Magda L. Carvalho magda loguercio carvalho poemas inconstantes



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POEMAS INCONSTANTES

POESIA



MAGDA L. CARVALHO

MAGDA LOGUERCIO CARVALHO

POEMAS INCONSTANTES
COLETÂNEA 2009-2014





Porto Alegre, 2015

Para Daniel

Ela e eu
A minha loucura está escondida de medo

[embaixo da minha cama

Ou dançando em cima do meu telhado

E eu estou sentado serenamente na minha [poltrona

Escrevendo este poema sobre ela.

Mário Quintana

Prefácio

por Otton Bellucco
Por que “Poemas Inconstantes”? Seria a pergunta que o leitor poderia se fazer. E eu, neste prefácio, gostaria de dizer a vocês, mas seguindo um limiar em que esta prosa convencional de prefácio não entregue ou quebre as surpresas da trajetória poética de Magda Carvalho nas páginas que se seguem. Em diálogo com esta poeta, eu já havia lhe falado do tom deliciosamente confessional de seus poemas, da delicadeza ácida e da forma estrutural de revelar intimidade que me lembra Clarice Lispector. Por que estrutural?

Por mais que os poemas partam de percepções e situações localizadas, todos vão para além da superfície do fenômeno, revelando algo mais comum e compartilhado, que conecta Magda particularmente com as leitoras de sua geração e urbanidade. Daí, penso ser inevitável o paralelo com Clarice Lispector não tanto em estilo, mas na forma de sentir e compartilhar as suas percepções sem transformar o poema em crônicas rimadas, ou em figuras e tropos óbvios e ocos que se extinguem feito crônicas depois de lidas. Não, algo fica! Os poemas inconstantes de Magda reverberam em nós num tempo singular, num tempo várias vezes dito, que exige um leitor mais atento, profundo, profuso e disposto a escapar do tempo da reprodutibilidade tecnológica.

Então, se você tem pressa, não leia, pois isso desmerece o que você vai encontrar aqui. Os poemas inconstantes exigem que você se liberte desses esquemas da pressa cotidiana; que você encontre beleza e encanto na desaceleração das imagens provocadas nos poemas, ou coragem na evisceração da tristeza; enfim, que você seja pessoa solidária e saia do isolamento afetivo tão sensivelmente perfilado por Magda. A poeta revela as múltiplas prisões, sofrimentos, angustias, dúvidas, dilemas, fins e recomeços; as refundações de si, os tropeços na esperança, a oscilação entre “nós” e “eu” e os múltiplos desafios de simplesmente estar viva. Há nisso tudo uma espécie de (auto)educação sentimental que Magda generosamente compartilha, mostrando a complexidade formativa de suas (nossas) mente e coração, os labirintos de solidões da alma e os parâmetros de individuação próprios de nossa época supostamente “conectada” – e particularmente cruel com a mulher que entardece.

No entanto, não há aqui um sujeito feminino que se vitimiza, mas um olhar perspicaz sobre a vida que, nos poemas, se torna uma encarnação verbal da autópsia – e nós sabemos o quanto o corte delicado e preciso de um bisturi revela o que há de mais visceral e brutal em nós. À medida que os poemas inconstantes desabrocham em páginas, lembramos que os botões das flores no vaso se abrem sob o jugo do que é artificial, mas que naturalizamos pelo hábito. Os poemas de Magda reagem a tal jugo e revelam nossos horrores por meio de sintomas recorrentes – e a sua paradoxal recorrência na inconstância dos poemas é a prova do horror que nos impomos sem perceber. A forma sintomática como os poemas (re)agem (a)o horror cotidiano tem uma singularidade que exige de você a predisposição de encontrar o tempo que nos é suprimido pelo hábito da reprodutibilidade tecnológica.

Aceite o desafio poético de Magda, é o que recomendo. Encare o espelho sem as máscaras da civilização – este espelho que se revela no modo como Magda percebe e diz as suas paisagens d’alma, enquanto se sente entardecer doendo com o mundo.

Rio de Janeiro, 21-01-2015


Sumário


Desenlace/12

Cúmplices/13

Bálsamo/14

Hábito/15

O vento azul escuro/16

Pandorga/17

Fúria/18

Riacho/19

O cálice e o vinho/20

No silêncio/21

Narrativa cansativa/22

Um quê/23

Outono/24

Noite no campo/25

No quadrante sul/26

Histórias/27

Brincando/28

Decisões/29

De repente/30

Dia escuro/31

Sobreviventes/32

Rua da Praia/33

Lágrimas na janela/34

Anoiteço/35

Eco sem sentido/36

Cenário/37

Quem sabe um poema depois/38

Babuana/39

Copa das árvores/40

Sonho rem/41

Momento único/42

Entardeço/43

Dias torturantes/44

O tempo/45

Ninho/46

Palavras cruzadas/47

Mais uma tarde/48

Delírios/49

Saturno/50

Tréplica/51

Infinito amor/52

Colo/53


Nublada/54

Quadrado perfeito/55

Há algo/56

Ocaso/57


Segredo/58

Transeuntes/59

Perfil/60

Canção do vento/61

A quiet word/62

Introdução/63

Palavras ácidas/64

Chronos/65

Terceiro olho/66

Guria/67


Silêncio das horas/68

Face oculta/69

Pergunta/70

Palavra certa/71

Lira do meu canto/72

Coisas que relembro/73

Bruma/74

Rastro de estrelas/75


DESENLACE

Se me vires

Virada do avesso

Então entenderás

Porque me desconheço
Já fui outra

Vivi no descompasso

Reencontrando com a palavra

O que significou meu laço


Mas não serei constante

No dia a dia o fracasso

De ser quem sou

E não conhecer qualquer silêncio


Mudei, mas continuo escrava

Do absoluto infinito de mim mesma

Em que até meio sem graça

Absorvo com espanto meu definitivo desenlace



CÚMPLICES
Ela nunca foi romântica

Nunca sonhou em ganhar flores

Mesmo porquê, nunca as ganhou
Seus beijos vorazes, nunca os deu

De seu desejo restou o silêncio

Mas, naturalmente amou

Um amor que acabou


Sobraram as flores nos jardins, os animais

A natureza intacta e livre

E as palavras bem ditas
Ela tinha uma história

Que não podia contar

Que tentava esquecer

Quando escrevia

Sem rimas ou cúmplices.

BÁLSAMO
A inquietude da mente

Leva-me a processos catárticos

Em busca de uma saciedade impossível
Imagens caem das árvores

Palavras acumulam-se ao seu pé e morrem

O húmus que nem sempre reconheço
Minha especialidade

Está na simplicidade

De um discurso desconexo
Pontos no escuro onde refaço trajetos

Sem fim ou início e onde não encontro

A paz no silêncio – o bálsamo.

HÁBITO
Quebro neste instante

A promessa que fiz

Sob o olhar da dor
Ela me questiona

Perscrutando um sentir

Que é tão antigo...
Insiste em mostrar-me

A face mais crua de fato

De meus pensamentos
E então, finalmente percebo

Que só existiu lembrança

Por que em mim a dor é um hábito.

O VENTO AZUL ESCURO
Eu vi o vento da noite

Passar devagar pela sala

O gato estremeceu

Seu pelo arrepiou


Eu senti na pele e no cabelo

Um ar diferente

Cor de noite, mas brando

Que lambeu meu rosto


Pensei se não era hora de deitar

Mas era cedo, e a música ainda tocava

As cortinas estáticas

O sino-de-vento mudo


Mas lá estava o vento

Sobre os móveis

Azul escuro e doce

Como eu me sentia.



PANDORGA
Como uma pandorga ao vento

Viver flanando

Tão alto, tão solitariamente

Viver chorando

Porque era papel, no entanto
Nas manhãs de primavera

Encontrar a semente

E feliz, quem dera

Anunciar seu manto

De flores, de plumas e hera
Devagar descer como brinquedo

Pousar sem medo

No jardim do encanto

E renascer no voo

Que era só sonho.
FÚRIA
Penso palavras duras

Quando estou brava

Ou tenho medo
Até grito e vocifero

Mesmo sozinha

Contra o inimigo imaginário
Depois me acalmo

E sempre perdoo e esqueço

Os motivos da fúria

Em que eu até me desconheço.


RIACHO
O cinza da cidade

Concreto puro

Explode na janela
Procuro um ponto verde

Uma árvore, um arbusto

Ou uma flor amarela
Não há nada além de pedra e cimento

Antenas de aço, roupas nos varais

Cortinas fechadas
A natureza me faz falta

Quem dera um riacho de águas límpidas

Quem dera Deus fizesse tudo de novo...
O CÁLICE E O VINHO
Um sólido

O outro líquido

Ocupando o espaço

Harmonicamente


Um contém

O outro é contido

Parecem um só

Mas são dois corpos

Unidos pela embriaguez
Amantes

Onde um se derrama

E o outro entorna.

NO SILÊNCIO
Há no silêncio

Uma recusa

Ou um consentimento
No silêncio

O olhar pode ser duro

Mas também acariciar
No silêncio

Há palavras ocultas

Negadas e sentidas
O silêncio pode acalmar

Envolver nos braços

Um querer profundo
Mas há um silêncio

Que fere e machuca

Que exige calar.
NARRATIVA CANSATIVA
Tô inconformada

A palavra me limita

Força meu pensamento

E se grito?


Também não calo

E isso é chato

Quero viajar nas estrelas

Banhar-me nos sentidos


Mas ela, a cansativa narrativa

Não me dá sossego

E só resta iludi-la

Num verso oco.



UM QUÊ
Se a poesia tem sempre

Um quê de tristeza

É porque ri e chora
Enquanto a batuta elabora

Rege na palavra solta

Um verso manso
De calor ou frio, ou ambos

No paradoxo entre escrever

E se estar contente.

OUTONO
Uma imagem

Guardada nos confins

Da memória
Quase emoldurada

Num portarretrato

Coberta com a lâmina

Transparente do tempo


Uma árvore, um outono

Folhas mortas que caem

Ou qualquer outra

Ou qualquer outro

Ou ainda quem quer que seja
O poema transfigura-se

Num livro sem palavras

Um poema mudo

Mas que fala

E diz da cor de sua moldura.
NOITE NO CAMPO
Cresci solta nos pagos

Vendo ao longe as luzes

Pequenas dos vizinhos

As noites, principalmente no inverno

Eram negras, sem lua ou estrelas
Sozinha de minha janela

Imaginava que lá, bem distante

Havia alguém também a espiar

A luz do lampião de minha sala


Meu pai mandava-me deitar

- Menina, chega de olhar por esta janela

Já se faz tarde

Os sonhos te chamam


Eu, obediente , ía para o quarto

Apagava as velas

E debruçada ao peitoril

Namorava aquela luz

Alguém me dizia: Boa noite!


NO QUADRANTE SUL
O sol não bate nas janelas

A luz, indireta sempre

É clara e forte

O branco reflete


As cores tornam-se a sombra da palheta

E o azul do céu é límpido e transparente

O verde das plantas, em seus diferentes matizes,

É lusco-fusco

E a água do rio, ora é azul, ora é turva
No quadrante Sul

O sol não aparece

Nunca há lua cheia

E quando há tempestade

A chuva intermitente lava as vidraças

E o vento até assusta.



HISTÓRIAS
Eu vivo inventando histórias

Recriando trajetórias

Para acalmar meus pensamentos

E refazer, na fantasia, dias de glória


De real, o cotidiano

Na rotina crua de um dia após o outro

As imagens fugidias

Que insistem em adentrar

minhas lembranças
Conto contos para mim mesma

E se fosse assim?

E se não tivesse sido desse jeito?

E se a vida tivesse me dado uma colher?


De doce só o café

Acordando a realidade nua

Que me diz:

Ah! Mas foi assim, no entanto.



BRINCANDO

Lúdico Lúbrico Lúcido

As palavras se desenrolam

No som, no ritmo, no sentido

Vento Movimento Instante

Algo se desgoverna

Na mente do poeta

Brincar Prazer Viver

Constrói-se já a imagem

De algo que é só fazer

Ar Cor Azul

Um céu primaveril

Enfeita a tarde daquele e daquela.

DECISÕES
Tomo decisões

Tenho meus motivos

Mas depois os esqueço

E torno aos velhos sentimentos


Eles não têm cura

Minha mágoa

Meu ressentimento

Minha carência


Volto a tomar decisões definitivas

Baseada em motivos inesquecíveis

Mas mesmo assim eu esqueço
Não vejo saída

Por que minhas decisões

Se esboroam

E dos meus motivos eu esqueço.


DE REPENTE
De repente uma tristeza

Não sei se é o dia

Ou se foi a noite
Algum sonho esquecido

Mal sonhado

Entorpecido
Ou um acordar abrupto

Que me trouxe

A saudade de outras primaveras
DIA ESCURO
Dia escuro

Os pássaros dormem

Sob as marquises

O céu nublado

Cinza das pedras

E o silêncio plúmbeo das nuvens


SOBREVIVENTES

lembro de nós

aos 20 anos

o frescor nos olhos

a vida pela frente

sonhos não faltavam

tudo parecia mais fácil

aos poucos outras cores

na palheta dos dias

momentos díspares

trajetórias de dor e angústia

a vida mostrava-se dura

de pranto as tardes vazias

morte e sofrimento

loucura e tristeza

e se passaram

mais 20 anos

o tempo trouxe a força

endurecendo os temperamentos

fazendo do sensível o imbatível

calando as lágrimas

que se tornaram palavras-

sobreviver era imperioso

sem medo, deixando o passado

e trilhando os caminhos do hoje

RUA DA PRAIA

sob os altos edifícios

do centro da cidade

a rua, lá embaixo

é sombria e fria

o sol ainda alto

não mais penetra

as calçadas úmidas e geladas

o inverno faz sentir-se

nas pernas e nos pés

as botas ressoam nas pedras

os casacos caminham

no ondular das pessoas

o interior das lojas é escuro

ocupadas com aqueles

que ali circulam

as janelas acima trazem

a vontade de lá permanecer-se

iluminadas com o que resta

do sol na Rua da Praia



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