O ano Novo de Long-Long



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Encontro16.10.2017
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O Ano Novo de Long-Long
— Acorda, Long-Long, estamos quase a chegar!

Long-Long olhou de relance os cestos cheios de salada apetitosa que o avô transportava. Era a primeira vez que ia à cidade.

Nunca vira tanta gente. Pessoas a falar, a andar, a deslocar-se em bicicleta, e a dançar as suas músicas preferidas. Sentia-se que o Ano Novo está perto, e que toda a gente se preparava para a festa. De repente, ouviu-se um grande estrondo.

Aiah!exclamou o avô, ao ver o pneu furado da carroça.

— Segura no guiador que eu vou lá atrás empurrar, avô! — ofereceu-se Long-Long.

O sol já ia alto e tinham de despachar-se para chegar ao mercado antes dos primeiros clientes. O avô estava preocupado, porque, se não vendesse a salada, a família não teria dinheiro para a festa do Ano Novo. Com a ajuda do neto, descarregou os cestos; em seguida, Long-Long foi procurar alguém para reparar o pneu.

Aiah! — gritou uma rapariga, aos ziguezagues com a bicicleta.

Ia em direcção a Long-Long, mas conseguiu travar mesmo a tempo. O peixe fresco que comprara saltou do cesto e as laranjas espalham-se por todo o lado. Long-Long correu a apanhá-las e voltou a pô-las no cesto. A rapariga sorriu abertamente e ofereceu-lhe uma laranja.



O rapaz reparou, então, que estava precisamente diante de uma oficina de bicicletas. O mecânico pôs um remendo no pneu da carroça do avô, enquanto outras pessoas esperavam que as suas bicicletas fossem reparadas.

— Precisa de uma ajudinha? — perguntou Long-Long.

— Boa ideia! — respondeu o mecânico. — És capaz de encher alguns pneus?

O rapaz levantava e baixava o êmbolo da bomba com toda a força, enquanto cada cliente ia deixando três ou quatro mao numa pequena caixa de madeira. O mecânico agradeceu-lhe e colocou um yuan de prata novinho na mão de Long-Long, que se apressou a ir ter com o avô.

— Já voltaste, Long-Long? — perguntou o velho, a sorrir.

Long-Long viu que os cestos continuavam cheios e disse:

— Não te preocupes, avô. O pneu já está reparado e, olha, tenho uma laranja e uma moeda!

O avô olhou para a moeda que brilhava na palma da pequena mão do neto.

— Tu és um menino muito corajoso, Long-Long, mas essa moeda não vai chegar para comprarmos tudo o que precisamos para preparar a festa do Ano Novo.

O rosto de Long-Long entristeceu-se. Ele e o avô tinham contado pacientemente os dias até a salada estar pronta para ir para o mercado. Ma e a priminha Hong-Hong iam ficar muito desiludidas se eles voltassem para casa com a salada já murcha e de mãos vazias.

Mesmo ao lado deles, havia uma mulherzinha a vender salada também, só que não tão bonita como a do avô. Quando ninguém estava a ver, a mulher regava-a com água para parecer mais fresca. Depois chamava as pessoas, não deixando que se aproximassem dos cestos do velho. Quase não deixava os clientes observar os molhos de salada, e pesava-os à pressa. As pessoas da cidade eram facilmente enganadas, e não se apercebiam de que a salada dela estava cheia de manchas escuras.

Long-Long deu uma volta pelo mercado, a ver o que poderia fazer para ajudar o avô. Chegou perto de um restaurante ao ar livre. O cheirinho que provinha das panelas até fazia crescer água na boca.

— Queres comer alguma coisa? — perguntou a cozinheira.

Long-Long olhou para a sua moeda e pensou no que poderia comprar com ela. Dois crepes com sabor a porco e gengibre? Uma sopa de arroz com legumes marinados? Foi então que se lembrou de Ma e da pequena Hong-Hong e decidiu guardar a moeda.

— É a primeira vez que te vejo por cá — disse a cozinheira.

— Vim vender salada com o meu avô — explicou Long-Long, com ar tímido.

— Podes vender-me salada fresca para eu fazer a sopa e os crepes! — exclamou ela.

Long-Long levou a cozinheira até junto do avô. Estava com receio de que ela preferisse a salada da outra mulher. Contudo, ao ver a vendedora, a cozinheira ficou furiosa:

— Já te tinha dito para não pores mais os pés aqui! O que estás tu a vender desta vez? Salada com manchas e com lagartas?

Atraídos pelos gritos, alguns curiosos começaram a juntar-se e, daí a nada, todos viraram as costas à mulher e foram comprar a salada do avô. Este pesava-a cuidadosamente e, em seguida, Long-Long atava os molhos como se fossem flores para entregar aos clientes. A mulherzinha enfureceu-se. Procurou chamar a atenção gritando e batendo com o pé, mas nada conseguiu. Não vendeu uma única salada.

— Long-Long, já vendemos tudo, até à última folha — alegrou-se o avô. — Já temos o dinheiro necessário para a festa do Ano Novo!

Foram comprar especiarias, arroz, farinha, óleo, foguetes e folhas de papel vermelho com votos de felicidade, tais como Fu, escritos. Foi tudo posto na carroça, menos um enorme peixe salgado. Como não havia espaço para ele, o avô pendurou-o no guiador. De seguida, pararam diante da Loja dos Cem Artigos. O avô deu dez yuan a Long-Long.



— Vai! — disse-lhe — e compra o que quiseres, enquanto eu arrumo os embrulhos para irmos embora.

Na loja, estava uma mãe a comprar elásticos para o cabelo da filha. Long-Long pensou em Hong-Hong e comprou também dois para ela, enfeitados com morangos. Iam ficar bem nas suas tranças e fariam ressaltar as lindas faces rosadas de Hong-Hong. As mãos de Ma também ficavam vermelhas com o frio. Long-Long decidiu oferecer-lhe um creme, mas deu-se conta de que só tinha os 10 yuan do avô. Se tivesse só mais um… Então, lembrou-se de que ainda guardava, no fundo do bolso, a moeda que o homem das bicicletas lhe dera. Entregou-a com orgulho à rapariga da caixa.

Num instante, o bater do gongo e o rufar dos tambores na rua elevaram-se nos ares. O desfile do Ano Novo ia passar diante da loja! Long-Long correu para o ver. De volta à carroça, Long-Long encontrou o avô à sua espera, com um pauzinho envolvido de frutos em caramelo.

— Comprei-te um tang-hu-lu — disse-lhe. — Vamos para casa, agora. Ma e Hong-Hong devem estar a preparar o nosso Ano Novo.

No caminho de regresso, viram faixas de papel vermelho nas portas e janelas de todas as casas.

Schlac! Schlac! Schlac!”  ouviram ao chegar a casa. Ma estava a cortar legumes para fazer crepes nessa noite. Hong-Hong correu ao encontro deles.

— Já chegaram! Já chegaram! — gritou a plenos pulmões.

Ma veio à porta. Long-Long pegou no quadrado de papel vermelho em que estava escrito Fu e pregou-o na parte de trás da porta. Ma e o avô sorriram e Hong-Hong aplaudiu. A felicidade e a boa sorte chegaram mesmo a tempo do Ano Novo à casa de Long-Long!
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O primeiro Ano Novo
Há muito, muito tempo, existia uma aldeia igualzinha à de Long-Long, onde as pessoas viviam cheias de medo. A cada doze meses, um monstro terrível chamado Nian saía da sua gruta, situada no mais fundo do mar, e vinha atormentar os aldeões. Um dia em que estes tinham fugido a refugiar-se nas montanhas, cruzaram-se com um mendigo que se dirigia para a aldeia, mas ninguém o avisou. Na aldeia ficara apenas uma pessoa. Era uma velhinha viúva que estava demasiado enfraquecida para poder acompanhar os outros. Acolheu o mendigo e falou-lhe do monstro. O mendigo prometeu ajudá-la, mas pediu à velhinha que lhe fizesse primeiro uns crepes, porque estava cheio de fome.

Schlac! Schlac! Schlac!”, fazia a viúva ao cortar os legumes para os crepes. Entretanto, o monstro Nian acordou do seu longo sono profundo e dirigiu-se para a aldeia. Estava ainda meio adormecido e o barulho que a velhinha fazia irritava-o. Dirigiu-se para a casa, onde o mendigo o esperava. O homem tinha pregado papel vermelho nas portas e janelas, e a cor viva ofuscou os olhos sensíveis de Nian, como se os trespassasse com um milhar de alfinetes! O mendigo também tinha acendido um pau mágico de bambu. O pau crepitava e assobiava, agredindo os ouvidos delicados de Nian, que correu a refugiar-se bem lá no fundo do mar. Nesse momento, o mendigo desapareceu também.

Quando os aldeões regressaram a suas casas, a viúva contou-lhes as proezas do mendigo. Desde então, os Chineses seguem o exemplo deste mendigo em cada Ano Novo. No entanto, hoje em dia, as pessoas não têm paus mágicos de bambu para meter medo a Nian. O que achas que Long-Long e a família usavam em vez deles?
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Pequeno glossário
Long – É a palavra chinesa para “dragão”. Long-Long tem este nome por ter nascido no ano chinês do dragão.

Aiya – Os Chineses gritam esta expressão quando estão surpreendidos ou chocados.

Mao – O mao é a moeda chinesa. Pode apresentar-se sob a forma de moedas ou notas. O mao vale um pouco menos do que um cêntimo de euro.

Yuan – É também a moeda chinesa. Vale 10 mao. Existe igualmente em moedas e notas. Um yuan vale um pouco menos do que 10 cêntimos do euro.

Ma – As crianças chinesas chamam Ma à mãe. É como o começo da palavra “Mamã”.

Hong – Significa “vermelho” em chinês. Hong-Hong tem este nome por causa das suas faces rosadas.

Fu – Fu significa “Boa sorte”. É pintado quase sempre em papel vermelho. No Ano Novo, os Chineses pregam este papel no interior da porta de entrada para terem sorte durante o ano todo.

Loja dos Cem Artigos – É uma loja tradicional que se encontra em muitas das cidades chinesas, e onde se vende de tudo.

Tang-hu-lu – É uma espécie de bombom feito de frutas arredondadas, enfiadas num pauzinho, e cobertas de caramelo derretido. Os frutos parecem-se com tomates. O tang-hu-lu é uma guloseima muito apreciada pelas crianças.

Nian – Segundo a lenda chinesa, Nian é um monstro terrível. “Nian é também a palavra chinesa para “ano”. Em cada Ano Novo, os Chineses livram-se do velho Nian para começar um novo ano.

Catherine Gower

Long-Long’s New Year

London, Frances Lincoln, 2005



(Tradução e adaptação)


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