Necessidade de pensar o dinheiro



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CEAP

CURSO: Ciências Contábeis.

DISCIPLINA: Ética e Legislação Profissional

PROFESSOR: Vanderlei Camera



NECESSIDADE DE PENSAR O DINHEIRO

O dinheiro tornou-se o grande personagem de nossa época, já que atribuem poderes, importância e características a seres e coisas.

De forma inocente, pais incentivam seus filhos a ser bem-sucedidos, ou seja, a ter muito dinheiro. Além disso, não se enxerga que a vida social cria cada vez mais falsas necessidades, das quais as pessoas ficam reféns. E, então, trabalham cada vez mais, submetidas a quaisquer condições para conseguir obter o que não precisam, mas que, de certa forma, vai aliviar uma existência vazia de sentido, com os louros e a satisfação momentânea do material.

Com a especialização dos saberes, a Filosofia ficou alheia às questões econômicas hoje, há uma espécie de mazela social que traz sérios problemas. E não só no âmbito pessoal, mas na macroeconomia com crises financeiras, falta de emprego, pobreza, violência...

O Existencialismo de Sartre, que surgiu numa época pós-guerra e, por conta disso, estimulou ânimo para mudanças e revolução. Os preceitos propõe que o homem se construa, já que não nasce pronto, mas que o faça de forma consciente de sua liberdade, mas também – e até por conta disso – da responsabilidade do que suas ações vão ecoar no mundo, nas outras pessoas.

DINHEIRO: O DUBLÊ DA VIRTUDE

Tendo a sociedade autenticado um poder àquele que o acumula, e onde o feio fica belo, o ignorante fica inteligente e até mesmo a virtude pode ser comprada, a busca por dinheiro tornou-se um dos grandes predicados de nossa época.

A Filosofia é um valioso instrumento na compreensão dos fenômenos econômicos, em especial na decifração da essência do dinheiro e suas influencias imediatas no comportamento humano, e as questões abordadas por pensadores como Aristóteles, Marx, e mais recentemente, Michael Sandel comprovam essa tese.

O problema do dinheiro e sua importância fundamental no desenvolvimento das relações sociais de modo algum é questão exclusiva para investigação dos economistas e especuladores financeiros; alias, talvez tenha sido justamente o excessivo poder concedido a essas classes no avanço do sistema capitalista um dos fatores que motivaram a erupção de diversas crises financeiras que assolaram o mundo no decorrer das ultimas décadas.

A moderna tecnocracia capitalista caracterizou-se por vislumbrar a emancipação das atividades econômicas de qualquer elemento que não fosse exclusivamente associado aos parâmetros pecuniários. Nessas condições, a Filosofia foi alheada radicalmente do âmbito econômico, rompendo-se o elo forjado no pensamento filosófico grego através de contribuições importantíssimas de pensadores tais como Xenofonte, que considera a economia a administração do patrimônio familiar; ou ainda Aristóteles, para quem a função da arte econômica há de consistir em estabelecer a casa e também fazer uso dela. Em ambos os filósofos encontramos investigações sobre o justo ordenamento e a organização material do espaço domiciliar, demonstrando assim uma relação indissociável com a Ética.

No advento da era moderna, a Economia se metamorfoseia numa ciência que analisa os fluxos de produção de riqueza de uma sociedade e os procedimentos técnicos convenientes para a manutenção e ampliação do poder financeiro de um dado organismo político-social.



SOCIEDADE DE CONSUMO

Uma das conseqüências negativas da quebra que ocorre com a fragmentação dos saberes consiste no direcionamento da vida social moderna aos parâmetros normativos da acumulação de capital, eliminando radicalmente toda consideração ética na relação do ser humano com a ordem de mercado, legitimando assim práticas inescrupulosas que prejudicam a estabilidade da sociedade e a exploração humana por um sistema econômico que impede o alcance da genuína realização pessoal. A esfera pública cedeu lugar aos paradigmas da sociedade de mercado, que, conforme argumenta o filósofo estadunidense Michael Sandel (1953), é um modo de vida em que os valores de mercado permeiam cada aspecto da vida humana. É um lugar em que as relações sociais são reformadas à imagem do mercado.

Na experiência prosaica, muitas vezes enunciamos o ditado popular segundo o qual “dinheiro não traz felicidade”. Analisando-o a rigor, podemos referendar tal tese, pois de fato o poder aquisitivo não é capaz de nos proporcionar a ansiada felicidade, mas, quando muito, a satisfação psicológica de nossos desejos por meio do gozo oriundo do usufruto de bens materiais adquiridos graças ao dinheiro, sem que necessariamente tenhamos a excelsa felicidade. Como sentenciara Aristóteles, a felicidade não pode ser produzida por meio de causas externas, sendo antes uma experiência de beatitude endógena, interior. Georg Simmel (1858-1918), por sua vez, considera que nem o alimento nem a habitação, nem o vestuário nem os metais preciosos são valores per e, mas tornam-se tais só no processo psicológico de sua estimativa, como demonstram os casos em que a ascese ou outras constituições anímicas geram a total indiferença a seu respeito.

O dinheiro nos permite, portanto, participar do sistema de trocas de bens materiais ao qual depositamos qualidades especiais de gozo, satisfação, prazer, sem que necessariamente esses atributos sejam acoplados aos objetos. O sistema capitalista transmite a ilusão de que existe conexão imediata entre bens materiais e a satisfação interior proveniente do consumo dos mesmos. Para Georg Simmel, visto que a maioria dos homens modernos, ao longo da maior parte da vida, tem diante dos olhos o ganho do dinheiro como objetivo mais imediato do desejo, surge a idéia de que toda a felicidade e toda a definitiva satisfação da existência estão intimamente ligadas à posse de um dado montante monetário; de simples meio e condição prévia, o dinheiro converte-se, interiormente, em fim último.

A sociedade capitalista, por meio de sua miríade de oportunidades de consumo e oferta de produto, estimulou a capacidade desiderativa do homem moderno em sua ânsia pela obtenção de mais prazer a cada instante. Como os desejos brotam constantemente em um ritmo tecnicamente incapaz de ser adequadamente satisfeito, a abastança financeira alivia essa tensão psíquica e serve de mecanismo social de distinção. No lugar de diminuir a produção de desejos e assim conseguir desenvolver uma vida mais frugal, o homem moderno se esforça sofregamente para adquirir cada vez mais dinheiro para satisfazer os seus infindáveis desejos, imergindo assim em um processo de alienação existencial do qual se torna incapaz de se emancipar, resultando não raro no seu próprio adoecimento. Georg Simmel pondera que, assim como os meus pensamentos têm de revestir a forma da língua compreendida por todos, para favorecer, por meio desse desvio, os meus objetivos práticos, assim as minhas ações ou os meus haveres se devem estranhar na forma de valor monetário, para auxiliar a persecução da minha vontade.

INTERMEDIADOR DE RELAÇOES

Em uma relação dialógica, caracteristicamente isonômica, os indivíduos interagem entre si por meio de parâmetros axiológicos do amor, da amizade, da camaradagem, da ajuda mútua. Mas quando o dinheiro se interpõe entre ambos, essa interação se artificializa, tornando-se uma relação hierárquica nitidamente repressora, onde quem detém o poder financeiro tudo pode, e que não o detém se submete docilmente. Georg Simmel afirma que o dinheiro deslocou a oportunidade de o individuo satisfazer de modo mais completo os seus desejos para uma distância muito menor e muito mais cativante. Oferece à oportunidade de adquirir, por assim dizer, de um só golpe, tudo aquilo que geralmente surge como desejável, interpõe entre o homem e os seus desejos uma fase de mediação, um mecanismo facilitador, uma vez que com a sua consecução se tornam alcançáveis infinitas outras coisas. Nasce a ilusão de que todas essas se podem obter de modo mais fácil que o habitual. O dinheiro estabelece uma espécie de relação comunicacional artificial entre os indivíduos e suas inerentes trocas de objetos, circunstancia que evidencia seu caráter “medíocre”, pois tudo o que é comum anula a singularidade, a exceção, a excelência. Nesse contexto, Georg Simmel destaca que o dinheiro é “vulgar, porque é o equivalente de tudo e de cada coisa; só o individual é nobre; o igual a muitos é o igual a mais baixa de todas as coisas e, por isso, arrasta também aquilo que é mais excelso para o nível do que é mais baixo. Tal é o caráter trágico de todo o nivelamento: leva imediatamente à condição do elemento mais baixo, pois o mais elevado pode sempre descer para este, mas quase nunca o mais baixo se pode alçar ao elemento mais alto. Aristóteles, alias, já dissera que o dinheiro nos serve também como uma garantia de permutas no futuro; se não necessitamos de coisa alguma no presente, ele assegura a realização da permuta quando ela for necessária; com efeito, ela preenche os requisitos de algo que podemos produzir para p agar p0or aquilo de que necessitamos, de maneira a podermos o que nos falta; o dinheiro, agindo como um padrão, torna ao bens comensuráveis e os igualiza, e não haveria comunidade se não houvesse permutas, nem permutas se não houvesse igualizaçao, nem igualizaçao se não houvesse comensurabilidade.



QUEM NATA TEM, NADA É

A partir do desenvolvimento do regime capitalista, os produtos fabricados em escala industrial adquirem propriedades que não correspondem mais imediatamente aos seus caracteres funcionais; tanto pior, as próprias relações interpessoais passam a ser medidas pelas coisas, ou seja, quem nada tem nada é; decorre daí todas as distinções sociais provenientes da exaltação das posses materiais. Passamos a projetar nos objetos qualidades fantasmagóricas e estas interferem nas relações sociais, interpondo-se entre os indivíduos, originando-se daí o fenômeno denominado por Karl Marx (1818-1883) como “fetichismo da mercadoria”. Os objetos adquirem como que vida própria e se tornam mais importantes do que a própria singularidade humana. De um modo geral, toda a estrutura ideológica da sociedade capitalista segue princípios fetichistas: o âmbito do consumo, as práticas publicitárias, os veículos de entretenimento, a pressão social pelo progresso profissional, dentre diversos outros itens, que encontram em comum justamente o efeito narcotizante do poder pecuniário. Marx, ao desmistificar o dispositivo falsificador capitalista presente na dinâmica social do dinheiro, afirma que ele é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor. O dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, e sou, portanto, presumido honesto. Sou tedioso, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia seu possuidor se tedioso?

Tiremos toda fama e fortuna das celebridades e certamente suas amantes e amigos interesseiros lhe virarão as costas. Tiremos o automóvel do individuo arrogante e toda sua falsa potencia vital, conquistada artificialmente graças ao impacto visual promovido pelo veiculo, se esvanecerá: não é a toa que pessoas sensuais, impetuosas e mesmo agressivas ao volante, quando se tornam meros pedestres, perdem essa energia mágica, apequenando-se humildemente na multidão solitária. Talvez isso explique o curioso fato de que os indivíduos pobres de espírito somente consigam obter sucesso sexual mediante o usufruto dos poderes superiores do automóvel; este se torna uma extensão genital do homem incapaz de dar vazão plena aos seus impulsos por vias naturais; tanto pior, esse indivíduo manifesta mais zelo por seu automóvel do que pela sua parceira sexual. A posse do dinheiro satisfaz, então, todas as necessidades materiais vulgares do homem.

APARENCIAS MEDIDAS

O dinheiro torna inteligente o mais inepto dos homens, o dinheiro concede status acadêmico ao mais medíocre indivíduo, pois, em uma sociedade regida pelos signos das aparências mediadas pelo capital, toda imagem individual é moldada pelo poder financeiro. O filosofo Francês Paul Lafargue (1842-1911) diz que o dinheiro, naquele que o possui, substitui a virtude. Tudo é mercadoria e tudo está a serviço da acumulação do capital; não é de se espantar que o sistema educacional moderno tenha se subordinado aos ditames econômicos capitalistas. No sistema comercialista de ensino, que regulamenta grande parte das instituições secundárias e universitárias de fomento privado, a maior qualidade do estudante é sua capacidade de pagar em dia suas mensalidades; cumprindo essa meta, não há maiores empecilhos para a realização do seu objetivo maior, a obtenção do diploma de conclusão de curso. Professores academicamente exigentes que se esforçam por fazer valer os princípios pedagógicos da seriedade intelectual correm risco de perder o emprego e ser substituídos por professores mais flexíveis, ou seja, submissos aos ditames dos clientes, os alunos. Afinal, aluno reprovado é consumidor insatisfeito, e o freguês sempre tem razão no sistema capitalista. Conforme destaca brilhantemente o filosofo e educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997), no contexto dessa realidade educacional norteada pelo primado economicista: “O dinheiro é a medida de todas as coisas, e o lucro, seu objeto principal.”

FELICIDADE PLENA



Se porventura a humanidade viesse a obter por alguns dias o estado de felicidade plena certamente o sistema capitalista entraria em um colapso mais terrível do que os motivados pelas crises econômicas oriundas das falcatruas dos especuladores financeiros. Podemos assim afirmar que existe uma relação indissociável entre o capitalismo e a degradação não só da humanidade, mas também do meio ambiente. Na dimensão ética, a corrosão do caráter gerada pela arbitrariedade do poder monetário aumenta ainda mais as práticas de exclusão social, a criminalização da pobreza e, acima de tudo, evidencia claramente que os direitos são destinados para aqueles que são capazes de pagar por eles. O dinheiro concede todos os direitos possíveis para os seus detentores, reservando para os desvalidos apenas os deveres. Michael Sandel aponta os malefícios sociais dessa dimensão plutocrática, destacando que além dos danos que causa a bens específicos, o comercialismo corrói o comunitarismo. Quanto maior o numero de coisas que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que as pessoas de diferentes estratos sociais se encontrem.

Jesus disse que não se pode seguir a dois senhores, Deus e o dinheiro; entretanto, no desenvolvimento da sociedade capitalista podemos pagar pela aquisição de bênçãos e pelo perdão divino por todos nossos pecados: basta contribuirmos para a manutenção das obras de Deus na Terra, gerenciada cuidadosamente por seu representante, o sacerdote/pastor. Todas as contradições axiológicas são resolvidas graças ao poder sagrado do dinheiro. Nessas condições, fora do Capital não há salvação. Conforme Paul Lafargue sentencia ironicamente, o Capital é o deus que todos conhecem, vêem, tocam, cheiram, provam: existe para todos os nossos sentidos. É o único deus que ainda não encontrou ateu; as outras religiões só estão nos lábios, mas no fundo do coração do homem reina a fé no Capital. Georg Simmel, por sua vez, afirma que, tal como Deus na forma da fé, também o dinheiro, na forma do concreto, é a máxima abstração a que se alçou a razao prática. Com efeito, na sociedade capitalista, a busca por dinheiro adquire curiosas conotações religiosas, convertendo-se em um mecanismo redentor que pretensamente concede ao seu detentor a “beatitude” materialista do prazer sensível. Encontramo-nos assim em uma situação difícil de ser transformada na conjuntura ideológica vigente, pois a ilusão da onipotência provocada pelo dinheiro gera um efeito soporífero sobre as capacidades cognitivas do homem moderno, deixando-o alheio ao caráter intenso da realidade e suas autênticas relações de forças.


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