Novo disco de marisa monte faz tributo à cançÃo de amor véronique Mortaigne



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Encontro07.02.2017
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NOVO DISCO DE MARISA MONTE FAZ TRIBUTO À CANÇÃO DE AMOR

Véronique Mortaigne

Le Monde / Junho de 2000

Ao gravar a balada "O que me importa", que conhecera na voz de Tim Maia, Marisa Monte ficou intrigada por não ter informação alguma sobre o autor da música, creditada apenas a um tal de Cury. Sucesso em 1971 na voz de Adriana - cantora que teve algum cartaz no período pós-jovem guarda - a canção foi gravada no ano seguinte por Tim. A versão de Marisa, em seu novo CD, "Memórias, crônicas e declarações de amor", acabou trazendo à tona a história de José de Ribamar Cury Heluy, um descendente de árabes, filho de pai maranhense e mãe piauiense. Nascido no Rio Parnaíba, na fronteira entre os dois estados, chegou ao Rio com 17 anos, em 1963, para trabalhar no Banco do Brasil, e acabou se tornando testemunha e protagonista de parte da história da MPB. Cury soube pela imprensa da curiosidade da cantora e enviou um e-mail ao seu escritório. Anteontem, acabou conhecendo-a num encontro promovido pelo GLOBO, no Parque Lage.

Surpreendentemente, apesar da diferença de gerações e estilos, os dois descobriram muitas afinidades. Cury explicou que Adriana não fazia parte do grupo da jovem guarda, - a cantora só surgiu em 1969 com a canção "Vesti azul", quatro anos depois de Roberto Carlos estourar com "Que tudo vá para o inferno". Marisa, apesar de admitir ter gravado a canção buscando um clima da época, disse que seu novo trabalho fala das diversas formas do amor.

- Meu CD fala de amor e das sensações que estão em torno dele. Assim sendo, não posso deixar de falar do lado infantil que é muito presente. Em "Amor I love you" até a percussão remete a brinquedos. Mas, "Para ver as meninas", do Paulinho da Viola, e a própria "O que me importa" são músicas densas - explicou Marisa, que também anda apaixonada pela fotografia e, a exemplo do que fez para a capa e encarte de seu disco e seu site na Internet, clicou as fotos desta reportagem com uma câmera digital.

Ouvindo atentamente Marisa, Cury emendou:

- Por trás do amor está a solidão. Daí ele acarretar tantos sentimentos distintos. Antes do amor somos sozinhos.

A cantora quis saber do compositor como ele conheceu Tim Maia e acabou descobrindo que as afinidades não paravam por aí. Vizinho de um radialista, Cury era o anfitrião de encontros musicais, em 1968, que reuniam músicos de diferentes vertentes, entre eles Jerry Adriani, Raul Seixas e o grupo Diagonais, então comandado pelo cantor e compositor Cassiano, outra das referências de Marisa.

- Adriana ia entrar em estúdio para gravar "O que me importa". Uma semana antes, fui acordado de madrugada por ela ao telefone dizendo que um amigo queria me conhecer. Era Tim. Não acreditei e xinguei-o de tudo. Quando parei, ele disse que se não fosse vê-lo, iria para baixo da minha janela berrar meu nome até eu descer - lembra Cury.

Tim Maia, ao encontrar Cury, disse que não ia roubar a música porque era amigo de Adriana, mas que depois de um ano iria gravá-la. E foi esta versão que, quase três décadas depois, aproximou Marisa do desconhecido Cury.

- Sempre gostei muito de Tim Maia. O primeiro disco que tive foi o compacto de "Primavera". E ele sempre dizia para procurar o Cassiano, grande compositor que teve pouca coisa gravada. Quando fomos fazer o tributo "Cedo ou tarde", também me aproximei muito de Cassiano, que tem um baú de canções inéditas - lembrou Marisa.

Anfitrião de futuras estrelas da MPB

O lado árabe de Cury sempre esteve presente, segundo ele, na facilidade para os negócios e para agregar os amigos. Seu apartamento em Ipanema era, no final dos anos 60, ponto de encontro de músicos apresentados a ele pelo vizinho, o radialista Luiz Carvalho. Nesse endereço, Cury conheceu Raul Seixas, ainda Raulzito, recém chegado ao Rio com seu grupo Os Panteras:

- Foi Jerry Adriani quem trouxe o Raul e a banda para cá, depois de uma excursão pela Bahia. Eles chegaram sem dinheiro e Jerry conseguiu que gravassem na Odeon.

Cury, que em muitas ocasiões dormiu e acordou ouvindo Raul tocar, conta que Jerry Adriani arrumou um emprego para ele na CBS e nomeou-o seu próprio produtor.

Nesta época Cury fez sua primeira música de relativo sucesso, "Viu", parceria com o baterista dos Panteras, Carleba, gravada por Adriana. O sucesso viria com "O que me importa", na voz da mesma Adriana, em 1971.

- Ela fez mais sucesso na voz da Adriana do que na do Tim - diz Cury.

"O que me importa" ganhou o Troféu Sistema Globo de Rádio como a melhor música de 71. Cury trabalhava no Banco do Brasil, onde ficou por 30 anos e, mesmo compondo apenas nas horas vagas, quase sempre com o parceiro Ed Wilson, foi gravado por Jerry Adriani, Sidney Magal e Renato e seus Blue Caps.

Depois de um encontro com Roberto Carlos, Cury compôs "Aparências" pensando na voz do Rei. Foram quatro anos atrás de Roberto até "Aparências" parar nas mãos de Márcio Greyck, levando Cury novamente às paradas.

- "Aparências" foi gravada até pela orquestra de Ray Conniff. Quando Roberto ouviu a música perguntou por que eu não havia mandado para ele - lembra Cury.

Em 1986, novo sucesso. Alcione gravou "Quem é você", parceria com Ed Wilson. A canção, também registrada na voz da cantora argentina Sandra Mihanovic, ficou um ano no topo das paradas argentinas. Hoje aposentado, Cury não largou a música e passa o dia no estúdio que montou dentro de sua própria casa.

Ao fim do encontro, emocionado, Cury diz que Marisa levou-o a se lembrar do dia em que ouviu pela primeira vez a gravação de Tim.

- Ela aproximou 1972 do ano 2000. Quando a gente consegue reviver a mesma emoção de tempos atrás é porque estamos jovens - disse.

Ao saber que Cury continua ligado à música, Marisa combinou uma parceira e falou sobre o ato de compor:

- Anos depois a gente percebe coisas nas nossas letras para as quais não conseguimos atentar na hora. Elas revelam o que somos.

Canção tem três versões em um ano

Autor: Hugo Sukman



Inusitada a história de certas canções que pairam sobre o imaginário até que vai alguém e, pimba, a transforma em sucesso. "Sozinho" passou por Sandra de Sá e Tim Maia até valer a Caetano o maior sucesso popular de sua carreira. O mesmo acontece agora com "O que me importa", não por acaso pinçada por Marisa Monte do filtro popular brasileiro de Tim Maia.

O curioso é que não foi só Marisa. Outras duas versões totalmente distintas foram feitas há menos de um ano: uma pop setentista do Ira!, com direito a pedal wah wah na guitarra de Edgard Scandurra, no disco "Isso é amor" (Abril); outra emepebista, do bom cantor paulista Renato Braz, em "História antiga" (Atração). Esta é a mais curiosa: num arranjo simples (violão, baixo e sax), Dori Caymmi harmoniza de forma complexa a canção aproximando o velho hit de algo que não faz feio junto a músicas de Tom, Edu e Chico que estão no repertório. Agora, em versão que recupera o clima romântico original, ela vai virar sucesso com Marisa. Inusitada a história de certas canções...


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