Milena Borges de Moraes1 Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural



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Milena Borges de Moraes1
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam - desde que voltassem às crianças que foram às rãs que foram às pedras que foram. Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua. Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos? Seria uma demência peregrina.

(Manoel de Barros em Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada)
Resumo: O presente artigo teve como objetivo principal, a partir dos pressupostos-metodo- lógicos da Análise de Discurso de orientação francesa, tecer uma leitura discursiva de dois exercícios de sintaxe retirados do livro didático “Português: língua, literatura, produção de texto”, destinado a alunos do Ensino Médio. Diante do estudo realizado, observamos que embora o livro didático esteja sendo avaliado por especialistas, antes de chegar para os professores escolherem nas escolas, ainda um conceito de ensino de língua arraigado na estrutura e reconhecimento de nomenclaturas gramaticais por parte desses especialistas, e não pelo funcionamento da linguagem.
Palavras-chave: livro didático; sintaxe; língua; discurso

Abstract: This paper has as main objective, from the methodological guidance Discourse Analysis French weave a discursive reading two syntax exercises taken from the textbook “Por- tuguese: language, literature, text production”, to high school students. Before the study, we observed that although the textbook is evaluated by specialists before you get to choose the teachers in schools, there is still a concept of language education rooted in the structure and recognition of grammatical classifications by these experts, not the functioning of language.


Keywords: textbook, syntax, language, speech.





  1. Docente mestre da UNEMAT, do Campus de Tangará da Serra.

A relevância da prática de análise linguística para o ensino de Língua Portuguesa vem sendo discutida por pesquisadores e educadores décadas, porém com mais ênfase a partir da promulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, doravante PCN.

Os PCN, por sua vez, apontam a seguinte orientação:

Tomando-se a linguagem como atividade discursiva, o texto como uni- dade de ensino e a noção de gramática como relativa ao conhecimento que o falante tem de sua linguagem, as atividades curriculares em Língua Portuguesa correspondem, principalmente, a atividades discursivas: uma prática constante de escuta de textos orais e leitura de textos escritos e de produção de textos orais e escritos, que devem permitir, por meio da análise e reflexão sobre os múltiplos aspectos envolvidos, a expansão e construção de instrumentos que permitam ao aluno, progressivamente, ampliar sua competência discursiva (BRASIL, 1998, p.27).

Ocorre, no entanto, que o ensino de gramática normativa nos compêndios escolares ainda é fortemente marcado por estudos prescritivos a partir de uma visão de língua este- reotipada e artificialmente simples. Diante dessa conjuntura, entendemos que uma análise discursiva pode evidenciar que a Análise do Discurso tem muito a contribuir com o ensino de análise linguística/gramática. Nesse estudo trataremos discursivamente da questão da sintaxe.



Para isso, mobilizamos os pressupostos-metodológicos da Análise de Discurso de orientação francesa. Elegemos como corpus empírico para esse estudo dois exercícios de sintaxe retirados do livro didático denominado “Português: língua, literatura, produção de texto”, destinado a alunos do Ensino Médio.

É mister dizer que nosso objetivo com o presente estudo não é simplesmente criticar aleatoriamente os exercícios selecionados e ignorar a necessidade do conhecimento da forma linguística. Na verdade, apenas propomos uma reflexão discursiva em torno de exercícios de sintaxe que fazem parte de livro didático “recomendado” pelo Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio PNLEM.

Inicialmente, antes de nos determos na análise discursiva do nosso corpus selecio- nado, é preciso discutir algumas questões em torno de livro didático e abordar o conceito de língua subjacente a este trabalho.
Livro didático: breve reflexão
O livro didático surgiu na Grécia Antiga - Platão aconselhava o uso de livros de leitura que apresentassem uma seleção do que havia de melhor na cultura grega; a partir daí, o livro didático persistiu ao longo dos séculos, presente em todas as sociedades e em todas as situações formais de ensino. Por exemplo: “Os Elementos de Geometria”, de Eu- clides, escrito em 300 a.C., circulou desde então e por mais de vinte séculos como manual escolar; outros exemplos são os livros religiosos, abecedários, gramáticas, livros de leitura que povoaram as escolas muitos séculos. Assim, ao longo da história, o livro didático tornou-se elemento constitutivo do processo educacional brasileiro.

Dito isso, é preciso observar que desde 1995, o Ministério da Educação - MEC vem desenvolvendo ações que visam à melhoria da qualidade do livro didático. No que se refere aos livros didáticos do Ensino Médio das escolas públicas, estes são subordinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FNDE e o Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio PNLEM - instâncias legitimadas, no Brasil, para proporem Editais e avaliarem as propostas de livro didático inscritas naqueles. As propostas que se enquadram nas exigências técnicas e físicas do edital são denominadas como “Títulos Recomendados” e publicadas no Diário Oficial da União. Além disso, elaboração de resenhas desses títulos, as quais são encaminhadas às escolas para os professores, obser- vando o que melhor contribuirá para que os objetivos do projeto político-pedagógico da escola sejam alcançados, escolham o livro didático.


Língua do ponto de vista discursivo
Desde o surgimento da Análise de Discurso francesa, na década de 60, a ilusão de que a linguagem seja transparente é colocada em questão, surgindo assim um dispositivo teórico para interpretação, o qual expõe o “olhar-leitor” não na transparência do texto, mas na opacidade.

Nessa direção, sob a ótica da Análise de Discurso (A.D) é notório ressaltar que essa não busca uma verdade nuclear do signo, pois é contra a imanência estruturalista. Busca verificar as condições que permitiram o aparecimento do discurso em certo momento his- tórico e explicar por que tomou esse sentido e não outro, relacionando o lingüístico com a história e com o ideológico. Além disso, a Análise do Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentido enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade (ORLANDI, 2005, p. 15-16).



Nessa direção, a AD prioriza outros elementos que vão além do ato comunicativo, isto é, a língua não transmiti apenas informações, anuncia algo, mas leva em consideração o contexto social, histórico e ideológico em que um determinado enunciado foi produzido. O discurso transpassa uma exterioridade da linguagem e abarca elementos ideológicos e sociais.
Análise
Iniciamos nosso percurso analítico, apresentando o primeiro exercício de sintaxe que selecionamos como corpus empírico desse estudo.

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