Meninas de Sinhá: Os Sentidos do Grupo na História de Vida de Suas Integrantes Meninas de Sinhá: The Meanings of the Group in the Life History of its Members Meninas de Sinhá: Le Sens du Groupe Dans L'histoire de la Vie de ses Membres



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Caldeira, S. M. C.; & Moreira, M. I. C. Meninas de Sinhá: Os Sentidos do Grupo na História de Vida de Suas Integrantes





Meninas de Sinhá: Os Sentidos do Grupo na História de Vida de Suas Integrantes
Meninas de Sinhá: The Meanings of the Group in the Life History of its Members
Meninas de Sinhá: Le Sens du Groupe Dans L'histoire de la Vie de ses Membres
Para Valdete Silva Cordeiro (in memoriam)
Samira Maria Clemente Caldeira1
Maria Ignez Costa Moreira2

Resumo
O presente artigo é fruto da dissertação de mestrado que objetivou compreender os sentidos do grupo Meninas de Sinhá na vida de suas integrantes. Buscou-se conhecer a história do grupo na perspectiva de sua fundadora e de duas integrantes. A angústia vivenciada pelas mulheres foi o elemento que as mobilizou para a criação do grupo. A análise dos processos grupais foi realizada à luz da teoria de grupos em Sartre. As transformações identitárias vividas pelas participantes do grupo foram discutidas em consonância com a proposta teórica de Ciampa.
Palavras-chave: Grupo Meninas de Sinhá; processo grupal; identidade; angústia.
Abstract
This article is the product of the Master’s thesis aiming at understanding the meanings of the group “Meninas de Sinhá” in the life of its members. We attempted to learn the history of the group from the perspective of its foundress and of two members. The distress experienced by women was the element which mobilized them for the creation of the group. The analysis of the group processes was carried out in light of the group theory in Sartre. The identity transformations experienced by the participants of the group were discussed in consonance with the theoretical proposition of Ciampa.
Keywords: “Meninas de Sinhá” group; group process; identity; distress.
Résumé
Cet article est issu de la “dissertation” dont le but était celui de comprendre les sens du groupe Meninas de Sinhá dans la vie de ses participantes. Cette recherche a essayé de connaître l’histoire de ce groupe selon la perspective de sa fondatrice et de ses membres. L’angoisse vécue par les femmes était l’élément qui les a mobilisées en vue de la création du groupe. L’analyse des processus de groupe a été menée selon l’optique de la théorie des groupes chez Sartre. Les transformations identitaires vécues par les intégrantes du groupe ont été discutées en consonnance avec l’apport théorique de Ciampa.
Mots-clé: Groupe Meninas de Sinhá; processus de groupe; identité; angoisse.

Introdução
O grupo Meninas de Sinhá é composto por 32 mulheres com idade entre 46 e 92 anos, moradoras do aglomerado Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Elas iniciaram seus encontros em 1996, movidas pelo desejo de compartilhar preocupações e problemas da vida cotidiana, além de fazer trabalhos manuais, como tricô, crochê e bordados.

A fundadora do grupo, no trajeto entre a sua casa e o seu local de trabalho, ao passar em frente ao posto de saúde do bairro, observava que muitas mulheres, atendidas pelos psicólogos e psiquiatras daquela instituição, saíam com “sacolas cheias de medicamento” (sic).

Moradora antiga do bairro, ela conhecia bem o cotidiano daquelas mulheres e resolveu abordá-las, fazendo a proposta de uma reunião, para que pudessem trocar suas experiências pessoais. Segundo ela, não foi uma abordagem fácil, pois havia certa resistência por parte daquelas mulheres, que alegavam não ter tempo para “bate-papo” (sic), pois tinham inúmeras ocupações em casa. Acreditando que os encontros poderiam melhorar a condição de vida dessas mulheres e a autoestima delas, a fundadora relatou que foi insistente, pois acreditava que elas precisavam, na realidade, mais do que dos remédios, de um tempo para si próprias, pois a maioria dedicava-se exclusivamente a cuidar da casa e da família.

Vencida a resistência, ao iniciarem os encontros, as mulheres foram relatando suas vivências pessoais e descobrindo que suas trajetórias eram marcadas por problemas e dificuldades semelhantes. Segundo a fundadora, ao ouvirem as histórias umas das outras, elas chegavam a afirmar: “Nossa, tadinha, sua vida é muito pior que a minha” (sic). A idealizadora do grupo iniciou os encontros com a ideia de que, compartilhando seus sofrimentos, elas poderiam elaborar suas vivências e produzir projetos coletivos que contribuíssem para a qualidade de suas vidas.

O grupo iniciou-se como um espaço para “desabafar” e “aprender trabalhos manuais”. No entanto, os trabalhos manuais foram vistos como uma repetição dos trabalhos domésticos e com pouca potencialidade para modificar a condição emocional das integrantes do grupo.

Por meio do Projeto Ação Social – PBH, as integrantes do grupo tiveram a oportunidade de experimentar uma atividade nova: a oficina de expressão corporal. Os exercícios eram adequados aos idosos e suscitavam dois elementos de suas memórias da infância: as brincadeiras e as cantigas de roda.

A rememoração das cantigas de roda motivou-as para o primeiro trabalho coletivo: o de registrar as letras das músicas que conheciam e o de buscar ampliar o acervo musical. Organizaram uma pesquisa junto aos moradores mais velhos do bairro e buscaram gravar as músicas cantadas na época da infância dessas pessoas. Semanalmente, elas se reuniam para lembrar e registrar as cantigas. Nessa ocasião, receberam a ajuda de um morador da comunidade, que se prontificou a gravar todas as cantigas para que, posteriormente, pudessem criar uma apostila com as letras das músicas.

A partir desse momento, as cantigas passaram a fazer parte da identidade do grupo. Começaram a surgir convites para apresentações em eventos públicos. O grupo Meninas de Sinhá passou a ter reconhecimento da própria comunidade e da sociedade em geral. Conquistaram visibilidade na mídia e, em decorrência das apresentações, surgiram oportunidades de gravação de CDs e de DVDs.

O grupo Meninas de Sinhá tem recebido vários convites para se apresentar em muitas cidades brasileiras e, recentemente, apresentou-se no Festival Brave em Wroclaw, na Polônia (2012). As apresentações são momentos em que as mulheres que compõem o grupo são reconhecidas e se reconhecem a si mesmas em uma nova posição, a posição de artistas populares.

Durante o processo de realização da pesquisa, as Meninas de Sinhá estavam em fase de profissionalização e passaram a contar com uma promotora cultural. Estavam elaborando um estatuto formal para o grupo. Após a conclusão da dissertação e no processo de elaboração do presente artigo, a fundadora faleceu.

O relato da história do grupo Meninas de Sinhá reafirma a proposição de Lane (2004) de que o grupo deve ser pensado como um processo. Para a autora, a ideia do processo se apoia em duas premissas:

1) o significado da existência e da ação grupal só pode ser encontrado dentro de uma perspectiva histórica que considere a sua inserção na sociedade, com suas determinações econômicas, institucionais e ideológicas; 2) o próprio grupo só poderá ser conhecido enquanto processo histórico, e neste sentido talvez fosse mais correto falarmos em processo grupal, em vez de grupo. (Lane, 2004, p. 81)

Um grupo não é a soma de indivíduos, como aprendemos com a teoria de campo de Kurt Lewin que enfatizou, segundo Mailhiot (1991), a dinâmica dos grupos dada pela interação e interdependência de seus membros, e, nesse sentido, as necessidades individuais postas em comum podem promover um sentimento de cooperação mútua e transformar solidariamente as partes (os membros) e o todo (o grupo).

Para Lane (2004), quando as pessoas se reúnem em um grupo para discutirem seus problemas, percebem que eles não são exclusivos ou individuais, pois, ao escutarem os companheiros do grupo, descobrem que existem muitos aspectos comuns, decorrentes da condição de vida, do contexto socio-histórico em que todos vivem. A interação permite a elaboração e a produção de novos sentidos singulares para suas vivências particulares. Essas descobertas são importantes para a produção do vínculo grupal.


Análise sartriana do processo do grupo Meninas de Sinhá
A escolha da teoria sartriana dos grupos se justifica por considerarmos o grupo como processo, e não como um produto. Nesse sentido, o grupo está sempre em movimento, em constante construção.

O grupo, a organização será uma totalização em processo, que jamais é totalização realizada. A dialética dos grupos exclui a ideia da maturidade dos grupos.... A dialética será, portanto, para nós, o movimento sempre inacabado dos grupos. (Lapassade, 1977, p. 227)

Segundo Giles (1989), Sartre buscou articular, em sua teoria sobre os grupos, o marxismo, que explica o sujeito inserido em condições socio-históricas, com o existencialismo, que prioriza a experiência vivida pelos indivíduos. Sartre retoma a dialética marxista, que, na sua leitura, passa a considerar as experiências vividas pelo indivíduo.

Sartre (2002) faz uma distinção entre grupo e agrupamento. O agrupamento é tomado como uma série, que tem a potencialidade de se transformar em grupo. A série não é um grupo, mas pode vir a se tornar um grupo e, por outro lado, o grupo vive o risco de voltar à condição de série. A relação entre série e grupo é pensada, dessa forma, no quadro da lógica dialética, ou seja, a série nega o grupo e o grupo nega a série. A transformação da série em grupo revela uma tensão permanente, uma vez que o grupo precisa se organizar para evitar o seu retorno à condição de série.

A fim de exemplificar a série, Sartre traz o exemplo da fila de ônibus, em que as pessoas se agrupam por uma causa externa: a espera do ônibus. “Tal fila não passa de um pluralismo de solidões” (Giles, 1989, p. 309). Apesar de possuírem um objetivo comum, não há, nesse contexto, uma consideração entre as pessoas. Cada qual possui um motivo particular para pegar o ônibus. Pegar o ônibus é um objetivo individual, não coletivo. Segundo Lapassade (1977), o conceito de série é importante para indicar todo agrupamento humano que não possui uma unidade interna, visto como uma massificação.

No processo de formação do grupo Meninas de Sinhá podemos trazer como exemplo de série o momento no qual as mulheres frequentavam o posto de saúde do bairro. Em uma fila ou numa sala de espera elas aguardavam ser chamadas para uma consulta médica. Não havia nesse momento uma mobilização coletiva, ou seja, uma unidade interna. Elas se encontravam no posto, mobilizadas individualmente por questões de saúde. Embora as questões fossem parecidas, não havia ainda uma mobilização conjunta. O que verdadeiramente importava para cada uma delas, naquele momento, era receber atendimento médico e a medicação prescrita.

Para Sartre (2002), é fundamental para a formação do grupo o advento de uma necessidade ou de um perigo que atinja a todos. Outra possibilidade para a transformação da série em grupo é a conscientização das dificuldades e necessidades comuns. No caso do grupo Meninas de Sinhá, o elemento que possibilitou a conexão entre os diversos componentes da série não foi interno ao posto, mas um elemento externo, que observava de fora a movimentação das mulheres no posto de saúde e que percebeu e nomeou a necessidade comum.

O grupo se forma numa tentativa de superar a série. Para Lapassade (1977), apoiando-se em Sartre, o grupo seria o inverso da série. Para manter a própria existência e para evitar o retorno à condição que lhe deu origem, a série, o grupo trava uma batalha constante. O conflito entre a serialização e a totalização aparece como o motor da dialética do grupo.

Segundo Sartre (2002), o grupo se constitui a partir de uma necessidade comum ou de um perigo compartilhado por todos. Em torno desses motivos iniciais é que o grupo produzirá um objetivo comum que levará a uma práxis coletiva. No entanto, nem a necessidade, nem a práxis, nem o objetivo comum poderão constituir um grupo se este não se fizer grupo, ou seja, não produzir um laço entre os seus membros, experimentando a necessidade individual como de todos e projetando-se na unificação interna, que levará a uma integração em direção a objetivos que serão do grupo.

No grupo Meninas de Sinhá, o sofrimento psíquico por que passavam as integrantes pode ser identificado como esse perigo comum destacado por Sartre. Sofrimento que possibilitou a mobilização das integrantes em busca da superação dessa condição. Para Giles (1989), a escassez pode, a princípio, parecer negativa. No entanto, é positiva na medida em que impulsiona o indivíduo a superá-la, a fim de manter a própria existência.

No contexto do bairro em que moram, o aglomerado Alto Vera Cruz, e frequentando o mesmo posto de saúde, podemos considerar que as integrantes do grupo Meninas de Sinhá se reuniram para vencer ameaças comuns experimentadas, como a depressão, a angústia e a falta de sentido para a vida. “O ajuntamento tem por objeto superar esse mal-estar, realizando praticamente uma integração de cada um pela práxis” (Sartre, 2002, p. 470).

Desde sua constituição, o grupo Meninas de Sinhá vem se renovando constantemente. Ao longo do tempo, o grupo foi desenvolvendo novos trabalhos, como cantar e dançar nas apresentações. As integrantes aprenderam a tocar instrumentos musicais, passaram a compor músicas para o seu repertório, cujas letras trazem um pouco da história de vida das participantes e das experiências do grupo.

O grupo tem projetos de futuro: planeja adquirir uma sede própria, onde possa ampliar o trabalho para incluir outras mulheres de diversas faixas etárias. Para isso, estão economizando os recursos que conseguem com prêmios, apresentações e venda de CDs. Segundo Sartre (2002), a práxis do grupo consiste em se reorganizar constantemente, interiorizar sua totalização objetiva pelas coisas produzidas e pelos resultados alcançados, transformando as produções coletivas em novas diferenciações e estruturas, movendo-se em busca de novos objetivos. “Práxis é trabalho; e o trabalho é o esforço para satisfazer nossas necessidades mediante projetos formados em nosso mundo, que é essencialmente um mundo de escassez” (Giles, 1989, p. 307).

Segundo Bettoni (2002), uma vez alcançado o objetivo comum, o grupo se dispersa e os membros voltam a sentir-se em práxis individual. Para manter-se, o grupo precisa buscar novos desafios. Nesse sentido, os projetos de futuro indicam o movimento do grupo Meninas de Sinhá em direção à renovação de suas atividades e, ao mesmo tempo, seus esforços pela manutenção do grupo.

Para que os integrantes do grupo não retornem às práticas individuais, o grupo se constituirá em novas formas, entre elas o grupo juramento. Segundo Sartre (2002), o juramento proporciona o nascimento do indivíduo comum. “Quando a liberdade faz-se práxis comum para servir de fundamento à permanência do grupo, produzindo por si mesma e na reciprocidade mediada sua própria inércia, este novo estatuto chama-se juramento” (Sartre, 2002, p. 514). O juramento aparece como forma de proteger o grupo contra o retorno à serialidade, ou seja, contra sua dissolução.

O objetivo inicial de retirar as mulheres da posição de pacientes passivas do posto de saúde e de seus afazeres domésticos, sempre voltados para a satisfação do outro, para que pudessem dedicar-se também a si mesmas, além de compartilharem suas experiências pessoais entre pares, acabou se transformando em um trabalho criativo e experimentado por elas como algo estimulante. As Meninas de Sinhá tornaram-se um grupo profissional de arte popular, reconhecido nacional e internacionalmente.

No processo de constituição, o primeiro nome dado ao grupo – Lar Feliz – foi rejeitado pelas participantes, dado bastante significativo na história de formação do grupo. Segundo a fundadora, aquele nome não representava o grupo como elas gostariam. Não queriam carregar o “Lar” no nome do grupo, já que o momento em que se reuniam era uma oportunidade de estarem fora do lar. Além disso, o lar da realidade dessas mulheres não tinha nada de feliz. Muitas conviviam com problemas familiares, tais como alcoolismo dos companheiros e dos filhos, violência doméstica, uso de drogas ilícitas pelos filhos e netos, doenças, entre outros tantos sofrimentos. Desejavam um nome com o qual o grupo se identificasse melhor.

A mudança do nome foi tarefa grupal: ao realizarem uma pesquisa, descobriram na história do bairro um grupo de maculêlê chamado “Meninos de Sinhá”. Elas simpatizaram com o nome e passaram a utilizá-lo como homenagem aos seus antepassados, os escravos, que se referiam às suas donas como “sinhás”. No entanto, buscando resgatar a própria autonomia, elas declararam que a “nossa Sinhá é a vida, nós servimos a vida, por aí a cantar e levar alegria pro povo. A gente inverteu esse papel do lado triste para o lado alegre” (Madalena).3 De mulheres que se nomeavam como deprimidas e tristes, elas passaram a se nomear como “assanhadas” (Madalena).

Esse momento constitui um passo importante na construção da identidade do grupo. As mulheres já não se reconheciam como doentes que frequentam o posto de saúde, nem idosas que se encontravam para tricotar num grupo chamado “Lar Feliz”, muito menos “Amélia” (Madalena): “A gente era dominada e escravizada e tudo e hoje em dia a gente é dona de si” (Madalena). Tornam-se “Meninas de Sinhá”: senhoras-meninas e meninas-senhoras que encontraram na convivência grupal a alegria de viver. Tornam-se donas do próprio destino, tendo como missão levar alegria para outras pessoas.

Esse momento do grupo ilustra o que Sartre (2002) considera como a fase denominada juramento. O juramento seria mais uma tentativa do grupo de evitar o retorno à serialidade. “O grupo procura transformar-se em sua própria ferramenta contra a serialidade que ameaça dissolvê-lo” (Sartre, 2002, p. 516).

De acordo com os relatos da fundadora do grupo, há uma mudança radical na vida das integrantes. Muitas encontraram no grupo uma oportunidade de mudar a própria vida, concedendo a si próprias um lugar onde pudessem se dedicar a um trabalho lúdico. As doenças e as preocupações do dia a dia vão, aos poucos, cedendo lugar à alegria e ao desejo de difundir essa alegria pelos locais por onde passam. Essa transformação é retratada na letra de uma música cantada pelo grupo:

Xô, tristeza! Xô, tristeza. Bem-vinda, alegria. Brincamos de roda dia e noite, noite e dia. A gente chorava, a gente sofria. Triste e calada e nada podia. Vem o doutor, nada resolvia. Só dava remédio e a gente dormia. Até que um dia apareceu a boa Valdete que em seu peito doeu. Juntou uma a uma com a ajuda de Deus. E foi de repente que aconteceu. Nos deu carinho, nos deu a mão. Somos gratas a ela, de todo coração. Agora vivemos pra cantar. Levando a alegria das Meninas de Sinhá.... (Composição feita por Ephigênia Romualda, em homenagem à fundadora do grupo)

Desenvolve-se entre os membros do grupo uma fraternidade.

Somos irmãos enquanto, após o ato criador do juramento, somos nossos próprios filhos, nossa invenção comum. E a fraternidade, como nas famílias reais, traduz-se no grupo por um conjunto de obrigações recíprocas e singulares, ou seja, definidas pelo grupo inteiro a partir das circunstâncias e de seus objetivos (obrigações de ajuda mútua em geral ou no caso preciso e rigorosamente determinado de uma ação ou de um trabalho particular).... A fraternidade é o vínculo real dos indivíduos comuns, enquanto cada um vive seu ser e o do Outro (nem que fosse o simples estar-aí perto do Outro ou a semelhança-solidariedade dos negros revoltados, dos brancos na defensiva) sob a forma de obrigações recíprocas insuperáveis. (Sartre, 2002, p. 531)

Segundo Sartre (2002), após um período de homogeneização do grupo, há uma substituição pela diferenciação, em que cada membro do grupo se destacará por suas especificidades. A diferenciação poderá contribuir para um maior risco de afastamento. O juramento surge, nesse contexto, como garantia de que a diferenciação não culminará com a volta à serialidade do grupo.

As integrantes do grupo Meninas de Sinhá, ao longo do tempo, foram assumindo tarefas diferenciadas, descobrindo suas aptidões. No início, as atividades eram iguais para todas. Hoje, cada uma possui uma “tarefa” diferenciada. Algumas tocam instrumentos musicais, outras cantam, outras interagem com a plateia durante as apresentações, outras compõem novas músicas para o repertório do grupo. “As ações passam a ser mutuamente necessárias umas às outras, e a práxis comum só pode ocorrer por causa das práxis individuais que a integram” (Giles, 1989, p. 234). Desse modo, as atividades diferenciadas e articuladas concorrem para a manutenção do grupo.

O grupo se põe para si em uma prática reflexiva e torna-se seu objetivo imediato não só quando as circunstâncias exigem sua permanência, mas quando a diversidade de suas tarefas exige que a homogeneidade fluida da fusão seja substituída pela diferenciação (Sartre, 2002, p. 537).

Na organização, há uma distribuição de tarefas para os integrantes do grupo. Cada membro terá uma função distinta. Essa função será importante para os demais membros e para o grupo como um todo. Segundo Sartre (2002), cada membro é determinado pela função que exerce no grupo. Cada um deve cumprir sua tarefa, respondendo às exigências dos demais membros em nome do grupo. Os atos particulares de cada membro só terão sentido em conjunto com os demais membros do grupo. No grupo Meninas de Sinhá, apesar de cada integrante possuir uma função distinta, todas as funções estão interligadas, visto que uma função sem a outra perde o sentido. Cada uma tem sua importância dentro do conjunto.

A palavra “organização” designa a ação interna pela qual um grupo define suas estruturas e, ao mesmo tempo, o próprio grupo como atividade estruturada que se exercita no campo prático sobre a matéria trabalhada ou sobre outros grupos. (Sartre, 2002, p. 539)

Perdigão (1995) compara a organização dos grupos com o funcionamento do corpo humano, onde cada órgão possui função específica que contribui para manter o organismo funcionando. Ele acredita que a formação do grupo pode ser vista como um aperfeiçoamento que tem como objetivo melhorar o organismo individual, pois a ação coletiva possibilita a superação das limitações individuais. Sozinhas, as Meninas de Sinhá, apesar de auxílio médico e do uso de medicação, não conseguiam superar suas dificuldades. Foi através do grupo que conseguiram, em conjunto, vencer as dificuldades com as quais se deparavam.

O grupo organizado, pela divisão de tarefas, redunda em algo como uma ampliação fantástica da práxis de um indivíduo: o grupo (não por ser numeroso, mas por ser mais complexo do que qualquer organismo individual) obtém resultados que nenhum indivíduo poderia alcançar sozinho, ainda que multiplicando sua força e habilidade. (Perdigão, 1995, p. 231)

Se, por um lado, a divisão das tarefas possibilita certa estabilidade ao grupo, por outro essa estabilidade acaba por proporcionar a separação entre os membros.

Apesar de estar juramentado e organizado, o fantasma da dissolução, ou seja, da volta à serialidade continua a rondar o grupo. Mesmo com o juramento e a organização, utilizados para evitar a dispersão dos membros do grupo, a dissolução será um perigo constante, que o grupo continuará tentando superar. Para Lapassade (1977), o grupo vive obcecado pela ideia de conquistar a unidade de um organismo. Na ilusão de tentar proteger-se, o grupo continuará lutando para evitar sua dissolução.

Na tentativa de se manter coeso, o grupo se tornará institucionalizado através de novas formas de agir.

Se a práxis comum mostrou-se inoperante e perigosa (as liberdades são sempre imprevisíveis), a solução final e desesperada é recorrer às estruturas de inércia, dando-lhes força suficiente para manter a unidade ameaçada. (Perdigão, 1995, p. 239)

De acordo com Sartre (2002), o grupo abrirá mão das práxis individuais, buscando o que ele denomina de processo.

Alguns relatos das integrantes do grupo Meninas de Sinhá apontam para conflitos constantes entre os membros. Dentre esses conflitos, parecem ser frequentes as insatisfações em relação à escolha das que farão apresentações em outras cidades, quando não há possibilidade de todas participarem, a exemplo da viagem à Polônia.

ela escolheu [a produtora cultural] quem tinha menos problemas de saúde, quem tem mais agilidade, quem representa melhor, quem tem mais capacidade de dar uma entrevista, quem pudesse igual ela falou, se alguma tivesse algum problema as outras tivessem condições de ajudar naquela situação. (Madalena)

O grupo está atualmente construindo um estatuto que pretende regulamentar algumas condutas com a intenção de evitar os conflitos, vividos como ameaças de dissolução. A construção desse estatuto conta com a colaboração da produtora cultural do grupo, que atualmente parece funcionar como mediadora dos conflitos. Percebemos, nesse contexto, que o grupo caminha para a institucionalização.

O grupo institucional ostenta o semblante de uma “coisa” estabelecida com caráter de permanência, é um sistema fechado e estático, identificável pela força de seus códigos de conduta, suas leis, sua rigidez mecânica, sua estrutura estabilizada, e também pela redução da práxis individual a limites severos. (Perdigão, 1995, p. 240)

Diante do impasse gerado pelos conflitos que apontam para a possibilidade de dissolução do grupo, a criação de um estatuto vem possibilitar uma forma de controle sobre os membros, buscando resolver de antemão tudo aquilo que poderá contribuir para a volta à serialidade. “O momento institucional corresponde ao que se pode chamar a autodomesticação sistemática do homem pelo homem” (Sartre, 2002, p. 685).

Sartre (2002) aborda algumas transformações sofridas pelo grupo ao se institucionalizar. Dentre essas transformações há o surgimento da autoridade, com os conflitos decorrentes das relações de poder. Para que a autoridade prevaleça sobre o coletivo, o grupo deverá estar novamente na inércia e na serialidade.

Ao se institucionalizar, o grupo mais uma vez fracassa em sua tentativa de evitar a serialidade e acaba retornando a esta. Segundo Lapassade (1977), a “vida”, que fazia parte do grupo, perde-se com a burocracia. No processo de burocratização, todo o poder, que antes se dividia entre os membros do grupo, concentrar-se-á agora nas mãos de um único membro, o soberano. Os membros do grupo tornam-se passivos, submetendo-se às ordens do soberano.

À medida que o grupo Meninas de Sinhá vai ganhando popularidade e reconhecimento, um novo elemento, externo ao grupo, parece funcionar como esse soberano, detentor do poder. A produtora cultural aparece no relato das integrantes como aquela que toma as decisões importantes. Por exemplo, busca parcerias para a realização de shows, inclui e exclui membros nas apresentações, segundo critérios que parecem visar ao bom funcionamento do grupo como instituição.

No decorrer do tempo, o grupo, que surgiu como um espaço terapêutico e lúdico, parece ganhar cada vez mais contornos de um grupo artístico-profissional.



Os sentidos do grupo na história singular de suas integrantes

Consideramos a angústia vivenciada por cada uma das mulheres atendidas no posto de saúde como um traço comum, que lhes possibilitou uma primeira identificação. A angústia vivenciada individualmente por elas era uma angústia patológica, que as aprisionava em um quadro depressivo. A constituição do grupo Meninas de Sinhá propiciou a transformação dessa angústia patológica em angústia existencial.

Do ponto de vista do existencialismo, a angústia é parte da condição humana. Não é possível imaginar um ser humano sem angústia. A angústia existencial vivenciada pelas mulheres no grupo Meninas de Sinhá as impulsiona para a realização de projetos que produzem sentido para a vida.

Segundo May (2000), a angústia ameaça um dos principais pontos da existência, a noção de valor que temos de nós mesmos, a autoestima. A fundadora se recorda de como era baixa a autoestima das mulheres quando o grupo começou: “O caso é o seguinte, o grupo foi justamente feito para que as mulheres tivessem uma autoestima”.

A baixa autoestima era observada pela fundadora do grupo na aparência das mulheres, que denotava negligência no cuidado de si. O grupo e os vínculos construídos no fazer grupal possibilitaram às mulheres o resgate do cuidado de si mesmas: “Foi uma coisa muito boa, que resgatou a autoestima de todo mundo” (Madalena).

O grupo Meninas de Sinhá é composto em sua maioria por mulheres idosas. Ao longo da trajetória do grupo, elas têm vivido inúmeras perdas provocadas pelo envelhecimento e pela morte de algumas integrantes. Uma das integrantes do grupo relatou, na entrevista, que “umas faleceram, outras não dão conta mais de andar” (Luiza). Essa realidade do grupo Meninas de Sinhá coloca as suas integrantes diante da angústia de não-ser, que está relacionada à nossa finitude.

Se a realidade da finitude é uma das fontes de angústia, os existencialistas acreditam que também nos deparamos com a angústia especialmente quando estamos diante de uma nova possibilidade em nossas vidas. Segundo May (2000), a angústia surge quando estamos diante de uma nova possibilidade ou potencialidade, pois para vivenciar uma nova experiência devemos abrir mão da condição atual de segurança. Essa insegurança de abrir mão da condição conhecida para uma nova condição desconhecida muitas vezes paralisa o indivíduo, fazendo com que rejeite a nova possibilidade.

Como vimos, a proposta inicial de formação do grupo encontrou resistência entre as mulheres: embora a situação vivida como pacientes do posto de saúde fosse carregada de dor e sofrimento, era essa a situação conhecida. Sair da condição vivencial da angústia patológica para a vivência da angústia existencial exigiu delas um esforço psíquico.

As integrantes do grupo Meninas de Sinhá vivem cotidianamente a angústia das mudanças: da condição de deprimidas para a condição de artistas; da condição de mulheres submissas à condição de mulheres ativas, capazes de contribuir para a mudança da comunidade onde moram, por exemplo.

A angústia existencial aqui descrita está diretamente relacionada às potencialidades e possibilidades que se abrem para o sujeito. Muitas vezes, para se livrar dessa angústia, o sujeito abdica de sua liberdade de escolha, fechando-se para novas possibilidades, na ilusão de proteger o seu ser. Frente às inúmeras possibilidades que lhe são apresentadas pelo mundo, o sujeito pode tanto avançar, quanto recuar. O medo de abrir mão de uma situação conhecida poderá manter o sujeito “paralisado” frente à própria vida. “A angústia pode nos libertar ou nos destruir” (Giovanetti, 2000, p.119). Apoiado em Kierkegaard, Giles (1989) aponta que, frente a suas possibilidades, o sujeito pode tanto aceitar sua condição de realização quanto negá-la. Aceitando ou negando suas possibilidades de realização, a angústia estará presente, sendo impossível evitá-la. A angústia aponta a possibilidade de viver uma vida autêntica.

...a tentativa de fuga diante da angústia terá por único resultado a melancolia que se origina quando, tentando fugir de si próprio, e buscando perder-se nas distrações, o homem descobre em si um resíduo de pressentimentos a dizer-lhe que toda a sua tentativa de fuga é em vão. (Giles, 1989, p. 20)

Ao contrário de algo negativo, a angústia é vista no existencialismo como algo que nos impulsiona em direção às nossas possibilidades. A angústia pode libertar o homem de uma vida vazia de sentido, impulsionando-o em busca de suas realizações. Para Giovanetti (2000), a angústia possui algo que remete diretamente ao sentido da vida. Segundo Protásio (2008), a angústia nos auxilia na análise do que estamos fazendo da nossa vida, podendo assim nos despertar, levando-nos a uma vida mais autêntica. Movidos pela angústia, podemos buscar novas possibilidades em nossa vida.

As Meninas de Sinhá, movidas pela angústia, puderam iniciar os encontros do grupo na tentativa de apaziguar tal angústia. Paralisadas diante de uma vida esvaziada de sentido, elas puderam, através do grupo e do encontro com outras mulheres, construir novos sentidos para a vida. A angústia, nesse caso, pode ser lida como a necessidade que permite a fundação do grupo, como afirmou Sartre.

Para o existencialismo, a angústia é mobilizadora, pois pode reconduzir o homem ao encontro de si. No entanto, também pode tornar-se patológica, tendo o efeito contrário, de paralisar o homem frente à vida. Não é nosso objetivo neste artigo delimitar as fronteiras entre a angústia patológica e a existencial. No caso das integrantes do grupo Meninas de Sinhá, podemos nos deparar tanto com a angústia patológica, que paralisou aquelas mulheres diante das possibilidades da vida, quanto com a angústia existencial, que as impulsionou para novas escolhas e novos desafios. Na trajetória do grupo elas puderam transpor a fronteira da angústia patológica e alcançar a outra margem, da angústia existencial, que potencializou as mudanças subjetivas na vida de cada uma delas.

Ciampa (2007) considera a “identidade humana como metamorfose, ou seja, o processo permanente de formação e transformação do sujeito humano, que se dá dentro de condições materiais e históricas dadas” (p. 22). Ao contrário de algo que permanece imutável, a identidade humana está em constante transformação, sendo constituída por inúmeros fatores, dentre eles, principalmente, as condições do contexto histórico no qual estamos inseridos, bem como de nossas relações sociais. Essas condições transformam a identidade, ao mesmo tempo em que são transformadas por ela. Nesse sentido, a natureza humana é, para Ciampa, uma natureza histórica.

Só se é alguém através das relações sociais. O indivíduo isolado é uma abstração. A identidade se concretiza na atividade social. O mundo, criação humana, é o lugar do homem. Uma identidade que não se realiza com o próximo é fictícia, é abstrata, é falsa. (Ciampa, 2007, p. 86)

Ciampa (2007) recorre a Heidegger (1999) para sustentar que “o ser faz parte da identidade”, e não “a identidade faz parte do ser”, como se defendia. No decorrer da discussão proposta por Ciampa (2007) em torno do conceito de identidade, percebemos uma aproximação com o pensamento existencialista. Destacamos a seguir possíveis convergências entre o pensamento de Heidegger e Ciampa.

Assim como Heidegger (2009), Ciampa (2007) também considera o ser humano como um ser de relação, um ser que não existe isolado do mundo, que não está pronto, que irá se constituindo conforme for existindo no mundo e em relação com os outros. Para Heidegger (1999), nós constantemente nos projetamos para fora de nós mesmos, no entanto, sempre limitados pelo mundo no qual estamos inseridos.

Duveen (2002) destaca que “as identidades tomam forma através da entrada do indivíduo no mundo das representações” (p. 98). O autor parafraseia uma célebre frase de Sartre, ao dizer que “as representações precedem as identidades” (p.98). Para o autor, nossa identidade ganha forma à medida que nos inserimos no mundo das representações.

A identidade, então, não é uma coisa, como uma atitude ou crença determinadas, mas a força ou poder que liga uma pessoa ou grupo a uma atitude ou crença; numa palavra, a uma representação. A identidade é uma luta pelo reconhecimento, e a alteridade é construída no decorrer dessa luta. A identidade, então, é antes de mais nada separação e diferenciação do outro, portanto, a íntima relação entre o eu e a identidade, ambos construções da diferença. (Duveen, 2002, p. 99)

Construímos constantemente inúmeras representações. O grupo Meninas de Sinhá construiu uma representação do que é ser integrante do grupo, representação que podemos visualizar no discurso de suas integrantes. Elas destacam que ser uma Menina de Sinhá é ser alegre e servir à vida cantando e levando alegria para outras pessoas.

Ciampa (1989) afirma que possuímos certos atributos que nos definem. Ao nos apegarmos a esses atributos, nossa identidade aparece como algo atemporal. Deixamos de perceber que essa identidade é constantemente reposta, ou seja, reafirmada a todo tempo através de nossas relações sociais. Ao perdemos o caráter temporal e histórico da identidade, passamos a vê-la como algo permanente e imutável. “Uma vez que a identidade pressuposta é reposta, ela é vista como dada – e não como se dando num contínuo processo de identificação” (Ciampa, 1989, p. 66).

Antes da formação do grupo, as Meninas de Sinhá eram consideradas deprimidas. Essa representação acabava sendo reposta cada vez que elas iam ao posto de saúde da comunidade em busca de nova consulta médica e de novo receituário para medicação. As relações estabelecidas entre as mulheres e o “posto” acabavam por manter a identificação de deprimida como algo permanente e imutável. Ser deprimida tornou-se uma forma de identificação dessas mulheres.

A identidade para Ciampa comporta permanência e mudança, semelhança e diferença, atributos articulados dialeticamente, ou seja, a identidade não é um atributo estático, mas dinâmico. Segundo Ciampa (1989), quando não percebemos a identidade como um processo permanente de construção, acabamos perdendo o caráter de reposição da identidade. “A mesmidade de mim é pressuposta como dada permanentemente, e não como reposição de uma identidade que uma vez foi posta” (Ciampa, 1989, p. 67).

Nossos encontros nos modificam constantemente, tornando nossa identidade mais fluida do que rígida. Ciampa (2007) destaca que o indivíduo deixa de ser visto como ser isolado, para se fazer nas relações. Não conseguimos pensar o indivíduo fora das relações. Não é possível sermos constantemente os mesmos, nossas relações nos modificam constantemente, assim como o momento histórico no qual vivemos também nos afeta. Para Ciampa (1989), nossas determinações serão ditadas pelo contexto social e histórico em que vivemos. Dessa forma, a identidade possui um caráter histórico-social.

Segundo Ciampa (2007), o indivíduo não é algo pronto, mas um fazer-se constante, que acontece no mundo em que estamos inseridos e em conjunto com as pessoas com as quais convivemos. Tomando o materialismo histórico como referência teórico-metodológica, Ciampa (2007) pode afirmar que o homem deixa de ser impotente diante da realidade que lhe é apresentada para tornar-se o responsável pela transformação dessa realidade.

Como seres de possibilidade, fazemos escolhas constantemente. Nossas escolhas nos direcionam para aquilo que desejamos ser. “O ser humano jamais seria um ser acabado e nunca seria aquilo tudo que pode ser; estaria sempre diante de uma série infinita de possibilidades sobre as quais se projeta” (Heidegger, 1999, p. 7)

Na concepção de Ciampa (2007), mais do que a escolha que contribuirá para a transformação, é necessário que haja empenho da pessoa para que a transformação se concretize. A transformação só acontece quando existe ação. O sujeito deve abrir mão de permanecer substantivo ou adjetivo para tornar-se verbo, ou seja, ação. Através das ações surgem as possibilidades de encarar a vida de outro ângulo. As Meninas de Sinhá vão se transformando ao se fazerem outras. Ao agirem diferentemente da forma como estavam habituadas até então, aprendem a ser outras. Vão se transformando ao se fazerem verbo. “Ao aprender a ser outra, como que sai de si, torna-se outra, exterioriza-se na realidade. O subjetivo torna-se objetivo, e a recíproca também” (Ciampa, 2007, p. 145)

Se antes não se viam como protagonistas da própria história, passam a assumir a autoria e a representação do que escolheram para si. Escolha que é constantemente sustentada pelas ações do cotidiano, ou seja, pelos verbos.

Na medida em que nos vemos em aberto e percebemos a ilusão e provisoriedade de nossas identificações, podemos nos apropriar de outras possibilidades e construir novas identidades, estabelecendo novas formas de lidar com o mundo e com os outros. (Rodrigues, 2008, p. 44)

Ao fazerem novas escolhas, as Meninas de Sinhá conseguiram sair do lugar de tristeza e de depressão e passaram a se reconhecer como aquelas que levam a alegria, pois se tornaram artistas.
Considerações Finais
O adoecimento psíquico relatado pelas integrantes do grupo Meninas de Sinhá relaciona-se com a negação das suas próprias potencialidades, ou seja, de sua liberdade. A angústia, nesse contexto, pode ter impulsionado as mulheres da comunidade do bairro Alto Vera Cruz (Belo Horizonte – MG) a buscarem novas possibilidades, o que culminou com a formação do grupo Meninas de Sinhá e com a transformação dessas mulheres.

A identidade de deprimida das mulheres que constituíram o grupo Meninas de Sinhá foi aos poucos sendo substituída pela identidade de artista, transformação sustentada pela mudança de atitude das integrantes e, principalmente, pelas atividades realizadas por elas, ou seja, pela ação. O fato de pertencer ao grupo Meninas de Sinhá é motivo de orgulho para as suas integrantes, que gostam de ser reconhecidas mesmo quando não estão se apresentando ou caracterizadas com as roupas típicas usadas pelo grupo durante as apresentações.

Há uma visível valorização da transformação ocorrida na vida de cada uma das Meninas de Sinhá, tanto entre as próprias integrantes do grupo, quanto por parte da comunidade em geral. A transformação que experimentaram é vista como algo que deve ser compartilhado. Elas pretendem despertar outras pessoas para a própria experiência de transformação. Reconhecem-se hoje como missionárias da alegria, e seguem cumprindo essa missão.

Elas saíram do isolamento provocado pelos quadros de depressão e se integraram em movimentos sociais importantes, tais como a luta antimanicomial, os movimentos pela prevenção e tratamento da Aids, bem como os que buscam a superação do preconceito contra os portadores do HIV.

A metamorfose na vida dessas mulheres aconteceu quando elas assumiram a mudança, começaram a agir, ou, como retrata Ciampa (2007), quando se fizeram verbo. Saíram da passividade de frequentadoras do posto de saúde, diagnosticadas e medicadas, para descobrirem um trabalho criativo de resgate da cultura popular.

Ao se assumirem como artistas, transformaram a percepção que tinham de si mesmas. Para que o lado artístico pudesse manifestar-se, foi necessário negar o lado deprimido. “A semente não permanece semente; para ser o que é, ela precisa ser negada” (Ciampa, 1989, p. 71). Esse lado não desaparece, mas é transformado pelo outro lado que se desvela.

A formação do grupo possibilitou a saída do contexto do lar, onde o trabalho doméstico aparece como algo invisível, sem nenhum valor, para conquistarem o mundo com suas apresentações, num trabalho reconhecido e valorizado. Se antes estavam enclausuradas em suas casas, invisíveis para seus familiares, elas acabaram ganhando (literalmente) o mundo e saindo do anonimato. Saíram da solidão e do isolamento para se relacionarem com outras pessoas. Ao modificarem a percepção que tinham de si, modificaram também a visão dos outros em relação a elas. O grupo Meninas de Sinhá significa para cada uma delas uma potencialidade para que possam se reinventar cotidianamente.
Referências
Bettoni, R. A. (2002). Formação de grupos sociais em Sartre. Metavnoia, 4, 67-75.
Ciampa, A. da C. (1989). Identidade. In W. Codo, Psicologia social: o homem em movimento (pp. 58-75). São Paulo: Brasiliense.
Ciampa, A. da C. (2007). A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: Brasiliense.
Duveen, G. (2002). A construção da alteridade. In A. Arruda, (Org.), Representando a alteridade (pp. 83-108). Petrópolis, RJ: Vozes.
Giles, T. R. (1989). História do existencialismo e da fenomenologia. São Paulo: EPU.
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Heidegger, M. (1999). Identidade e diferença (pp. 173-183, Coleção Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural.
Heidegger, M. (2009). Ser e tempo (M. S. C. Schuback, trad.). Petrópolis, RJ: Vozes.
Lane, S. (2004). O processo grupal. In S. Lane, & W. Codo (Orgs.), Psicologia social: o homem em movimento (pp. 78-98). São Paulo: Brasiliense.
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May, R. (2000). A descoberta do ser: estudos sobre a psicologia existencial. Rio de Janeiro: Rocco.
Perdigão, P. (1995). Existência e liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM.

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Rodrigues, J. T., & Sá, R. N. (2008). A questão do sujeito e do intimismo em uma perspectiva fenomenológico-hermenêutica. In A. M. L. C. de Feijoo (Org.), Interpretações fenomenológicas-existenciais para o sofrimento psíquico na atualidade (pp. 35-54). Rio de Janeiro: GDN.
Sartre, J. P. (2002). Crítica da razão dialética: precedido por questões de método. Rio de Janeiro: DP&A.

Recebido: 10/03/2014



Aprovado: 30/04/2014



1 Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Endereço para correspondência: Rua Rodrigues Caldas, 670, Santo Agostinho, Belo Horizonte, MG, CEP: 30.120-190. Endereço eletrônico: samiraclemente@gmail.com

2 Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora da Faculdade de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da PUC Minas. Endereço eletrônico: maigcomo@uol.com.br

3 Os nomes mencionados no artigo são fictícios.



Pesquisas e Práticas Psicossociais, 9(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2014




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