Na trincheira do folclore: pesquisas e políticas de proteção à cultura popular no âmbito da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro



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Na trincheira do folclore: pesquisas e políticas de proteção à cultura popular no âmbito da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro.

Ana Teles da Silva1



Resumo:

Neste trabalho pretendo explorar uma parte da minha pesquisa de doutoramento, sobre a rede de estudiosos de folclore que se agregaram em duas publicações promovidas pela Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (1958-1978), a Revista Brasileira de Folclore (1961-1976) e os Cadernos de Folclore (1975-1986).

A Revista Brasileira de Folclore era uma publicação trimestral que reunia artigos de estudos de folclore, resultados das pesquisas de muitos estudiosos; reflexões sobre a disciplina folclore e formas de valorizá-la; homenagens a pioneiros e importantes artífices no campo dos estudos de folclore; notícias sobre assuntos relativos aos intelectuais estudiosos de folclore, à valorização da cultura popular, à instituição de prêmios para trabalhos sobre o folclore e à criação de museus que apresentassem a cultura popular; resenhas de livros e periódicos voltados para a antropologia e os estudos de folclore.

Os Cadernos de Folclore correspondem a um pequeno livreto com uma capa ilustrada ou com foto sobre o assunto a ser tratado. Cada Caderno é monotemático, trazendo um artigo com imagens, eventualmente partituras e notações coreográficas e uma bibliografia no final.

Buscaremos, a partir dos artigos da Revista Brasileira de Folclore e dos Cadernos de Folclore analisar as formas de pesquisa, seleção e consagração de certos temas como folclóricos e a simultânea configuração de um campo de estudos de folclore. Discutiremos ainda a relação entre a pesquisa de expressões da cultura popular, a atribuição de certas expressões a determinadas regiões e a preocupação com a proteção destas expressões. Será objeto de análise também paralelos entre as formas de pesquisa e políticas de proteção às expressões culturais populares, empreendidas no âmbito da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, e as atuais políticas publicas relativas ao patrimônio imaterial.

Palavras Chave: Estudos de Folclore, Intelectuais, Cultura Popular, Cadernos de Folclore, Revista Brasileira de Folclore

Neste trabalho abordaremos as formas de pesquisa, seleção e consagração de certos temas como folclóricos e a simultânea configuração de um campo de estudos de folclore através da análise das publicações em torno do qual se agregaram a rede de estudiosos de folclore, qual seja a Revista Brasileira de Folclore (1961-1976) e os Cadernos de Folclore (1975-1985). Discutiremos ainda a relação entre a pesquisa de expressões da cultura popular, a atribuição de certas expressões a determinadas regiões e a preocupação com a proteção destas expressões.

Conforme indicou Vilhena (1997), o Movimento Folclórico Brasileiro tem como marco a constituição da Comissão Nacional de Folclore, em 1948, a partir de uma iniciativa das Nações Unidas para promover a paz entre os povos depois da II Guerra Mundial. Com apoio da Unesco, este Movimento articulou uma rede nacional de estudiosos organizados através de um centro, configurado por esta Comissão, que se ligava nos diferentes estados brasileiros às então chamadas Subcomissões de Folclore, intelectuais e estudiosos que, interessados na cultura popular, de forma mais ou menos diletante, foram chamados a participar desta rede. Deste modo, esforços anteriores, muitas vezes individuais e sem apoio oficial, foram canalizados para a Comissão Nacional de Folclore (CNF), e nos anos subsequentes para as Subcomissões, logo denominadas Comissões Estaduais.2

Em 1958, o Movimento Folclórico conseguiu uma importante vitória ao obter a sua institucionalização como órgão autônomo do Ministério de Educação e Cultura. Este órgão, chamado de Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (doravante CDFB), foi criado pelo presidente da República, Juscelino Kubitschek, e tinha como objetivo promover pesquisas, divulgar e preservar o folclore brasileiro (Cavalcanti e Vilhena, 2012).

A Revista Brasileira de Folclore e a 2ª Série dos Cadernos de Folclore foram publicados no âmbito da CDFB.

A Revista Brasileira de Folclore [doravante RBF] era uma publicação trimestral que reunia artigos de estudos de folclore, resultados das pesquisas de muitos estudiosos; reflexões sobre a disciplina folclore e formas de valorizá-la; homenagens a pioneiros e importantes artífices no campo dos estudos de folclore; notícias sobre assuntos relativos aos intelectuais estudiosos de folclore, à valorização da cultura popular, à instituição de prêmios para trabalhos sobre o folclore e à criação de museus que apresentassem a cultura popular; resenhas de livros e periódicos voltados para a antropologia e os estudos de folclore.

Os Cadernos de Folclore em sua 2ª Série constituem-se de monografias variando de 16 a 80 páginas sobre expressões da cultura popular e do folclore. Alguns destes Cadernos, assim como os artigos de pesquisa da RBF apresentavam fotografias, partituras, glossários e coreografias. Entretanto, de forma diversa dos artigos da RBF, os Cadernos tinham também referências bibliográficas.



Formação para a pesquisa

Uma das preocupações de Renato Almeida, que esteve à frente da CDFB, era a de que esta proporcionasse formação para a pesquisa de forma a prover quadros aptos a realizar um mapeamento da cultura popular no Brasil (ALMEIDA, 1965). Esta preocupação pode ser observada nos cursos para pesquisa que são anunciados no noticiário, da RBF, e de manuais editados voltados para ela. A formação para a pesquisa e o trabalho de campo, no entanto, não era um conhecimento que todos os autores já tivessem por meio da formação acadêmica. Como aponta Vilhena (1997), para que o folclore tivesse alguma legitimidade enquanto ciência social, era necessário demonstrar que a pesquisa folclórica tinha uma orientação científica.

Tanto Renato Almeida quanto Guilherme Santos Neves escreveram manuais de pesquisa folclórica. Neves escreveu o Caderno de Folclore nº 8, 1ª Série: Normas para a Pesquisa da Literatura Oral (1969 [1960]) e explica que este Caderno, anterior ao Manual de Coleta Folclórica, de Renato Almeida, foi elaborado por uma solicitação deste. Nele, o autor procura fornecer orientações gerais de pesquisa a partir da compilação dos autores Luís da Câmara Cascudo, Oswaldo R. Cabral, Rossini Tavares de Lima, Edison Carneiro, Renato Almeida e Aires da Mata Machado Filho.3 Neves inicia o Caderno definindo a literatura oral. Em seguida, o autor diferencia a pesquisa direta da indireta. A pesquisa indireta é quando o pesquisador apenas ouve o relato de participantes de determinada manifestação popular, enquanto a pesquisa direta é quando o autor observa diretamente determinada manifestação.

Diferente do Manual de Coleta Folclórica de Renato Almeida, não é explicitado a quem se dirigiam essas normas, ainda que se possa supor que fossem endereçadas a um público leigo porque, nas recomendações finais de como redigir um relatório de pesquisa, é apontado que tudo deve ser expresso em linguagem clara, “sem acréscimos supérfluos nem conclusões desnecessárias” (NEVES, 1969, p. 9) indicando, possivelmente, que a interpretação devesse ficar a cargo de especialistas.

As normas para pesquisa são apresentadas em nove blocos distintos. Algumas delas referem-se a diretivas que poderiam ser encontradas em manuais de antropologia, outras são mais voltadas para os objetivos dos estudos de folclore, como o registro minucioso da coreografia e da música de um folguedo. Assim, pode ser observado que uma parte das orientações é relativa a atividades de registro, e outras se referem a melhor condução do pesquisador em campo.

Neves recomenda a maior integração social possível no meio onde será feita a “coleta” ou observação. Ele cita Renato Almeida no sentido de alertar os pesquisadores quanto ao autoengano de acreditar que a integração com o grupo a ser observado será uma conquista imediata:

É ingênuo acreditar que, por se chegar a um grupo, apertar a mão, bater nas costas, fazer brincadeiras, meter-se na dança, comer e beber com eles, esteja garantindo o êxito da tarefa. A observação participante só se torna eficiente quando se adquiriu a confiança e, em geral, isto não acontece no primeiro momento (ALMEIDA apud NEVES, 1969, p. 4).

A escolha dos informantes vale um tópico: é recomendado, em geral, pessoas mais idosas e mulheres, pois seriam as que sabem mais. No entanto, não se deve restringir a pesquisa a apenas um informante: “ouvir em conjunto, ou separadamente, mais de um sobre o mesmo assunto ou aspecto” (NEVES, 1969, p. 5).

O comportamento que o pesquisador deve ter de forma a obter informações é detalhado. A ênfase está na criação de uma relação de proximidade com os informantes. Neves cita o conselho de Aires da Mata Machado: “O pedantismo distancia, tanto quanto a singeleza forçada irrita e gera desconfiança. Não há quem goste de perceber que se está fazendo pouco caso dele” (MACHADO apud NEVES, 1969, p. 6). Há de se ter respeito pelos informantes, jamais zombando de sua ingenuidade e sempre mostrando interesse para que eles sejam estimulados a dar informações minuciosas. É preciso saber formular perguntas: “Nunca perguntar isto é assim?mas sempre, como é?” (ALMEIDA apud NEVES, 1969, p. 5).

Há também a sugestão para que uma equipe de pesquisa tenha mulheres, pois são mais capazes de “entrar na intimidade dos elementos femininos do grupo social que compõe a pesquisa” (CABRAL apud NEVES, 1969, p. 5). No entanto, as pesquisadoras devem se vestir com modéstia e recato, “a fim de evitar comentários ou atitudes desagradáveis por parte dos componentes do grupo” (Carneiro apud Neves, 1969p. 6).

As notas de campo não devem ser adiadas sob o risco de a memória perder dados importantes (NEVES, 1969, p. 6) Recomendação semelhante a que pode ser encontrada em manuais de etnografia.

A importância dada ao registro aparece na orientação de se levarem outros profissionais para a pesquisa, como fotógrafo, cinegrafista, desenhista, encarregado das gravações, e alguém que possa transcrever a música em pauta, caso o pesquisador não saiba fazê-lo (NEVES, 1969, p. 4, 7) As danças também devem ter sua coreografia registrada; são dadas várias recomendações sobre a forma correta de se fazerem os desenhos coreográficos.

Em relação ao registro, aparecem algumas ambiguidades. Por um lado, este precisa ser o mais fiel possível à realidade do objeto estudado. O pesquisador não deve corrigir nenhuma trova ou verso. “Ninguém admite a possibilidade de modelar uma cismalha de frontão, no intuito de tornar mais bonita ou de dar mais efeito à fotografia. No material folclórico este respeito deve ser idêntico” (CASCUDO apud Neves, 1969, p. 7). No entanto, o autor considera que algumas seleções do objeto pesquisado devem ser feitas. No caso do registro de um canto pelo gravador, “convém obter também, após a gravação do coro ou conjunto, uma em solo, para melhor entendimento da letra do que se entoa. Para isso se escolherá o cantador de melhor dicção ou melhor voz” (NEVES, 1969, p. 7; grifo meu). Da mesma forma, quando da filmagem, são recomendadas seleções: “Quando fizer registro cinematográfico, deverá o pesquisador colher (se não for possível todo o fato folclórico) os seus aspectos mais expressivos e interessantes” (NEVES, 1969, p. 8; grifo meu).

É interessante observar que, ao mesmo tempo em que não é recomendado ao pesquisador fazer muitas interpretações ou modificar o que está sendo observado, estimula-se a seleção do caso ou detalhe mais expressivo do que for considerado melhor por ele. Desta forma, o pesquisador torna-se também um ator na conformação de uma determinada expressão popular.4

O relatório final de pesquisa deve conter informações sobre a localização e o período de realização da pesquisa, bem como dados sobre os informantes: nome, sexo, cor, local de nascimento e de residência, profissão, posição social no meio em que vive e função que executa no grupo folclórico (NEVES, 1969, p. 9).

Neves aconselha ainda a recolha de qualquer material que esteja disponível para o pesquisador: “Esse material o pesquisador deve coletar, adquirindo-o por compra, doação ou troca” (NEVES, 1969, p. 9). No entanto, ele adverte que, a não ser no caso de compra de algum bem material, não deve ser dado dinheiro aos informantes como pagamento pelas informações fornecidas. “Deixar bem claro no espírito dos informantes de que qualquer coisa dada o foi por amizade, um agrado apenas, nada tendo que ver com o folclore. O que nos mostram não tem preço, só se faz para amigos” (ALMEIDA apud NEVES, 1969, p. 9).

Em 1960, o Conselho da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro determinou a publicação do livro Manual de Coleta Folclórica (1965), escrito por Renato Almeida. Na apresentação, Almeida expõe as motivações da Campanha para a elaboração de um Manual de Coletador de Folclore. O autor esclarece que o manual não é para folcloristas e sim para pessoas que apenas coletarão o folclore sem interpretá-lo. A interpretação será realizada por especialistas. O alcance das pesquisas almejadas pela Campanha não seria possível apenas com a quantidade de pessoal disponível para a pesquisa.

Justifica a incumbência a dificuldade de recrutamento de pessoal técnico, inclusive pela sua exiguidade, para os levantamentos e pesquisas que a Campanha se propõe a realizar. Assim, terá de valer-se de pessoas de boa vontade, embora sem conhecimentos de folclore, para proceder a coletas, fazer a localização de fatos folclóricos e fornecer elementos para que os especialistas procedam às investigações em profundidade e possam elaborar o mapa da nossa cultura popular (ALMEIDA, 1965).

Almeida menciona ainda os colegas que o ajudaram com sugestões: Guilherme Santos Neves, César Guerra-Peixe, Oswald de Andrade Filho, Oswaldo Cabral e Rossini Tavares de Lima.

Os manuais de Almeida e Neves, difundidos no âmbito da atuação da CDFB, parecem ter imprimido um certo padrão às pesquisas folclóricas. A variada formação inicial de muitos destes intelectuais e a não institucionalização universitária dos estudos de folclore como um campo disciplinar específico produziram formas de pesquisar bastante variadas. Essa diversidade pode ser depreendida da leitura dos artigos da Revista e dos Cadernos. Muitas vezes as condições em que são feitos os trabalhos de campo não são explicitadas. No entanto, algumas características são recorrentes em vários artigos. Muitos seguem o mesmo padrão: apresentam as origens históricas de uma determinada manifestação cultural; prosseguem com algum tipo de apresentação sobre a localidade em que esta ocorre, com dados socioeconômicos; continuam com a descrição da origem social dos brincantes, sua cor, idade e gênero, e apresentam então uma sequência das etapas seguidas na realização de um determinado auto ou folguedo. O texto geralmente vem acompanhado de partituras, versos, esquemas coreográficos e fotografias. Muitas vezes as fotografias ilustram os textos. Há também os glossários com verbetes dos termos usados pelos grupos populares.



Os artigos de Rossini Tavares Lima

Para analisar mais detidamente alguns aspectos relacionados à pesquisa entre os estudiosos do folclore, escolhemos os artigos de Rossini, presidente da Comissão Paulista de Folclore (1948-1976).

No primeiro número da RBF (1961), Rossini escreve o artigo “Alguns complexos culturais das festas joaninas”. As pesquisas disponíveis eram até aquele momento superficiais, “nem sempre produto de colheita científica”. Desta forma, ele considerou importante, “a partir de 1950, iniciar uma série de pesquisas de campo, no estado de São Paulo, objetivando a colheita e a análise do material, para concluirmos sobre a real significação das nossas festas juninas”.

O autor tem a preocupação de explicitar a metodologia utilizada para a pesquisa. Trata-se de um formulário entregue para alunos e ex-alunos composto dos seguintes itens a serem preenchidos: Da reza, Do mastro, Da fogueira ou caieira, Dos fogos e balões, Da lavagem do santo, Do casamento, Da literatura oral e da música, Das danças, Das ervas, Das sortes, Dos quitutes e bebidas. Esses formulários foram preenchidos por um período de cinco anos e o material resultante foi analisado pela professora Jamille Japur T. de Lima, também da Comissão Paulista de Folclore, e esposa de Rossini. O trabalho de mapeamento reuniu amostras de festas juninas “em diferentes pontos do nosso Estado, tanto da Capital e redondezas, grandes e pequenas cidades, vielas e meios rurais: sítios, chácaras, fazendas”, com o que “nos encontramos em condições de discorrer sobre as suas principais características e seu sentido dentro da cultura espontânea do povo paulista”. No final do artigo, há a relação das cidades pesquisadas e uma bibliografia (apontamos para o fato de que a grande maioria dos artigos da RBF não apresenta bibliografia).

O artigo enfoca três aspectos representativos das festas juninas: lavagem do santo, casamento e reza. Sobre cada um é apresentada uma descrição acompanhada de foto.

No final do artigo aparece a única referência a uma informante, Malvina da Luz, notável “cantadeira” da localidade que transmitiu a oração “João Batista” – transcrita na parte final do artigo – ao estudante Cassio M’Boy.

“Estudo sobre a Viola” (RBF, nº 8, 1964) é outro artigo de Rossini em que se destaca a relevância da Comissão Paulista de Folclore para a realização de pesquisas. A equipe de pesquisadores era ligada à Comissão Paulista de Folclore – Marina de Andrade Marconi, Kilza Setti e Guerra-Peixe – e realizou entrevistas com violeiros em diversas regiões de São Paulo para registrar as formas de afinação da viola. Rossini inicia o artigo falando sobre as origens ibéricas da viola.

Estudos sobre viola eram raros, sendo o primeiro o de Luís Heitor Correia, na década de 1940, e o atual, da Comissão Paulista. Assim como no caso da Festa Junina, parecia haver, por parte de Rossini, um projeto para que a Comissão Paulista preenchesse lacunas de pesquisa. Este artigo tem a forma de um inventário das variadas formas de se tocar viola em diferentes regiões de São Paulo; não há dados sobre informantes ou qualquer relação entre a viola e o contexto social. São duas as fotos ao longo do texto, cada uma delas trazendo um homem segurando uma viola, e a figura destes homens e suas violas são recortadas de maneira que eles apareçam sobre um fundo branco com a legenda “Viola Caipira”.



Ainda outro artigo de Rossini é “Folclore do Dia a Dia em Relatório de Estudantes” (RBF, nº 27, 1969). Ele solicitou a estudantes descendentes de estrangeiros em São Paulo que fizessem relatórios sobre o folclore do dia a dia que fossem “expressões de cultura espontânea que fazem parte integrante do nosso comportamento diário no grupo ou agrupamento social em que vivemos” (LIMA, 1969, p. 113). O artigo consiste no relato de sete destes estudantes estrangeiros ou descendentes de japoneses, espanhóis, portugueses e italianos. Rossini considerou que os alunos estavam fazendo um exercício de observação participante e sugeriu que elaborassem relatórios sobre esses costumes em períodos de três a seis meses. Os resultados permitiram “proveitosas conclusões sobre a problemática da aculturação folclórica na classe média paulistana”5 (1969, p. 113). Os estudantes relataram formas de saudação, ditados, hábitos alimentares e superstições. Não há fotos nestes artigos.



Separação coletador de campo/intérprete

Clifford (2002), ao examinar o final do século XIX na história da antropologia, fala de um período que apresenta alguns paralelos com os estudos de folclore. Era uma época em que o etnógrafo não tinha o status de melhor intérprete da vida nativa (CLIFFORD, 2002, p. 22). O teórico e o pesquisador de campo não eram necessariamente a mesma pessoa. A transformação teria vindo com Malinowski que empreendeu uma série de estratégias de forma a legitimar a figura do etnógrafo como um coletor de dados e intérprete da vida nativa. “O teórico-pesquisador de campo substituiu uma divisão mais antiga entre o man on the spot (nas palavras de James Frazer) e o sociólogo ou antropólogo na metrópole” (CLIFFORD, 2002, p. 23). Isto não significa que os teóricos não procurassem estabelecer algum padrão para os amadores realizarem pesquisa de campo: “Antes do surgimento da etnografia profissional, escritores como J.F. McLennan, John Lubbock e E.B Tylor haviam tentado controlar a qualidade dos relatos sobre os quais estavam baseadas suas sínteses antropológicas” (CLIFFORD, 2002, p. 24). Em relação aos estudiosos de folclore, havia a preocupação em treinar amadores que pudessem coletar dados a serem analisados por intérpretes experientes, e em treinar os próprios estudiosos de folclore para o trabalho de campo.

Em correspondência com o etnólogo português Jorge Dias, datada de 1961, Renato Almeida expressa-se da seguinte forma acerca das motivações que o teriam levado a escrever o Manual de Coleta Folclórica (do qual tratamos no item anterior):

Não se trata de pesquisa, mas de coleta, feita para uma mentalidade de professora pública ou agente de estatística, a quem se possa pedir para fazer os levantamentos iniciais, que orientem as pesquisas gerais [...] E interessa-nos muito fazer cursos, porque o pessoal habilitado para pesquisa é pequeno.

Cavalcanti e Vilhena (2012c) apontam o dilema vivido pelos folcloristas entre criar uma metodologia científica para o folclore e, ao mesmo tempo, garantir um grande número de amadores para a realização das coletas folclóricas. Na 2ª Semana Nacional de Folclore, ocorrida em 1954 em São Paulo, Rossini defende uma das soluções para este dilema: “A comunicação de Rossini Tavares Lima, na 2ª Semana, acrescentava a essa concepção de coleta documentária a ideia de que, mais do que qualquer interpretação ou preocupação teórica, importava, naquele momento, garantir a pureza do material coletado” (CAVALCANTI; VILHENA, 2012c, p. 116).

Segala aponta a pouca autonomia que as imagens têm na RBF enquanto documento etnográfico. A fotografia representa pouco em si mesma, ela “ilustra ou enfeixa a argumentação textual” (1999, p. 83). Cremos que, no caso de Rossini, em que a sua ausência física do contexto pesquisado é assumida com a mediação da equipe de pesquisadores, as fotografias utilizadas mostram a tentativa de retratar os sujeitos em ação, como se não houvesse uma câmera ali. Elas parecem revelar sua tentativa de coletar o folclore em estado “puro”, sem interferências.

Vemos assim que, de maneira similar ao período vitoriano na antropologia, os estudiosos de folclore acreditavam ser possível o acesso ao dado de forma direta e pura. Então, seria possível separar o “coletador” de folclore do interpretador dos dados e desta forma fazer o mapeamento cultural de grandes áreas do território nacional, projeto caro à CDFB.

Ao longo deste trabalho procuramos analisar como a CDFB buscou padronizar uma certa maneira de se pesquisar a cultura popular acreditando ser possível a apreensão do fato folclórico puro, sem mediação. Entretanto os estudiosos do folclore reunidos na RBF e nos Cadernos de Folclore transitavam entre a busca por um maior cientificismo nas suas pesquisas, a ideia de que seria possível apreender o fato folclórico puro e uma valorização de experiências subjetivas e individuais. No primeiro caso, acreditavam ser possível reunir métodos de pesquisa que permitissem a qualquer um coletar dados de forma direta; no segundo caso, aparecem artigos que relatam experiências e vivências de pesquisa únicas, não passíveis de reprodução. Coexistiam as ideias de que seria possível mapear a cultura popular em todo o território nacional e que haveria uma forma padronizada de fazê-lo e as noções bem tradicionais de um mundo relacional, no qual a pesquisa e o relato dos “fatos folclóricos” eram vistos como indissociáveis das relações hierárquicas, vivenciais e tradicionais.

Ao mesmo tempo, se muitos dos intelectuais ligados a essa rede já faleceram ou se aposentaram, sua forma de trabalho e suas temáticas e interesses reaparecem nas recentes políticas públicas ligadas ao patrimônio imaterial, e também na grande ampliação temática da antropologia contemporânea, da etnomusicologia, dos estudos de performance, entre outros. Nas políticas públicas do Patrimônio Cultural Imaterial é a ideia de um extenso mapeamento da cultura popular – tão cara aos folcloristas – que volta à tona nos dias de hoje.

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Renato. Manual de coleta folclórica. Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro, 1965.

CAVALCANTI Maria Laura Viveiros de Castro; VILHENA, Luiz Rodolfo da Paixão. Traçando Fronteiras. Florestan Fernandes e a marginalização do Folclore. In: CAVALCANTI Maria Laura Viveiros de Castro (org.). Reconhecimentos: antropologia, folclore e cultura popular. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2012

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro; FONSECA, Maria Cecilia Londres. Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil: Estado da Arte. In: ___. Patrimônio Imaterial no Brasil. Brasília: Unesco/Educarte, 2008.

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Org. por José Reginaldo Santos Gonçalves. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.

NEVES, Guilherme Santos. Normas para a pesquisa de Literatura Oral. Cadernos de Folclore, nº 8, p. 1-12, Rio de Janeiro, CDFB/ MEC, 1969.

SEGALA, Lygia. Fotografia, Folclore e Cultura Popular. Cadernos de Antropologia e Imagem, nº 8, Rio de Janeiro, UERJ, NAI, 1999.

VILHENA, Luís Rodolfo. Ensaios de antropologia. Rio de Janeiro: Editora Uerj, 1997.

Revista Brasileira de Folclore, v. 1, nº 1, Rio de Janeiro, CDFB/MEC, jan./abr. 1961.

_____. Rio de Janeiro, CDFB/MEC, v. 4, nº 8-10, jan./dez. 1964.



_____. Rio de Janeiro, CDFB/MEC, v. 10, nº 27, maio/ago. 1970.

1 Doutora pelo PPGSA/UFRJ – Antropóloga no MNBA/IBRAM.

2 “Depois da criação da CDFB, em 1958, as Subcomissões, ligadas à Comissão Nacional de Folclore, passaram a ser chamadas Comissões, o que – no entender de Renato Almeida – favoreceria seu prestígio e a almejada capacidade de articulação junto aos órgãos do estado” (REIS, 2008: 14).

3 Neves indica que foram consultadas as seguintes obras destes autores: CASCUDO, Luís da Câmara. História da Literatura Brasileira. Coleção Documentos Brasileiros. Vol. VI, nº 63. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952; CABRAL, Oswaldo R. Cultura e Folclore, Florianópolis: Editora, 1954; LIMA, Rossini Tavares de. ABC de Folclore. 2. ed. São Paulo: Editora, 1958; CARNEIRO, Edison. Pesquisa de Folclore. Rio de Janeiro: Comissão Nacional de Folclore/ IBECC, 1955; ALMEIDA, Renato. Inteligência do Folclore. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957; Sugestões para colheita de Material. Natal: Sociedade Brasileira de Folclore, 1942; MATA MACHADO FILHO, Aires da. Curso de Folclore. Rio de Janeiro: Editora, 1951; CASCUDO, Luís da Câmara. Uso e Abuso do Folclore. A manhã, Rio, edição de 02/06/1944. Transcrito em Folclore, Vitória-ES, Ano 3º, nº 13/15, jul.-dez. 1951.

4 Neves, por exemplo, denominou como Ticumbi o que até então era chamado de Baile de Congos no norte do Espírito Santo. Ticumbi correspondia a uma parte do bailado que passou a denominar todo o folguedo. Com esta denominação, este bailado ficou conhecido fora do estado do Espírito Santo, tendo Neves escrito o Caderno de Folclore, 2ª Série, Ticumbi (1976).

5 A questão da aculturação dos imigrantes estrangeiros parecia ser uma das preocupações de autores ligados à Comissão Paulista. No seu Caderno de Folclore, 2ª Série, Folclore e Educação (nº 5, 1976), Maria de Lourdes Borges Ribeiro fala das várias aplicações possíveis para o Folclore na Educação. O interessante é sua percepção do folclore enquanto um instrumento cívico de aculturação de imigrantes, quando fala das aplicações do Folclore para o ensino artístico: “O ritmo é um elemento nacionalizante por excelência e visto possuirmos grandes núcleos de estrangeiros, devemos dar ênfase ao canto, mas ao canto folclórico, de um lado para ensinar as nossas melodias e ritmos, de outro, para erradicar, paulatinamente, os ritmos nativos desses alunos, que transportarão aos seus lares a nossa rítmica, um dos fatores para a sua integração na terra nova, que será sua pátria” (RIBEIRO, 1976, p. 21).


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