foram realizados durante a observação dos trabalhos. Trocamos várias vezes de lugar para observar as produções que o grupo realizou. A aproximação e o distanciamento das produções permitiam que eles fizessem leituras diferentes de cada pintura. O que parecia ser representado, nem sempre correspondia, aos olhos de quem pintou. E vice versa. Nesse momento trocaram suas impressões e percepções. Exercitaram mais uma vez a escuta e tiveram a oportunidade de falar uns para os outros sobre suas produções.

Para Buber (2009, p.12), toda ação humana é caracterizada pela intenção, pela invenção e também pela intuição: “fazer é criar, inventar é encontro”. Assim concebida, a formação visa garantir a autoria e a autonomia de todos os envolvidos, processos que acontecem sempre em colaboração. (p. 310)

Após esse exercício de observação, falei da intenção de fazer uma exposição dos trabalhos. Para isso precisávamos pensar em um nome para a exposição e fui listando as ideias que surgiram do grupo: “Tinta de terra”; “Cores do Nordeste”; “Pintura com terra”; “Terra com água e cola”; esses foram alguns dos títulos sugeridos. Venceu, após votação, o nome “Cores do Nordeste”.

Vivendo todo o processo junto com as crianças, me vejo completamente mergulhada no significado de todo percurso. Faz sentido olhar para o mural com o nome escolhido ao lado das produções.

Mas, é no momento relatado a seguir que inicio uma revisão de paradigma. O grupo recebeu uma estagiária nova, que chegou logo após todo o processo de construção desse mural. Ela fez estágio por três semanas na minha turma. E na última semana, enquanto eu assinava seu documento, ela me fez a seguinte pergunta: - Carol, você acredita mesmo que o nordeste só pode ser retratado com essas cores? Que apenas essas cores revelam o nordeste? Eu rapidamente respondi que não. E perguntei a opinião dela em relação ao mural. Entendi perfeitamente o que ela estava problematizando. E fazia muito sentido.

Na leitura dela, a única coisa que o mural retratava, era a seca. A aridez. A escassez de água. E ponderou dizendo que o nordeste não era só isso. Pelo contrário. Ela revelou sua preocupação de como essa ideia, um tanto preconceituosa, com um tom de história única, ficaria registrada para as crianças.

Disponibilizei minha escuta, entendendo que essa era uma reflexão considerável. Muito valiosa. Plausível, principalmente, para uma pessoa que não acompanhou o processo que levou a construção desse mural.

Conversamos pontualmente sobre o caminho percorrido para chegar até ali e ela demonstrou que entendeu um pouco mais sobre o processo vivido pelo grupo, mas não tivemos como aprofundar na hora, por conta das demandas de uma sala de educação infantil, em horário de funcionamento.

Ampliamos a conversa em outro momento, por whatsapp e facebook. Depois que apresentei todo o caminho percorrido até ali, ela considerou que não participou do processo e talvez por isso, tenha ficado tão incomodada com o nome de batismo do mural.

O posicionamento da minha mais nova parceira de trabalho me deslocou para outro ponto de vista e me deixou imersa em uma questão: - Será que a descrição do trabalho, anexada ao lado do mural daria conta? Será que todo mural precisa de uma memória descritiva? Sim ou não?

Quando me distancio, contemplo o mural e me pego mergulhada em todos os procedimentos que lhe deram origem. Quando observo as crianças apreciando os trabalhos, percebo o quanto foi significativo para elas também.

Constatar isso é muito bom, mas levando em consideração os questionamentos gerados, fica clara a importância de uma breve apresentação do trabalho acompanhando a exposição. Pois, na medida em que expomos, chamamos outros olhares, outras interpretações, outras percepções.

Percebi com tudo isso, que o mural também revela concepções. E nesse caso, acabou depondo contra uma proposta repleta de intencionalidade. Que considerou desde o início a criança, seu desejo pelo conhecimento. Sua curiosidade.

É importante considerar que outras pessoas entram em contato com o que expomos. Como seria para um nordestino? Que leitura essa pessoa faria? E para um visitante que chega à escola em busca de vaga para o filho? E para os pais? Será que todas as vivências anteriores justificam o título?

O fato é que se aproximar e se distanciar do nosso cotidiano não é nada fácil. Desconfiar de certezas e olhar por outro ângulo é de fato um exercício fundamental para qualquer professor. É assim que a formação também acontece ao longo do processo de trabalho. E manter a escuta disponível para as crianças, para críticas, colabora demais com a ampliação do repertório. Considerar que estamos inacabados é uma premissa fundamental para avançarmos junto com as crianças.



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