Manto cinzento a cor do silêncio é negra



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Encontro30.06.2017
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Manto cinzento

A cor do silêncio é negra.

O som do fim ensurdece-me.

Não encontro a verdade,

Nem as palavras se mostram.

Esmaga-me o peso das memórias,

A reconstrução sobre as ruinas,

A civilização…

Náuseas sobre uma terra à deriva.

Um coração desterrado;

A mesquinhez humana.

Formigas comem outras formigas,

Arrotam sapos,

Trilos sem fim exalados de diminutos pulmões.

Unhas cuspidas para o chão;

Repetições de um ser abandonado.

Moscas à espera dos meus excrementos,

Cortes nupciais de zun zums alados,

Pássaros de bicos abertos.

Desejos voluptuosos,

Lábios perdidos no escuro,

Sonhos entrelaçados.

Há uma recta e um momento,

Uma curva e uma canção.

Amanhã, amanhã, só vou saber amanhã!

Abraçamo-nos e quando nos abraçamos, abraçamos a mesma dor -

A dor de ser, a dor de sentir o ser.

Traição! Traímos o nosso coração!

Provamos do veneno que inquinará o mundo!

Que o tornará inabitável.

Queria-te perdoar,

Mas não fui capaz, pensei que me perdoarias tu…

Tanto tempo!; reduzido a pó, a uma arrogante espécie de argamassa convencida de aguentar uma amizade alicerçada sobre as cinzas de um amor queimado.

Fumo negro de almas translucidas atiradas ao inferno - Holocausto

Fumo negro de almas translucidas atiradas para o progresso – Génocidio

Variável, veloz e doce canção com motivos assobiados em tons altos – Stiphrornis erythrothorax.

Invariável, fulminante e amarga canção com motivos fúnebres em tons estridentes - Homo sapiens.

Estou vacinado (já tinha dito), bebi do veneno que não me liquidou.

posso matar, já sou homem (adulto)! Já posso aniquilar os da minha espécie, sem remorsos!

Estar-lhes-ei a fazer um favor!

Libertar-vos-ei da dor;

Incorporei a morte!

Eu sou a morte!

Ah ah ah ah a a!

Não se assustem, pois sou eu o vosso filho, filho de Deus,

Satanás!

Estou a brincar, a brincar com o jogo dos Homens – vestidos de Paz e de Guerra – capacetes azuis e soldadinhos de chumbo! Todos bons cristãos – In Good we trust!

Há um fim que desconhecemos – Luz – aproximemo-nos dela, tudo será mais claro!

Que chatice, tenho vontade de não sei o quê…

Arroto, mas ainda não estou confortável com o meu corpo, pois a minha alma, pobre, perdeu as asas e não pode voar.

Irão de novo crescer, as asas do desejo, engrossar, ganhar forma e voar! Voar sobre o mar, sobre o mundo, sobre a tua cidade empestada de turistas, e na minha no Porto da minha partida, caminharei, com elas dobradas debaixo do sobretudo cinzento de marca que me deixas-te e dos seus bolsos uma a uma e com o passar do tempo cairão e perder-se-ão pedras preciosas - as nossas memórias - até que eu, velho, mais velho que esse macio manto que sempre será teu, morrerei como um espelho morre – estilhaçado, lançando pequenos reflexos de um mundo à nossa volta.

Ngaga, 13 de Novembro


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