O assassinato como um favor pessoal um estudo sobre Mas não se matam cavalos?, de Horace McCoy Autor



Baixar 62,49 Kb.
Encontro23.01.2017
Tamanho62,49 Kb.
O ASSASSINATO COMO UM FAVOR PESSOAL

Um estudo sobre Mas não se matam cavalos?, de Horace McCoy

Autor: José Francisco Coelho (UNIANDRADE)

Orientadora: Profa. Dra. Brunilda Tempel Reichmann (UNIANDRADE)

Introdução

Esta análise de Mas não se matam cavalos?, de Horace McCoy (1897–1955), considera alguns aspectos da relação da literatura com a história, ou seja, o texto faz referência a um determinado momento da história humana. Segundo Marilene Weinhardt, “a narrativa histórica se constrói sobre fatos reais, a narrativa ficcional sobre fatos imaginários, mas as duas são construções verbais” (WEINHARDT, 2011, p. 14).

Inicialmente, considerou-se para o embasamento teórico deste trabalho a recorrente afirmação de Georg Lucáks de que certas obras literárias vão revelar forças sociais em confronto e situar indivíduos – as personagens ficcionais – com vínculo estreito com seu grupo social. Essas criaturas ficcionalizadas são tipos históricos, estão marcadas pelo tempo e também desvelam seu criador, sua proposta estética, sua ideologia e sua relação/interpretação do mundo.

A ciência histórica, a partir da francesa Écoles des Annales (1929), abandonando o estudo de grandes fatos e figuras ilustres, passa a estudar as ideias, os costumes, as representações e as mentalidades de períodos da história humana. Neste trabalho, ao se estudar a relação entre a história e a literatura, optou-se por considerar, também, as contribuições teóricas de autores, tais como as de Lucien Febvre (1878–1956) e Marc Block (1886–1944). Esses principais nomes da primeira geração dessa escola renovam e ampliam o quadro das pesquisas históricas e rompem com a compartimentação das ciências sociais e dão lugar ao pluridisciplinarismo.

No desenvolvimento dos estudos históricos, chega-se ao Novo Historicismo, que se originou nos Estados Unidos, em 1988, com a publicação de Shakespearean negotiations: The circulation of social energy in Renaissance England, de Stephen Greenblatt e, nessa obra, o autor revela “o desejo de falar com os mortos”, querendo isso dizer que, por meio da pesquisa histórica, o pesquisador busca apreender, compreender e, se possível, reconstruir a vida dos homens em outros lugares, em outros tempos e em outras culturas.

Como discurso, a literatura caracteriza-se antes de tudo como prática social, nas qual se inscrevem não só elementos da língua adotada, mas também das instituições e das convenções segundo as quais se forma o repertório do autor. Conforme a expressão de Louis Montrose, outro defensor do novo método, o crítico deve captar simultaneamente a historicidade do texto e a textualidade da história. (TEIXEIRA, 1998, p. 32).

Sob a ótica da história cultural, a historiadora e jornalista Márcia Helena de Mendonça fez estudo sobre a apresentação de um desfile de moda (2004) cuja performance foi inspirada no filme A noite dos desesperados e ressalta que:

Decifrar a realidade do passado por meio de representações, reconstruir o não vivido e o não visto a partir de registros, imagens, traços, vestígios e fragmentos de outro tempo é uma das propostas da história cultural. Por mais complexo que se revele um passado ou um evento, cabe ao historiador desvendar e interpretar o que pertence ao imaginário de uma época, ou seja, seus códigos, símbolos, significados e ideologias, para, então, reconstruí-los e ressignificá-los. (MENDONÇA, s/d, p. 2).

Se tudo é história, a literatura, além de fenômeno estético, é também uma manifestação cultural, através da qual se pode conhecer e pensar outros tempos, outros espaços, outras ideologias. A literatura – que é arte – nos permite, especialmente, saber do outro, do diferente de nós, do que se opõe a nós e que, no entanto, é humanamente igual a nós.

Em seus estudos sobre a tragédia grega, Leski (2010, p. 57) nos ensina que “toda criação espiritual incita o desejo de conhecimento em duplo sentido” Tal conhecimento, segundo ele, exige que “mergulhemos em sua essência, que compreendamos as forças que nela encontraram sua configuração e as leis pelas quais foi regida”.

O autor afirma, ainda, que toda obra de arte é um cosmo e a tarefa de apreendê-la “é infinita e é nova para cada época, inclusive para a nossa” (LESKI, 2010, p. 57).

Do mesmo modo, porém, que a obra viva está em parte condicionada pelas potências da história, assim é também uma parte dos processos históricos e com isso abandona sua posição individual no curso das séries de evolução histórica. Muitos gostam atualmente de jogar uma contra a outra essas duas formas de consideração, a que se fixa na essência do fenômeno em si e a que encara seu lugar na história, e de apregoar em altos brados a preeminência da primeira. Isso se compreende muito bem como reação ao historicismo, que amiúde levou suas linhas de evolução além da verdadeira essência das coisas, mas envolve graves perigos. Coisas que deviam estar unidas são separadas: não é possível conhecer a essência sem uma compreensão histórica, nem esta deve esperar aclarar o sentido de um fenômeno simplesmente pela incorporação histórica. As duas tendências não se acham em oposição, ao contrário; somente sua síntese poderá nos levar adiante. (LESKI, 2010, p. 57).

A trajetória das personagens de Mas não se matam cavalos? está visivelmente associada ao contexto – político, social, econômico, cultural, existencial – de que elas fazem parte. São pessoas cujo discurso é ignorado e suprimido no universo das relações de poder. O escritor norte-americano remonta, recria, interpreta um tempo de crise e, para tanto, inventa uma linguagem, uma narrativa, uma estética, um discurso e, especialmente, inventa os habitantes desse planeta ficcional, que gira em torno de nós, os seus leitores.

A obra de McCoy foi publicada em 1935, em plena Grande Depressão nos Estados Unidos e, em 1969, foi adaptada para o cinema sob a direção de Sydney Pollack. O filme A noite dos desesperados, com roteiro de Robert Thompson e James Poe e protagonizado por Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bruce Dern, recebeu nove indicações para o Oscar nas categorias diretor, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, montagem, direção de arte, trilha sonora e figurino. Gig Young recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante pelo seu desempenho como Rocky Gravo, o detestável mestre de cerimônias da maratona de dança.



Um mundo em pedaços

Após a I Grande Guerra Mundial, “o homem viveu a ilusão de que não haveria novas guerras” (AQUINO et al., 1997, p. 271). O período entre 1919 e 1929 foi marcado, principalmente nos Estados Unidos, pela retomada da expansão econômica. A crescente utilização de novas técnicas fez prosperar a produção das indústrias e acelerou a chamada concentração industrial e concretizou a formação dos grandes holdings, trustes e cartéis internacionais.



A agricultura jamais conseguiu se recuperar no pós-guerra, principalmente a norte-americana, observando-se um declínio acentuado dos rendimentos agrícolas, o que levava a uma baixa no poder aquisitivo dos setores rurais. O subemprego crônico, resultante dessa situação, era, por sua vez, a causa do baixo poder aquisitivo global. O número de desempregados permanecia constante. Apesar do aumento da produção, a maioria das indústrias trabalhava com capacidade ociosa. Entretanto, apesar desses “maus presságios”, a especulação financeira era intensa: na bolsa de Nova Iorque uma enorme especulação não cessava seu curso. (AQUINO et al., 1997, p. 272, ênfases no original).

Estudos econômicos mais recentes consideram que, a grande crise americana não foi provocada, primariamente, pela quebra da Bolsa de Valores nova-iorquina em 1929. A catástrofe nos Estados Unidos foi resultado de uma política monetária mal planejada pela reserva monetária americana. Para controlar uma suposta inflação, reduziram-se tais reservas, o que fez agravar o maior problema da economia à época: a deflação em vez da inflação.

Culminando com um rápido declínio das atividades econômicas e sendo um reflexo desse problema estrutural, em 24 de outubro de 1929 ocorreu, na Quinta-Feira Negra, a quebra da Bolsa de Nova Iorque. Nesse dia foram lançados no mercado mais de 16 milhões de títulos, os quais não encontraram compradores, acelerando-se a queda de seu valor nos dias posteriores, principalmente no dia 29. No início de novembro a totalidade das ações industriais tinha perdido mais de um terço do valor. (AQUINO et al., 1997, p. 272, ênfase no original).

Os efeitos dessa crise atingem muitos países, especialmente os ligados à economia americana, inclusive o Brasil. A catástrofe econômica e social foi marcada pela “amplidão e universalização, pois a economia capitalista estava em alto grau de interdependência” (AQUINO et., p. 271).

A Grande Depressão, que teve início em 1929 nos Estados Unidos, é considerada o pior e o mais longo período de recessão do século XX. A face mais trágica dessa crise é o desemprego e a pobreza que atingiram milhões de americanos e obrigaram as pessoas a tomar medidas desesperadas para sobreviver. Nessa época, entre outras oportunidades inusitadas e absurdas, surgiram as maratonas de dança, que testavam ao extremo a resistência dos competidores em troca de comida, de roupas e de alguns míseros trocados. Durante dias, diante de uma plateia animada e sádica, casais dançavam na tentativa de ser a última dupla remanescente, ou seja, os trágicos vencedores.

Com miséria, degradação, sofrimento, crimes e morte, a narrativa vai expondo vários dramas pessoais que são ampliados pela recessão econômica: o da mulher grávida e seu marido, o do criminoso fugitivo, o de uma garota menor de idade, o de uma prostituta, o de aspirantes ao sucesso em Hollywood.

Robert Syverten e Glória Beatty, os protagonistas da narrativa, formam um dos casais que vivem aquele vale-tudo. Eles se encontram nesse lugar do destino e Robert, aparentemente tolo e ingênuo, é capaz de entender o desespero e o cansaço dela. A capacidade de compreender a amiga e a associação que ele faz entre a agonia de um animal ferido levam o rapaz a um gesto incompreensível aos olhos humanos: Robert mata Glória porque a morte é o desejo dela. “– Pegue e ajude a Deus – ela disse, pressionando a arma na minha mão. – Atire em mim. É o único jeito de me salvar desse sofrimento” (McCOY, 2007, p. 128).

Mas não se matam cavalos é dividida em treze capítulos – cento e trinta páginas – e antes do início de cada um deles, isolados em uma página, aparecem trechos de frases que, se reunidos, formam uma síntese do julgamento do protagonista, Robert Syverten. Trata-se da fala de um juiz que pronuncia a sentença. Reunidos esses trechos, tem-se:

Levante-se o réu. Existe algum motivo legal que impeça a sentença de ser pronunciada? Não havendo nenhum motivo legal que impeça a sentença de ser pronunciada agora, o julgamento e a sentença deste tribunal é que, devido ao crime de homicídio em primeiro grau, pelo qual foi condenado pelo veredicto do júri, incorrendo na pena máxima da lei, o Sr. Robert Syverten seja entregue pelo xerife do condado de Los Angeles ao diretor da prisão estadual para ser, pelo referido diretor, punido com a pena de morte e executado no dia 19 do mês de setembro, no Ano da Graça de Nosso Senhor, de 1935, como estabelecido pelas leis do Estado da Califórnia. E que Deus tenha piedade de sua alma.

Nos dois primeiros capítulos, Robert Syverten, o narrador-protagonista, apresenta o seu crime e o seu julgamento.

O que eu podia dizer? Todas aquelas pessoas sabiam que eu a havia matado, e a única pessoa que podia me ajudar estava morta. Então fiquei de pé ali, olhando para o juiz e abanando a cabeça. Eu não tinha nenhum apoio.

– Peça clemência ao júri – disse Epstein, o advogado designado para me defender.

– Como assim, disse o juiz.

– Vossa Excelência – disse Epstein –, rogamos clemência a esse tribunal. Este rapaz admite ter matado a moça, mas quis apenas fazer-lhe um favor especial.

– O juiz bateu com força o martelo na mesa, olhando para mim. (McCOY, 2007, p. 9).

Filhos e vítimas de uma sofrida conjuntura histórica – a Recessão econômica de 1929 –, os protagonistas, Robert e Glória Beatty, participam de uma maratona de dança. Num tempo de crise, esses concursos eram uma maneira de se ganhar algum dinheiro e fugir da fome. Os pares deveriam dançar por seis dias até que o último casal sobrevivesse e tivesse direito ao prêmio de 1.500 dólares. São dias de humilhação, dores físicas, desconforto, exposição da intimidade e bárbaro sofrimento.

O show é comandado por pelo mestre de cerimônias e empresário Rocky Gravo. Ele, também, é alguém que busca a sobrevivência pela via da exploração de outro ser humano.

Na plateia, estão localizados outros personagens, como a Sra. Layden, que, numa espécie de voyeurismo, reedita os espectadores dos circos romanos. Além disso, por vários momentos, desenrola-se a estreita relação entre história e criação, pois personagens reais ficcionalizam-se na narrativa. Para assistir à maratona, aparece, inicialmente, a atriz e cantora Alice Faye (1915–1998).

– Alice Faye acabou de entrar – disse uma das moças. – Está vendo? Sentada ali.

Era Alice Faye mesmo, com dois homens que não reconheci.

– Está vendo? – perguntei a Glória.

– Não quero vê-la – disse Glória.

– Senhoras e senhores – Rocky disse ao microfone –, temos a honra de ter conosco, nesta noite, a maravilhosa estrela de cinema Alice Faye. Uma salva de palmas para Alice, senhoras e senhores.

Todos aplaudiram e Alice Faye fez um sinal com a cabeça, sorrindo. (McCOY, 2007, p. 34).

No capítulo 8, surge a também atriz e cantora Ruby Keller (1910–1993). Tornando-se uma personagem ficcional, Ruby Keller repete o comportamento de Alice Faye.

– Um minuto, senhoras e senhores... só um minuto – Rocky disse. – Tenho uma nota de dez dólares na mão para o vencedor do dérbi de hoje, uma contribuição da maravilhosa estrela de cinema, a Srta. Ruby Keeler. Uma salva de palmas para Rubi, senhoras e senhores...

Ruby Keller ficou de pé, agradecendo os aplausos. (McCOY, 2007, p. 62).

Num terceiro momento, surgem em cena a atriz Mary Brian (1906–2002), atriz americana que viveu a passagem do cinema mudo para o cinema falado, e o comediante Charley Chase (1893–1940). O casal de atores repete os gestos de Alice Faye e Ruby Keeler. Sorrisos, aplausos e reverências: o mundo ilusório e mascarado da fantasia hollywoodiana. A diversão nega o sofrimento e o transforma em espetáculo.

Além de outros personagens reais/ficcionalizadas, importantes nomes do cinema americano à época são citados no desenvolvimento da trama: as atrizes Katharine Hepburn (1907–2003), Margaret Sullavan (1909–1960), Josephine Hutchinson (1903–1998) e os cineastas europeus que farão suas carreiras em Hollywood, como Rouben Mamoulian (1897–1987), o austríaco Josep von Sternberg (1894–1969), o polonês Richard Boleslawsky (1889–1937), o armeno-americano Rouben Mamoulian (1897–1987).

Entre personagens recriados ficcionalmente e personagens reais da narrativa, Glória e Robert vão se unindo e se contrapondo.

No obra de McCoy, espaço e tempo estão claramente marcados. A ação transcorre no Estado da Califórnia, na cidade de Los Angeles, no distrito de Hollywood. “Certo dia, estava caminhando pela Melrose Avenue, saindo do estúdio da Paramount, quando ouvi alguém gritar...” (McCOY, 2007, p. 11).

A ação acontece num tempo também marcado: os anos 30 do século XX. No julgamento de Syverten, ao ler a sentença, o juiz diz: “punido com a pena de morte e executado no dia 19 de setembro, no ano da Graça de Nosso Senhor, de 1935...” (McCOY, 2007, p. 110).

Robert Syverten descreve Glória Beatty como uma mulher infeliz e amarga, “loira demais e pequena demais e parecia velha demais”. O caráter e o comportamento da personagem feminina nos chegam pelo olhar de Syverten e esse olhar é confiável. Robert é jovem, ingênuo, gosta de Glória e é capaz de levar esse gostar até a consequência supostamente absurda, ou seja, o crime como um ato de misericórdia, como um favor pessoal.

O nome escolhido por McCoy para sua personagem tem um caráter irônico. Glória é um antônimo para a mulher infeliz, derrotada pela sua angústia, pela sua personalidade autodestrutiva. Glória é vencida pelo seu tempo, pela história de um período de grave crise econômica, pela crise dos valores e das perspectivas para mulheres e homens. As características da personagem não se limitam ao prenome, pois o sobrenome Beatty também traz marcas significativas. Um cognato de Beatty é a palavra inglesa beat, que, como adjetivo, significa açoitado, espancado, batido, pisado, vencido, derrotado, exausto.

As características emocionais de Glória, sua fragmentação, sua fragilidade, sua dor e sua exaustão vão sendo, insistentemente, apresentados em suas falas, num ir e vir, num crescendo. Glória se revela pelo seu discurso.

– Ah, não sei – ela disse, depressa -, mas qualquer coisa é melhor do que a vida que eu levava em casa. (...) – Se você chama aquilo de lar – ela falou. – Eu dou outro nome àquilo. Quando meu tio estava em casa, ficava me molestando e, quando estava fora, minha tia e eu sempre brigávamos. (McCOY, 2007, p. 15).

– Duas noites depois tomei veneno. (p. 16).

– Acho estranho que todo mundo se preocupe tanto com a vida e tão pouco com a morte. Por que esses cientistas famosos estão sempre metidos com o prolongamento da vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um monte de gente no mundo como eu... que gostaria de morrer, mas não tem coragem. (p. 17).

– Sempre e sempre me sinto um lixo – ela disse. Meu Deus, o ponteiro do relógio se move devagar. (p. 23).

– Meu Deus, espero não viver tanto até ficar tão velha – ela disse de novo. (p. 33).

– Cada vez mais eu queria estar morta – ela disse. (p. 40).

– Não precisa – ela disse – Um especialista ri de mim. Deus... (p. 43).

– Queria estar morta – ela disse. – Queria que Deus me matasse. (...) – Queria tanto que ele fizesse mesmo... Queria ter coragem de fazer isso por Ele. (p. 72).

– Estou cansada de viver e tenho medo de morrer – Glória disse. (p. 83).

– Vou pular fora desse carrossel – ela disse. – Estou de saco cheio desta coisa nojenta. (p. 126).

– De qualquer modo, estou acabada. Acho este mundo podre e estou acabada. Eu estaria melhor se estivesse morta, assim como todo mundo. Eu estrago tudo que chega perto de mim. (...) Já tentei me matar uma vez, mas não consegui e nunca mais tive coragem para tentar de novo... Quer fazer um favor ao mundo? – ela perguntou. (p. 128).

Em suas últimas falas, Glória, como suplicante, convence o amigo a realizar o desejo de morte, que a acompanha durante toda a narrativa. “– Pegue e ajude a Deus – ela disse pressionando a arma na minha mão. Atire em mim. É o único jeito de me salvar deste sofrimento.” (McCOY, 2007, p. 128).

Há, na personagem feminina de McCoy, os componentes de uma tragicidade que, de certo modo, vai aproximá-la de Raskólhnikov, de Crime e castigo, de Dostoievski, ou de Sofia Zawistowska, a personagem de A escolha de Sofia, de William Styron. Fala-se do trágico porque ele compreende o trajeto do humano. O trágico e suas expressões são o que Volnei Edson dos Santos classifica como “constituinte do vivido cotidiano”.

Hoje em dia, fala-se insistentemente a respeito do trágico. O tema parece ocupar, segundo alguns, o proscênio. Deste modo, fala-se de um retorno do trágico enquanto ponto de partida para prestar-se mais atenção ao vivido cotidiano. A vida em sua ambivalência – da luta entre as forças do destino e aquelas da liberdade, do racional e do irracional, do indivíduo e do implacável jogo da história – retorna e é compreendida no centro mesmo deste trágico contemporâneo. Fala-se, então, do trágico em termos do esquecido e do relegado a um subterrâneo, considerado, principalmente, desde um ponto de vista que privilegia a ultrapassagem, mas ultrapassagem esta que tem também as características de uma aceitação e de um aprofundamento. (SANTOS, 2004, p. xi).

Se nas tragédias gregas a desgraça do ser humano era provocada pelo fado e pelos deuses, a tragédia de Glória, a tragédia de homens e mulheres comuns, é resultado de seu lugar e de seu tempo, é consequência do implacável jogo da história.

Das muitas mulheres trágicas da antiguidade, estaca-se Ifigênia, uma das filhas de Agamêmnon e de Clitemnestra. Quando os gregos se dirigiam à Troia, uma calmaria prolongada retinha os navios em Áulis. O adivinho Calcas revela que a deusa Ártemis estava encolerizada porque o chefe das forças gregas matara um servo consagrado. A fúria da deusa só seria aplacada se Agamêmnon lhe sacrificasse Ifigênia, sua filha. Diante da relutância do pai, os demais chefes gregos persuadiram-no a consumar o sacrifício. Dizendo que ia casar a filha com Aquiles, Agamêmnon mandou Ifigênia vir de Micenas e deu ordens para imolá-la no altar de Ártemis.

Uma versão da lenda conta que, na hora do sacrifício, a deusa comoveu-se e, em vez da moça, foi imolada uma corça.

Em outra versão da lenda, Ifigênia recebeu de Ártemis a imortalidade, ou vivia com Aquiles em uma ilha.

Por sua vez, a tragédia de Glória Beatty vem do Zeus-Capitalismo e da Hera-Recessão. Ifigênia estava convencida de que sua imolação contribuiria para a vitória do seu pai, do seu povo. Conta-se que a grega, na hora do sacrifício, dirigiu-se ao altar com dignidade e altivez. Glória, por sua vez, não se sente digna de nada e não lhe é permitido ter altivez. Em seu tempo, não há deuses, não há ilhas e seu Aquiles não tem força, não tem um escudo invulnerável. Robert Syverten tem apenas a piedade e a arma que ela lhe dá.

Para Glória Beatty, a morte é um último ato de desespero: não há pátria, não há pai, não há crença, não há ideal, não há esperança.

Robert é um nome que tem origem no alto alemão antigo e que significa brilhante (berath) de glória, de fama (hruod). Robert Syverten nasceu em Arkansas e vem a Hollywood à procura de sucesso e de fama. Ele quer ser diretor de cinema.

Sempre perguntava a mim mesmo se haveria algo melhor do que trabalhar para von Sternberg, ou então para Mamaoulin ou Bolelawski, ser pago para vê-los dirigir, aprender tudo sobre composição, ritmo e enquadramento... Então fui até a Paramount.

Eu não estava indo a nenhum lugar em especial; estava apenas dirigindo meu Rolls-Royce, as pessoas me apontando como para um dos maiores diretores do mundo... (McCOY, 2007, p. 12).

Num mundo em crise, Robert é fascinado pelo sol e pelo mar, símbolos, ao mesmo tempo, de construção e de ruína, de vida e de morte. Quando aceita matar Glória, ele é, simultaneamente, libertador e carrasco, solução e condenação. O avô de Robert, ao executar – por piedade – um cavalo gravemente ferido, põe no neto uma marca, que o mundo vai-lhe ampliando, ao mesmo tempo, que estilhaça seus sonhos.

A ele está reservada a fugaz fama que um assassino pode atingir. Apenas um criminoso pária que executou outra insignificante aspirante ao mundo de riqueza e holofotes na usina de sonhos de Hollywood. No caso de Glória e Robert, tal usina vai fragmentá-los e triturá-los e matá-los.

Conclusão: A lógica proscrita

Horace McCoy publicou Mas não se matam cavalos? em 1935, quando a Grande Recessão econômica atingia a vida de milhões de americanos. O livro chamou a atenção de filósofos e existencialistas franceses que viam na obra “não só uma alusão ao pior que o capitalismo americano poderia produzir, mas também um mergulho nas motivações humanas para fazer frente a momentos de dor e desespero” (FERREIRA, s/p, 2013).

Na década de 30 do século XX, McCoy retrata, a partir de grave crise econômica, a dor e o sofrimento dos americanos, “a experiência da alienação e estranhamento (que) poderia se transformar numa atração sadomasoquista para um público ávido em se divertir vendo pessoas que, supostamente, teriam uma vida pior do que a deles” (FERREIRA, s/p, 2013).

A maratona de Glória Beatty e Robert Syverten conta o quanto a obra de arte é influenciada pela sociedade, da mesma forma que a vai influenciar, e tem-se, então, a possibilidade de se observar a noção explicitada pelo novo historicismo, que

rejeita a autonomia do autor e do texto literário, este último visto como inseparável de seu contexto histórico. O papel do autor é determinado por circunstâncias históricas. (...) O texto literário está imerso numa construção verbal ligada a um período e um lugar específicos, os quais sempre têm conotações políticas. (BONNICI, 2009, p. 153).

Esse novo historicismo é uma interpretação crítica que destaca as relações de poder, uma prática da crítica que apresenta os textos literários como um espaço, no qual se tornam visíveis essas relações.

O metafórico título inglês – They shoot horses, don’t they? – nos conduz à “conclusão de que a vida daqueles deserdados, participantes por dias a fio da maratona, em sua maioria vencidos pelo cansaço e pela dor, não vale mais do que a vida de um animal ferido num acidente” (FERREIRA, 2013).

Recessão econômica, miséria, desemprego, humilhação, indignidade, sonhos esfacelados, indigência, animalização, o sexo como instrumento de poder, ilusões hollywoodianas, liga de mulheres em prol da moralidade, atores e atrizes, alienação, maratona de danças, prostituição, dores físicas, angústia, neurose, desespero, sacrifício de cavalos, esperanças num raio de sol, amizade, piedade, bondade, depressão suicida, crime.

Assim é o painel montado por Horace McCoy, um diálogo da ficção com a história, a recriação de um tempo e de um lugar, um discurso permeado pelas potências da história, a narrativa de um mundo recriado, onde se dança para sobreviver e onde se matam todos os cavalos.

Horace McCoy cria uma obra que permite múltiplas leituras, interpretações e adaptações diversas – cinema, desfile de modas, por exemplo – e, sobre ela, parodiando Caetano Veloso na letra da canção O ciúme, “paira monstruosa a sombra” da história.

A história ronda a narrativa, proscreve a lógica, mata as esperanças, fragmenta e descentra o sujeito e faz, até mesmo, do assassinato um favor pessoal.

Referências

AQUINO, R. S. L. et al. História das sociedades: das sociedades modernas às atuais. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1997.


BONNICI, T., ZOLIN, L. O. (organizadores). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2009.
BRESSER-PEREIRA, L. C. As revoluções utópicas dos anos 60: a revolução estudantil e revolução política na igreja. São Paulo: Editora 34, 2002.
CIRLOT, J. E. Dicionário de símbolos. São Paulo: Centauro, 2005.
COMPAGNON, A. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
CULLER, J. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca. 1999.
FERREIRA, W. R. V. A noite dos desesperados: em um mundo sem coração. Disponível em: http://cinegnose.blogspot.com.br/2013/01/a-noite-dos-deseperados-em-um-mundo.html. Acesso em: 15 jan.2015.

FILHO, B. C. N. A história editada – O novíssimo romance histórico. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007.


GANCHO, C. V. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2002.

GRIMAL, P. Dicionário de mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, s/d.


GUÉRIOS, R. F. M. Dicionário de nomes e sobrenomes. São Paulo: Ave Maria, 1981.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.
KURY, M. da G. Dicionário de mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
LABKI, A. (organizador). Folha conta 100 anos de cinema: ensaios, resenhas, entrevistas. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
LESKY, A. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 2010.
McCOY, H. Mas não se matam cavalos? Tradução de Irene Hirsch. Porto Alegre: L&PM 2007.
MENDONÇA, M. H. A noite dos desesperados – uma representação de Alexander MacQueen. Disponível em:

http://revistas.unibh.br/índex.php/dtec/article/view/480/269#. Acesso em: 20 jan.2015.


PEREIRA- FILHO, F. A. 70 anos do Oscar. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997.
SANTOS, P. B. Literatura e intervenção: romance histórico no Brasil. Disponível em:
SANTOS, V. E. dos. (organizador). O trágico e seus rastros. Londrina: Eduel, 2004.
WEINHARDT, M. Ficção histórica: teoria e crítica. Ponta Grossa: UEPG, 2011.


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal