No caso a caso da escola



Baixar 32,68 Kb.
Encontro02.08.2017
Tamanho32,68 Kb.
DO SOCIAL AO SINGULAR: A INTERVENÇÃO, EM GRUPO,

NO CASO A CASO DA ESCOLA

Margarete Parreira Miranda1


O Núcleo de Formação e Trabalho Docente da Universidade Estadual de Minas Gerais (NFTD) tem privilegiado, nos últimos três anos, debates, estudos e pesquisas em torno da formação docente. Um dos eixos que se destacam é a busca de interdisciplinaridade envolvendo os campos de Educação, Psicanálise e Formação de Professores. Nos últimos dez anos, a psicanálise aplicada à educação tem-se constituído o foco de pesquisa em meus estudos vinculados à dissertação de Mestrado e tese de Doutorado, defendidas na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, na linha de Pesquisa, Psicologia, Psicanálise e Educação, privilegiando o objeto “O mal-estar do professor em face do aluno considerado problema – um estudo de psicanálise aplicada à educação”. No Laboratório de Pesquisa “Trocando em Miúdos” do CIEN – Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Infância, da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais, temos investigado situações de impasse na educação, no enfrentamento dos sintomas de nossa época, promotores da violência e da segregação.

O presente artigo foi formulado a partir de um projeto de pesquisa-intervenção em uma escola pública da cidade de Belo Horizonte. Trabalhamos com o dispositivo da psicanálise aplicada às Conversações com professores, promovendo ação concomitante de estudo de caso de um adolescente em processo de “medida protetiva”.

Do público ao privado, do social ao singular, a análise do material coletado em campo possibilitou ler o que se escuta nas Conversações: o movimento do ideal ao real nas intervenções sobre os sintomas que perturbam o funcionamento institucional e de cada um que ali se insere. Do que fracassa na educação, demonstramos as transformações que se operam quando a palavra consequente tem lugar.


AS CONVERSAÇÕES: “que cada um contribua com pequena quota”
As Conversações não seriam uma “conversa qualquer”, embora possam acolher, inicialmente, “qualquer conversa”, em grupo. Seu princípio ético tem na psicanálise sua base: ‘falar livremente’ sobre o que perturba o funcionamento do sujeito e da instituição, em um substrato que toma a cadeia discursiva, onde um significante chama outro significante. Cada palavra nova relança representações que deslocam sentidos ou criam novos argumentos, dando abertura às invenções singulares.

O termo “conversação” evoca os diálogos de Sócrates e Platão na Grécia antiga, quando, nos ‘banquetes’, se debatiam os temas propostos. Não se tratava de uma conversa qualquer, pois envolvia “concurso íntimo entre pessoas”, afirma Jacques Lacan. E interroga: “O que é, então, o banquete?” (LACAN, [1960-1961] 1985, p. 29). Responde afirmando que se trata de uma ‘cerimônia’ marcada por regras e ritos, em que a troca de intimidades propiciava um jogo de sociedade. “O regulamento que ali se impõe nada tem de excepcional – que cada um dê sua quota, sob forma de uma pequena contribuição, que consiste num discurso pautado sobre um tema” (LACAN, [1960-1961] 1985, p. 29). “Que cada um dê sua quota” sobre um tema comum que se discute parece ser o ponto de ligação entre as Conversações com base psicanalítica e os diálogos de Platão.

As Conversações não acatam estatutos de verdades generalizáveis, mas aceitam o desafio de que, em grupo, uma cisão intrapsíquica subjetiva opere. Assim, o sujeito do inconsciente poderá se expressar, dando contornos aos efeitos perturbadores do mal-estar na cultura, em cada um, com chance de encontrar palavras que o representem. “Aquele que vai tomar a palavra escapa à razão e ao entendimento”, lembra Philippe Lacadée (2003, p. 14). Aí, então, novas e inesperadas janelas poderão se abrir para aquele que se enuncia pela palavra.
Leitura sociológica dos grupos, os ideais identificatórios e a leitura psicanalítica do real dos grupos
É importante destacar que pensar o grupo de indivíduos de forma organizada ou não é uma questão colocada pela psicanálise, em Freud, que a problematiza em seu artigo Psicologia das massas e análise do eu ([1921] 1976, p. 89-179). Nesse artigo, ele se dispôs a investigar como o grupo adquire a capacidade de exercer influência decisiva sobre a ‘vida mental’ do indivíduo, que age de maneiras diferentes quando se vê em grupo e quando se encontra só. Destaca o “sentimento de poder invencível” em grupo que supera a individualidade, o ‘contágio’ promotor de um ‘estado hipnótico’ e a ‘sugestionabilidade’ produtora de ‘estado de fascinação’.

Para além dos efeitos identificatórios do sujeito com o discurso do mestre de sua época, entendemos que as Conversações abrem espaço a questionamentos sobre as generalizações que “contagiam” os sujeitos identificados com esse discurso. Assim, o sujeito se apresentaria ao avesso da ‘mente grupal’.

São pertinentes ainda os apontamentos de Freud sobre a figura do ‘líder’. Para ele, “um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe” (FREUD, [1921] 1976, p. 105).

Nessa visão, o líder deveria ser aquele capaz de despertar o grupo pela intensa fé em uma ideia na qual acredita ‘fanaticamente’. Está recoberto por um poder misterioso e irresistível – o ‘prestígio’, que paralisa a capacidade crítica do outro. Um estado que se assemelharia à fascinação da hipnose. Nas Conversações, entretanto, cada um tem o seu valor e “dá a sua quota, sob forma de uma pequena contribuição”, nos lembra Lacan ([1960-1961] 1985), em referência aos diálogos de Platão.

Firmamos que o lugar do analisante em uma Conversação é sustentado pela transferência. Em sua disposição parcial e jamais totalizadora, o ‘agalma’, como Lacan indica, seria uma condição em que “o importante é o sentido brilhante, o sentido galante, pois esse termo vem de gal, brilho no francês antigo” (LACAN, [1960-1961] 1985, p. 146). Destaca ali, entretanto, que o que reluz é a “maneira de apresentar alguma coisa” que, em um duplo sentido, anuncia um objeto precioso então guardado. Lacan diz: “O importante é o que está no interior” (LACAN, [1960-1961] 1985, p. 141). Para ele, essa seria a função do objeto parcial que os analistas descobriram. Um fulgor lusco-fusco, já que é parcial, um pedaço da totalidade, como nos lembra Miller (2010) em A salvação pelos dejetos.

Miller (2010, p. 20) diz que lidamos com o que cai, aquilo que como dejeto “é especialmente rejeitado ao fim de uma operação [psíquica]”. É o que tomba quando, por outro lado, se eleva. É o que se evacua ou que se faz desaparecer. O desejo é informe, enquanto o ideal, diferentemente, resplandece.

Assim nos apresentaremos como analistas, em Conversação. Poderemos acolher o que ‘ali insiste em não se inscrever’, que como ‘resto’ cai, mas que como peças avulsas pode ser relançado, em busca de novas invenções: a “singularidade própria a cada um em sua relação com o coletivo ali revelado”, nos lembra Laurent (2007, p. 47). Do geral às exceções, do ideal ao real, é o caminho que apostamos ser possível percorrer.

Essa posição poderá favorecer o enfrentamento do mal-estar em nossos dias, que nas Conversações nas escolas ganha vários nomes, como “violência”, “abuso” e “desconsideração”.


Professores em Conversação: “alunos invisíveis, professores invisíveis”
Os profissionais da educação, que enfrentam no dia a dia de seu trabalho exigências de um supereu normativo em busca de resultados, apresentam-se, assim, inicialmente queixosos, nas Conversações: “Lidamos com bombas armadas que temos que desarmar; alunos invisíveis e professores invisíveis. A família não nos vê, a Regional não nos vê, é só cobrança. Há muita desconsideração”.

Em nosso percurso interdisciplinar pelas escolas públicas de Belo Horizonte, uma questão se destaca: em que momentos os educadores consentem em inventar saídas frente aos impasses na relação com crianças e adolescentes?

- T só quer encrenca, dizem os professores, nas Conversações.

- Quem é T?, perguntamos após mencionarem o aluno.

- Aluno adolescente que não respeita ninguém, não entra em sala de

aula, não faz atividades. Foi pego com vasilhame de cola de pneu na escola. Está cumprindo medida protetiva por agressão física a uma colega de outra escola, expressam.

Os educadores queixam-se engessando T aos sintomas. O detalhamento dos comportamentos inadequados exalta a imagem que ganha consistência e, à medida que se expande, reduz o adolescente às nomeações cristalizadas: encrenqueiro, drogado e infrator.

- A coordenação pressiona o professor. Não sabemos o que fazer e estamos profundamente solitários e esmagados, concluem.

- E aí o professor se torna invisível?, interrogamos.

Dizem-se solitários e desafiam os profissionais do “Trocando em Miúdos” a darem respostas do que fazer com esse aluno impossível.

A resposta dos psicanalistas foi promover uma entrevista com T, visando recolher, com o adolescente, elementos que pudessem favorecer “certa socialização do gozo e laço social”. (MILLER, 2009)
Minha mãe fugiu, não sei de quem: o singular na escola
T, 14 anos, chega à entrevista com aparente descaso: não olha de frente, joga a mochila na outra carteira e mexe no celular. Dizemos que gostaríamos de saber um pouco sobre ele, como está na escola e na vida. Não responde. Ao pedirmos seu nome completo e de seus familiares, ele relata:

“Meu pai morreu quando eu estava na barriga da minha mãe. Morreu de tiro no pescoço. Minha mãe fugiu, não sei de quem”.

Embora as relações familiares sejam conturbadas, T expõe a existência de laço com o irmão e a avó. Buscamos localizar pontos possíveis de referência também na escola.

“A escola não serve pra nada não. Escola é lixo. Professor é tudo folgado”, diz.

- Eles não conversam com você?

“Eu é que não converso. Tem uma professora bacana, a R, de Ciências”.

O adolescente demonstra laço precário com a escola, instituição que poderia lhe ofertar o social. Emerge, contudo, em meio à incipiência, o nome da professora. De T não conseguimos recolher, com um encontro, a extensão ou o porquê dessa deferência.

No transcorrer da entrevista, deu mostras da agressividade: “Estou a fim de bater na diretora e vou bater. Na coordenadora também”. Ainda: “Não tem nada que possa ser feito pra melhorar a escola. Não faço nada aqui porque não gosto: quero ser bandido quando crescer”.
A professora de T não é uma professora qualquer: uma interlocução possível
Na Conversação, os professores querem saber sobre nosso encontro com T. Perguntamos: - Quem é R de Ciências? Pedimos que a professora falasse de sua experiência com T, já que fora citada pelo adolescente na entrevista. Até que ponto ser distinguida do coletivo pelo aluno poderia favorecer sua implicação com o caso? Ela diz:

Olho pra ele quando está fazendo alguma coisa errada, como colocar os pés em cima da carteira da frente. Ele sustenta o meu olhar. Com gestos, aponto para seu pé na cadeira, e ele faz um gesto com a cabeça, como se dissesse: “Que é que tem?”. Faço outro gesto pra ele retirar os pés, e ele obedece.
O que haveria de peculiar na relação da professora com aquele aluno? Se os professores se queixavam inicialmente da “invisibilidade”, surge uma “troca de olhares” ligando esse aluno à professora referida. Durante as Conversações, R sofre pressão dos colegas, que insistiam em dizer que “T é estranho e não tem boa índole”, e, a cada dia, ela sustenta sua versão do adolescente. Fazendo uma livre associação com os dizeres de T na entrevista, concluímos que a professora não fugia dele. Na última Conversação, essa professora declara: “Estava desmotivada, com vergonha de dizer que era professora, a louca da família, profissão com grau de periculosidade. Hoje acho que dou conta de ficar mais um pouco. Meninos como o T me motivam”.

Ao comentar o texto em que trazemos essa experiência, por ocasião da Jornada do CIEN em Buenos Aires, Èric Laurent (2013) argumenta que não se sabe muito de T. Segundo ele, pensa-se em uma identificação do jovem com o pai a partir da identificação com o seu assassino. Para Laurent, T inventa uma solução: “a professora R – a única que falou comigo”. Destaca que a professora tinha uma relação especial com aquele adolescente, sua proximidade com a loucura: “a louca da família”. E continua Laurent: “Proximidade com a louca supõe ser um resto. Pelo menos uma professora pode ser sua interlocutora, em uma manifestação excepcional”, diz. Segundo Laurent, trata-se de um regime da exceção que eles mesmos, os adolescentes, ensinam e indicam pessoas da exceção. Foi possível manter a inserção dos sujeitos dentro de um discurso, a partir do ponto da exceção, isto é, uma transgressão, ponto de falha no cumprimento do ideal.

Considerando ainda a interlocução de Èric Laurent com o nosso trabalho, o psicanalista destacou que os professores, hoje, testemunham o “impossível da educação”, em Freud, pois não podem cumprir com o ideal que recai sobre eles. Afirma haver uma dificuldade de subverter o discurso da norma para a exceção, nas escolas. Na demarcação de normas e regras prevalecem o mundo da proibição e o ideal do amor igual para todos, argumenta o psicanalista. Aí, então, em uma versão técnica, os limites apontam a impotência do sujeito de cumprir esse ideal.

Em sua preleção, Laurent (2013) destaca ser importante que se pense em uma interdição na medida, interdição não total. Que seja inventado um lugar que se possa suportar e a solução que possa incluir, não em nome do universal, do ideal – mas do possível. Subverter e reordenar os imperativos.

Ao concluir suas considerações sobre a intervenção na instituição escolar acima referida, Èric Laurent profere exposições acerca das Conversações, afirmando ser fundamental o psicanalista ler o que escuta. Defende que esse dispositivo da psicanálise admite a passagem de um regime a outro no discurso: de um discurso ideal abstrato para outro encarnado, expressão autêntica, objeto a – inclusão êxtima. Do grupo à singularidade, a pergunta e o ato incluem a dimensão do sujeito, nas Conversações. Enfatiza que a Conversação não é somente um espaço de escuta, mas a escuta do não abstrato.

Quando se tomam os casos particulares, a exceção, colocamos abaixo a pressão dos números, produzindo ideias a partir dessa inserção: um professor, uma professora, no caso. A Conversação é uma proposta de leitura dos casos particulares, e não uma epidemia. Propõe, então, que se produza uma epidemia a partir dos casos particulares, como o caso da professora R, de Ciências, no qual um aluno se engancha. Pode-se dizer sim e facilitar a inserção do “louco da escola”.

Alguns efeitos da intervenção na escola mencionada puderam ser recolhidos. Outras portas se abriram para T, com a discussão de seu caso em rede, envolvendo outros dispositivos da cidade. A Regional também se movimentou a respeito, e outros professores relataram novas maneiras de lidar com o adolescente, apontando perspectivas inéditas de entrada para alunos e professores. Aos psicanalistas concernidos aos sintomas de sua época, coube a oportunidade de formulação da experiência referenciada em uma “psicanálise muito viva” (Laurent, 2013).

REFERÊNCIAS
FREUD, S. Psicologia de grupo e a análise do ego (1921). In: ______. Além do princípio de prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Direção geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 89-179. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).

LACADÉE, F. Le malentendu de l’enfant. Paris: Psychè, 2003.

LACAN, J. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LAURENT, D. O psicanalista concernido. In: ______. Pertinências da psicanálise aplicada: trabalhos da Escola da Causa Freudiana, reunidos pela Associação do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

LAURENT, E. A psicanálise bastante viva. Cien-Digital 14, 2013.

LAURENT, E. Intervenção na mesa “Fazer-se interlocutores”. VI Jornada Internacional do CIEN: “Me inclui fora dessa” – a bússola que cada um inventa. Buenos Aires, 2013.



MILLER, J.-A. A salvação pelos dejetos. In: Correio. São Paulo, Escola Brasileira de Psicanálise, n. 67, 2010, p. 19- 2.


1 Psicanalista, doutora em Educação pela UFMG. Professora da UEMG, vinculada ao NFDT. Responsável pelo Laboratório “Trocando em Miúdos”, CIEN, EBP, Seção Minas.


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal