Milena Borges de Moraes1 Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural



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FONTE- ABAURRE, M. L., 2004, p. 262


O exercício em questão ao propor: “indique a função sintática dos termos extraídos da tira, justificando sua resposta” possibilita transpor um olhar gramatical/normativo aos termos “das necessidades” “de meus entes queridos” e “aos seus barcos”. Nessa perspectiva, os referidos termos são classificados, respectivamente, como objeto indireto, complemento nominal e objeto indireto e a explicação para tais funções sintáticas são baseadas nas se- guintes afirmações: objeto indireto porque é “o termo da oração que integra o sentido dos verbos transitivos indiretos. Tais objetos vinculam-se indiretamente aos verbos, através da mediação de uma preposição” (ABAURRE, M. L., 2004, p. 256); complemento nominal – como aquele que complementa o sentido de um nome.

Destarte, o referido exercício é baseado essencialmente na metalinguagem, o texto é utilizado como pretexto para isolar enunciados que legitimem classificações, ou seja, observa-se procedimentos sintáticos para convencer de que sabe gramática.



Vale ressaltar que na proposta do livro didático em questão, encontramos seções exclusivas para tratar de cada um dos seguintes temas: “A arte como representação do mundo”, “Da análise da forma à construção do sentido”, “Prática de leitura e produção de texto”. O conteúdo sintático desse exercício faz parte do tema “Da análise da forma à construção do sentido”. Porém essa “construção do sentido” não é possibilitada, pois desconsidera-se que sentido em tais termos a partir do momento em que a ênfase é atribuída em conhecer/reconhecer o sistema lingüístico.

Diante dessa conjuntura, faz-se necessário explicitar que a concepção de língua subjacente nessa proposta vai ao encontro do que Saussure (2000, p. 22) pondera: “A língua não constitui, pois uma função do falante: é o produto que o indivíduo registra passivamente; não supõe jamais premeditação, e a reflexão nela intervém somente para a atividade de classificação”.

No entanto, ao refletirmos o funcionamento discursivo desses termos, podemos observar que no discurso eles não “complementam” apenas o sentido do verbo ou nome, como propõem as gramáticas tradicionais, ou seja, deixam de estar submetidos a uma

ordem lógica da língua e passam a ser condicionados de acordo com o contexto da enun- ciação, dos objetivos dos sujeitos falantes e, estes, são influenciados pela sua história, pela ideologia e pelas condições de produção. Nesse sentido, podemos observar que em cena duas interpretações distintas, e o humor da tira está justamente em indicar que existem essas duas interpretações.

No que diz respeito à sala de aula, essa tira é importante, pois ela emite visibilidade à possibilidade de que diversos sentidos para um mesmo texto sejam feitos. Além disso, mostra, também, que a diversidade de interpretações encontra sua materialidade na língua: aqui, no caso, o uso inusitado do termo “aos seus barcos”, contradizendo um efeito de sentido encadeado, normalmente, ao dizer de “de entes queridos”, ou seja, “pessoas” e não “bens materiais”.

Continuando o percurso analítico, tomaremos agora o segundo exercício selecio-



nado:

    1. Qual é a função sintática da expressão por macacos, na tira? Justifique sua resposta.

    2. Avisado por Lucy que um homem criado na selva por macacos havia sido criado como personagem por alguém, Linus resolve adaptar o texto de sua história. Para fazê-lo, produz a substituição de um elemento sintático. Qual é a substituição feita?

    3. Como explicar o comentário de Lucy no último quadrinho?

(ABAURRE, M. L., 2004, p. 262)
Podemos perceber que o exercício em questão também é proposto a partir do gênero “tira de humor”. Tem como personagens Lucy e Linus, os quais são de autoria de Peanuts Schulz. Nessa tira, uma crítica em cima da falta de criatividade da personagem Linus, demonstrando confronto de dois personagens que exprimem posições discursivas e ideológicas distintas e isso é explorado por meio de variados recursos da linguagem verbal e não-verbal.

Por outro lado, ainda que seja possível atrelar análise linguística e análise discursiva, a proposta da letra B, nesse exercício, é a seguinte “Avisado por Lucy que um homem criado na selva por macacos havia sido criado como personagem por alguém, Linus resolve adaptar o texto de sua história. Para fazê-lo, produz a substituição de um elemento sintático. Qual é a substituição feita?”. Isso leva o aluno apenas a identificação mecânica do termo substituído, ou seja, desconsidera-se toda ordem histórica, ideológica do enunciado que possibilitou efeitos de sentidos diferentes entre as personagens.

Dito isso, é preciso observar que a Análise do Discurso parte do pressuposto de que



um texto é um lugar de materialização/manifestação do discurso, uma versão/recorte da história. A Análise do Discurso primeiro pensa nas condições histórica, ideológica, social que possibilitam a produção de um determinado texto, conforme observa Pêcheux, utilizando-se de um provérbio chinês:

Quando lhe mostramos a lua, o imbecil olha o dedo. Com efeito, por que

não? Por que a Análise do Discurso não dirigiria seu olhar sobre os gestos de designação antes que sobre os designata, sobre os procedimentos de montagem e as construções antes que sobre as significações? (PÊCHEUX 1999, p 54-5).


Nessa perspectiva, as escolhas lingüísticas dos termos pelas personagens da tira, não são individuais, conscientes, apesar de os sujeitos terem a ilusão de que podem controlar o sentido, são escolhas condicionadas por uma dada posição discursiva e isso poderia ser explorado mostrando o funcionamento da língua.

As questões acima ganham endosso na fala de Paulo Leminski por meio do poema:


O ASSASSINO ERA O ESCRIBA

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,

regular como um paradigma da 1ª conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto.

Casou com uma regência. Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva.



Tentou ir para os E.U.A Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia matei-o com um objeto direto na cabeça.

(Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.p.144)

À respeito desse poema e dentro dessa conjectura, Baronas (2006, p. 20) pondera

que
O metalinguístico poema é uma representação metonímia das aulas de algumas escolas. Não dar vez à alienação fazer cada explicação ter sentido aplicado ao mundo – torna rico o ensino. Talvez assim, muitos alunos deixem de querer esganar o professor com o primeiro objeto direto que tiverem à mão.

À guisa de conclusão


Nesse trabalho não buscamos nenhuma verdade a respeito do ensino de sintaxe e sim provocar/problematizar um olhar nos exercícios de sintaxe, bem como trilhar um caminho que vai da língua ao discurso, o qual pode possibilitar que o aluno/cidadão am- plie sua competência discursiva de modo a serem mais críticos e, consequentemente, mais interessados à apreensão dos conteúdos.

Diante do estudo realizado, observamos que embora o livro didático esteja sendo avaliado por especialistas, antes de chegar para os professores escolherem nas escolas, há ainda um conceito de ensino de língua arraigado na estrutura e reconhecimento de nomen- claturas gramaticais por parte desses especialistas, e não pelo funcionamento da linguagem. Por fim, as duas tiras utilizadas apenas para legitimarem e localizar classificações poderiam ser utilizadas numa abordagem discursiva para aprender sintaxe por meio da análise linguística e produção de sentido que cada “termo” analisado possibilita no enun- ciado, além de servir como incentivo à leitura, pois utilizam o humor e por isso prendem a atenção. Atenção que pode ser focalizada pelo professor dos alunos por meio de uma análise do texto, focalizando a materialidade da língua, e ainda a determinação histórica

dos seus processos de significação.
Referências

ABAURRE, M. L.; PONTARA, M. N.; FADEL, T. Português: língua, literatura, produção de texto. Volume único, 2. ed. São Paulo: Moderna, 2004.


BARONAS, 2006. O desemprego da análise sintática. Revista Língua Portuguesa. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 37ª edição, 2006.

ORLANDI, E. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 4. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2006.


POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP:


Mercado de Letras, 1996.

PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. (Tradução de Eni Orlandi). 3. ed. Campinas: Pontes, 2002.



. O papel da memória. In: ACHARD, P. O papel da memória. (Tradução de José Horta Nunes). Campinas, SP: Pontes, 1999.

. Análise do discurso: três épocas (1983). In: GADET, F & HART, T. (org.). Por uma análise automática do discurso. Uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Ed. Da Unicamp, 1990.

. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. (1975). (Tradução de Eni Pulcinelli Orlandi et al.) 2. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995.






Edição 011 - Dezembro 2011


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