Miguel torga



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MIGUEL TORGA :

OBSESSÃO TELÚRICA /

MITO DE ANTEU / RELAÇÃO EU – NATUREZA


  • A terra , a mãe terra , é uma constante na obra de Torga. O seu próprio pseudónimo , Torga remete-nos para as urzes das serranias transmontanas. Ele identifica-se com a luta pela sobrevivência, num mundo hostil, com raízes no seu reino maravilhoso de Trás –os –Montes.

  • Para Torga o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo terreno.

  • O homem deve unir-se à terra , ser-lhe fiel para que a vida tenha sentido e o sagrado se exprima.

  • Na terra a vida acontece e é na terra que cada um deve cumprir-se.

  • A terra está associada ao sentido criador e genésico.

  • A terra é expressão do divino.

  • Torga tem um enorme apego à terra. Ele busca na terra a sua verdade universal.

  • A terra aparece em Torga associada ao ventre materno.

  • O telurismo de Torga exprime-se constantemente no seu apego à terra.Na sua obra o telurismo ocupa uma posição central em todas as reflexões do poeta. Tudo provém ou desemboca na terra. O próprio poeta vem da terra e a ela regressa. Quando não está em comunhão com a terra sente-se como uma urze arrancada da fraga, sente-se enfraquecido e derrotado como Anteu.

  • A terra é em Torga , muitas vezes, a « mulher» disposta para a fecundação , para receber no seu seio o grão que o poeta lhe deita. « Eu quero abrir-te e semear / um grão de poesia no teu seio» ; « terra minha mulher», « terra minha medida », « terra , minha canção » (pag224)

  • O Eu poético sente-se revigorado sempre que toca a terra, o solo e por isso canta ou invoca a aliança com a terra.

  • A realização do homem na terra abre caminho para a esperança.

  • Entre o eu e a terra existe uma relação afectiva intensa marcada por sentimentos por vezes opostos.Entre o eu e a terra existe uma relação de osmose.Entre o eu e aterra existe uma comunhão.« Com que ternura te encontro / Berço do meu sofrimento/ Cabes em mim e eu em ti » ( pg224)

  • A descrição da natureza / terra é feita através de referências sensoriais. A realidade aparece-nos através do olhar , do cheiro, do toque..,.

  • A terra dá –nos o pão do corpo e permite o encontro da paz, do equilíbrio, do pão espiritual.«Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas »

  • A terra/ natureza tem um papel estabilizador e quase calmante em relação ao eu ( muitas vezes o poeta usa a anáfora para o mostrar, para o evidenciar).

  • Ao falar da terra Torga usa um discurso eufórico . Usa ainda vocabulário conotado com força, vitalidade, energia…

  • Na poesia de Torga as metáforas, as comparações e o léxico estão associados a elementos da Natureza ( fraga,serra, carvalhos, falcão, trigo, mosto, socalcos….)

  • Torga à semelhança de Anteu é atacado por forças que o querem destruir mas irá retemperar as suas forças na sua terra natal. « sempre que prestes a sucumbir ao desalento, toco uma destas fragas , todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias»

  • O mar aparece na poesia de Torga como elemento portador de sofrimento, mar abismo. A terra por oposição será o local seguro. ( pag 143)

  • A vida para Torga é …« serras, searas, vinhas , figueiras, o erguer de uma videira..»



A TERRA / A NATUREZA / O TELURISMO E O MITO DE ANTEU
POEMAS /VERSOS / EXPRESSÕES / FRASES DA SUA POESIA :

« Desta terra sou feito

Fragas são meus ossos,

Húmus a minha carne.

Tenho rugas na alma

E correm-me nas veias

Rios impetuosos.

Dou poemas agrestes

E fico também longe

No mapa da Nação.

Longe e fora de mão …»
Diário XV pg 67
« Tudo o que tenho , o tenho aqui

Plantado»


Diário XIII, pag 39
S. Leonardo de Galafura
À proa dum navio de penedos,

A navegar num doce mar de mosto,

Capitão no se posto

De comando,

S. Leonardo vai sulcando

As ondas


Da eternidade,

Sem pressa de chegar ao seu destino.

Ancorado e feliz no cais humano,

É num antecipado desengano

Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terão socalcos

Nem vinhedos

Na menina dos olhos deslumbrados;

Serão charcos de luz

Envelhecida;

Deixarão prolongar os horizontes

Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso é devagar que se aproxima

Da bem –aventurança.

É lentamente que o rabelo avança

Debaixo dos seus pés de marinheiro.

E cada hora a mais que gasta no caminho

É um sorvo a mais de cheiro

A terra e a rosmaninho !
Diário IX

Mensagem
Vinde à terra do vinho, deuses novos !

Vinde, porque é de mosto

O sorriso dos deuses e dos povos

Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.


Houve Olimpos onde houve mar e montes.

Onde a flor da amargura deu perfume.

Onde a concha da mão tirou das fontes

Uma frescura que sabia a lume.


Vinde, amados senhores da juventude!

Tendes aqui o louro da virtude,

A oliveira da paz e o lírio agreste …
E Carvalhos, e velhos castanheiros,

A cuja sombra um dormitar celeste

Pode tornar os sonhos verdadeiros.
Ibéria
Terra.

Quanto a palavra der, e nada mais.

Só assim a resume

Quem a contempla do mais alto cume,

Carregada de sol e de pinhais.

(…)


Terra nua e tamanha

Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo …

Que nela cabem Portugal e Espanha .

E a loucura com asas do seu Povo .


Poemas Ibéricos
A Um Negrilho
Na terá onde nasci há um só poeta.

Os meus versos são folhas dos seus ramos.

Quando chego de longe e conversamos,

É ele que me revela o mundo visitado.

Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,

E a luz do sol aceso ou apagado

É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação

Serena


Tu , imortal avena

Que harmonizas o vento e adormeces o imenso

Redil de estrelas ao luar maninho.

Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso

Onde os pássaros e o tempo fazem ninho !
Diário VII

Visita
Velha terra nativa, agasalhada

Num cobertor de neve, a lã dos pobres:

Nem o rosto descobres

À chegada dum filho!

Saúda-me o negrilho,

Mas despido, sem folhas, como eu ando.

Toda a minha pobre humanidade

Se deseja aquecer à intimidade

Duma lareira de carinho brando…
Diário VII
«Deixo pastar os olhos na paisagem»

Doiro
Corre, caudal sagrado,

Na dura gratidão dos homens e dos montes!

Vem de longe e vai longe a tua inquietação…

Corre, magoado,

De cachão em cachão,

A refractar olímpicos socalcos

De doçura

Quente.


E deixa na paisagem calcinada

A imagem desenhada

Dum verso de frescura

Penitente.


Diário XI
Eco
Ah, terra transmontana

Que não tens um cantor à tua altura!

Um Marão inspirado,

Um doiro inquieto,

Um plaino aberto

De carne e osso

Capaz de recriar noutra verdade

Esta grandeza austera,

Onde as pedras parecem ter vontade,

E nenhuma vontade desespera.


Diário XI
Regresso
Quanto mais longe vou, mais perto fico

De ti, berço infeliz onde nasci.

Tudo o que tenho, o tenho aqui

Plantado.

O coração e os pés, e as horas que vivi,

Ainda não sei se livre ou condenado.


Diário XII
Sintonia
Tarde triste .

É o Outono doente que começa.

Cada folha parece que tem pressa

De morrer.

Madura e fatigada, a natureza,

Roída por não sei que súbita incerteza,

Até nos frutos quer apodrecer.
E há um desalento igual dentro de mim.

Uma renúncia assim

Calada e conformada.

Perdi o gosto verde de cantar.

A emoção vem à tona e degenera,

Infecunda , a negar

As muitas flores que dei na Primavera
Diário XIV ( 1984)


  1. A EXPRESSÃO DE SENTIMENTOS :



  • Na obra de Torga encontramos um eu preocupado com as grandes agonias sociais do seu tempo mas também com a sua agonia, o seu desespero, a sua revolta o seu inconformismo a sua luta, as suas alegrias e tristezas , a sua condição humana .

  • O eu da poesia de Torga aparece muitas vezes desesperado e esse desespero é intimo mas também politico, pessoal , religioso.

  • Na sua poesia Torga revela a sua rebeldia, rebeldia contra a morte, a passagem inexorável do tempo, contra o jugo da religião…O humanismo torguiano é pois o humanismo de um revoltado, de um rebelde.

  • O eu assume-se como um pecador, com aspectos positivos e negativos ( o bom e o mau ), que vai à deriva, que tem virtudes e defeitos, que é dono das suas horas, capaz de ternuras mansas e de «facadas cegas e raivosas», de ter « raízes no chão » da condição humana a que pertence, um Homem , um anjo caído do céu, um monstro. Assume-se como um EU em toda a sua individualidade e liberdade. Embora dividido, permanece igual a si próprio , autodesafiando-se nesta deriva que é a vida,e apesar dos abismos e das tempestades não acredita no naufrágio.( cfr.Livro de Horas )

  • Na sua poesia é visível o tom confessional marcado pelo uso da 1ª pessoa e por deícticos de proximidade.

  • O homem da poesia de Torga busca o seu próprio ser e este itinerário passa pelo confronto com o Absoluto. Guiam-no neste itinerário os sentimentos da liberdade e da culpabilidade, as duas metades de si que não se adequam , nem se ajustam.

  • O eu aparece muitas vezes como alguém que está amargurado, silencioso, frustrado (cfr. Desfecho )

  • O pessimismo, o desalento e o desespero estão em Torga mitigados por alguma esperança e daí ser designado o seu desespero como desespero humanista





Cântico Fraterno
« O passado é o passado – já morreu.

Grande é o futro , por nascer.

Nenhum fruto maduro prometeu

O que a semente pode prometer . »


( Extracto ).

Inventário
E apesar de tudo, sou ainda o Homem !

Um bípede com fala e sentimentos.

Ao cabo de misérias e tormentos

Continua


A ser a minha imagem que flutua

Na podridão dos charcos luarentos.


Sou eu ainda a grande maravilha

Que se mostra no mundo.

O negro abismo que tem lá no fundo

Um regato a correr:

Uma risca de céu e de frescura

Que murmura

A ver se alguma boca a quer beber.


Começo
Magoei os pés no chão onde nasci.

Cilícios de raivosa hostilidade

Abriram golpes na fragilidade

De criatura

Que não pude deixar de ser um dia.

Com lágrimas de pasmo e de amargura

Paguei à terra o pão que lhe pedia.
Comprei a consciência de que sou

Homem de trocas com a natureza.

Fera sentada à mesa

Depois de ter escoado o coração

Na incerteza

De comer o suor que semeou,

Varejou,

E, dobrada de lírica tristeza,

Carregou.

Fraternidade
Não me dói nada meu particular.

Peno cilícios da comunidade.

Água dum rio doce, entrei no mar

E salguei-me no sal da imensidade.


Dei o sossego às ondas

Da multidão.

E agora tenho chagas

No coração

E uma angústia secreta.
Mas não podia , lírico poeta,

Ficar , de avena, a exercitar o ouvido,

Longe do mundo e longe do ruído.

Dies Irae
Apetece cantar, mas ninguém canta.

Apetece chorar , mas ninguém chora.

Um fantasma levanta

A mão do medo sobre a nossa hora.


Apetece gritar , mas ninguém grita.

Apetece fugir, mas ninguém foge.

Um fantasma limita

Todo o futuro a este dia de hoje.


Apetece morrer, mas ninguém morre.

Apetece matar , mas ninguém mata.

Um fantasma percorre

Os motins onde a alma se arrebata.


Oh! Maldição do tempo em que vivemos,

Sepultura de grades cinzeladas,

Que deixam ver a vida que não temos

E as angústias paradas!



Confiança
O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura

Que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…



Depoimento

Foi na vida real como nos sonhos :

Nunca pisei um chão de segurança.

Procuro na lembrança

Um sólido caminho percorrido,

E vejo sempre um barco sacudido

Pelas ondas raivosas do destino.

Um barco inconsciente de menino,

Um barco temerário de rapaz,

E um barco de homem , que já não domino

Entre os rochedos onde se desfaz.
Mas o céu era belo

Quando à noite o seu dono o acendia;

E era belo o sorriso da poesia,

E belo o amor , dragão insatisfeito;

E era belo não ter dentro do peito

Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.

Por isso digo que valeu a pena

A dura realidade

Desta viagem trágico-terrena

Sempre batida pela tempestade.



Alvorada
Amanhece…

E amanhece o desespero …

Dura condenação

Da vida humana!

Angústias a oprimir o coração

Seguidas como os dias da semana.


Mais vinte e quatro horas

De negrura,

Que o sol nem há-de ver, na sua pressa.

Em vez dum claro apelo

O pesadelo

Dum sonho mau, que apenas recomeça.



Prece
Senhor, deito-me na cama

Coberto de sofrimento;

E a todo o comprimento

Sou sete palmos de lama:

Sete palmos de excremento

Da terra- mãe que me chama.


Senhor, ergo-me do fim

Desta minha condição:

Onde era sim, digo não,

Onde era não, digo sim;

Mas não calo a voz do chão

Que grita dentro de mim.


Senhor, acaba comigo

Antes do dia marcado;

Um golpe bem acertado,

O tiro dum inimigo…

Qualquer pretexto tirado

Dos sarcasmos que te digo.






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