O cotidiano Inspirado nos Princípios da Arte



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O Cotidiano Inspirado nos Princípios da Arte

Esse trabalho tem como objetivo apresentar o projeto que desenvolvo como educadora, em uma turma de educação infantil, no cenário da Escola Oga Mitá, instituição particular, localizada em Vila Isabel, no Rio de Janeiro.

As vivencias aconteceram com uma turma agrupada, formada por 18 crianças na faixa etária entre 3, 4 e 5 anos. O pátio da escola, a sala do grupo, os espaços que acessamos em passeios externos, eventos da escola, as experiências das crianças em seus núcleos familiares fomentaram todo o percurso.

Observar as crianças em ação, disponibilizando escuta e olhar atento ao que muitas vezes não era dito em palavras foi um desafio tamanho. Pensar o espaço e propostas de acordo com a demanda das crianças, mas, sem perder de vista meu desejo de provocar, deixar dúvida e com isso ampliar as experiências, foi um caminho sinuoso, com muitas idas e vindas, que deu vida e muito mais significado a tudo que vivemos. Segundo Paulo Freire (2003), o espaço pedagógico é um texto para ser constantemente “lido”, interpretado, “escrito” e “reescrito”. Essa leitura do espaço pedagógico pressupõe considerar a criança e suas potencialidades e, no caso deste trabalho, a arte como possibilidade de fruição, de liberdade, expressividade e autoria.

O uso da fotografia é um meio de contar a nossa história através das imagens que são repletas de palavras e possibilitam muitas interpretações e reflexões. Com elas é possível falar um pouco do processo por meio de um recurso que faz parte do nosso cotidiano.

Procuro dialogar com as fotografias para construir uma reflexão sobre essa prática pedagógica e as influências da abordagem de Reggio Emilia na construção das propostas desenvolvidas junto a esse grupo.

Inspirada nas formações que participei de 2012 a 2015, com foco em arte educação e na abordagem de Reggio Emilia, passei a planejar um cotidiano que contemplasse a arte, para além das técnicas e da valorização apenas dos produtos finais criados pelos educandos. A prioridade na experiência e na vivencia de alguns princípios e conceitos permeados com as múltiplas linguagens favoreceu o processo de aprendizagem das crianças. E dessa forma, elas tiveram maior liberdade para o desenvolvimento de suas potencialidades artísticas e para a experiência estética e sensível, mobilizando a imaginação e a fantasia.

A escolha no manuseio de materiais não estruturados foi intencional. Através deles as crianças tiveram a oportunidade de entrar em contato a ideia de construção, viveram experiências estéticas, se expressaram com liberdade, contando sempre com a disponibilidade do adulto em seus projetos individuais e coletivos, que resultavam em muitas aprendizagens.



Juntos, fizemos uma coleção de objetos e materiais naturais, tais como: tampinhas, sucatas em geral, tecidos, fitas, fuxico, madeiras, potes de diferentes formas a tamanhos, folhas secas, galhos e gravetos, areia, terra, conchas, palitos, entre outros. O objetivo era criar um ambiente onde as possibilidades artísticas das crianças fossem acessadas e isso mobilizou uma ação sistemática no dia a dia.

Material Não Estruturado: Criatividade e Construção

Na imagem estou com o grupo na roda e com a caixa repleta de madeira com diferentes formatos.

O cuidado com o material, com si mesmo e com os amigos era um combinado rigoroso. Relembrar esses combinados fazia todo sentido porque se baseavam nas situações vividas. Não poderíamos deixar se perder de vista a dimensão do eu e do outro. A relação das crianças com os materiais não estruturados foi se estabelecendo aos poucos.

Logo que a caixa de sucata foi acrescentada nas coleções, era muito comum terminarmos o momento de exploração descartando muitos itens. Com o passar do tempo e com o trabalho desenvolvido, observamos que, mesmo tratando-se de um objeto mais frágil, a durabilidade aumentou consideravelmente. Observando o grupo como um todo, percebo que esse fato se sustenta na relação que aos poucos foi sendo estabelecida entre as crianças e os materiais. Ao se apropriarem dos materiais, pelo cuidadoso uso, armazenamento, seleção e coleta, ou seja, ao se envolverem com todo o processo, as crianças se responsabilizam muito mais, não somente com os materiais, mas com tudo e todos que fazem parte deste contexto.

Ao entrar em contato com as madeiras e sucatas, as crianças, inevitavelmente iniciavam os relatos de suas percepções. Foi possível captar algumas percepções durante o uso. Mas também garantimos tempo para o registro das descobertas feitas a partir das potencialidades e limites que o material apresentava, na perspectiva das crianças. E esta apropriação dos objetos dava as crianças aparato para novas descobertas. Como nos diz Gandini ( 2012, p. 29):

“Investigar e descobrir como um determinado material se apresenta e é transformado, ajudando a criança a adquirir conhecimento sobre o material em si – sobre a textura, forma, configuração, cor e aparência externa e interna. A Criança aprende gradualmente que o material pode ser usado de muitas maneiras diferentes.” (GANDINI, 2012, p.29)

Contrapontos pela rigidez de um pedaço de madeira e a flexibilidade de um potinho de iogurte, sempre apareciam. Ao explorar as madeiras junto com as crianças, foi ampliada minha capacidade de percepção sobre os conhecimentos prévios que elas já haviam internalizado. Percebi que elas estabeleceram relações quanto a texturas, tamanhos e espessuras diferentes, forma e peso dos materiais. Com tantos saberes revelados, a madeira já se classificava como um território vasto de aprendizagem.

Na fotografia abaixo, Carolina, Laura, Marcela e Alicia estão construindo, juntas, uma casa. Observando essa cena, me emociono, por saber os desafios que cada uma delas está vivendo no ambiente familiar. Separação, gravidez da mãe, nascimento e aceitação de irmãos mais novos, são motivos suficientes para que elas se unam na empreitada de construir uma casa feita de material tão rígido.



Na foto seguinte, Francisco e Benicio navegam em sua jangada. Meio de transporte muito significativo para eles e para o pescador, personagem principal do projeto que estávamos vivenciando.

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