Notícias do front: Amanhã, todos perderemos



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Encontro11.08.2017
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Notícias do front: Amanhã, todos perderemos.
muitos anos, Marcelo Souza me convidou para colaborar com um blog que se chamava "O Cupim de Ferro". O ditado que abria o blog era: "Ansiamos pelo dia em que a realidade nos permitirá falar de poesia". Era ainda o século passado. O tempo fez o que sempre faz, passou e falar sobre poesia, e escrever poesias, contos, enfim, fazer algo que entendamos como arte só acontece por uma necessidade monumental do corpo - e, no meu corpo, é a necessidade maior do revide, do devolver o insulto. "Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera." O tempo é ainda de homens mesquinhos, fúteis, banais, menores. O tempo é ainda de antipoesia. Mas, glória a deus, a antipoesia é também poesia.
Hoje, profundamente envergonhado, vislumbro a guerra entre os incompetentes e os canalhas, e, no meio, a turba repetidora e balbuciante. Para cada argumento nobre da canalha, você apresenta um argumento nobre. Então, a canalha grita, manipula, ocupa os canais de televisão, recorta, transcende, chama ao púlpito nomes que jamais frequentariam a sua mesa, insulta pessoas de provado valor para a sociedade. E, daí, como a repetição constrói verdades na medida inversamente proporcional à inteligência, parte da população mais humilde se presta a reproduzir aquilo que irá contra ela mesma.
Quando jovem, ouvia e cantava uma banda de nome Ira, cujo cantor era o Nazi e que tinha alguns versos como estes: "Não quero ver mais essa gente feia/ Não quero ver mais os ignorantes/ Eu quero ver gente da minha terra/ Eu quero ver gente do meu sangue." E eu cantava e pulava e gritava, sem nunca me perguntar quem era aquela gente feia, quem eram os ignorantes. Foi o amigo Fabiano Morais, que já era velho quando tinha seis anos, que me disse o óbvio: a gente feia é a gente que não é da terra, é aquela não adornada com os modos das academias, a gente feia é você, Máximo, o nordestino. A gente ignorante é você, "fio", destinada às portarias, aos trabalhos que não interessam aos donos da terra, os esclarecidos. E mesmo quando você conseguir furar este buraco, você será útil para mostrar como é possível vencer, como é possível construir um império de livros e falar de Sartre e Camus quase como se fosse um deles. Você sabe, né?, o livro pode tirar um homem da miséria, "mas não pode arrancar, de dentro dele, a favela". 
Então, chegamos no domingo, quando terminará mais um capítulo deste espetáculo de horrores - e começarão outros, independente do resultado. Este futebol de narrativas que se concretizou com a instalação de um muro em plena capital do país, onde, de um lado, segundo as palavras de um amigo, estarão "a força, o foice, o analfabetismo e a mortadela" (SIC), e do outro, agora nas minhas palavras, estarão os ladrões com ternos bem cortados e título de doutor, os coronéis da velha guarda, os meninos mimados, que perderam o brinquedo, os torturadores e assassinos patrocinados pela FIESP, os grileiros, os falsos pastores. E eu, claro, ao lado dos analfabetos (e tenho um número significativo de renomados professores de renomadas universidades que estarão deste lado também) e, a julgar pelas declarações em rede social, gostaria de acrescentar também a este grupo de gente feia e ignorante, o grupo de artistas geniais que a grande maioria do país admira.
Li em algum livro sobre a mediocridade da elite nacional, que, mimetizando o modo europeu, acredita tornar-se ela mesma europeia. Que acredita que, comendo nos melhores restaurantes do mundo, ainda que seja com dinheiro roubado, afasta-se da pobreza de sua nação de origem. Então, observar as manipulações e ouvir os porta-vozes dos discursos da elite esclarecida, reconhecer sua incompetência argumentativa e o faniquitos dos gritos desesperados, da teatralidade do gestual, destes que tiveram acesso ao mundo das ideias, me fez saber quão certo estava aquele pensador.
Domingo, não a melhor narrativa, mas aquela que se repetiu mais e com mais fervor, se tornará “verdadeira” e, como prova de nossa incapacidade de sentir vergonha, do exercício canalha de negar eternamente, haverá comemoração e festa. De qualquer forma, o país continuará parado, de joelhos. De qualquer forma, o povo mais humilde (que está dos dois lados) não terá quem o defenda, já que os dois lados se dispuseram a fazer qualquer negociação a fim de atingir seu objetivo: chegar ao poder. Ninguém levou a sério o ministro do Supremo Tribunal Federal que pediu que se unissem por um objetivo maior, um objetivo que ultrapassasse o próprio umbigo.
Domingo, como numa guerra, só haverá derrotados. Parabéns a todos que se empenharam para que assim fosse. 


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