LUÍs miguel rocha



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LUÍS MIGUEL ROCHA

A

VIRGEM

LIVRO 1


MILLBOOKS

Título Original: A Virgem © Luís Miguel Rocha, 2005

Edição Portuguesa:
Todos os direitos reservados por
Mill Books

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Apartado 52575
EC Amial
4202-301 Porto

Capa: NN1 Design


Revisão Literária: Rui Azeredo
Paginação: Mill Books

Impressão e Acabamento: Eigal S.A.

Distribuição: Sodilivros S.A
Travessa Estêvão Pinto, 6-A
1070-124 Lisboa
Tel: 21 3815600
Email: geral«sodilivros.pt

Primeira edição


Abril 2009
Segunda edição
Abril 2009
ISBN: 978-989-8185-19-8

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida


sob qualquer forma ou por qualquer processo
sem a autorização prévia e por escrito do editor,
com excepção de excertos breves
usados para apresentação e crítica da obra.

Impresso na UE


Dep. Legal: 293419/09

A ti...


O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que
nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós

Jean-Paul Sartre

Parte Primeira

Trata das advertências ao ledor e de outros teores

de idêntico interesse

Convém precisar o tempo em que me sento para confiar ao papel o relato dos reais acontecimentos que findaram neste ano de cinquenta e um, depois de mil e novecentos. Hoje é nosso Presidente da Republica, Sua Excelência, o Senhor Francisco Higino Craveiro Lopes, sucede ao Magnânimo António Óscar de Fra­goso Carmona que reinou, no sentido presidencial do termo, durante vinte e cinco anos, desde mil e nove­centos e vinte e seis, e só não morou por mais tempo no cargo porque entendeu Deus levá-lo para junto de si em Abril deste ano. Bem-haja ao nosso defunto pre­sidente, o primeiro do Estado Novo, que muito fez por este nosso cantinho, ainda que bonifrate, no sentido mais desprendido da palavra.

Tudo se iniciou há dezoito anos, nos idos de trinta e três, e é minha tenção que fique impresso para a fu­turidade dos eventos sobrevindos, desde a nascença de Mariana Silveira, a mulher desta história, ate a data de hoje. Porque esta mulher, perguntar-se-ão todos os que de nós querem motivos para as coisas? Bem, por­que uma mulher são todas, assim como todos os machos são um homem, e neste grande império é digna de nota esta mulher de quem falaremos, filha de um oficial do Exército. Mas já lá iremos, antes desfiaremos a meada da causa de tanto frufru porque tudo tem origem numa semente que conduz ao móbil e não o contrário, por tal retrogradaremos ao três de Abril do ano capi­cua previamente mencionado.

Alguns entenderam a monta desta diegese e colabo­raram o melhor factível na cedência das verdades por si vividas ou testemunhadas, entenda-se por melhor factível a versão menos lesiva para as suas próprias pessoas, armaduras que se compreendem, pois são os humanos todos passíveis de passos erreiros durante os dias da vida. Quem não os cometa é, por certo, santo ou santa e nem mesmo esses passam impunes na terra. Somente Jesus Cristo, filho de Deus Pai, mas isso são outros assuntos que não importam, já que falamos de seres imperfeitos, coisa que Jesus Cristo não foi, caso único até ver.

Outros entenderam por não se associa­rem a esta demanda, porventura por perceberem também a monta, mas de um prisma distinto, outros por já terem perecido, seja como for, ambos no seu direito de calar as verdades, conquanto esta não seja a época dos direitos, antes dos deveres, o de calar e cumprir, e mesmo eu, aqui sentado a deitar estas linhas, tenho de ter abispamento com aquilo que escrevo para que não passe os meus últimos dias numa alcáçova, aquém ou além-mar, sem caneta ou papel, só com pele e ossos, os meus, ou veja mesmo os meus últimos dias abreviados pelas tundas que as nossas digníssimas forcas da au­toridade entendem por dar. Nada disto fazem por mal, apenas para nosso bem, sabemo-lo, nos é que tendemos a desviar-nos do trilho marcado há muitos anos e ainda hoje pelo nosso sublime Presidente do Conselho, Doutor António de Oliveira Salazar, o titereiro, no mais excelso dos significados, o timoneiro que nos conduz pelos mares da justiça e da integridade, da reverencia a Deus Nosso Senhor, da mesura, do aforro, da afoiteza em relação ao futuro, na certeza de que estamos no bom caminho, tanto na terra como no céu.

Findas estas palavras de apreço, manda a prudência que se preconize a todos os que de nos conservem estas paginas entre as mãos sobre os inconvenientes de tal acto. Não se dirá para que não as leiam, pois foram escritas para esse efeito, mas que as abriguem em local a prova de olhos aleivosos. Não é pretensão do contador que sejam entregues a malha justiceira deste magnificente país, berço dos antepassados mais lendários da história do mundo, e amarguem na pele o flagício intrépido de homens com rei e rogue, com lei e coque, sem freio no baque. Longe de nós tais cogitações, a mónita esta feita, na certeza idêntica de que não comentarão por qualquer espécie de bufo ou sopro, por mais rápido que seja, as palavras e as gestas das quais tomarão agnição nas linhas seguintes. Ninguém sabe, ninguém viu, não aconteceu.



Primeiro

Importa que sobre cortejo ninguém se pronuncie sem que primeiro lá se acorra. Não se diz lá se acorra no literal acto físico de acorrer, mas no rumo romanesco do relato, que de romance falamos. Não há na História Universal história que empece sem que apreendamos minimamente o porquê de estar ali, naquele local, naquela hora.

Apreendamos.

Mariana Silveira, que de mais nomes, e ela os tem, não se faz requisito, e mesmo o apelido só se apresenta porque seu pai, o Coronel José Silveira, ficaria vexado se seu nome de família não aparecesse neste escrito, pois os Silveira são pessoas de garbo e estima pelo que de seu é, quitemo-nos a esses caprichos mundanais já que sua tenção foi satisfeita, senão note-se, para quem tem o arrazoamento em algum desuso, algumas se­tenta palavras atrás, o apelido que escolta o belo nome de sexo libidinoso Mariana, a mulher desta história, a donzela da lindeza mais prodigiosa que orna a nação, que nasceu no ano do Senhor de mil novecentos e trinta

três, poucos mais se passaram desde esse, apenas dezoito para se dar precisão ao texto, já que ninguém gosta de enxergar pouco e ainda menos de nada saber, e, neste regime de Deus, Pátria e Família, não há lugar a ditos dúbios, há vinte cinco Maios que assim é e mais virão, outro se abeira porque o Inverno está a findar e ano ainda há pouco se estreou, e não se falará mais nisto por ora, já que a Lei da cesura e da tesoura não tem tez rogada e há sempre ignaros que lêem Hamlet

Ser ou não ser? Eis a questão, que bufar é sempre bom e versejando vamos indo de encontro ao Tarrafal, pois não engenharam arca ou cofre a que se possa dizer que nunca será arrombado ou não fosse um pé­-de-cabra sempre mais teso do que qualquer aloquete, ferrolho ou cadeado e a escrita pode tirar a comida e a bebida a quem não se controle. Mariana é e será o nosso assunto, perdoe-nos o nosso Coronel José Silveira, já íamos resvalando, Mariana é Silveira para o mal e para o bem e penitenciamo-nos do nosso descuido agrade­cendo ao senhor que nos dá o pão e a quem o nosso Coronel venera, Viva o Doutor Salazar, Viva Portugal.

Mariana Silveira nasce em noite agoirenta, daquelas que parecem confiadas a filmes de um Bela Lugosi, à qual nem o coruscar e trovão do secular falta. Também foram convocados, ou não seria uma noite de invernia realmente veraz.

O padrinho chega no seu carro, um arreio usufruto de pessoas realmente abonadas em matéria de fortuna, coisa que não é para qualquer um. Caminha até à porta e bate três vezes, uma e outra e a seguinte. O mordomo abre com aprumo institucional, que é para isso que não

lhe pagam, comida e dormida é um pagamento digno de um patrão generoso, argumentara uma vez o nosso Coronel e há-de dizê-lo mais vezes porque se bem não lhe fica, mal também não. Voltamos ao padrinho, que dá pela graça de Cosme, nome pouco lhano para quem se intitula Conde de uma terra qualquer do Norte do país, bisneto de um tal Afonso, que os houve seis em todo o reinado de Portugal e se este não foi rei é porque não pôde ou a coroa não seria um bem a que todos almejamos e mais não se fale de monarquia, não tivesse esta morrido no ano dez depois de mil e novecentos, se o homem é Conde que o seja porque se bem não lhe fica, mal também não.

Entre então Dom Cosme nesta nossa humilde casa, haverá de dizer o mordomo, que esse não carece de título ou nome. Entrará então o Conde Cosme, tirará o chapéu escorrido e o casaco a escorrer e entregá-los­-á ao mordomo.

Como vai Vossa Excelência? Há-de perguntar o serviçal.

Vou bem muito obrigado, respingará o outro, e para final de conversa, porque mordomo é arraia pequena, acabará por perguntar onde está o seu compadre?

No salão de leitura, anunciará o mordomo, e acabará aí a conversa verdadeiramente. Um dirigir-se-á para o dito salão e o outro para a copa, aí quem manda é ele, em algum bem somos reis, nem que seja na cozinha ou na mulher, regozijar-se-á da sua posição hierárquica e só não esfregará as mãos orgulhoso porque nelas irão o chapéu escorrido e o casaco a escorrer de Dom Cosme, deixá-lo ir porque se bem não lhe fica, mal também não.

Salienta-se o aspecto anquilosado da passagem entre Dom Cosme e o mordomo por não haver certeza de qualquer permutação de sentenças entre eles. Encare­-se como uma confabulação narrativa, uma porção parcialmente congeminada no meio de algo factual. O nobre, esse, caminha pelo longo corredor do solar, faz muito que não vem à quinta, maldiz da decoração, ou porque os móveis são centenários, taludos, faustosos e escuros ou porque os lustres dispersam cristais fin­gidos pelo tecto, são niquentos, jarretas e austeros e, se caíssem, esmagariam pela certa o caminheiro, mal­-aventurado, podia até ser Dom Cosme, que bom, que­remos dizer, que desprazer. Adiante, chega Dom Cosme ao dito salão, que de salão pouco ou nada tem, sala seria o termo ajustado, mas o grande português tem perrice por aumentos e faz sempre maior aquilo que nem altura tem.

Como vai meu Coronel? - saúda o Conde. - Olha quem ele é - espanta-se o Coronel, revelando agrado.

Estás velho como um bode, cogita o Conde, estás feio como o demo, discorre o outro.

O Conde lisonjeia do Coronel estar sempre na mesma, o compadre não envelhece.

O Coronel mente sobre o Conde andar a tratar-se bem, perfumado, bem cuidado.

Que Deus me perdoe pela mentira, rogam os dois, ou talvez não, não se pensa em Deus nestas horas.

Diga-me, meu caro Coronel, onde está minha co­madre? - quer saber o Conde. E de boa carne, pensa, ainda que dispensemos tais ideias.

- Então não houve o Conde os gemidos? Está a parir. E com este já são cinco.

O Coronel é que é um homem, macho dos bons, diremos.

- Rogo, meu Coronel, para que seja varão.

Fica sério o Coronel, puxa da cigarrilha e dá duas longas baforadas depois de a abrasear. Mantém-se ponderoso e olha para a janela do minguado salão de leitura. Lá fora, continua a procela, o trovão, os relâm­pagos, a ventaneira, o pé-d'água.

- Deus o dará. Ai dá, dá, ou a mulher vai se ver com a força destas mãos como da última vez. - O Coronel preme as mãos com nervo e o sangue sobe-lhe à cabeça em manifesta sanha. - Se há coisa que não tolero, meu caro Conde, são faltas de respeito. Isso não tolero a ninguém.

Não deslembremos que corre o ano de trinta e três e poucos mais se passaram desde esse e a inditosa esposa do Coronel, Dona Margarida, que apesar da romagem a igrejas e missas distantes, preces, súplicas e orações a santos peritos e enjeitados, terá de ver-se com o honrado Coronel, ninguém a mandou desacatar, pois era homem e não menina o que se pedia que viesse, espere Dona Margarida que sustento vem já que chegue, mas mais tarde falaremos.

Os gemidos da parida ecoam na casa inteira, mas deles não se fez menção no corredor, quando, se bem lembrados, o Conde caminhava em direcção ao salão, é que os gemidos femininos enrodilham-se com os de prazer, mesmo que carreguem dor, não se quereria com certeza enoitecer Dona Margarida com cogitações

depravadas como as que teve o Conde e não se disse, porque Conde é Conde e tem licença de pensar o que quer, sua mente é elevada, não fosse ela nobre e de azul no sangue e nunca ninguém o arguiria de ser porco, apenas de ser homem.

Esta que aqui vemos é Conceição Genoveva a cami­nhar no corredor, uma das serviçais do solar, nas mãos carrega uma bacia de água quente denunciada pelo vapor e nos ombros umas quantas toalhas, acessórios de grande necessidade para a parida. Sigamos a coi­tada da Conceição Genoveva, sempre dedicada às causas do trabalho, às causas da casa, e nesta hora de grande causa que não se delongue em chegar ao quarto de Dona Margarida, que já a aguardam em grande desassossego, todos os partos são uma invaria­bilidade de probabilidades e consequências provoca­das por actos, por vezes também eles inconsequentes, o que não é o caso, não fosse o Coronel José Silveira homem de grande responsabilidade e apreço pelo que de seu é, que há nove meses aguarda a consequência do seu acto consequente de gerar um filho varão. Ele que com certeza o terá gerado porque para isso labutou, mas nunca se confie na jura, conjura, das mulheres que geram o que bem entendem e nada dizem a ninguém, prova disso conhece ele que por quatro vezes varão gerou e saiu mandriona, senão repare-se nos seus quatro rebentos que por ordem do mais antigo para o mais novo dão pelos nomes de Josefina, Matilde, Eva e Manuela, filhos de Dona Margarida que muito penou por causa dessas consequências. Varão é o que se pede e se desta não vier será a quinta e derradeira oportunidade para redimir o seu erro e afronta ao Coronel. Esta que aqui vemos é Conceição Genoveva, que já chegou ao quarto de Dona Margarida e que também sabe a aflição em que está a sua senhora, não conhecesse Conceição Genoveva o empenho com que o Coronel combate as noites de insónia, não conhecesse ele as suas entranhas, ela que também deu uma man­driona ao seu Alfredo, o mordomo que abriu a porta ao Conde, quando este pediu um varão, mas que importa se compreendeu muito melhor que o patrão que nem homem nem mulher têm mão nisso.

Dona Margarida está deitada no centro da cama suada, que fulgência narrativa nesta sentença, algo de queirosiano, se nos permitem, mas o que importa é a mulher da casa com as pernas abertas e a respiração irregular, um esgar de dor atravessa-lhe o rosto que mesmo nesta hora mantém uma beleza religiosa de uma mulher pudica e de bons princípios. Que cedo acabe este martírio, pensa Dona Margarida. Qual deles, perguntamos nós, o grande e nobre martírio do parto, que torna todas as mulheres melhores do que qualquer homem, não fossem as mulheres mães de todos os homens, ou o martírio das preces e rezas não terem sido ouvidas e não dar ao seu Coronel, pela quinta vez, o tão desejado filho varão? A si o que de seu é, o pensamento é de Dona Margarida e com ela ficará.

Inácia é a parteira de serviço. Formada no ofício pela vida e pelos antepassados da família, raro é o parto na terra que não seja feito pela velha Inácia, cuja idade não interessa para aqui e se ela não quer que se saiba assim será respeitada a sua querença.

- Respira, Margarida. Respira. Descansa um pouco. É tudo como das outras vezes. - fala Inácia acalmando a paciente com uma voz terna e amiga. Se há coisa que nunca muda é a forma de ter os filhos e nada mais simples do que simples conselhos.

- Tenha calma, minha senhora - conforta Conceição Genoveva, pousando a bacia de água escaldada e as toalhas junto à cama -, tudo vai correr bem.

- Vamos, mais uma vez - ordena Inácia posicio­nando-se junto à saída, no meio das pernas de Dona Margarida, entenda-se. - Força, vá, força.

E força faz Dona Margarida. Mais detalhes não são necessários porque disso já muito se sabe ou não fosse­mos todos filhos de uma mãe e pais somos ou seremos, dependendo da história de cada um, porque nisso cada um sabe de si e decide, a não ser nos actos incon­sequentes que hoje também têm remédio. Ainda assim, para quem ignora o acto da parida, sugere-se a consulta de literatura qualificada que a existe em grande quantidade nos nossos tempos.

Avancemos até à saída, onde já Inácia tem o rebento nas mãos, de cabeça para baixo, seguro pelas pernas, dá-lhe duas palmadas fortes no rabo e solta-se o choro do recém-nascido, são todos iguais quando nascem, são todos fêmea e macho pelo choro, é preciso olhar mais em baixo, sabem bem onde, portanto olhem e mais não se diga porque já tudo se sabe, não há pen­duricalho, é fêmea portanto. Deus livre e guarde Dona Margarida de uma sova imponente preparada com requinte, mas que importa isso se acaba de colocar os

olhos na bebé mais bonita que alguma vez vira, que vale uma ou mais sovas das mais imponentes, que venha o Coronel com o seu chicote ou coiro seu cinto, que a prenda à cama e que lhe bata porque nada equi­vale o vislumbre de um ser como aquele, que emana uma aura de paz, tranquilidade e beleza e que é sua, só sua, saída de si, e que vale todas as horas de sofri­mento e de asco no quarto com o Coronel. As suas intermináveis investidas sexuais onde repetia aos sola­vancos, suado e sujo, é para o macho, aqui vai macho, toma macho, e que ela recebia sabendo que seria o que Deus quisesse, mas que desejava que o fosse, no fundo do seu coração, para não ter de o ouvir, mas agora o mal está feito, da afronta já não se livra, nem do desrespeito a que, pela quinta vez, submete o Coronel a submetê­-la ao castigo, mas, pela terceira vez, nada disso im­porta, porque a pequena, com apenas alguns minutos de vida, vale tudo isso por razões que a ela e não só a ela dizem respeito e mais não se falará disso por agora.

Voltemos agora ao salão de leitura, onde continua o nosso Coronel José Silveira em amena cavaqueira com o Conde Cosme quando, ao apagar a cigarrilha no cinzeiro, ouve um choro de criança o Coronel, um choro da sua criança. Um aperto estranho toma-lhe o coração, mas nenhum sentimento deve nutrir por ela sem que se lhe saiba o sexo, nada disto é natural, será da idade, pensa, nunca nenhuma outra se lhe apertou o coração enquanto não lhe olhou no meio das pernas, deve ser prenúncio de macho, sorri o Coronel.

— Ora já cá temos o nosso macho —, alegra-se o Co­ronel. Disfarça o sorriso porque um Coronel não tem

sorriso alarve e refastela-se no cadeirão que pouco mais é que uma cadeira, mas sobre isso está tudo dito.

— Mais uma vez, folgo para que seja mesmo macho, meu Coronel, mas queira desculpar-me porque não é nosso, é seu, meu Coronel — corrige Dom Cosme a medo, porque este seu compadre é intempestivo e não gosta que lhe corrijam os modos e os dizeres, caprichos de um Coronel a que já estamos habituados e se bem não lhe fica, mal também não.

— Erro seu, meu caro Conde, meu filho, seu afilhado, nosso macho desse ponto de vista.

E visão mais inteligente não se peça, tem razão o nosso Coronel, toda a razão, sim senhor. Até merece continência de todos nós os que militares forem por­que os civis a isso não podem atender, batam a pala meus senhores depois de se terem levantado porque este nosso Coronel merece a nossa confiança, respeito, admiração e mesmo veneração e, depois disso feito, voltemos ao que nos importa, a esta porta do salão que se está a abrir. Duas portas tem, uma que vem do corre­dor e outra que dá acesso ao salão de convívio e é precisamente a que vem do corredor que se acaba de abrir e revela Conceição Genoveva que, com vistosa submissão, verga a cabeça em sinal de respeito pelo seu Coronel.

O meu senhor quando quiser pode ir ver sua es­posa — informa Conceição Genoveva denotando com­prometimento no olhar.

Irei em seguida. Correu tudo bem, espero?

Na medida do possível, meu senhor. O que inte­ressa é que ambos fiquem bem.

Os dois olhares cruzam-se no ar, o da serviçal na tentativa de evitar as más novas, o do Coronel na tentativa de as descortinar. Defende-se bem a criada, não o conhecesse também ela tão bem. Entre marido e mulher que se resolvam entre eles e fica adiada a má nova para quando o militar for ver Dona Margarida, não faltará muito, é certo, mas melhor na senhora que nela.

– Precisa de alguma coisa, o Coronel? — remata Con­ceição Genoveva para se livrar de maus assuntos, baixando os olhos.

– É tudo, São. Obrigado.

E fecha-se a pesada porta que dá para o corredor ou para o salão de leitura, conforme o sentido da viagem. Apressa-se Conceição Genoveva em direcção à copa a ter com o seu Alfredo, que já espera ele uma fêmea ou não tivesse olho de adivinho e qualquer parte de bruxo porque sempre adivinha o raio do homem o que vai sair, nem que seja de uma desconhecida do momento, já por isso lho perguntara o Coronel, mas ele fez-se de néscio, porque só o é quem se faz, e disse que não estava a conseguir ver, fruto da violenta invernia que assolava o país ou não chovesse desde Outubro do ano anterior, acreditou o Coronel na patranha porque os bruxos são pessoas sensíveis e os astros estavam enco­bertos, e livrou-se assim o mordomo de perguntas incómodas até ao parto, por causa da chuva que não há meio de parar e chega de adivinhas por ora porque o Alfredo é mais do que isso, se bem que lhe tenha falhado a sua mandriona quando lhe saiu varão, mas considere-se essa a excepção que toda a regra tem.

Voltemos ao Coronel, que já encaminha o Conde Cosme a saída não vá haver caso entre marido e esposa que tenha de ficar dentro das quatro paredes, quatro, sem que saia lá para fora, também assim prefere Dom Cosme do que a perspectiva de assistir na primeira fila a um compadre possesso que só Deus sabe o que pode fazer caso o rapaz no tenha abano.

Obrigado pela visita meu caro Conde, e não se esqueça do nosso acordo.

- Podia lá eu faze-lo compadre. Acordo de cavalhei­ros é lei. A propósito, nem vi as suas meninas e tão menos perguntei por elas. Perdoe-me a falta de lembrança, mas foi da emoção do nascimento - desculpa­-se o Conde com floreadas palavras.

- Ora essa, caríssimo, sei bem que pensou nelas. Estão muito bem, mas dado o avançado da hora encontram­-se recolhidas nos seus aposentos. E como vão os seus?

Muito bem, meu Coronel. Prometo passar cá no fim-de-semana para ver o seu novo rebento e para ver suas filhas. Trarei o Luís Filipe também para conhecer a Josefa ma. E bom que comecem a conviver.

Assim seja meu caro Conde. Combinado. Traga meu futuro genro para ver sua nora.

- Imagino que deve estar grande. Que idade tem ela agora?

Tem treze, quase nos catorze.

Selam a conversa com um sólido cumprimento de mão, já se vê ao fundo, a sair da copa, o mordomo com

casaco mais enxuto e o chapéu mais seco do Conde

ainda um chapeu-de-chuva para se abrigar ate ao carro.

E entregou o mordomo o casaco enxuto e o chapéu mais seco ao Conde e palavra puxa palavra, mais ver­bais floreados, terminada a etiqueta da praxe, entre cavalheiros obrigatória, leva Alfredo o Conde ao carro, um de fora e outro debaixo do chapéu-de-chuva, pri­vilégios de uma cabeça real e nunca da serviçal, que apenas segura o objecto de abrigo.

Dentro do solar, já o Coronel avança com passos firmes ao quarto de Dona Margarida nada preocupado com o tempo que faz lá fora porque outro não faz há seis meses, e menos ainda com quem se molha, seja de real ou serviçal sangue, outros pensamentos povoam a mente superior deste patriota e para menos não é ou não fosse tão gigante o desejo de ver um varão do clã Silveira entrar na Escola Militar da nobre capital do nosso país e do nosso imenso Império.

Está quase a chegar o Coronel ao quarto de Dona Margarida e seu também, mas outra porta se abre em frente, a do quarto das meninas, a do quarto das qua­tro meninas, e de lá alguém espreita e não é senão a mais velha, Josefina se bem se lembram, que avista o pai, que mais não é senão um homem para ela, o seu pai, o seu querido pai, porque nada percebe de fron­teiras e defesas e muito menos de patentes e hierar­quias militares, e corre para ele Josefina.

- Já nasceu, pai? Já nasceu a minha irmã?

- Mas será irmã ou irmão?

Eu quero irmã. Não quero cá nenhum irmão.

Bom, amanhã verás. Já devias estar a dormir como as tuas irmãs.

Irei, mas quero o meu beijo, estou à espera dele para

adormecer.

E curva-se o Coronel José Silveira, altamente conde­corado pelos mais altos galardões nacionais, pega em Josefina e dá-lhe um beijo na face, pieguices a que ela se habitou e não deslarga ou não fosse em feitio igual ao pai, seja feita a sua vontade e em vez de um beijo leva dois e amanhã de manhã há mais ao acordar, vá agora a menina dormir que o pai ainda tem que fazer, fecha a porta a pequena e abre a outra o Coronel, a do seu quarto e entra, ainda lá está Inácia que pousa o rebento na alcofa e cumprimenta o Coronel, despede­-se de Dona Margarida e sai lesta que aquilo não é com ela, maldito seja este homem, pensa, mas não o diz, medo tem também do Coronel.

- Com licença Coronel, boa-noite - bate a porta má- cia e ala que já se faz tarde, tem o Domingos à espera e que chuva que se ouve lá fora, não há meio de desa­nuviar, meu Deus.

Dentro do quarto já era de esperar mais molestas, mas ainda não se ouve nada, deixemos-nos de coscu­vilhices saloias e entremos a ver o que lá se passa, nada podemos fazer para acudir a Dona Margarida, a não ser testemunhar para que nunca mais se repita, se não na casa do Coronel, nas outras milhares que por aí povoam a Nação e o Império. Ainda está o Coronel a mirar a alcofa, o rebento na alcofa, já sabe que não foi atendido pela quinta vez consecutiva, se é que se pode falar nestes modos, mas a sobrepor-se à raiva o mesmo aperto, aquele aperto estranho toma-lhe o coração, a menina olha-o nos olhos, um olhar superior de quem controla, de quem ordena, de quem comanda, o filho que o Coronel tão deseja é menina, mas ele não se importa como das outras vezes, uma lágrima acorre-lhe ao olho e desce pela face até se perder pela barba. Dona Margarida ficaria boquiaberta se o visse nestes modos, mas ele está de costas e ela só aguarda pelo que a espera e todos nós, para falar verdade. Nunca com nenhuma das suas quatro filhas sentiu o que sente agora, uma alegria intensa, urna vontade gigante de ser um bom pai, não que não o seja agora, perdoe-nos o nosso Coronel, se não atente-se, há poucos minutos, os beijos que deu à filha mais velha, Josefina, e muitos mais dará às suas filhas, cinco a partir de hoje e com muito orgulho, perdoemos os mais sádicos de nós que pancada esperam, mas nada disso vai acontecer ao que parece, paciência, melhores dias virão para esses.

Não é macho - atira o Coronel em voz ríspida para Dona Margarida.

Bem vejo que vista ainda não lhe falta - recebe e atira na mesma moeda Dona Margarida, o que inte­ressa é que está mais completa com aquela coisinha pequena dentro da alcofa que lhe faz não ter medo de nada, nem mesmo do Coronel, uma variação interes­sante porque das outras vezes já era de se ter molhado pelas pernas abaixo. - É um facto, voltamos a não conseguir, ou voltei, devo dizer.

Está bem dito, voltamos. Que nome lhe vamos dar?

Por esta não contava Dona Margarida que agora não sabe o que há-de dizer. Está a falar a sério, o Coronel? O erro é nosso e não só dela? Estará bem o homem?

Tem alguma sugestão o meu marido?

— Por acaso, se me permite gostaria que se chamasse Mariana. Mariana Silveira. Isto se não tiver ainda ne­nhum nome para lhe dar, bem entendido.

Quem é este homem aqui dentro do meu quarto?, pensa Dona Margarida. Meu marido não é de certeza, será que aquele ser dentro da alcofa, minha filha, nossa filha, operou tal mudança neste homem, poderá ser isso?

Mariana Silveira será, senhor meu marido.

Muito bem. Falarei com o padre para marcar o baptizado. Descanse por agora, amanhã falaremos.

E sai o Coronel fechando a porta sem bater, não sem antes se inclinar e beijar a filha Mariana, a mulher desta história, e deitar um olhar piedoso a sua esposa Margarida. Fica esta a matutar e não encontra outra razão que não a filha recém-nascida, só ela poderá ter feito o que fez, transformar um homem mau em bom, um Coronel sem coração em homem de sentimentos, o que se passou não importa e lembra-se já Dona Margarida da promessa que fez à virgem de lá ir pôr uma vela se atendesse o seu pedido, a Fátima irá, pois se não atendeu da forma desejada, atendeu de outra ainda mais miraculosa, há quinze anos que assim é, quase dezasseis, que atende os pedidos dos crentes e aflitos, dos desprotegidos e dos doentes, dos pernetas e dos manetas, afogados e desafogados e gentes normais, moralistas e imorais, gente com alguns estudos, licen­ciados, burros, pobres de espírito ou de alforge e ge­niais, advogados, putas e doutores, nacionais e internacionais de Coimbra Universidade e outras que tais, até Oxford e por aí fora, até à Rua Escura no Porto, a todas as ruas mais escuras e mais claras do país e do mundo, se bem que o que mais nos toca é o que mais perto está, ou de quem simplesmente acredita, e se Dona Margarida acredita e prometeu, pois que cumpra o que lhe é devido e que vá acender uma vela à Cova da Iria, onde os pastorinhos viram a Senhora do Rosá­rio e onde por estes tempos estão a construir uma ba­sílica em sua honra há já quase cinco anos, ajude Dona Margarida no que lhe for possível e deposite alguns escudos para ajudar à obra que deles precisa, a treze de Maio lá estará onde estarão outros, uns com mais ou menos devoção, mas todos crentes e pedintes nessas horas, pedintes de melhores dias, de melhor saúde, de melhor dinheiro, de melhor vida, para nós e para os nossos e para os outros que peçam os seus, e não es­queçamos da paz no mundo e que não haja guerra que neste Ano do Senhor de mil novecentos e trinta e três, nesta noite agoirenta em que nasceu Mariana Silveira, o mundo anda sem rumo, a ver no que isto vai dar, que não desatemos todos aos tiros e que nos salve o Presi­dente do Conselho, que decerto o fará, honra lhe seja feita, e já agora os que de nós crentes forem que rezem à Santa para que tudo acalme para os lados de Espanha e que o Mein Furlier, ou o Presidente do Conselho na língua alemã, deixe de lado as ideias doidas que lhe despontam do cérebro e nos toldam a alma. Mariana Silveira nasceu, é o que nos importa, veio ao mundo sem problemas, pesa três quilos e trezentos gramas, a altura não interessa para o caso, pelo menos nesta idade, noutras se verá, dorme um sono profundo na sua al­cofa e há paz na casa e nas pessoas que nela habitam.

Lá fora, o céu ainda de breu pintado, já vai avançada a hora, de manhã se verá melhor a terra, o que a chuva limpou e o que enlameou, mais a segunda do que a primeira, e neste dia de Abril do ano que já sabemos parou de cair água do céu.

Segundo
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Este que aqui jaz neste familiar jazigo para seis tem muitos anos dentro dele, muitos mais há-de ter do que os que viveu, mas a isso todos lá chegaremos, uns mais cedo e outros mais tarde. Outros estão com ele, por cima e por baixo e já um no lado oposto, família unida, também na morte, ou só na morte, a fazer companhia uns a outros, se não no além pelo menos ali e se não na vida de vivos na vida mortos, estarão juntos até ao fim do mundo ou até alguém se lembrar de dali os mudar por razões que ainda se hão-de dar ou ter porque também nos mortos se mexe. Este que aqui jaz, no meio de dois, é que nos interessa, este que em vida fez o que quis e mais o que lhe mandaram ou não fosse para isso que cá estamos todos, uns mais, outros menos, mas cada um com o quinhão que lhe cabe. Teve cinco filhos, já não há espaço para todos neste familiar jazigo, só para dois, se o quiserem, mas a este já pouco importa, os vivos que se acautelem como ele o fez, tra­tar da morte é enquanto se está vivo. Aos machos, três, deu estudos, como era sua obrigação, na Escola Militar

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