Memórias de um sargento de milícias



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Malandragem e identidade nacional: uma leitura política de “Memórias de um sargento de milícias”
Daniele Ramos

Doutoranda em Ciência da Literatura na UFRJ

Professora do CEFET-RJ

Email: daniramosnf@ig.com.br
RESUMO: O presente artigo procura analisar as relações entre os conceitos de nação e nacionalismo na obra “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, assim como procura mostrar os vieses políticos que servem de suporte à narrativa. De certa forma, perguntamos e procuramos responder por que ler esse romance é, ainda hoje, tão importante e o que ele fala sobre/para nós, brasileiros.

Palavras-chave: nação – política – literatura brasileira



RÉSUMÉ: Cet article analise les rapports entre les concepts de nation et de nationalisme dans l’oeuvre “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, et cherche montrer les liens politiques qui soutiennent le récit. De certaine façon, on demande et on cherche répondre pourquoi lire ce roman est, aujourd’hui encore, si importante et qu’est-ce qu’il nous parle, à nous brésiliens.

Mots-clés: nation – politique – littérature brésilienne


Como leitora assídua de Literatura Brasileira, sempre me inquietou o fato de que parte importante da nossa produção literária tem sua força associada a momentos de afirmação da identidade nacional, inclusive é por meio da própria literatura que se dá intensa busca por aquilo que nos identifica como povo: quem somos? Que passado e experiências comuns compartilhamos? O que nos define e nos dá caráter? O que nos diferencia de outros grupos? São questões que estiveram presentes na literatura, principalmente em momentos literários como o Romantismo e o Modernismo, quando debater questões identitárias tornou-se fundamental. Não à toa, tais momentos coincidem com ou circundam fatos históricos como a Independência do Brasil e o desenvolvimento republicano, quando, mais do que nunca, reafirmar-se brasileiro era absolutamente necessário.

Luís Augusto Fischer questiona como buscar tal empreitada nacionalista num país de enormes proporções territoriais e habitado por indivíduos tão dessemelhantes. Segundo o professor, num Brasil de

“imensas terras, virgens ainda hoje; gente em proporção considerável, contando com imigração e etnias várias, a começar pelos índios locais, dos diferentes grupos negros, mais os europeus também distintos entre si, variada imigração recente; por isso mesmo, história multifacetada, dependendo de cada origem peculiar; economia complexa e com grande capacidade de modernização. E uma riqueza natural de que poucos países dispõem. Como forjar uma identidade visível, sólida, unívoca, compartilhada, inquestionável? Só com muito esforço mesmo, ou com muita simplificação (e com muito sufocamento de identidades parciais, muitas vezes caladas ou mesmo extintas em favor da identidade hegemônica, protagonizada pelo centro de poder).” (FISCHER, 2008, p. 84-85)
Ernest Renan, em “Qu’est-ce qu’une nation”, conferência produzida pelo autor em 1882, demonstra clarividência em relação aos conceitos de nação e nacionalismo, embora não possamos esquecer que tal texto está profundamente envolvido com questões da política territorial francesa da época, por conta da tensa apropriação da Alsácia-Lorena ora pela França, ora pela Alemanha. O autor analisa o que seria responsável para constituir uma nação e, uma a uma, vai desconstruindo toda ideia comum que se tinha a respeito do tema. Para Renan, a ideia de nação não está pautada nem na língua comum, nem na raça, nem na religião, nem no território; mas sim em duas outras questões mais importantes: a tradição – a posse em comum de um rico legado de lembranças – e o consentimento atual, isto é, o desejo de viver juntos, a vontade de continuar a fazer valer a herança que se recebeu.

Outros dois autores aprofundam a discussão iniciada por Renan e caminham no sentido de afirmar que a ideia de nação e de nacionalismo são criações do imaginário humano, desenvolvida assim como as tradições e os consentimentos que a pautam. Esses autores são Eric Hobsbawn e Benedict Anderson.

O primeiro, na obra “A invenção das tradições”, assim nos define o que seria a tradição inventada:

“um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas, tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através de repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado.” (HOBSBAWN, 2012, p.12)

O que nos leva a crer que muitas – senão todas – as tradições reivindicadas na construção dos nacionalismos nada mais são do que criações simbólicas repetidas à força de se perder suas origens, transformando-se numa prática fixa e formalizada. Os hinos nacionais constituiriam, por exemplo, símbolos necessários ligados às tradições que formalizam as ideias de nação.

Nesse sentido, gostaríamos de citar um caso contado pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, no ensaio de abertura da obra de Benedict Anderson, chamado “Imaginar é difícil (porém necessário)”. Segundo ela, o Hino da Proclamação da República no Brasil,

“escrito em 1889, um ano após a abolição da escravidão, conclamava os brasileiros a cantar coletivamente: ‘Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país...’ A escravidão fora abolida havia apenas um ano, mas já virava matéria do passado, assim como a nacionalidade, recém-descoberta, era vista como um grande coletivo devidamente naturalizado.” (SCHWARCZ, IN: ANDERSON, p. 16)
Num país que acabava de se tornar republicano, era necessário afastar o jugo do trabalho escravo, base da sociedade brasileira até então, símbolo de um país colonial e monárquico. Era preciso, pois, reinventar-se.

Para Benedict Anderson, a condição nacional e o nacionalismo são produtos culturais específicos, tese por ele desenvolvida na sua obra “Comunidades imaginadas”. Nesse mesmo sentido, caminha o trabalho de Homi Bhabha, que, indo além da concepção de Anderson, afirma que as nações são concebidas assim como as narrativas e são uma poderosa criação histórica do Ocidente.

A partir do estudo desses conceitos e da obra de Sarah Corse, autora canadense que afirma que as literaturas nacionais têm sido tradicionalmente entendidas como reflexos do caráter único e das experiências da nação (CORSE, 1996), procuramos aprofundar essa reflexão no contexto da Literatura Brasileira, mais especificamente por meio da leitura atenta da obra “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida. Queremos analisar em que medida o romance dialoga com a sociedade da sua época e representa a ideia de nação pensada no seio do grupo ideológico em que se inseria o autor. Em outras palavras, o que “Memórias de um Sargento de Milícias” pode mostrar do Brasil e do seu passado, e em que isso ecoa hoje?

1. “A nossa literatura de hoje é filha da política.”

Peço licença para fazer um comentário particular acerca do título deste capítulo. Levei bastante tempo na minha trajetória leitora para chegar à conclusão da relação íntima existente entre literatura e política. No entanto, Manuel Antônio de Almeida, aos 26 anos de idade, publicava no jornal Correio Mercantil, de 20/07/1856, a crítica literária “Os mandões da aldeia e a idealização da perversidade” (ALMEIDA, 1991, p. 49-53), iniciada pela afirmação constante no título acima.

Apesar de muito jovem, o autor demonstra possuir visão bastante abrangente do papel de uma literatura nacional. Tanto que, nessa mesma crítica, ele afirma ser muito interessante um romance trazer a representação daqueles tipos sociais hediondos que não encontram na sociedade punição. Ele pretende ser a ficção essa instância por meio da qual haja espaço de julgamento daqueles que passam ilesos, apesar das perversidades que cometidas. Assim Almeida refere-se à questão: “Pois bem, o romance que os trouxer [os tipos hediondos, os mandões de aldeia] em toda a verdade de sua hediondez ao tribunal da consciência pública, será, quando não mais, uma página de santa vingança.” (Idem, p. 51)

Nesse artigo, Manuel Antônio de Almeida analisa a obra “O comendador”, escrita por um amigo de jornal, Francisco Pinheiro Guimarães, a quem não poupa críticas de construção ficcional e aconselha, por fim, “Trabalha!” (Id., p.53)

Retomar a maneira como o autor pensava criticamente o papel da escrita literária é uma forma de apontar os caminhos de compreensão da sua própria produção. Manuel escreveu apenas um romance, publicado como folhetim, nos anos de 1852-1853, no Correio Mercantil, exatamente “Memórias de um Sargento de Milícias”, obra que, na época, contou com recepção mais singela, por razões aventadas mais adiante, mas que foi recuperada pelo século XX, relida por grandes nomes como Mário de Andrade e Antônio Cândido e considerada, com justiça, como grande legado da nossa literatura do século XIX.

Infelizmente, Manuel não viveu o suficiente para escrever outros livros. Em 1861, aos 31 anos, morreu no naufrágio do vapor Hermes, na costa de Macaé, onde havia ido pedir apoio político para sua candidatura a deputado pela Assembleia Provincial do Estado do Rio de Janeiro pelo Partido Liberal. Ou seja, embora bastante jovem, o autor era um sujeito politizado, dotado de consciência e convivência políticas suficientemente claras para que possamos analisar sua obra de maneira não ingênua, como produto de alguém que via na literatura um espaço para o envio de mensagens ideológicas e para a denúncia da realidade nacional que o desagradava.

Desse modo, o escritor constrói, segundo Antônio Cândido, no magnífico artigo Dialética da Malandragem, um livro cujo principal personagem representa o primeiro grande malandro da novelística brasileira. (CÂNDIDO, 2010). Ou de acordo com Walnice Nogueira Galvão:

“É desse modo que Manuel Antônio de Almeida caracteriza o personagem Leonardo, que resulta num herói sem nenhum caráter, ou melhor, que apresenta os traços fundamentais do estereótipo brasileiro. Manuel Antônio de Almeida é o primeiro a fixar em literatura o caráter nacional brasileiro, tal como terá longa vida em nossas letras. Na ficção e na ensaística, particularmente do século XX, será constante a atribuição dessas características ao brasileiro: vagabundagem, preguiça, sensualidade, indisciplina, vivacidade de espírito – nossa modalidade de “inteligência” – e sobretudo simpatia. Creio que se pode saudar em Leonardo um ancestral de Macunaíma.” (GALVÃO, 1976, p. 32)


Analisando a produção literária nacional, podemos refletir que essa estrada Leonardo-Macunaíma apresenta um ponto de parada no meio do caminho, Brás Cubas, outro representante da malandragem nacional. De forma que o trajeto só se faz completo se pensarmos em Leonardo-Brás-Macunaíma como via principal, à qual se juntam outras rotas secundárias ao longo do percurso.

Obviamente, especular em História não vem a ser algo produtivo, mas seria muito bom ter visto o resultado do trabalho literário de Machado de Assis e Manuel Antônio de Almeida em produção coetânea. Ambos chegaram a se conhecer, quando Manuel ocupou o cargo de diretor da Tipografia Nacional, onde o jovem Machado começou a trabalhar, inclusive sendo este um protegido do diretor, mas a morte ceifou cedo demais a vida de Maneco...



2. O contexto de “Memórias de um Sargento de Milícias”

Como dito anteriormente, “Memórias de um Sargento de Milícias” foi publicado em forma de folhetim entre 27 de junho de 1852 e 31 de julho de 1853 no jornal Correio Mercantil. Alguns dados da frase precedente precisam ser esclarecidos a fim de que se obtenha a compreensão da importância do surgimento da obra dessa forma e nesse lugar.

Primeiramente, o Correio Mercantil era um jornal que comungava das ideias do Partido Liberal e as representava. Havia, então, dois partidos na época: o Liberal – cujos adeptos eram conhecidos como luzias – e o Conservador – defendido pelos saquaremas. É público e notório que ambos os partidos divergiam pouco entre si ideologicamente, era mais uma questão de disputar o controle do poder, pois os dois representavam os interesses das classes dominantes, tanto que ficou famosa na época a ideia de que não havia nada mais conservador do que um liberal no poder, e nada mais liberal do que um conservador na oposição, baseada na frase do político Holanda Cavalcanti. Já o historiador Oliveira Viana dizia que “ambos os partidos eram simples agregados de clãs organizados para a exploração comum das vantagens do poder.” (apud JAROUFE, IN: ALMEIDA, 2006, p. 25). É irresistível pensar na contemporaneidade, nos partidos políticos atuais, em quem está na situação e na oposição, e perceber tristemente que o modus operandi continua o mesmo. De fato, estudar literatura pode ser muito inquietante...

O início da década de 1850, no entanto, é um período de intensas disputas políticas entre os dois partidos, provenientes do fato de que o imperador Pedro II, utilizando-se do Poder Moderador, havia alijado o Partido Liberal das decisões políticas, privilegiando os saquaremas. Logo, pode-se perceber que o Partido Liberal viu a administração monárquica e todo poder representado pelos portugueses e seus descendentes como inimigos, utilizando seus jornais para atacar diretamente o Partido Conservador e a Monarquia. Dentre eles, o principal era o Correio Mercantil, considerado o melhor veículo da imprensa liberal, por sua organização, equipe de redatores e circulação.

O Correio Mercantil era publicado todos os dias, exceto segunda-feira. Apresentava-se como sério e politizado, além de ser um órgão abolicionista, no entanto, segundo consta, mais por hipocrisia filantrópica do que por princípio humanitário (Idem, p. 18). Aos domingos, o jornal era quase todo ocupado por uma seção humorística, chamada “Pacotilha”, onde se satirizava, por meio de piadas, crônicas e caricaturas, membros da Câmara Municipal, do Partido Conservador e demais pessoas ligadas à administração pública e órgãos de mando do governo. É exatamente na Pacotilha que “Memórias de um Sargento de Milícias” vem a público como folhetim. Não havia identificação nominal do seu autor, isto é, era uma publicação anônima, mas mesmo isso pode ser relativizado, dado que os escritores do Correio Mercantil/Pacotilha eram bastante conhecidos na época.

Em 1853-1854, “Memórias de um Sargento de Milícias” foi publicado em forma de livro em dois tomos, um em cada ano. Também de forma “anônima”, pois Manuel Antônio de Almeida ordenou que se colocasse, no lugar do nome do autor, apenas “Um Brasileiro”, algo bastante significativo para análise. O que ele estava querendo dizer com isso é curioso, até porque é possível que fosse do conhecimento geral a verdadeira autoria do texto. Não acreditamos na hipótese de um patriotismo ufanista, à moda da primeira geração romântica, interessada em cantar as belezas da terra, mas desconfiamos, pelo teor do romance e pelo suporte inicial de publicação, tratar-se de um livro altamente político, procurando mostrar como andava a “ordem das coisas” no tempo do rei, enfocando tipos sociais comuns estereotipados numa ficção fortemente satírica, como tudo o que saía na Pacotilha. Apenas postumamente, as novas edições das “Memórias de um Sargento de Milícias” trouxeram a identificação do autor.

É preciso aqui destacar duas observações fundamentais: primeiramente, o fato de que não há, de modo nenhum, em todo o corpo do romance, referência a partidos políticos; em segundo lugar, podendo essa ser considerada a causa da primeira afirmação, o tempo narrado e o tempo da narração são diferentes, o que permite estender a crítica, decalcando-a no imaginário leitor, para a época real de circulação do texto. Não há referência aos partidos Liberal e Conservador, porque, na primeira frase da obra, o narrador menciona quando a história dos Leonardos se passa: “Era no tempo do rei.” (ALMEIDA, p. 65). Isso significa que está se falando numa sociedade existente até 1821/ 1822, quando o rei D. João VI deixa de representar o governo do Brasil, já que, em 1822, a Independência é proclamada exatamente por seu filho D. Pedro I. Os partidos políticos passam a existir a partir do Período Regencial, provavelmente desde 1837, daí sua ausência na obra.

Além disso, a maneira como essa frase é escrita, “Era no tempo do rei”, remonta a textos folclóricos, da tradição popular, como os contos de fadas e histórias moralizantes de aprendizado, os quais situam suas ações em tempos longínquos e imemoriais: “Era uma vez...”. O próprio Antônio Cândido, em Dialética da Malandragem, ao derrubar a tese de que as “Memórias” poderiam representar descendência na linha dos romances picarescos, aborda a influência das histórias folclóricas e populares na obra de Almeida. Tal fato lembra-nos a afirmação de Hobsbawn presente na introdução desse trabalho a respeito das tradições inventadas, que elas são estabelecidas a partir da continuidade com um passado histórico apropriado e também a lembrança de Lília Schwarcz do Hino da República, referindo-se à escravidão como acontecimentos de outrora. Note-se que as “Memórias” foram publicadas em 1852/1853, e o tempo do rei dura até 1821, não havia tanta distância temporal assim. E quem estuda a história brasileira sabe que, infelizmente, na maioria dos casos, “muda-se o príncipe, mas não se muda o princípio”. Os problemas da época do rei não eram tão diferentes da década de 1850, tanto que as críticas das “Memórias” são muitas vezes baseadas em matérias do próprio Correio Mercantil e da Pacotilha. Essa semelhança entre as duas épocas, a do rei e a do imperador Pedro II, seja talvez o grande trabalho crítico do texto.

A esse respeito, tomamos as reflexões do professor Mamede Mustafa Jarouche sobre o conteúdo das Memórias que

“pode ter sido lido como alegoria da situação presente do Brasil [de 1853-1853] (...) O que o autor pretendeu dizer? Talvez, de forma irônica, ele estivesse insinuando que o Brasil de seu tempo não seria lá muito diferente do Brasil no tempo de Dom João VI. Nesse sentido, as Memórias poderiam constituir uma espécie de sátira social, texto por meio do qual se condena a sociedade contemporânea. O governo vivia alardeando que o Brasil progredia a olhos vistos e que a situação colonial era um passado distante; já as Memórias de um Sargento de Milícias talvez estivessem dizendo o contrário: nossa situação está e esteve muito mal...” (JAROUCHE, IN: ALMEIDA, 2006, p. 33 – entre colchetes grifo nosso)


É bom lembrar que o Partido Liberal, ao qual estava ligado o Correio Mercantil, criticava intensamente o governo monárquico de Pedro II, assim como o passado do Brasil, ligado aos Bragança, isso porque, como dissemos anteriormente, os luzias haviam sido preteridos da administração, ocupando o lugar da oposição nesse momento do Segundo Reinado. Relembrar o elo que havia entre Pedro II e seus antecessores para além do sanguíneo, mas como mesmo uma continuidade de Portugal no poder era algo que os liberais faziam frequentemente, até porque isso não era desejável por quem estava na situação.

Quase tudo o que saía no Correio Mercantil, sobretudo na Pacotilha, estava sobrecarregado de teor político, tanto que se usava a expressão ‘futrica pacotilheira’ (Id., p.32) para se referir às polêmicas suscitadas pelo periódico. Sendo assim, também as “Memórias de um Sargento de Milícias” podem ser lidas nesse diapasão para que não se caia numa leitura ingênua de um texto hilário, destoante do Romantismo Brasileiro em geral. Como afirma Jarouche, a obra representa uma sátira social, ou, tomando as palavras de Manuel Antônio de Almeida, “O ridículo daquilo que nos arranca uma gargalhada, reverte um pouco sobre nós mesmos.” (ALMEIDA, 1991, p. 28). As “Memórias” forjam a caricatura de uma sociedade que se quer questionar e o fazem por meio do riso, mostrando quanto mesmo havia de risível naquele jeito de ser brasileiro daquela época.

Para que não se incorra em generalizações, é preciso dizer que esse jeito brasileiro presente nas “Memórias de um Sargento de Milícias” é bem situado temporal, histórica e socialmente. Leonardo – o filho, um duplo brasileiro do pai – é um garoto/rapaz branco, fluminense – natural da Corte, a cidade do Rio de Janeiro, não havia ainda o termo carioca na época – e pertencente à pequena burguesia de ascendência portuguesa, dedicada a pequenos ofícios, como a barbearia do Padrinho, ou a postos da administração pública. Há, portanto, um recorte do brasileiro representado na obra. Inclusive classes-chave para a compreensão do Brasil do século XIX, como a elite dirigente e os escravos, não constam no romance, não como personagens significativos, como bem remarcou Antônio Cândido, os negros que aí aparecem pertencem ao âmbito da figuração. Tal recorte mostra-nos a classe que de fato era livre e transitava nos espaços sociais e geográficos no Brasil, sendo talvez a mais afetada pelos movimentos da dança política, já que a elite sempre foi “imexível” (para lembrar um político brasileiro) e para os escravos nada mudava mesmo.

3. Um passeio pelas “Memórias de um Sargento de Milícias”

A obra é o relato em terceira pessoa a respeito das “memórias” de dois Leonardos – o pai – imigrante português – e o filho nascido no Brasil. Trata-se de um narrador observador, onisciente, que conta, então, as histórias dessa família, enfocando, sobretudo, esses dois personagens; no primeiro tomo, há uma oscilação no narrar as aventuras ora de um, ora de outro; mas, no segundo tomo, o foco recai sobre Leonardo filho, havendo intensificação das ações no texto. Não deixa de ser curioso o fato de que as tais memórias não sejam contadas pelo próprio memorialista, e sim por um narrador que tudo sabe e que ainda faz inserções judicativas tanto a respeito da conduta dos personagens, quanto das situações histórico-sociais narradas, além de dialogar intensamente com o leitor a fim de conduzi-lo na apreciação do texto, citemos dois exemplos simples desse diálogo: “Passemos por alto sobre os anos que decorreram desde o nascimento e batizado do nosso memorando” (ALMEIDA, 2006, p.71) ou “Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade.” (Id., p. 75)

Peço mais uma vez licença para, à moda do narrador da obra analisada, dialogar com meu leitor, a fim de dizer que não é possível ler as “Memórias de um Sargento de Milícias”, tendo já conhecimento de “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Macunaíma”, e não se lembrar desses dois textos, mostrando a influência de Almeida nos espíritos de Machado de Assis e de Mário de Andrade, fato que nos motivou a falar na linhagem central dos malandros (Leonardo-Brás-Macunaíma) da Literatura Brasileira algumas páginas atrás. Mário inclusive reconhece o papel fundamental da obra de Almeida, quando afirma que “Estes folhetins [“Memórias de um Sargento de Milícias”] iriam constituir um dos romances mais interessantes, uma das produções mais originais e extraordinárias da ficção americana.” (ANDRADE, 2002, p. 145). É ainda Mário quem levanta aspectos teóricos da obra mais tarde trabalhados por Antônio Cândido, na sua Dialética da Malandragem, como a ideia de Leonardo como um personagem pícaro ou a ausência de “pessoas de cor” na narração.

Em relação aos demais personagens, encontramos a Maria das hortaliças, mãe do menino, portuguesa imigrante, mas que retorna à sua terra, portanto ela só aparece no início da narrativa; o Padrinho (Compadre) e a Madrinha (Comadre), sem nomes próprios, conhecidos apenas por essas alcunhas; D. Maria, a pessoa de melhor posição dos núcleos da obra, ela é tia de Luisinha por quem Leonardo filho nutrirá um afeto e com quem acabará se casando; José Manuel, antagonista de Leonardo, casa com Luisinha, mas vem a falecer no fim; os padres; a vizinha; alguns personagens marginalizados ligados às classes baixas – como a própria Vidinha, amásia de Leonardo filho por algum tempo – e que representa esse submundo da desordem, de acordo com Cândido, com o qual ambos os Leonardos convivem frequentemente. Enfim, há toda uma gama de personagens mais caricatos do que aprofundados, servindo para a conformação do quadro social da época. Como se pode notar, os personagens ou não têm nomes, ou são conhecidos por suas funções/profissões, ou trazem nomes comuns, portugueses e cristãos, como José e Maria. Não à toa a obra de Manuel Antônio de Almeida foi comparada às aquarelas de costumes pintadas por Debret entre 1816 e 1831, devido a retratar literariamente o estrato médio da sociedade do Rio de Janeiro.

Dois personagens foram decalcados da vida real: Dom João VI e o Major Vidigal. Sobre o primeiro pouco se fala, aparecendo mais como uma referência temporal, o tal do tempo do rei já mencionado, não há ao menos citações sobre a chegada ou estada da Corte Real aqui a partir de 1808, onde residiu por 12 anos. Segundo o professor Mamede Mustafa Jarouche, grande conhecedor não só da obra de Almeida, mas também da imprensa escrita no século XIX, o texto publicado em livro e que nos foi legado apresenta diferenças em relação àquele do folhetim. Jarouche fez um estudo comparativo e percebeu que muitas das modificações feitas por Manuel Antônio de Almeida eram exatamente nas descrições de Dom João VI, a quem comumente se descrevia, na imprensa de oposição de um modo geral, como sujeito glutão, excessivamente carola e desprovido de inteligência. É necessário lembrar que o folhetim saiu em 1852/1853 e foi publicado em livro em 1854/1855. Em 1853, começa uma iniciativa, encabeçada por Pedro II, de harmonizar a política brasileira, inserindo novamente os dois partidos políticos no cenário de decisões, é o início da chamada Era da Conciliação, com Honório Carneiro Leão compondo um ministério tanto de liberais quanto de conservadores. Obviamente, o discurso do Partido Liberal, por meio dos jornais que lhe serviam ideologicamente, arrefece a partir do momento em que este está reinserido no poder. É nesse sentido que Jarouche questiona se a eliminação das críticas a Dom João VI, avô de Dom Pedro II, não teria sido a pequena contribuição de Manuel Antônio de Almeida na conciliação estabelecida nesse período. (JAROUCHE, IN: ALMEIDA, 2006, p. 45-46)

Em relação ao Major Vidigal, temos aí uma caricatura do “mandão de aldeia”, mencionado na crítica literária de Almeida em 1856. Figura real, conhecido historicamente como despótico e truculento, ele é o verdadeiro “estraga prazeres”, da obra. Major Vidigal foi o representante maior da força policial até 1824 quando se reformou, era bastante temido por humilhar os prisioneiros e chicoteá-los, além de ser conhecedor de capoeira, expediente de que lançava mão caso houvesse necessidade no enfrentamento de capoeiristas. No entanto, tal personagem acaba ficando simpático por conta de uma fraqueza – mulher – , a mesma de Leonardo pai (Leonardo filho também a demonstra), e, por conta de um pedido de Maria Regalada, perdoa os erros de Leonardo, aliviando-o da prisão e elevando-o ao cargo de sargento das milícias. É tal o trabalho narrativo realizado que nos pegamos, leitores da obra, a torcer por um sujeito que não gosta de trabalhar, apronta todas, mulherengo e se dá bem no final, casando com a sua eleita, inserido num posto de comando e recebendo a herança do Padrinho.

Ainda sobre o Major, ele figura como o representante caricatural do policial truculento, tão facilmente encontrável na história das forças de ordem no Brasil. Jarouche menciona ainda (idem, ibidem) as acusações de corrupção feitas ao Vidigal e que o fizeram devolver dinheiro aos cofres públicos, mas que não constam da obra de Almeida, ou seja, estamos diante de um personagem cuja versão real é bem menos suave do que a ficcional, levando ao extremo o lugar comum de que “a vida imita a arte”, mostrando-nos, ao contrário, que a arte até que pode ser bem amena em relação à vida.

Como já dissemos, o narrador, ao contar as memórias de outrem, acaba sendo um elemento importante no que diz respeito às críticas às instituições e aos comportamentos da época, porque é ao longo da narração que encontramos as ironias e os comentários judicativos em relação às condutas dos personagens e ao funcionamento da máquina administrativa. Além da truculência policial, vemos logo de início a descrição da burocracia e da corrupção judicial no país de “el-rei”:

“Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. [abuso de poder] (...) – Dou-me por citado –. Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, [burocracia] e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última parcela de sua paciência. [corrupção] (...) Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos (...) um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente [os meirinhos] conversando pacificamente sobre tudo o que era lícito conversar [funcionários públicos matando tempo em horário de expediente]. [Leonardo] aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado [funcionalismo transformado em cabide de emprego] (...)” (ALMEIDA, 2006, p. 66-67, grifos nossos entre colchetes)
Marcamos entre colchetes características da administração pública da época que estão ironizadas pelo discurso do narrador, as quais, mal ou bem, permanecem como herança de um passado colonial presentes no país hodierno. Atenção especial merece a metáfora construída com Caronte, personagem da mitologia grega que recebia o óbolo para atravessar os mortos no rio que os levaria ao inferno. Os atravessadores do sistema judiciário (advogados, procuradores, juízes) seriam os Carontes do serviço no Brasil, todos querendo seu quinhão, e a justiça realizada seria no final das contas o inferno.

A literatura não tem obrigação com a realidade e não é seu espelho, mas, por todos os textos literários que temos estudado, vemos que eles não se alheiam ao seu tempo, e é possível conhecer uma sociedade pela literatura nela produzida. É nesse sentido que desenvolvemos aqui a ideia de que Manuel Antônio de Almeida – sujeito social e ideologicamente identificável – constrói ficcionalmente, numa vertente crítico-satírica, perfis de elementos nacionais que ainda hoje nos incomodam pela sua persistente presença na sociedade brasileira, levando-nos a crer que, no nosso país, o tempo do rei, o tempo do imperador e o tempo dos presidentes possuem elos indesejáveis muito visíveis. Obviamente são perfis criados, mas não o foram do nada. Partiram da visão de um liberal-oposicionista da época sobre a realidade de uma camada social branca e livre sua contemporânea e à qual ele próprio pertencia. Claro que corrupção e burocracia são encontradas em todo lugar, mas as cenas pintadas, a composição dos personagens, as maneiras de agir e reagir diante das situações partem de um referencial brasileiro antevisto por Almeida.

Como o autor foi lido na época? O texto gerou grande reflexão a respeito desse estar no mundo malandro de Leonardo? Segundo ainda o professor Jarouche, no mesmo artigo já citado, talvez a recepção das “Memórias” não possa ser avaliada corretamente por nós por conta do que a cercava. Primeiramente, tanto na linguagem quanto nas denúncias, o texto de Manuel Antônio de Almeida não destoava do conteúdo da Pacotilha, onde era publicado e de onde esperavam-se mesmo escritos assim. Em segundo lugar, aos leitores contumazes de romances, talvez “Memórias” não viessem a ser de interesse visto não abordar a temática romântica habitual do período. Não temos diante de nós um livro romântico, uma historinha de amor de apelo ao público feminino ou no qual se encontre uma heroína modelar. Ou seja, para a parcela leitora da Pacotilha, ele não seria novidade; para os leitores de folhetins padrão romântico, ele não despertaria interesse. Ficará a cargo da posteridade a recuperação dessa obra e a amplificação das suas possibilidades de leitura, até porque, como dissemos antes, a persistente atualidade dos personagens e das situações nos leva compreender o que na época não seria possível.

A respeito das “Memórias” dentro do Romantismo, período em que foi escrito e publicado, diversas são as críticas ao movimento no texto:

“(...) mas o homem [Leonardo Pataca] era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha. (...)

Portanto não foram de modo algum mal recebidas as primeiras finezas de Leonardo, que desta vez se tornou muito mais desembaraçado, quer porque já o negócio com Luisinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a paixão mais forte, embora esta última hipótese vá de encontro à opinião dos ultrarromânticos, que põem todos os bofes pela boca pelo tal – primeiro amor –: no exemplo que nos dá o Leonardo aprendam o quanto ele é duradouro.” (ALMEIDA, 2006, p. 88, 258-259)


Além do fato de o menino Leonardo ter sido concebido a partir de uma pisadela e de um beliscão, retrato caricatural e antirromântico do primeiro encontro dos seus pais, vemos, pelas citações acima, que não estamos diante do romance costumeiro da época. Antônio Cândido fala em livro mais ligeiramente másculo do Romantismo Brasileiro, por toda sua carga habitualmente associada ao mundo masculino, sobretudo nessa época, quando a mulher ocupava apenas o plano doméstico da existência: temos um personagem principal homem, branco, descendente de portugueses em linha direta, anti-herói, não idealizado, por isso cheio de defeitos, protótipo do malandro – o primeiro das letras nacionais – num enredo que representa alegoricamente impasses políticos da primeira metade do século XIX.

Apesar disso, também existe na obra uma relativização da crítica antirromântica do narrador, porque, no final das contas, Leonardo acaba se reconciliando com seu primeiro amor e casando-se com Luisinha, assim como Manuel ameniza a descrição de D. João VI no início da Era da Conciliação, assim como o narrador corrige a trajetória do anti-herói, e ele vira um sargento de milícias, tombando para o lado da ordem no fim do texto. Restaria saber até quando, pois, analisando-se a vida pregressa de Leonardo, sabe-se que é perfeitamente verossímil a oscilação entre o mundo da ordem e da desordem de forma perpétua.

Ademais, Almeida cria um universo ficcional onde não há salvação, todos cometem delitos e são contraditórios em suas ações. Até mesmo o Padrinho, a quem julgávamos acima de qualquer suspeita, é dado aos “arranjos” e deve sua estabilidade financeira à apropriação de uma herança que não lhe cabia, mas foi confiada a ele por um pai moribundo, esperançoso de que sua filha viesse a ser salvaguardada das precariedades da existência por esse dinheiro: “O compadre decidiu-se a instituir-se herdeiro do capitão, e assim o fez. Eis aqui como se explica o arranjei-me, e como se explicam muitos outros que vão aí pelo mundo.” (Idem, p. 116) Esse dinheiro acabará, como herança do Padrinho, na mão de Leonardo, que nunca trabalhou na vida, nem fez nada que justificasse tal mérito, nada além de ser cativante o suficiente para angariar proteções mundo afora. Tais atitudes criam, segundo análise de Antônio Cândido, um mundo sem culpa, no qual “as pessoas fazem coisas que poderiam ser qualificadas como reprováveis, mas fazem também outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece censura.” (CÂNDIDO, p. 41)

Seria esse personagem bruxuleante e sem limites a representação do tipo brasileiro? Aquela tradição inventada que mencionamos? Esse tipo foi visto também por outros grandes analistas da sociedade brasileira, como Machado e Mário. Acreditamos que ele está presente nas condutas contraditórias dos que se debatem contra a corrupção no país, mas acham natural vender voto, sonegar impostos, burlar direitos das classes desprestigiadas ou negar-lhes acesso a bens básicos como saúde e educação, mas que também fazem sua caridadezinha cotidiana. Talvez esteja aí a literatura para mostrar o ridículo em nós mesmos e nos dizer que, para o surgimento de uma conduta de fato ética, não é possível haver concessões.


Conclusão
Manuel Antônio de Almeida, ao construir e publicar a sátira social “Memórias de um Sargento de Milícias”, dentro de um veículo de imprensa com posições ideológicas definidas e representante da oposição, sendo o próprio autor um liberal, embora fosse um rapaz pobre e tenha passado por muitas dificuldades na vida, traz à luz um texto que fixa o retrato social de uma época, o qual pode ser estendido para a posteridade. A lenta modificação da sociedade brasileira, o domínio das riquezas e do poder político pelos mesmos de sempre e a falta de um projeto de país includente e justo tornam as “Memórias” um livro atualíssimo, conquanto seu autor jamais pudesse imaginar reverberar tão longe no tempo.

O primeiro malandro da novelística brasileira, assim como todas as malandragens da obra – comportamentos hipócritas, corrupção, injúrias, a conduta venal, a oscilação entre polos contrários sem o processamento de uma síntese reflexiva entre eles, enfim – representam literariamente o quinhão das tradições inventadas, nas quais acreditamos e prosseguimos vivendo, sem questioná-las, sem perceber suas incongruências, sem notar o ridículo da nossa situação, como diria Manuel Antônio de Almeida.

Se as “Memórias de um Sargento de Milícias” forem lidas apenas pelo riso e não pelo que elas desencadeiam de nós mesmos, assim como as “Memórias póstumas de Brás Cubas”, perde-se um dos principais papéis da literatura que é aquele de desconcertar o sujeito e promover o exercício do pensamento:

“Assim, a literatura, ao mesmo tempo sintoma e solução do mal-estar na civilização, dota o homem moderno de uma visão que o leva para além das restrições da vida cotidiana. (...) O texto literário fala de mim e dos outros; provoca minha compaixão; quando leio eu me identifico com os outros e sou afetado por seu destino; suas felicidades e seus sofrimentos são momentaneamente os meus. (...) A literatura desconcerta, incomoda, desorienta, desnorteia mais que os discursos filosófico, sociológico ou psicológico porque ela faz apelo às emoções e à empatia. Assim, ela percorre regiões da experiência que os outros discursos negligenciam, mas que a ficção reconhece em seus detalhes.” (COMPAGNON, 2012, p. 44, 62, 67)


Para concluir, gostaríamos de trazer novamente Antônio Cândido, num trecho do seu célebre artigo já citado, no qual analisa a sociedade da época das “Memórias”. Tal análise, assim como a obra de Almeida, são pertinentes não só àquele momento, mas também aos dias de hoje. A respeito das condutas dos personagens do livro por esses universos da ordem e da desordem e a experiência existencial num mundo sem culpas, diz o estudioso:

“Na limpidez transparente do seu universo sem culpa, entrevemos o contorno de uma terra sem males definitivos ou irremediáveis, regida por uma encantadora neutralidade moral. Lá não se trabalha, não se passa necessidade, tudo se remedeia. Na sociedade parasitária e indolente, que era a dos homens livres do Brasil de então, haveria muito disto, graças à brutalidade do trabalho escravo, que o autor elide junto com outras formas de violência.” (CÂNDIDO, 2010, p. 46)


No Brasil atual, não mais baseado no trabalho escravo, mas na exploração do trabalhador e na exclusão de uma grande parcela da população do crescimento social, formatado num estilo econômico de incentivo ao consumo que leva as famílias a penhorarem os fios de cabelos para pagar os juros mais altos do mundo a um sistema financeiro dominado pelos mesmos de sempre, o quadro social das “Memórias”, guardadas as devidas proporções, repete-se: continuamos oscilando entre os polos da ordem e da desordem, da conduta ambígua, nosso modo inventado de jogar com um sistema opressor que tudo nos tira. Daí a leitura de “Memórias de um Sargento de Milícias” continuar imprescindível.

BIBLIOGRAFIA:


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