Memorial do convento



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402308_Escola Secundária de Moura

Ano Letivo 2012/2013

Disciplina de Português12.º Ano, Turma B



APRESENTAÇÃO ORAL

MEMORIAL DO CONVENTO: O NARRADOR - CLASSIFICAÇÃO
1. Narrador e narratário

1.1. O narrador: definição e classificação

  • Narrador: ser virtual criado pelo autor a quem cabe a tarefa de enunciar o discurso narrativo, organizar o modo de narrar e decidir o ponto de vista a adotar. É ao narrador que cabe a configuração do universo diegético.




Classificação do narrador

  • Quanto à presença

  1. Não participante:

Heterodiegético: o narrador não participa na ação.

  1. Participante:

Autodiegético: o narrador é personagem principal;

Homodiegético: o narrador é personagem secundária.



  • Quanto à ciência/focalização

  1. Omnisciente: colocado numa posição de transcendência, o narrador mostra conhecer toda a história, manipula o tempo e conhece o interior das personagens;

  2. Interna/Intradiegética: apesar de conhecer toda a história, o narrador adota o ponto de vista de uma ou mais personagens, daí resultando uma diminuição ou restrição de conhecimento;

  3. Externa/Extradiegética: o conhecimento do narrador limita-se ao que é observável do exterior.

  1. Objetivo: relata a história com objetividade e imparcialidade;

  2. Subjetivo: relata a história com subjetividade, expressando juízos de valor e considerações pessoais. É parcial no que diz.


1.2. O narratário: definição

  • Narratário: pode identificar-se com o leitor virtual (todo o leitor que venha a ler a obra). É a ele que se dirige o narrador. Pode também ter o estatuto de uma personagem e intervir na ação.


2. O narrador em Memorial do Convento

2.1. Classificação do narrador quanto à presença

  1. Narrador heterodiegético:

  • No romance Memorial do Convento, o narrador é, geralmente, heterodiegético, ou seja, trata-se de uma entidade exterior à história que assume a função de relatar os acontecimentos. Surge normalmente na terceira pessoa (essa presença é transmitida pelos pronomes e verbos).

  • Por vezes, a voz do narrador heterodiegético confunde-se com o pensamento de outra personagem:

“Veio andando devagar. Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo.”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  1. Narrador homodiegético:

  • Surge, igualmente na obra, um narrador homodiegético, que ocorre na primeira pessoa do singular ou plural. Este narrador é uma personagem da história, que revela as suas próprias vivências – não se trata do protagonista, mas de uma personagem que se insere na diegese e que, em determinada situação, reivindica o relato dos acontecimentos que viveu. O narrador pode tratar-se/ser:

  • Um eu nacional e coletivo, associado aqui à ideia de Pátria. O narrador identifica-se com as outras personagens, como acontece no excerto que se segue:

“(…) na grande entrada de onze mil homens que fizemos em outubro do ano passado e que se terminou com perda de duzentos nossos (…) A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em Barcarrota e pouco gosto para gozar dele (…)”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  • O “eu” narrador pode ser descrito como o “eu” autor textualmente implícito;

  • O narrador homodiegético pode aparecer misturado com a própria multidão;

  • União entre a voz do narrador e a de outras personagens, em substituição do discurso direto:

“Num canto da abegoaria desenrolaram a enxerga e a esteira, aos pés delas encostaram o escano, fronteira a arca, como os limites de um novo território, raia traçada no chão e em panos levantada, suspensos estes de um arame, para que isto seja de facto uma casa e nela possamos encontrar-nos sós quando estivermos sozinhos.”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  • Para além do narrador principal, existem outros narradores secundários homodiegéticos/vozes narrativas, como por exemplo:

  • Manuel Milho que, durante a ida a Pêro Pinheiro, noite após noite, vai contando parte de uma história aos companheiros;

  • João Elvas que, para entreter a noite enquanto estão abrigados no telheiro, conta a Baltasar numa série de crimes horrendos.


2.2. Classificação do narrador quanto à ciência/focalização

  1. Focalização omnisciente:

  • O tipo de focalização predominante na obra é omnisciente, mas a omnisciência do narrador situa-se para além do sentido tradicional do vocábulo. Trata-se aqui de um saber que implica não só a transcendência em relação a todas as personagens como uma perspetiva tridimensional do tempo – o presente, o passado e o futuro – a que está subjacente uma visão integrada dos acontecimentos e a inscrição dos fenómenos narrados numa determinada cultura, transversal a um conhecimento global da História. É, aliás, este conhecimento que permite ao narrador seguir eventos ocorridos em tempos distintos. Assim, o narrador está presente ao nível do tempo da história e, simultaneamente, surge num outro tempo, posterior, o do discurso, o tempo da enunciação.




  1. Focalização interna/intradiegética:

  • Instaura-se o ponto de vista de uma das personagens que vive a história.

  • Neste romance, por vezes, é a perspetiva de determinada personagem que nos é apresentada, acontecendo ser esta que apresenta os seus pensamentos e relata os acontecimentos – é o caso, por exemplo, de Sebastiana Maria de Jesus, a mãe de Blimunda, quando nos relata a sua situação durante o auto de fé:

“(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era feito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou eu blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola (…)”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  • No excerto a seguir transcrito, a descrição do espaço físico (Mafra) é feita de acordo com o olhar de Baltasar, privilegiando-se, assim, a focalização interna:

“Está um pouco azamboado Sete-Sóis, que nova Mafra é esta, cinquenta moradas lá em baixo, quinhentas cá em cima, sem falar noutras diferenças, como esta fiada de casas de pasto, barracões quase tão grandes como os dormitórios, com mesas e bancos corridos, fixados no chão (…)”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  1. Focalização externa/extradiegética:

  • Estamos perante um narrador observador, que descreve objetivamente o ambiente que o cerca:

“Ficará neste alto a que chamam da Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas…”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  1. Focalização interventiva/judicativa:

  • A focalização interventiva surge com a função de comentário, aliada à adesão ou rejeição de comportamentos ou formas de estar das personagens, e apresenta, geralmente, uma função ideológica.

  • Em determinados momentos, encontramos uma focalização interventiva. Esses momentos correspondem às seguintes situações:

  • O narrador tece comentários, por vezes com caráter valorativo, a propósito dos eventos narrados:

“(…) Um dia terão lástima de nós as gentes do futuro por sabermos tão pouco e tão mal, padre Francisco Gonçalves, isto dissera o padre Bartolomeu Lourenço antes de recolher ao seu quarto, e o padre Francisco Gonçalves, como lhe competia, respondeu, Todo o saber está em Deus, Assim é, respondeu o Voador, mas o saber de Deus é como um rio de água que vai correndo para o mar, é Deus a fonte, os homens o oceano, não valia a pena ter criado tanto universo se não fosse para ser assim, e a nós parece-nos impossível poder alguém dormir depois de ter dito ou ouvido dizer coisas destas.”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  • Os comentários do narrador traduzem a voz do povo:

“(…) já se ouviu bater a porta, soaram os passos na escada, vêm falando familiarmente a ama e a criada, pudera não (…)”

Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição)




  • O narrador recorre a aforismos (frases que, normalmente, têm uma moralidade específica).




  • Por outro lado, as intervenções do narrador surgem como prolepses, antecipando acontecimentos. A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes objetivos:

  1. A crítica social – é o caso das prolepses que dão a conhecer as mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D. Pedro, de modo a estabelecer o contraste entre os dois funerais, ou a morte de Álvaro Diogo, que viria a cair de uma parede, durante a construção do convento, assim como a informação sobre os bastardos que o rei iria gerar, filhos das freiras que seduzia;

  2. A visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador (o tempo da história e, num tempo futuro, o do momento da escrita) – cabem aqui as referências aos cravos (outrora, nas pontas das varas dos capelães; muito mais tarde, símbolos da revolução do 25 de abril), a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens terem ido à Lua, no século XX, a alusão ao tipo de diversões que se vivia no século XVIII e ao cinema, entre outras.


2.3. Classificação do narrador quanto ao ponto de vista

  • Em Memorial do Convento, o narrador pode ser considerado tanto objetivo como subjetivo, já que são várias as situações em que se expressam juízos de valor e opiniões sobre determinados assuntos. Para tal, utiliza a ironia por diversas vezes para expressar aquilo que pensa.


3. O narratário em Memorial do Convento

  • Leitores;

  • Baltasar e os companheiros de trabalho, quando Manuel Milho, na ida a Pêro Pinheiro, noite após noite, vai contando parte de uma história aos companheiros;

  • Baltasar, quando João Elvas, para entreter a noite enquanto estão abrigados no telheiro, lhe conta uma série de crimes horrendos;

  • O próprio João Elvas, durante o diálogo que se estabelece entre este e Baltasar.


4. Conclusão

  • O narrador de Memorial do Convento ultrapassa o simples estatuto de narrador omnisciente característico do romance histórico. Como resultado de tal facto, há momentos no romance onde se evidencia:

  • A intertextualidade com outras obras e outros autores, ultrapassando as barreiras do tempo, como acontece com as referências a Padre António Vieira e a sua oratória, Pessoa e Mensagem e Camões e Os Lusíadas;

  • A mudança de focalização do narrador para a de uma personagem (auto-de-fé onde Sebastiana Maria de Jesus se encontra, por exemplo);

  • A mudança repentina do convencional discurso de terceira pessoa para o de primeira pessoa, indiciando uma proximidade do narrador com as personagens, embora não sendo personagem da diegese;

  • A permanente ansiedade do narrador pela contemporaneidade que conduz à constante reflexão sobre a vida humana – o homem como centro da narração saramaguiana;

  • O conhecimento de histórias da tradição e do imaginário popular (o vulto do homem na lua, por exemplo);

  • Os juízos pessoais, amargamente irónicos, mas também simpáticos;

  • Apartes que revelam cumplicidade com leitor;

  • A partilha de referentes comuns ao narrador e ao leitor do século XX, profundamente irónica como o nome de Saramago, a moda do bronzeado, as flores de abril, o cinema como forma de lazer e o parto sem dor;

  • A atualização de conceitos, uma vez que o narrador tem consciência que o leitor não domina o universo do século XVIII.



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