NÚmero 220 da coleçÃo argonauta



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NÚMERO 220 DA COLEÇÃO ARGONAUTA





JAMES WHITE

MÉDICO ESPACIAL

TRADUÇÃO DE EURICO FONSECA

CAPÍTULO I

Muito longe, na periferia da Galáxia, onde os sistemas estelares eram raros e as trevas quase absolutas, o Hospital Gerai do Sector Doze flutuava no espaço. Nos seus trezentos e oitenta e quatro pisos estavam reproduzidos os ambientes de toldas as formas de vida inteligentes conhecidas da Federação Galáctica, um espectro biológico que ia das formas da metana ultra frígida, passando pelos tipos mais normais, respiradores de oxi­génio ou cloro, até às criaturas mais exóticas cuja exis­tência dependia da conversão directa de radiação «dura». Os seus milhares de vigias estavam sempre cheias de luz — luz na perturbante variedade de cores e intensidades necessárias para o equipamento visual dos seus funcio­nários e dos seus pacientes extraterrestres — de modo que, para as naves que se aproximavam, o grande Hospital parecia uma enorme e cilíndrica árvore de Natal.

O Sector Geral representava um milagre duplo de en­genharia e psicologia. O seu abastecimento e a sua manu­tenção eram assegurados pelo Corpo de Monitores — o braço executivo e policial da Federação — que também tratava da sua administração, mas o atrito tradicional entre os membros militares e civis do pessoal não existia. Nem havia quaisquer dissensões notáveis entre as dez mil criaturas que formavam o quadro médico, composto por cerca de sessenta formas de vida diferentes, cota sessenta diferentes conjuntas de maneirismos, odores corporais e atitudes perante a vida. Talvez o seu único denominador comum fosse a necessidade de todos os médicos, fosse qual fosse o seu tamanho, feitio ou número de pernas, cura­rem os doentes.

O pessoal do Sector Geral era um grupo de criaturas dedicadas, mas nem • sempre sérias, que eram fanatica­mente tolerantes esta relação a todas as formas de vida inteligente — se não fosse assim eles não estariam ali, para começar. E orgulhavam-se de que nenhum caso era demasiado grande; demasiado pequeno ou demasiado desesperado. O seu conselho ou assistência era procurado por autoridades médicas de toda a Galáxia. Todos eles pacifistas, travavam uma guerra constante, sem quartel, contra o sofrimento e á doença fossem de indivíduos ou de populações planetárias inteiras.

Mas havia ocasiões em que o diagnóstico e o trata­mento de uma cultura interstelar doente, implicando a remoção cirúrgica de preconceitos profundamente enrai­zados e valores morais insanos sem a cooperação e o consentimento Mo paciente, podiam, apesar do pacifismo dos doutores encarregados do caso, conduzir à guerra. Ponto final.

A criatura trazida para a sala de observações era um grande espécime — com uma massa de cerca de qua­trocentos e cinquenta quilos, segunda os cálculos de Conway — e lembrava uma pêra Vertical, gigantesca. Cinco espessos apêndices tentaculares cresciam da es­treita secção da cabeça e um pesado avental de músculos na base evidenciava um método de locomoção semelhante ao dos caracóis, ainda que não necessariamente lento. Toda a superfície do corpo parecia em carne viva, lacerada, como se alguém a houvesse querido esfolar com tens escova de arame.

Para Conway não havia nada de invulgar sobre o aspecto físico do paciente ou o seu estado — seis anos no Hospital do Sector Geral, no espaço, tinham-no habi­tuado a visões mais espantosas — portanto aproximou-se para proceder a um exame preliminar. Imediatamente, o tenente do Corpo de Monitores que acompanhara a maca do paciente até à sala aproximou-se também. Conway tentou ignorar o bafo na sua nuca e olhou a cria­tura mais de perto.

Cinco grandes bocas estavam situadas por baixo da raiz de cada tentáculo, quatro delas abundantemente for­necidas de dentes e a quinta servindo de alojamento ao aparelho vocal. Os tentáculos propriamente ditos mos­travam um alto grau de especialização nas suas extre­midades; três deles eram simplesmente manipulatórios, um continha o equipamento visual do paciente e os mem­bros restantes terminavam numa massa ossuda, com uma extremidade córnea. A cabeça não possuía quais­quer feições: era apenas uma cúpula óssea, sobre o cé­rebro da criatura.

Não havia muito mais que ver, num exame super­ficial. Conway voltou-se para pegar nos seus aparelhos de sondagem profunda e tropeçou no monitor.

Irritado, disse: — Tenente, está a pensar a sério em estudar medicina?

O tenente corou e o seu rosto tornou-se numa horrí­vel mancha de cor sobre o verde-escuro do colarinho do uniforme. Empertigado, disse: — Esse paciente é um cri­minoso. Foi encontrado em circunstâncias que indicam que ele matou e devorou o outro membro da tripulação da sua nave. Manteve-se Inconsciente durante a viagem até aqui, mas recebi ordens para o manter sob vigilância, pelo sim, pelo não. Farei o possível por não o incomodar, Doutor.


Conway engoliu em seco e olhou para a maça córnea, terrivelmente perigosa, com que, sem dúvida, a espécie do paciente abrira caminho até ao cimo da sua árvore evolucionária. Disse secamente: — Não se esforce muito, Tenente.

Usando os olhos e um explorador portátil de raios X, Conway examinou cuidadosamente o paciente, por dentro e por fora, retirou vários espécimes, incluindo secções da pele afectada, e enviou-os para a Patologia com três páginas bem cheias de comentários. Depois deixou o doente e coçou a cabeça.

O paciente tinha sangue quente, respirava oxigénio, estava habituado a uma gravidade normal e a pressões também normais, o que, quando se considerava a forma ge­ral da besta, lhe dava a classificação fisiológica de EPLH. Parecia estar a sofrer de um epitelioma bem desenvolvido e espalhado, e os sintomas eram tão evidentes que ele devia ter começado o tratamento seta esperar pelo rela­tório da Patologia. Mas uma doença cancerosa na pele não tornava, normalmente, uma criatura inconsciente.

Isso podia indicar complicações psicológicas, e nesse caso teria de procurar auxílio especializado. Um dos seus colegas telepáticos seria a opção óbvia, se não fora o facto de os telepatas raramente poderem trabalhar com cérebros que não fossem já telepáticos e das mesmas espé­cies que eles. Excepto em casos muito raros, a telepatia era um circuito de comunicação estreitamente fechado. O que o levava ao seu amigo GLNO, o empata Dr. Prilicla...

Atrás dele, o tenente tossiu baixinho e disse: — Quando acabar o exame, Doutor, 0'Mara gostaria de lhe falar.

Conway moveu a cabeça afirmativamente. Sorriu e disse: — Vou mandar alguém vigiar o doente; guardá-lo tão bem como você está a guardar-me.

Ao dirigir-se à enfermaria principal, Conway destacou uma enfermeira humana — uma enfermeira de muito boa aparência — para ir servir na sala de observações. Devia ter enviado um dos FGLI Tralthanos, uma espécie que tinha seis pernas e era tão forte que perante uma das suas criaturas um elefante terreno teria parecido uma criatura tão frágil como uma sílfide, mas sentia que devia alguma coisa ao tenente, pela maneira como o tratara a princípio.

Vinte minutos depois, ao fim de três mudanças de couraças protectoras e uma travessia da secção de cloro, um corredor pertencente aos respiradores de água AUGL e as enfermarias ultra-refrigeradas das formas de vida de metano, Conway apresentou-se no gabinete do major 0'Mara.

Como Psicólogo-Chefe de um hospital multiambiental flutuando nas trevas frígidas da periferia da Galáxia, ele era responsável pelo bem-estar mental de um quadro de dez mil criaturas de oitenta e sete espécies diferentes. 0'Mara era um homem muito importante no Geral do Sector. Era também, confessadamente, o homem do qual era mais fácil alguém se aproximar, no hospital. 0'Mara tinha o orgulho de dizer que não se preocupava com quem se dirigia a ele ou quando, mas se essa pessoa não tivesse uma razão muito boa para o incomodar com os seus problemazinhos parvinhos, então não esperasse sair ileso das mãos dele. Para 0'Mara os médicos eram pacientes, e era crença geral que o alto nível de estabilidade entre o varie­gado e muitas vezes delicado bando de extraterrestres era devido ao facto de eles terem demasiado medo de 0'Mara para perderem o juízo. Mas naquele dia ele estava com uma disposição quase sociável.


  • Isto não demorará mais de cinco minutos e será melhor que se sente, Doutor — disse ele num tom amargo quando Conway parou perante a sua secretária. — Já observou o nosso canibal?

Conway disse que sim e sentou-se. Descreveu breve­mente o que verificara em relação ao paciente EFLH, in­cluindo a suspeita de que podia haver complicações de natureza psicológica. Ao terminar, perguntou: — Tem quaisquer outras informações sobre ele, além do caniba­lismo?

  • Muito poucas — disse 0'Mara. — Foi encontrado por uma nave-patrulha dos Monitores, numa nave que, ainda que não danificada, estava a emitir sinais de so­corro. Ê evidente que ele estava demasiado doente para governar a nave. Não havia outro ocupante, mas como o EPLH era uma espécie nova para a equipa de socorro, esta passou a nave a pente fino e descobriu que devia ter havido outra pessoa a bordo. Verificaram isso através de uma espécie de livro de bordo e diário pessoal gravado pelo EPLH e do estudo dos indicadores das escotilhas e de outros dispositivos protectores cujos pormenores não nos interessam neste momento. Entretanto, todos os factos indicam que havia duas criaturas a bordo da nave, e a gravação do livro de bordo sugere muito fortemente, que a outra teve um fim triste nas mãos e nos dentes do nosso paciente.

0'Mara fez uma pausa e atirou com um pequeno maço de papéis para o colo de Conway, que viu que se tratava de uma cópia dactilografada das secções mais importan­tes do livro de bordo. Só teve tempo de descobrir que a vitima do EPLH fora o médico de bordo. 0'Mara começou a falar de novo.

  • Não sabemos nada sobre o seu planeta de origem, excepto que se situa em qualquer parte na outra galáxia — disse ele, num tom não muito animado. — Portanto, e como só explorámos ainda um quarto da nossa própria galáxia nossas possibilidades de encontrar o lugar de onde ele veio são desprezíveis...

Conway disse: — Os lans não poderiam ajudar?

Os lans pertenciam a uma cultura originária da outra galáxia, que estabelecera uma colónia no mesmo sector da Galáxia onde se situava o Hospital. Eram de uma espé­cie invulgar — classificação GKNM — que entrava no estado de crisálida na adolescência e sofria uma meta­morfose que a tornava de uma lagarta de dez pernas numa bela forma de Vida alada. Conway tivera um deles como paciente três meses antes. O paciente tivera alta havia muito tempo, mas os dois médicos GKNM, que tinham vindo ajudar Conway a tratar do paciente, tinham permanecido no Geral do Sector para estudar e ensinar.



  • Uma galáxia é um espaço muito grande — disse 0'Mara, com uma óbvia falta de entusiasmo. — Mas tente falar com eles! No entanto, voltando ao seu paciente, o maior problema é o que vamos fazer ao doente, depois de você o curar.

Prosseguiu: - Compreende, Doutor: esta bestinha foi encontrada em circunstâncias que mostram muito conclu­dentemente que é culpada de um acto que todas as espé­cies inteligentes que conhecemos consideram um crime. Sendo a força de polícia da Federação entre outras coisas, o Corpo de Monitores tem a obrigação de tomar certas medidas contra os criminosos como este. Devem ser jul­gados e reabilitados ou punidos como parecer adequado. Mas como poderemos dar a este criminoso um julgamento justo, se não sabemos nada sobre ele — é possível que exista uma multidão de circunstâncias atenuantes? Por outro lado não o podemos deixar partir em liberdade...

— Porque não? — Perguntou Conway. — Porque não apontá-lo na direcção geral de onde ele veio e dar-lhe um pontapé judicial no fundo das calças?

0'Mara respondeu a sorrir-se: — Porque não deixamos o paciente morrer e poupamos uma quantidade de tra­balho?

Conway não disse nada. 0'Mara estava a usar um argumento desleal e ambos sabiam disso, mas também sabiam que ninguém seria capaz de convencer a secção policial dos Monitores de que curar os doentes e punir os malfeitores não eram de importância igual no Arranjo das Coisas.

0'Mara voltou a falar: — O que eu quero que você faça é descobrir tudo quanto possa sobre o paciente e o seu passado, depois de ele voltar a si e durante o trata­mento. Sabendo como você é um coração mole, ou um cabeça mole, espero que você se colocará do lado do pa­ciente durante a cura e se apresentará como um advogado de defesa não oficial. Bem, não me importarei muito desde que você obtenha informações que nos permitam convocar um júri dos seus iguais. Compreende?

Conway disse que sim.

0'Mara aguardou precisamente três segundos e depois disse: — Se não tem nada mais que fazer que preguiçar nessa cadeira...

Imediatamente depois de ter saído do gabinete de 0'Mara, Conway entrou em contacto com a Patologia e pediu que o relatório do EPLH lhe fosse enviado antes do almoço. Depois convidou os dois GKNM Ians para almoçarem com ele e acordou uma conferência com Prilicla, sobre o paciente, pouco depois. Feito tudo isso, sentiu-se livre para tratar das suas rondas.

Durante as duas horas que se seguiram, Conway não teve tempo para pensar no seu novo paciente. Tinha cinquenta e três doentes a seu cargo, juntamente com seis médicos em várias fases de treino e um quadro adequado de enfermeiros. Os doentes e o pessoal médico compreendia onze tipos fisiológicos diferentes. Havia instrumentos e procedimentos especiais para examinar aqueles pacien­tes extraterrestres, e quando ele era acompanhado por um praticante cujas necessidades de pressão e gravidade eram diferentes das dele e das do paciente que tinha de ser examinado, então a «rotina» das suas rondas tornava-se um serviço extremamente complicado.

Mas Conway observava todos os seus pacientes, incluindo aqueles cuja convalescença estava bem adiantada ou cujo tratamento podia ter sido entregue a um subor­dinado. Estava bem consciente de que aquilo era um pro­cedimento estúpido que somente servia para lhe dar muito trabalho desnecessário, mas a verdade era que a promo­ção dele a Médico-Chefe era ainda demasiado recente para que estivesse habituado à delegação da responsabi­lidade em grande escala. Tentava estupidamente fazer tudo por suas próprias mãos.

Depois das rondas devia dar uma lição sobre partos a uma turma de enfermeiros DBLF. Os DBLF eram cria­turas peludas, multípedes, parecendo lagartas muito gran­des, e eram nativas do planeta Kelgia. Respiravam a mesma mistura atmosférica que ele, o que significava que poderia fazer isso sem usar um fato de pressão. A esse conforto puramente físico adicionava-se o facto de que, como as fêmeas Kelgianas concebiam somente uma vez uma Vida e depois produziam quadrigêmeos que eram invariavelmente divididos em pares, o assunto sobre o qual iria falar era elementar e não exigia grande con­centração da sua parte. Deixava uma larga secção do seu espírito livre para se preocupar com o suposto canibal, na sala de observações.

CAPITULO II

Meia hora depois encontrava-se com os dois doutores Ians, comendo a inevitável salada no refeitório principal do Hospital — aquele que servia para os Tralthanos, Kelgianos, humanas e as várias outras criaturas de sangue quente e respiradoras de oxigénio que faziam parte do quadro do pessoal. A salada era mais ou menos apetecível, comparada com as coisas que ele tinha de comer quando convidava outros colegas extraterrestres, mas pensava que nunca seria capaz de se habituar à ventania que eles criavam durante o almoço.

Os cidadãos GKNM de Ia eram uma forma de vida grande, delicada e alada que parecia uma libélula. Aos seus corpos esguios como uma vareta mas flexíveis estavam presas quatro pernas de insecto, manipuladores, os órgãos sensoriais usuais e três tremendos pares de asas. As maneiras deles à mesa não eram verdadeiramente desagradáveis — acontecia apenas que eles não se sentavam para comer, pairavam no ar. Aparentemente, comer enquanto voavam ajudava as suas digestões e era muito como um reflexo condicionado.

Conway colocou o relatório da Patologia sobre a mesa e pôs a terrina da salada em cima dele, para que não voasse. Disse: — Por aquilo que acabo de vos ler parece um caso muito simples. Mas direi que é invulgar, uma vez que o doente surge notavelmente isento de qualquer tipo de bactérias nocivas. Os sintomas dele indicam uma forma de epitelioma, isso e nada mais, o que torna a inconsciência um tanto ou quanto perturbadora. Mas talvez alguma informação sobre o seu ambiente planetário, períodos de sono, etc., possa esclarecer as coisas1, e é por isso que lhes queria falar.

- Sabemos que o paciente vem da vossa galáxia. Podem dizer-me alguma coisa sobre ele?

O GKNM que estava à direita de Conway deslizou alguns centímetros para trás, afastando-se da mesa, e disse através do seu Tradutor: — Receio ainda não ter dominado as dificuldades do vosso sistema de classificação fisiológica, Doutor. Qual é o aspecto do cliente?

— Desculpe, esqueci-me disso — confessou Conway. Ia explicar em pormenor o que era um EPLH, mas resolveu fazer antes um esboço nas costas do relatório da Patologia. Poucos momentos depois ergueu o desenho e disse: — Parece-se mais ou menos com isto.

Ambos os Ians caíram no chão.

Conway, que nunca vira os GKNM pararem de comer ou voar durante uma refeição, ficou impressionado pela reacção.

Disse: — Conhecem-nos, então?

O GKNM que se encontrava à direita fez ruídos que o Tradutor de Conway reproduziu como uma série de ladridos, o equivalente extraterrestre de um ataque de gaguez. Por fim ele disse: — Conhecemo-los. Nunca vimos um, não conhecemos o seu planeta de origem, e até agora não tínhamos a certeza de que eles tivessem existência verdadeiramente física. Eles... eles são deuses, Doutor.

Mais uma pessoa muito importante!... pensou Conway, com a súbita sensação de que lhe faltava o chão debaixo dos pés. A experiência dele com pessoas dessas dizia-lhe que os casos delas nunca eram simples. Mesmo que o estado do doente não tivesse nada de sério, havia inevitavelmente complicações, nenhuma das quais era de natureza médica.

— O meu colega está a deixar-se arrastar um pouco pelas emoções — interveio o outro GKNM. Conway nunca fora capaz de notar qualquer diferença entre os dois Ians, mas fosse como fosse, aquele tinha o ar de ser uma libélula mais cínica, mais fatigada do mundo. — Talvez eu possa dizer-lhe o pouco que sabemos, e o que tem sido deduzido quanto a eles, em vez de enumerarmos todas as coisas que não são...

A espécie a que o paciente pertencia não era numerosa, explicou o médico Ian, mas a sua esfera de influência na outra galáxia era tremenda. Estavam muito avançados nas ciências sociais e psicológicas, e individualmente a inteligência e capacidade mental deles era enorme. Por razões que só eles conheciam não procuravam com muita frequência a companhia dos outros, e nunca se encontrara mais que um em qualquer planeta, durante um período de tempo apreciável.

Eram sempre os supremos senhores, nos mundos que ocupavam. Por vezes, o seu domínio era benévolo, por vezes duro — mas a dureza, quando vista a um século de distância, resultava sempre ser disfarçadamente benévola. Usavam as pessoas, populações planetárias inteiras, i' até culturas interplanetárias, puramente como um meio de resolver os problemas que eles próprios estabeleciam, o quando o problema estava resolvido partiam. Pelo menos era a impressão recebida por observadores não muito imparciais.

Numa voz tornada átona e impassível só por causa do processo de tradução, o Ian prosseguiu: —... As lendas parecem concordar em que quando um deles desce num planeta nada mais traz do que a nave e um companheiro que é sempre de uma espécie diferente. Usando uma combinação de ciência defensiva, psicologia e simples habilidade para o negócio, sobrepõem-se aos preconceitos locais e começam a acumular riqueza e poder. A transição da autoridade local para o domínio planetário absoluto é gradual, mas eles têm muito tempo. São imortais.

Conway ouviu o garfo cair no chão, como que multo longe. Passaram-se alguns minuto® antes que pudesse readquirir a firmeza, quer nas mãos, quer no espírito.

Havia algumas espécies extraterrestres na Federação que possuíam vidas muito longas, e a maior parte das culturas médicas avançadas — incluindo a da Terra — tinha os meios de prolongar consideravelmente a vida com tratamentos rejuvenescedores. A imortalidade, entretanto, era uma coisa que não tinham, nem tinham sequer tido a oportunidade de estudar alguém que a possuísse. Até àquele momento. Agora Conway tinha um paciente para cuidar, para curar e, acima de tudo, para investigar. A menos que... mas o GKNM era um médico, e um médico não diria «imortal» se quisesse referir apenas à longevidade.

—? Tem a certeza? — grasnou Conway.

A resposta do Ian foi demorada porque incluiu o detalhe de muitos factos, teorias e legendas referentes a esses seres que se sentiam satisfeitos por dominar nada menos que um planeta de cada vez. No fim dela, Conway não estava certo de que o seu paciente fosse imortal, mas tudo quanto ele ouvira parecera indicar isso.

Hesitante, disse: —• Depois do que ouvi, talvez não devesse fazer esta perguntai, mas na vossa opinião essas criaturas são capazes de cometer um acto de assassínio e canibalismo...

— Não! — disse um Ian.

— Nunca! — disse o outro.

Não havia, de resto, qualquer indício de emoção nas respostas traduzidas, mas o seu volume foi suficiente para que toda a gente; no refeitório, levantasse os olhos.

Poucos minutos depois, Conway ficou só. Os Ians tinham pedido autorização para ver o legendário EPLH e depois haviam-se afastado apressadamente, dominados por uma mistura de admiração e receio. Os Ians eram boas pessoas, pensou Conway, mas pensou também que a salada só era boa para os coelhos. Pôs a salada de parte e marcou um bife com todos os matadores.

Aquele dia prometia ser longo e duro.

Quando Conway voltou para a sala de observações os Ians já tinham partido e o estado do doente não se alterara. O tenente continuava a guardar a enfermeira de serviço — muito de perto — e começou a corar, por qualquer razão. Conway fez um movimento grave, com a cabeça, mandou à enfermeira que se retirasse e estava a ler de novo o relatório da Patologia quando o Dr. Prilicla chegou.

Prilicla era uma criatura semelhante a um aranhiço, frágil, proveniente de um mundo de baixa gravidade. Tinha a classificação de GLNO e usava constantemente anuladores de gravidade para não ser esmagado por acelerações que os outros seres consideravam normais. Além do ser um médico muito competente, Prilicla era a pessoa mais popular no Hospital, porque a sua faculdade empática impedia que a pequena criatura fosse desagradável para qualquer pessoa. E, ainda que possuísse também um par de grandes asas irisadas, sentava-se à hora das refeições e comia esparguete com um garfo. Conway gostava muito de Prilicla.

Conway descreveu-lhe resumidamente o estado do EPLH e tudo quanto sabia. Terminou, dizendo: —... Sei que não pode conseguir muito de um doente inconsciente, mas ajudar-me-ia se pudesse...

— Parece haver aqui uma incompreensão, Doutor — interrompeu Prilicla, usando as palavras que nele se podiam mais aproximar de dizer a alguém que estava errado. — O paciente está consciente...

— Recue!


Avisado tanto pelas palavras como pela radiação emocional de Conway perante o pensamento do que a maça ossuda do paciente poderia fazer ao corpo frágil como casca de ovo de Prilicla, o pequeno GLNO saltitou para trás, até se colocar fora do alcance. O tenente aproximou-se cautelosamente, os olhos fitos no ainda imóvel tentáculo que terminava naquele monstruoso cacete. Durante alguns segundos ninguém se moveu ou falou, enquanto exteriormente a criatura parecia continuar inconsciente. Por fim Conway olhou para Prilicla. Não teve necessidade de falar.

Prilicla disse: — Detecto radiação emocional de um tipo que emana apenas de um cérebro que está consciente de si próprio. Os processos mentais parecem lentos e, considerando o tamanho do paciente, também fracos. Em pormenor, está a irradiar sensações de perigo, impotência e confusão. Há também indicações de um objectivo fundamental

Conway suspirou.

— Portanto ele está a fingir-se de morto — disse o tenente numa voz soturna, falando principalmente para si próprio.

O facto de o paciente estar a simular a Inconsciência preocupava menos Conway que o monitor. Apesar da quantidade de material de que dispunha para diagnóstico, acreditava firmemente em que o melhor guia de um médico perante qualquer desarranjo era um doente comunicativo e cooperador. Mas como poderia ele iniciar uma conversação com um ser que era um semideus?

— Nós... nós queremos ajudá-lo — disse ele, acanhadamente. — Compreende o que estou a dizer?

O doente permaneceu imóvel como antes.

Prilicla disse: — Não há qualquer indicação de que ele o tenha ouvido, Doutor.

— Mas se está consciente... — Conway calou-se e encolheu os ombros.

Começou a montar de novo os seus instrumentos e com a ajuda de Prilicla examinou de novo o EFLH, dando atenção especial aos órgãos da visão e da audição. Mas não houve qualquer reacção física ou emocional enquanto o exame esteve em curso, apesar das luzes intermitentes. Conway não viu qualquer indicação de desarranjo físico nos órgãos sensoriais, ainda que o paciente se mostrasse completamente ignorante de todos os estímulos externos. No plano físico estava inconsciente, insensível a tudo quanto se passava em volta, ainda que Prilicla insistisse em que não estava.

Que semideus mais doido, mais confuso, pensou Conway. Porque seria que 0'Mara lhe mandava sempre os casos mais estranhos? Disse em voz alta: — A única explicação que posso encontrar para este estado peculiar de coisas é que o cérebro com o qual está em contacto tem todos os contactos com o seu equipamento sensorial bloqueados ou interrompidos. O estado do paciente não é a causa disso, de modo que o problema terá uma base psicológica. Creio que a besta tem necessidade urgente de assistência psiquiátrica.

«No entanto — prosseguiu ele — os feiticeiros podem trabalhar com, mais eficiência num doente que esteja fisicamente bem, de modo que creio que primeiro teremos de tratar desta doença da pele...»

No Hospital fora preparado um específico contra o epitelioma do tipo daquele que afectava o paciente e a Patologia já dissera que ele era adequado ao metabolismo do EPLH e não produziria efeitos secundários perigosos. Demorou apenas alguns minutos até que Conway medisse uma dose de teste e a injectasse subcutaneamente. Prilicla aproximou-se dele apressadamente, para ver o efeito. Sabiam ambos que aquele era um dos raros milagres da medicina de acção rápida—o efeito devia surgir numa questão de segundos, em vez de horas ou dias.

Dez minutos depois nada acontecera.

— O tipo é duro — disse Conway, e injectou a dose segura máxima.

Quase imediatamente a pele na área enegreceu e perdeu a sua aparência seca, craquelada. A área negra alargou-se rapidamente enquanto olhavam, e um dos tentáculos agitou-se ligeiramente.

— Que está a fazer o espírito dele? — perguntou Conway.

— Mais ou menos o mesmo que antes — respondeu Prilicla. — Mas depois da última injecção surgiu uma angústia crescente. Detecto sensações de um cérebro que tenta tomar uma decisão... que está a tomar uma decisão...

Prilicla começou a tremer violentamente — um sinal claro de que a radiação emocional do paciente se intensificara. Conway abrira a boca para fazer uma pergunta quando um som seco, de algo que se rasgava, atraiu de novo a sua atenção para o paciente. O EPLH estava a fazer força e a atirar-se contra o arnês que o prendia.

Duas das correias já se tinham partido e ele conseguira libertar um tentáculo. O que possuía a maça...

Conway esquivou-se apressadamente e evitou por um centímetro que a cabeça lhe desaparecesse de cima dos ombros - ainda sentiu aquela arma terrível a roçar-lhe pelos cabelos. Quase no fim da trajectória a massa ossuda tocou-lhe no ombro e atirou-o de tal modo através da pequena sala que ele quase fez ricochete na parede. Prilicla, cuja cobardia era uma excelente característica de sobrevivência, já estava agarrado com as suas patas de pontas de ventosa, ao tecto, que era o único lugar seguro no compartimento.

Da sua posição, deitado no chão, Conway ouviu outras. correias estoirarem e Viu mais dois tentáculos a tactearem o espaço. Sabia que dentro de momentos o paciente estaria completamente livre1 do arnês e capaz de se mover na saia à vontade1. Pôs-se rapidamente de joelhos, agachou-se e depois mergulhou na direcção do EPLH enfurecido. Enquanto se agarrava estreitamente com os braços em torno do corpo do monstro logo abaixo das raízes dos tentáculos, Conway foi quase ensurdecido por uma Série de rugidos que vinham de orifício aural, ao lado do ouvido dele. O ruído traduzia-se como — Socorro! Socorro! — Simultaneamente viu o tentáculo que tinha na ponta a grande maça óssea a virar a ponta para baixo. Houve um estrondo e no chão, no lugar onde ele antes estivera, apareceu um buraco de oito centímetros de diâmetro.

Ao agarrar-se ao paciente daquela maneira, ele fizera uma coisa aparentemente louca, mas Conway mantinha a cabeça no seu lugar, sob mais que um aspecto. Abraçado assim ao EPLH abaixo do nível daqueles tentáculos que se agitavam loucamente, Conway estava no lugar mais seguro da sala.

Então viu o tenente...

O tenente tinha as coitas encostadas à parede e estava meio deitado, meio levantado. Um braço pendia-lhe, como que solto, mas na outra mão tinha a arma. Firmava-a entre os joelhos e um olho estava fechado numa piscadela diabólica enquanto o outro apontava o cano. Conway gritou desesperadamente para que ele esperasse, mas o ruído do paciente não deixou ouvir a sua voz. Aguardou a todo o momento o clarão © o choque das balas explosivas. Sentiu-se paralisado com medo e nem sequer pôde abrir os braços e soltar-se.

Então, subitamente, tudo acabou. O paciente caiu para o lado, contorceu-se e imobilizou-se. Metendo no coldre a arma que não chegara a disparar, o tenente pôs-se de pé com dificuldade. Conway libertou-se e Prilicla desceu do tecto.

Não muito à vontade, Conway disse: — Creio que não pôde disparar comigo ali pendurado...

O tenente abanou a cabeça. — Sou um bom atirador, Doutor. Podia tê-lo atingido sem tocar em si. Mas ele gritava constantemente: «Socorro!» Essa espécie de coisa prejudica o estilo de um homem...

CAPITULO III

Foi só vinte minutos depois, após Prilicla ter levado o tenente para cuidar de um número quebrado, e quando Conway e o GLNO estavam a colocar no paciente um arnês muito mais forte, que notaram a ausência da peie escurecida. O estado do paciente voltara a ser aquele que era antes do tratamento. Pelo que parecia., a tremenda dose que Conway lhe administrara tivera apenas um efeito temporário, e isso era indubitavelmente peculiar. De facto, era até absolutamente impossível.

Desde o moimento em que a faculdade empática de Prilicla começara a colaborar no caso Conway tivera a certeza de que a base do problema era psicológica. Sabia também que um espírito severamente deformado podia fazer tremendos danos ao corpo onde estava alojado. Mas aquele dano tratava-se num nível puramente físico e o seu método de reparação — o tratamento desenvolvido e provado constantemente pela Patologia — era também um facto físico, bem concreto. E nenhum espírito, qualquer que fosse o seu poder ou grau de desarranjo, poderia ignorar ou negar por completo um facto físico. O Universo tinha, no fim de tudo, certas leis físicas.
Tanto quanto Conway podia ver, havia apenas duas explicações possíveis. Ou as regras tinham sido ignoradas porque o Ser que as criara tinha também o direito de as ignorar ou alguém, de algum modo — ou qualquer combinação de circunstâncias, ou qualquer dado mal interpretado — andava a transtornar tudo. Conway preferia infinitamente a segunda teoria porque a primeira era sem dúvida demasiado perturbadora para ser considerada seriamente. Queria desesperadamente continuar a pensar no seu paciente com um «p» minúsculo...

No entanto, quando saiu da sala, Conway foi visitar o comandante Bryson, o capelão do Corpo de Monitores, e consultou esse oficial durante algum tempo sobre motivos semiprofissionais — Conway gostava de ter um máximo de segurança. A sua visita seguinte foi ao coronel Skempton, o oficial encarregado do Abastecimento, Manutenção e Comunicações, no Hospital. Ali ele requereu que fossem enviadas ao seu quarto cópias completas do livro de bordo do paciente — não apenas as secções referentes ao crime — juntamente com quaisquer outros dados disponíveis. Depois foi à sala de operações AUGL» demonstrar técnicas operatórias em formas de vida submarinas. Antes do jantar pôde trabalhar duas horas na Patologia e durante esse tempo descobriu muita coisa sobre a imortalidade do paciente.

Quando voltou ao quarto havia ali um maço de folhas dactilografadas que tinha quase cinco centímetros de altura. Conway gemeu, pensando no seu período de recreio de seis horas e em como o iria despender. O pensamento de como teria gostado de o passar trouxe-lhe uma imagem bem viva da muito eficiente e impossivelmente bela enfermeira Murchison, com quem andara a encontrar-se nos últimos tempos. Mas a enfermeira Murchison trabalhava com a Maternidade FGLI e os seus períodos livres só voltariam a coincidir dentro de duas semanas.

Mas nas presentes circunstâncias talvez fosse melhor, pensou Conway enquanto se sentava para longo período de leitura.

Os homens do Corpo que tinham examinado a nave do paciente tinham sido incapazes de converter as unidades de tempo EFLH na escala humana com qualquer espécie de exactidão, mas tinham podido estabelecer quase definitivamente que muitas das gravações tinham alguns séculos de existência e que algumas delas datavam de dois mil anos, ou mais. Conway começou com a mais antiga e progrediu cota muito cuidado até chegar à mais recente. Descobriu quase de imediato que não eram tanto uma série de diários gravados — as referências a assuntos pessoais eram relativamente raras — como um catálogo de memórias, algumas altamente técnicas e de estilo muito pesado. Os dados relativos ao crime, que ele estudou depois, eram muito mais dramáticos.

... O meu médico está a tornar-me doente — dizia a parte final — está a matar-me. Tenho de fazer alguma coisa. Ê um mau médico pois deixou-me adoecer. Tenho de me livrar dele de qualquer maneira...

Conway colocou a última folha no monte, suspirou e preparou-se para adoptar uma posição mais condutora ao pensamento criador; Isto é: com a sua cadeira inclinada bem para trás, os pés sobre a secretária, o corpo assentando praticamente sobre a nuca.

Que sarilho, pensou ele.

As peças separadas do quebra-cabeças — ou a maior parte delas, de qualquer maneira — estavam agora nas suas mãos e precisavam apenas de ser ajustadas. Havia o estado do doente, não sério pelo que dizia respeito ao Hospital, mas indubitavelmente mortal se não fosse tratado. Depois «havia os dados fornecidos pelos dois Ians em relação àquela raça semidivina, ansiosa de poder, mas de essência beneficente, e os companheiros que nunca eram da mesma espécie e que viajavam sempre ou viviam com eles. Esses companheiros estavam sujeitos a substituição porque envelheciam e morriam enquanto isso não acontecia com os EFLH. Havia também os relatórios da Patologia, o primeiro que recebera, escrito, antes do almoço, e o último, verbal, fornecido durante as duas horas que passara com Thornnastor, o diagnosticador - -chefe FGLI da Patologia. Na considerada opinião de Thornnastor o paciente EFLH não era um verdadeiro imortal, e a considerada opinião de um diagnosticador estava tão perto de" ser uma certeza tão firme como urna rocha que por certo não havia qualquer diferença. Mas enquanto a imortalidade fora posta de parte por várias razões fisiológicas, os testes tinham fornecido provas de tratamentos de longevidade ou rejuvenescimento de tipo não selectivo.

Por fim, havia as leituras de emoções fornecidas por Prilicla, antes e durante a sua tentativa de tratamento do estado da pele do paciente. Prilicla relatara uma constante radiação de confusão, angústia e impotência. Mas quando o EFLH recebera a sua segunda injecção ele enfurecera-se, e a explosão de emoções que surgira do seu espírito tinha, segundo as próprias palavras de Prilicla, quase frito o cérebro do empata. Prilicla fora incapaz de dar uma leitura detalhada de uma tão violenta erupção de emoções, principalmente porque se preparara para o nível inicial, e muito mais suave, em que o paciente estivera a irradiar mas concordava na existência de uma Instabilidade do tipo esquizóide.

Conway afundou-se ainda mais na cadeira fechou os olhos e começou a ver as peças do quebra-cabeças a entrarem suavemente nos seus lugares.

Tudo começara no planeta em que os EHLIH foram a forma de vida dominante. A seu tempo, tinham alcançado uma civilização que incluía o voo interstelar e uma ciência médica avançada. A duração da Sua vida, inicialmente já grande, fora tão estendida que uma espécie de vida relativamente curta como o lans podia ser perdoada por supor que eles eram imortais. Mas um alto preço tivera de ser pago pela sua longevidade; a reprodução da espécie, o instinto normal paira a reprodução da espécie em indivíduos mortais, teria sido a primeira coisa a desaparecer; depois a sua civilização teria sido dissolvida — ou antes, despedaçada — numa massa de individualistas fervorosos, viajantes, interstelares, até que, por fim, ficara a depressão psicológica, surgida quando o receio da deterioração puramente física se extinguira.

Pobres semideuses, - pensou Conway.

Evitavam a companhia uns dos outros pela simples razão de que estavam fartos dela — séculos após séculos dos costumes, dos hábitos de falar, das opiniões uns dos outros e do simples e absoluto aborrecimento de olharem uns para os outros. Tinham apresentado a si próprios enormes problemas sociológicos — tomando conta de culturas planetárias atrasadas ou deformadas e puxando-as pelos atacadores das próprias botas, e fazendo actos filantrópicos semelhantes — porque tinham espíritos tremendos, porque tinham tempo mais do que bastante, porque tinham de lutar contra o aborrecimento e principalmente, porque deviam ter sido boas pessoas. E porque o preço

Só uma peça ido quebra-cabeças não acertava, e assa era a estranha maneira por que o EFLH se opusera às suas tentativas para o tratar, mas Conway não tinha dúvida de que era um pormenor fisiológico que podia esclarecer-se bem depressa. O facto importante era que ele agora sabia como proceder.

Nem todas as doenças respondiam ao tratamento, apesar de Thornnastor afirmar o contrário, e ele teria concluído que a cirurgia seria indicada no caso EPLH se tudo aquilo não estivesse enublado com considerações de quem e o que o paciente era, e do que se supunha que ele fizera. O facto de o paciente ser um semideus, um assassino e, em geral, o tipo das criaturas que não se preocupavam com pormenores que não o deviam preocupar.

Conway suspirou e saltou para o chão. Começava a sentir-se tão confortado que lhe parecera ser melhor ir para a cama antes que adormecesse.

Imediatamente depois do pequeno-almoço, no dia seguinte, Conway começou a preparar coisas para a operação do EFLH. Ordenou que trouxessem os instrumentos e o equipamento necessários à sala de Observações, deu instruções pormenorizadas para a sua esterilização — supunha-se que o paciente matara já um médico por tê-lo deixado adoecer, e por certo» não gostaria que outro o deixasse apanhar outra doença por falta de assepsia — e requereu a ajuda de um cirurgião Trallthano para o trabalho mais delicado. Depois, quando faltava meia hora para começar, Conway falou com 0'Mara.

O Psicólogo-Chefe ouviu o seu relatório e a proposta de acção sem fazer comentários, até acabar, e depois disse: — Conway, compreende o que poderá acontecer neste Hospital se essa coisa se libertar? E não falo apenas de se libertar fisicamente. Está mentalmente perturbada, se não estiver absolutamente psicótica. De momento encontrasse inconsciente, mas pelo que me diz a compreensão que tem da ciência psicológica é tal que nos podia levar a comer pelos seus apêndices manipuladores, apenas por nos falar.

«Preocupo-me com o que pode acontecer quando essa criatura acordar».

Fora a primeira vez que Conway ouvira 0'Mara confessar que estava preocupado com alguma coisa. Segundo se dizia, anos atrás', quando uma nave perdida chocara contra o Hospital, levando a destruição e a confusão a dezasseis pisos, o major 0'Mara também ficara preocupado...

— Estou a tentar não pensar nisso — disse Conway, num tom apologético — Confunde tudo.

0'Mara encheu os pulmões de ar e deixou que ele se escapasse lentamente através do nariz — um hábito seu que valia por vinte frases escaldantes. Disse friamente: — Alguém deve pensar nessas coisas1, Doutor. Creio que não tem dúvidas em que eu observe a operação?...

Aquilo não era mais do que uma ordem dada com cortesia, e não podia haver outra resposta senão um igualmente polido: — Terei muito prazer nisso senhor.

Quando chegaram à sala de Observações, o «leito» do paciente já fora levantado até uma altura confortável e o EPLH estava bem seguro. O Tralthano tO’Mara o seu lugar perante o equipamento ide anestesia e registo e tinha um olho no 'doente e outro no equipamento, enquanto os seus dois outros olhos se 'dirigiam para Prilicla com o qual discutia um escândalo particularmente picante que surgira no dia anterior. Corno as duas criaturas em causa eram respiradores de cloro PVSJ, a questão poderia ter apenas um interesse académico para eles, mas pelos vistos o Interesse académico era intenso. Nó entanto ao verem O'Mara, a exploração do escândalo terminou imediatamente. Conway deu o sinal para principiar.

O anestésico era um daqueles que a Patologia declarara seguros para uma forma de vida EPUH, e enquanto ele era administrado, Conway notou que o seu espírito se estava a desviar à tangente, na direcção do seu ajudante Thralthano.

Os cirurgiões dessa espécie eram na realidade dois — uma combinação de FGLI e OTSB. Presa às costas coriáceas do enorme e elefantino Traltlhano estava uma criatura pequenina e quase sem cérebro que vivia em simbiose com ele. A primeira vista o OTSB parecia uma bola peluda com uma longa cauda de cavalo a sair dela, mas uma observação mais de perto mostrava que a cauda eira formada por dúzias de pequenos manipuladores, a maior parte dos quais incorporava órgãos visuais sensíveis. Por causa da relação que existia entre o Tralthano e o seu simbiota, a combinação FGLI-OTSB eram os melhores cirurgiões da Galáxia. Nem todos os Tralthanos queriam viver com um símbiota, mas os médicos FGLI usavam-no como um distintivo.

Subitamente, o OTSB correu sobre as costas do hospedeiro e aconchegou-se sobre a cabeça em forma de zimbório, entre as hastes oculares, a cauda suspensa na direcção do paciente e abrindo-se ligeiramente. O Tralthano estava pronto a começar.

Para benefício do equipamento de gravação, Conway disse: — Observe-se que se trata apenas de uma doença de superfície e que toda a área da pele parece morta, seca e prestes a cair em pedaços. Durante a retirada das primeiras amostras de pele não foi encontrada qualquer dificuldade, mas nas últimas houve uma resistência à retirada, em certa extensão, e verificou-se haver uma pequena raiz, com cerca de seis milímetros, invisível a olho nu. Isto ê: ao meu olho. Portanto parece evidente que o estado vai entrar numa nova fase. A doença está a começar a aprofundar-se, em vez ide permanecer na superfície, é quanto mais depressa actuarmos melhor.

Conway deu os números de referência do relatório da Patologia e as suas próprias notas preliminares sobre o caso e depois prosseguiu: —... Como o paciente, por razões que não são de momento claras, não responde à medicamentação, proponho a extracção cirúrgica dó tecido afectado, irrigação, limpeza e substituição por pele artificial. Um OTSB guiado por um Tralthano será usado para nos certificarmos de que as raízes também são extraídas. Excepto pela área considerável a ser coberta, que tornará isto num trabalho longo, o processo é simples…

— Desculpem-me, Doutores — interrompeu Prilicla. — 0 doente continua consciente.

Uma discussão somente cortês do lado de Prilicla, iniciou-se entre o Tralthano e o pequeno empata. Prilicla sustentava que o EPLGE continuava a pensar e irradiar emoções e o outro afirmava que havia bastante anestésico no sistema para o tornar inteiramente insensível a tudo durante seis horas, pelo menos. Conway entrou também na discussão quando ela começou a tornar-se pessoal.

— Já tivemos esse problema — disse ele, irritado. — Desde a sua chegada, o paciente tem estado fisicamente inconsciente, excepto durante alguns minutos, ontem, mas Prilicla detectou a presença de pensamentos racionais. Agora, sob o anestésico, está presente o mesmo efeito. Não sei como explicar isto, provavelmente será necessária uma investigação cirúrgica da estrutura cerebral para tal, e para isso teremos que esperar. O que importa de momento é que ele está fisicamente incapaz de se mover, ou de sentir dores. Podemos começar?

Acrescentou para Prilicla: — «Mantenha-se à escuta, pelo sim pelo não...

CAPITULO IV

Durante cerca de vinte minutos trabalharam em silêncio, ainda que o procedimento não exigisse um alto grau de concentração. Era como se retirassem as ervas de um jardim, excepto que tudo quanto ali crescia era como ervas e havia que retirar as plantas uma a urna. Ele esfolaria uma área afectada da pele, os apêndices finos como cabelos do OTSB explorariam, sondariam e arranhariam as raízes, e ele esfolaria outro segmento. Conway antecipada a mais aborrecida operação da sua carreira.

Prilicla disse: — Detecto um aumento de angústia ligado a, um maior sentido de objectivo. A angústia está a tornar-se intensa...

Conway grunhiu. Não podia pensar noutro comentário.

Cinco minutos depois o Tralthano disse: — Temos de trabalhar mais devagar, Doutor. Estamos numa secção em que as raízes são muito mais profundas...

Dois minutos depois, Conway disse: — Mas eu posso vê-las! Qual é a profundidade delias, agora?

— Dez centímetros — respondeu o Tralthano. — E, Doutor, estão a aumentar visivelmente de comprimento enquanto trabalhamos.

— Mas é impossível! — Explodiu Conway. Depois acrescentou: — Ternos de passar para outra área.

Ele mentiu o suor a correr peia testa e a seu lado Prillicla começou a tremer — mas não por causa do que o paciente estava a pensar. A própria radiação emocional não era agradável, porque na noiva área e nas duas escolhidas ao acaso depois dela o resultado era o mesmo. As raízes dos pedaços de pele estalados aprofundavam-se a olhos vistos.

— Suspender — disse Conway numa voz rouca.

Durante longo tempo ninguém falou, Prillica tremia como se um vento forte soprasse na sala. O Tralthano afadigava-se com todo o equipamento, os quatro olhos focados num trabalho sem importância. O'Mara olhava intensamente para Conway, também de um modo calculador e com urna forte quantidade de simpatia nos seus firmes olhos cinzentos. A Simpatia era porque ele sabia reconhecer quando um homem estava genuinamente aflito, e o cálculo era devido à dificuldade que tinha em saber se o problema se devia ou não a alguma falta de Conway.

— Que aconteceu, Doutor? — disse ele suavemente.

Conway abanou a cabeça, furioso. — Não sei. Ontem o paciente não respondeu à medicamentação, hoje não responde à cirurgia. As suas reacções a qualquer coisa que tentemos fazer por ele são loucas, impossíveis! E agora a nossa tentativa para aliviar cirurgicamente o seu estádio desencadeou qualquer coisa que aprofunda essas raízes o bastante para penetrar os órgãos vitais dentro de minutos se a sua presente rapidez de crescimento se mantiver, e sabem o que isso representa...

- A sensação de angústia do paciente está a diminuir — disse Prilicla. — Ainda está empenhado em pensamento objectivo.

O Tralthano juntou-se à conversa. Disse: — Notei factos peculiares sobre essas raízes que unem os pedaços de pele doente ao corpo. O meu simbiota tem uma visão extremamente sensível, como sabem; e informa que as raízes estão bem presas de ambos os lados, de modo que é impossível saber se a pele está a agarrar-se ao corpo ou se é o corpo que está a agarrar propositadamente a pele ao corpo.

Conway abanou a cabeça distraidamente. O caso estava cheio de contradições loucas e impossibilidades absolutas. Para começar, nenhum paciente, por muito mal que estivesse mentalmente, seria incapaz ide anular os efeitos de uma droga suficientemente poderosa para produzir a cura completa em meia hora, e isso apenas em alguns minutos. Além disso a ordem natural das coisas era a de que uma criatura com uma área doente da pele se libertasse dela e a substituísse com tecido novo, e não agarrar-se a ela, desesperadamente, houvesse o que houvesse. Era um caso pasmoso e desesperado.

No entanto, quando o paciente chegara, parecera um caso simples — Conway sentira-se mais preocupado com o passado do doente do que com a doença, cuja cura considerara uma questão de rotina. Mas ignorara qualquer coisa, durante o caminho. E por causa desse pecado de omissão o doente iria provavelmente morrer dentro de poucas horas. Talvez ele tivesse feito um diagnóstico apressado, por se sentir demasiado seguro de si próprio. Fora criminosamente descuidado.

Eira verdadeiramente horrível perder um paciente em qualquer momento, e no Geral do Sector perder um paciente era uma ocorrência extremamente rara. Mas perder um cujo estado seria considerado muito grave, em qualquer parte da Galáxia civilizada... Conway praguejou fortemente, mas deteve-se porque não tinha as palavras necessárias para descrever como ele se sentia em relação a si próprio.

— Calma, filho.

Era O’Mara, apertando-lhe o braço e falando como um pai. Normalmente, O'Mara era um tirano mal-humorado e com uma voz de toiro, que, quando alguém se dirigia a ele pedindo auxílio, começava a fazer comentários sarcásticos enquanto a pessoa atingida se afligia e desavergonhadamente resolvia os seus próprios problemas. O seu presente comportamento, incaracterístico, indicava alguma coisa. Indicada que Conway tinha um problema que não era capaz de resolver.

Mas na expressão de O'Mara havia mais alguma coisa que simples preocupação por Conway, e no fundo o psicólogo estava um tanto ou quanto satisfeito por as coisas terem decorrido assim. Conway sabia que se o major estivesse na sua posição teria tentado com a mesma energia, ou talvez com mais, curar o paciente, e ter-se-ia sentido igualmente desanimado com o resultado. Mas ao mesmo tempo o Psicólogo-Chefe devia ter estado desesperadamente preocupado com a possibilidade de uma criatura de grandes e desconhecidos poderes, que estava mentalmente desequilibrada, ficar à solta no Hospital. Além do que O'Mara devia também perguntar a si próprio se, ao lado de um EPLH, consciente e vivo, ele não pareceria um rapazinho pequenino e ignorante..;

— Tentemos começar outra vez pelo princípio — disse O’Mara, interrompendo os seus pensamentos. — Descobriu alguma coisa na história do doente que o possa levar a querer destruir-se a si próprio?

— Não! — Disse Conway com veemência, — Pelo contrário! Ele queria desesperadamente Viver. Estava a ser submetido a tratamentos de rejuvenescimento não selectivos, o que significa que toda a estrutura celular do seu corpo era regenerada periodicamente. Como o processo de armazenagem da memória é um produto do envelhecimento das células cerebrais, isso devia praticamente deixar a sua mente em branco depois de cada tratamento...

— É por isso que esses livros gravados parecem memórias técnicas - disse O’Mara. — É exactamente o que eles são. Mesmo assim, prefiro o nosso método de rejuvenescimento, mesmo pensando que não vivemos tanto tempo, regenerando apenas os órgãos danificados e deixando o cérebro intocado...

Conway interrompeu-o, perguntando a si próprio qual seria a razão por que o taciturno O’Mara se tornara tão falador, — Bem sei. Mas o efeito dos tratamentos de longevidade continuados, como sabe, é o de dar ao seu possuidor um medo crescente de morrer. Apegar dia solidão, do aborrecimento e da existência nada natural, o medo aumenta sem cessar, com o decurso do tempo. Era por isso que ele viajava sempre com o seu médico particular - estava desesperadamente receoso de contrair doenças ou de um acidente que pudesse ocorrer entre os tratamentos, e é por isso que eu posso simpatizar até certo ponto com os sentimentos dele quando o médico que o devia manter de boa saúde o deixara adoecer. Ainda que aquela coisa de ele o ter devorado depois...

— Portanto você está do lado dele — disse O´Mara, secamente.

— Ele podia fazer uma bela exposição de defesa — retorquiu Conway. — Mas eu dizia que ele tinha um receio desesperado de morrer, de modo que devia estar a tentar constantemente encontrar um médico melhor... Oh! — Oh, o quê? — disse O’Mara.

Foi Prilicla, o sensitivo das emoções, quem respondeu: — O Dr. Conway acaba de ter uma ideia.

— Que é? Não há necessidade alguma de manter segredo! — A voz de O’Mara perdera o seu suave tom paternal e havia um brilho no seu olhar que dizia que ele estava contente por essa suavidade já não ser necessária. — O que é que há?

Sentindo-se feliz e excitado mas ao mesmo tempo muito pouco seguro de si, Conway dirigiu-se ao intercomunicador e ordenou algum material muito pouco vulgar, verificou de novo se o paciente estava bem preso, ao ponto de não poder mover um; músculo, e depois disse : — Creio que o paciente está perfeitamente são e nos temos estado a deixar enganar por uma série de engodos psicológicos. No fim, o mal está em qualquer coisa que ele comeu.

— Tinha apostado comigo próprio em como você acabaria por dizer isso — confessou O'Mara. Parecia agoniado.

O material chegou: uma vara de madeira, aguçada, e um mecanismo que a empurraria para baixo, segundo um certo ângulo, e a uma velocidade determinada. Com o Tralthano a ajudá-lo, Conway montou tudo e colocou a aparelhagem em posição. Escolheu uma parte do corpo do paciente que continha alguns órgãos vitais que, no entanto, estavam protegidos por quase quinze centímetros de músculos e tecidos adiposos. Depois colocou a vara em movimento. Estava a tocar a pele e descia à velocidade de cerca de cinco centímetros por hora.

— Que demónio vai você fazer? — Berrou O’Mara. — Pensa que o paciente é um vampiro ou que é?

— Evidentemente que não — respondeu Conway.— Estou a usar uma a vara de madeira para dar ao paciente uma melhor oportunidade de se defender. Creio que não espera que ele vá deter uma vara de aço! — Fez sinal ao Tralthano para que se aproximasse e uma vez Juntos observaram a área onde a vara estava a entrar no corpo do EPLH. Prilicla dava informações sobre a radiação emocional com poucos minutos de intervalo. O’Mara andava de um lado para o outro, murmurando ocasionalmente a si próprio.

A ponta já penetrara cerca de seis milímetros quando Conway notou o primeiro endurecimento e espessamento da pele. Estava a formar-se numa área aproximadamente circular, com dez centímetros de diâmetro, cujo centro era a ferida criada pela vara. O explorador de Conway mostrou uma massa esponjosa, fibrosa, a formar-se debaixo da pele, a uma profundidade de cerca de treze milímetros. A massa espessava-se visivelmente e tornava-se opaca ao explorador, e passados dez minutos tornara-se numa placa dura, óssea. A vara começara a dobrar-se de uma forma alarmante e estava prestes a quebrar-se.

— Creio que as defesas estão agora concentradas neste ponto, portanto será melhor extraí-las — disse Conway.

Conway e o Tralthano cortaram rapidamente a carne em volta e separaram a placa óssea, que foi imediatamente transferida para um receptáculo estéril, coberto. Conway preparou rapidamente uma injecção — uma dose de modo algum próxima do máximo do específico que tentara no dia anterior — aplicou-a e depois foi ajudar o Tralthano a reparar a ferida. Aquilo era trabalho de rotina e demorou cerca de quinze minutos. Quando acabou, não havia dúvidas de que o paciente estava a responder favoravelmente ao tratamento.

Por cima das felicitações do Tralthano e das horríveis ameaças de O’Mara — o Psicólogo-Chefe queria que líhe respondessem imediatamente a algumas perguntas — Prilicla disse: — Fez uma cura, Doutor, mas a angústia do paciente aumentou. Está, quase a perder o domínio sobre si próprio.

Conway abanou a cabeça, a sorrir-se. — O paciente está fortemente anestesiado e não pode sentir nada. No entanto, concordo em que no momento presente... — Apontou com a cabeça para o contentor estéril —... O médico pessoal dele deve estar a sentir-se muito aflito.

No contentor o osso extraído começara a amolecer e a largar um líquido ligeiramente arroxeado. O líquido agitava-se e chocalhava suavemente no fundo, como se tivesse um espírito próprio. O que, na verdade, era o caso...

Conway estava no gabinete de O’Mara a fazer o seu relatório sobre o EPLH e o major estava a ser muito amável numa linguagem que por vezes tornava os cumprimentos impossíveis de distinguir dos insultos. Mas aquela era a sua maneira de ser, segundo Conway começava a compreender, e o Psicólogo-Chefe era cortês e simpático somente quando estava profissionalmente preocupado com uma pessoa.

E ele continuava a fazer perguntas.

— ... Uma forma de vida inteligente, anfíbia, uma colecção organizada de células sub-microscópicas, semelhantes a vírus, pode constituir o melhor médico possível — disse Conway, ao responder a uma delas. — Residirá dentro do paciente e, desde que disponha dos dados necessários, dominará qualquer doença ou mau funcionamento orgânico, a partir do interior. Para um ser que tem um medo patológico da morte, deve ser urna solução perfeita. K neste caso era-o, porque aquilo que aconteceu não era propriamente de culpa do médico. Surgiu por causa da ignorância ido paciente quanto à sua própria história fisiológica.

Conway prosseguiu: — Tal como eu vejo as coisas, o paciente começou a tomar os seus tratamentos de rejuvenescimento numa fase primitiva do seu tempo de vida biológico. Quero dizer que ele não esperou pela meia-idade ou pela velhice para iniciar o tratamento de regeneração. Mas nesta ocasião, ou porque se esquecesse, ou porque fosse descuidado, ou porque estivesse a trabalhar num problema que demorava mais do que o usual, envelheceu mais do que acontecera anteriormente e arranjou esta doença de pele. A Patologia diz que provavelmente é uma doença comum na sua espécie e que o caminho normal seria o de o EPLH libertar-se da pele afectada e continuar a vida normalmente. Mas o nosso paciente, porque o tipo do seu tratamento de rejuvenescimento causava danos na memória, não sabia disso, de modo que o seu médico pessoal também não sabia.


Conway continuou: — Esse... médico residente sabia muito pouco da história médica do corpo do seu paciente-hospedeiro, mas a sua divisa devia ser a de manter o status quo a todo o custo. Quando os pedaços do corpo do paciente ameaçavam separar-se, ele segurava-as, sem compreender que isso devia ser um acontecimento normal, como a perda de cabelo, ou a mudança de pele num réptil, em particular porque o seu amo insistia em que a ocorrência não era natural. Deve-se ter travado uma luta ardente entre os processos corporais do paciente e o seu médico, com o espírito do paciente furioso por causa do médico. Por isso, o doutor teve de tornar o doente inconsciente, para melhor fazer o que considerava ser o que era correcto.

«Quando lhe demos as injecções de teste, o doutor neutralizou-as. Eram uma substância estranha, a ser introduzida no corpo do paciente dele... E sabe o que aconteceu quando tentámos a remoção cirúrgica. Foi só quando ameaçámos os órgãos vitais subjacentes, com essa vara, obrigando a doutor a defender o seu paciente, nesse ponto...»

O’Mara disse secamente: - Quando você começou a pedir varas de madeira, pensei em metê-lo a si num arnês bem apertado.

Conway sorriu-se. Disse: — Vou recomendar que o EPLH reabsorva o seu médico. Agora que a Patologia lhe deu uma ideia mais completa da história médica e fisiológica do patrão dele, ele deve ser o melhor dos médicos pessoais, e o EPLH é suficientemente inteligente para compreender isso...

O’Mara retribuiu o sorriso. — E eu que estava preocupado com o que poderia acontecer quando ele acordasse. Mas mostrou ser um tipo muito amigável e agradável. Encantador, para falar verdade.

Quando Conway se ergueu e voltou para sair, disse matreiramente: — Ê por isso que ele é tão bom psicólogo. Ê sempre amável para com as pessoas...

Conseguiu fechar a porta atrás dele antes da explosão.

CAPITULO V

A seu tempo, o paciente EPLH, que se chamava Lonvellin, recebeu ata e a procissão constante de doentes extraterrestres entregues aos seus cuidados fez com que a memória de Lonvellin se desvanecesse na memória de Conway. Não sabia se o EPLH voltara à sua galáxia ou se continuava a vaguear em busca de boas acções para fazer, e tinha muito que fazer para pensar em qualquer dessas coisas. Mas Conway ainda não acabara o caso do EPLH.

Ou mais precisamente: Lonvellin ainda não se esquecera de Conway...

— Gostaria de se ausentar do Hospital durante uns meses, Doutor? — Disse O'Mara quando Conway se apresentou no gabinete do Psicólogo-Chefe em resposta a uma chamada urgente através das comunicações gerais. — Seriam umas férias... quase.

Conway sentiu que a sua inquietação inicial se tornava em pânico. Tinha urgentes razões pessoais para não sair do hospital durante alguns meses. Disse: — Bem...

O psicólogo ergueu a cabeça e fitou Conway com um par de olhos cinzentos firmes que viam tanto e que abriam os espíritos de uma maneira tão analítica que davam a 0'Mara o equivalente a uma faculdade telepática. Disse secamente: — Não se preocupe em agradecer-me, a culpa é sua, por curar doentes tão poderosos e influentes.

Prosseguiu apressadamente: — Ê uma missão importante, Doutor, mas constará principalmente de trabalho de secretaria. Normalmente seria entregue a alguém ao nível de diagnosticador, mas esse EPLH Lonveillin tem estado a trabalhar num planeta que ele diz necessitar urgentemente de assistência módica. Lonvellin requereu ao Corpo de Monitores assistência hospitalar e pediu que você, pessoalmente, dirigisse os aspectos médicos. Aparentemente não é necessário um Grande Intelecto para tal trabalho, mas sim alguém com uma maneira peculiar de olhar para as coisas...

— È muito amável, senhor — disse Conway.

Sorrindo, 0'Mara acrescentou: — Já lhe tinha dito que estou aqui para fazer mirrar cabeças e não para as inchar. E agora aqui está o relatório da situação, neste momento...— Passou a Conway o processo que estivera a ler e levantou-se. — Poderá lê-lo quando estiver a bordo. Esteja na Escotilha Dezasseis para embarcar na Vespasian às 21.30, e entretanto espero que trate dos pormenores. E, Conway, não mostre essa cara de quem viu toda a família morta. Muito1 provavelmente ela esperará por si. E se não esperar você terá outras duzentas e dezassete DBDG para caçar depois. Adeus e boa sorte, Doutor.

Fora do gabinete de O'Mara, Conway tentou descobrir como iria preparar tudo nas seis horas que lhe faltavam para o embarque. Tinha de dar uma lição básica de orientação a um grupo de alunos dentro de dez minutos, e era muito tarde para passar o trabalho a outro. Isso ocuparia três das suas seis horas, ou quatro se ele tivesse pouca sorte — e aquele era um dia de pouca sorte. Depois, uma hora para gravar instruções sobre os seus doentes mais graveis, e por fim jantar. Tinha apenas o tempo indispensável para o fazer. Começou a correr para a Escotilha Sete no piso centésimo oitavo.

Chegou à antecâmara da comporta de ar exactamente quando a escotilha interior se abria e enquanto dominava a respiração começou mentalmente a contar os alunos que passavam por ele. Dois DBLF Kelgianos que ondulavam como grandes lagartas prateadas; depois um PVSJ de Illemsa, os contornos do seu corpo membranoso esbatidos pelo nevoeiro de cloro dentro do seu invólucro protector; um octopóide AMSL Creppeliano, respirador de água, cujo escafandro fazia altos ruídos borbulhantes. Eram seguidos por cinco AACP, uma espécie cujos antepassados remotos tinham sido uma espécie de vegetais móveis. Moviam-se lentamente, mas as garrafas de CO2 que tinham consigo pareciam ser a única protecção de que necessitavam. Depois outro Kelgiano...

Quando entraram todos e a escotilha se fechou de novo, Conway falou. Muito desnecessariamente e apenas como um meio de quebrar o gelo, ele disse: — Estão todos?

Inevitavelmente, todos responderam à uma, fazendo com que o Tradutor de Conway emitisse um uivo de oscilações. Suspirando, ele iniciou o processo habitual da sua apresentação e dar boas-vindas aos novos colegas. Foi só no fim dessas formalidades1 corteses que ele conseguiu fazer recordar discretamente os princípios de funcionamento do Tradutor e a conveniência de falarem cada um de sua vez, para não o sobrecarregarem...

Nos seus mundos originais todos eles eram gente muito importante, medicamente falando. Só no Geral do Sector é que eles eram caloiros, e para alguns deles a transição da mestres respeitados a simples alunos podia ser difícil, de modo que era necessário muito tacto quando se tratava com eles, naquela fase. No entanto, mais tarde, quando começassem a habituar-se, poderiam ouvir descomposturas por causa dos seus erros, como toda a gente.

— Proponho que comecemos a nossa visita pela Recepção — disse Conway. — Ê aí que serão tratados os problemas de admissão e tratamento inicial, Depois, desde que o ambiente não exija uma protecção complexa para nós e o estado do doente não seja crítico, visitaremos as enfermarias adjacentes para observar os procedimentos de exame nos pacientes recém-chegados. Se alguém quiser fazer perguntas em qualquer momento, está livre para as fazer.

«No caminho para a Recepção usaremos corredores que deverão estar repletos. Há aqui um complicado sistema de precedência que governa os movimentos do pessoal médico inferior e superior — um sistema que: aprenderão com o tempo. Mas de momento tenham em conta apenas uma regra. Se a criatura que aparecer na vossa frente for maior que vocês, saiam do caminho dela.»

Ia dizer que nenhum doutor no Geral do Sector seria capaz de propositadamente atropelar um colega e matá-lo, mas pensou outra coisa. Muitos extraterrestres não tinham Um sentido de humor e um comentário desses, ainda que inofensivo, podia conduzir a complicações infindáveis. Em vez disso, disse: — Sigam-me, por favor.

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