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Nada a comemorar

25/01/2015



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São Paulo faz 461 anos sem nada a festejar. Sem água. Sem energia.

A megalópole é um exemplo acabado do preço que se paga pela cegueira nacional para os problemas mais graves do mundo. Cegueira, aliás, que não é só dos governos.

Todos falam do calor, da falta de luz, das torneiras secas, das enchentes, do trânsito. Poucos conseguem ver que Deus e são Pedro não têm culpa pelos nossos pecados.

Duas notícias recentes resumiram o estado de saúde debilitado do planeta, mas não há indício de que as escamas cairão dos olhos de quem manda, faz e acontece por aqui.

A primeira revelação foi que 2014 despontou como o ano mais quente desde 1880. Não é exceção. Dos últimos 20 anos, 19 ocupam o topo da lista dos mais escaldantes.

A outra notícia foi que 4 de 9 limites planetários -definidos como condições para sustentar a espécie humana na Terra- já foram ultrapassados: concentração de gás carbônico (CO2), perda de biodiversidade, desmatamento e ciclo de nitrogênio e fósforo.

O estudo saiu publicado na revista americana "Science". Vale a pena percorrer a lista de excessos para avaliar a contribuição de São Paulo, ainda que grosseiramente, para esse desequilíbrio natural.

A concentração atmosférica de CO2, principal gás do efeito estufa e propelente da mudança do clima, aumenta com a destruição de florestas e a queima de combustíveis fósseis para produzir eletricidade (carvão, óleo e gás usados em termelétricas) ou mover veículos.

O Estado de São Paulo responde por 33% do PIB brasileiro e 30% da frota nacional. É a região sul-americana que mais alimenta o aquecimento global com gases-estufa, em especial a área metropolitana de sua capital.

Isso vale também para o passado. Os paulistas dizimaram 86% da mata atlântica que cobria a maior parte de seu território. Com isso, de uma tacada, se excederam nos outros três limites planetários: carbono (CO2), cobertura florestal e biodiversidade (riqueza de espécies).

A profusão de tipos de animais, plantas e microrganismos é um indicador da saúde de florestas tropicais chuvosas como a mata atlântica. Entre outros serviços ambientais, elas armazenam e produzem grande quantidade de água.

Com o desmatamento, os mananciais secam. O sistema Cantareira não chegou aonde chegou só por falta de chuva ou excesso de irresponsabilidade, mas por carência de matas no entorno. É o quinto limite planetário, uso de água doce, obviamente excedido em São Paulo.

Isso por acaso quer dizer que o inferno astral dos paulistanos, neste verão do capeta, constitui alguma prova de que o aquecimento global já começou e de que a humanidade é a maior responsável por ele?

Não. Por provável que seja, esse vínculo causal entre o fenômeno localizado e a tendência planetária de longo prazo ainda está fora do alcance do conhecimento científico.

É preciso resistir a cometer o mesmo erro, com o sinal trocado, dos céticos do clima, que a cada inverno rigoroso correm para dizer que estaria provada a "farsa" do aquecimento global.

Por falar nisso, você tem visto algum cético do clima por aí (fora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) pontificando sobre as vantagens de um planeta quente?



Eles é que deveriam estar comemorando. Não os paulistanos.

Marcelo Leite é repórter especial da Folha, autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp). Escreve aos domingos.


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