LÍngua portuguesa e literatura brasileira



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LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA



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Texto 1
Sotaques no papel

Feitos sem pretensão científica, “dicionários” informais
exploram as falas típicas de estados brasileiros

Em suas viagens para casa, de Brasília ao Piauí, o jornalista Paulo José Cunha, de 57 anos, gosta de puxar uma cadeira e ouvir as histórias de dona Yara, sua mãe. Desses momentos familiares, o professor da Universidade Federal de Brasília (UnB) coletou grande parte dos verbetes e expressões tipicamente piauienses que deram origem à Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês.

O cirurgião vascular paraibano Antonio Soares da Fonseca Jr., de 61 anos, autor do Dicionário do Português Nordestino, conta que primeiro escolhia aleatoriamente algum destino entre Rio Grande do Norte e Sergipe. Depois de pegar um avião de São Paulo, sentava na primeira mesa de boteco da região e chamava o primeiro que passava para dividir uma cerveja. Aí era ligar o gravador e registrar o papo carregado de expressões, como o substantivo “lapada” (pancada), o verbo “cascavilhar” (procurar minuciosamente), a profissão “capagato” (técnico agrícola) e a aprendiz de interjeição “pronto” (“quando olhei, pronto!, tudo havia acabado”).

É nesse ambiente informal de pesquisa empírica que a maioria dos dicionários regionais é concebida. Sem o peso da responsabilidade de seguir as metodologias exigidas pela academia, esses trabalhos são marcados pela despretensão e pelo bom humor.

[...]


De tão encantado com o falar do catarinense, o comerciante, taxista e escritor Isaque de Borba Corrêa, de 47 anos, é um autodidata em linguística. Nada parecido com o Isaque que em 1981 lançou o Dicionário do Papa-Siri, com expressões típicas da região de Camboriú e do Vale do Itajaí. Ele conta que tinha vergonha de dizer que estava montando um livro naqueles moldes. Hoje, termos como “dialetologia” (estudo dos traços linguísticos dos dialetos) e “idiotismos” (traços que mais caracterizam uma língua em relação a outras que lhe são cognatas) são rotina na vida do autor que, em 2000, lançou uma obra “mais evoluída”, segundo sua avaliação: o Dicionário Catarinense.

[...]


O trabalho desenvolvido pelos apaixonados por regionalismos é visto com ressalvas pelos lexicógrafos profissionais. Mesmo o termo “dicionário” para identificar as obras é contestado, por exemplo, pelo lexicógrafo Francisco da Silva Borba, organizador do Dicionário Unesp do Português Contemporâneo, que reúne cerca de 60 mil verbetes.

– Esses trabalhos são, na verdade, vocabulários. É o recolhimento de palavras de determinada região – explica.

[...]

– Eles podem, assim, induzir a erro e oficializar versões equivocadas – analisa o lexicógrafo Francisco Filipak, autor do Dicionário Sociolinguístico do Paraná [...].



Diferentemente dos demais vocabulários regionais, o de Filipak é concebido como um dicionário, de fato. Após 30 anos de pesquisa, catalogação e seleção, ele reuniu os 6 mil verbetes que compõem o estudo de 400 páginas. Seguindo à risca a metodologia dos grandes dicionários do país, Filipak incluiu todas as designações de cada verbete, citando suas variações vocabulares típicas só daquela região. Hoje, com 83 anos, diz desconhecer outro dicionário regional que tenha se guiado pelo mesmo rigor metodológico.

[...]


Mesmo sendo de autores diletantes, os dicionários regionais são valorizados pelos pesquisadores que formulam obras consagradas. Todos constam das prateleiras das equipes que atualizam os maiores dicionários da língua.
BONINO, Rachel. Sotaques no papel. Língua Portuguesa, ano II, n. 27, p. 18-21. [Adaptado]

Questão 01

Assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S) com relação aos fatos de linguagem do texto 1.



01.

O emprego dos termos informais “boteco” (linha 9) e “papo” (linha 10), que destoa um pouco do restante do texto, marcado pelo uso da variedade culta escrita, pode ser explicado em parte como reflexo do próprio assunto tratado, a informalidade com que Antonio Soares da Fonseca Jr. colhe dados para seu dicionário.

02.

A classificação elaborada por Antonio Soares da Fonseca Jr. (linhas 11 e 12), além de informal, é equivocada, porque o termo “lapada” seria mais bem enquadrado como verbo do que como substantivo e porque não existe uma classe dos “aprendizes de interjeição”.

04.

O título Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês (linhas 4-5), dado ao dicionário elaborado por Paulo José Cunha, revela ao leitor a grande abrangência e seriedade do trabalho dos lexicógrafos amadores.

08.

O uso das aspas em “dicionários” (subtítulo), “dialetologia” (linha 22) e “idiotismos” (linha 23) serve para indicar ironia, discordância da autora em relação ao valor que outros atribuem aos termos.

16.

O adjetivo “diletantes” (linha 43) funciona no texto como sinônimo de “profissionais” (linha 28), uma vez que o texto aproxima o trabalho dos autores diletantes, “apaixonados por regionalismos”, ao dos lexicógrafos profissionais.

32.

As expressões “de fato” (linha 37), “à risca” (linha 38), “grandes dicionários do país” (linha 39) e “rigor metodológico” (linha 41), assim como a informação de que o dicionário de Filipak consumiu “30 anos de pesquisa, catalogação e seleção” (linha 37), servem ao mesmo fim argumentativo, que é dar ao leitor uma impressão de solidez científica dessa obra.


Questão 02

Com base no texto 1, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

O valor dos dicionários regionais advém do seu caráter empírico, isto é, da relativa falta de rigor metodológico com que são elaborados.

02.

O trabalho dos dicionaristas diletantes, apesar de ser largamente empírico e não seguir métodos científicos rígidos, é de algum interesse para os lexicógrafos profissionais.

04.

Devido aos cuidados metodológicos empregados em sua composição, o Dicionário Sociolinguístico do Paraná não pode ser considerado mera obra empírica de pesquisador diletante.

08.

Em seu trabalho de dicionarista, Antonio Soares da Fonseca Jr. obedece a certo rigor científico, porque escolhe o lugar onde fará a pesquisa, o informante e o tópico da conversação.

16.

O relato sobre Isaque de Borba Corrêa confirma o fato de que os dicionaristas regionais desenvolvem seu trabalho de forma empírica, sem buscar conhecimentos científicos que o embasem.



Questão 03

Com base no texto 1, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

No trecho “[...] ele reuniu os 6 mil verbetes que compõem o estudo de 400 páginas” (linhas 37-38), o pronome relativo “que” poderia ser substituído por “cujos”, caso se desejasse um estilo mais formal.

02.

O trecho “traços que mais caracterizam uma língua em relação a outras que lhe são cognatas” (linhas 23-24) poderia ser reescrito como “traços que mais caracterizam uma língua em relação a outras que são cognatas delas”, sem prejuízo ao sentido do texto.

04.

No trecho “Eles podem, assim, induzir a erro [...]” (linha 34), se a palavra “erro” fosse substituída por “falha”, seria necessário escrever “Eles podem, assim, induzir à falha [...]”, porque a presença do substantivo feminino implicaria uma crase, nesse contexto.

08.

Observa-se que, nas linhas 29 e 35, quando o nome de um pesquisador é introduzido no texto, segue-se um aposto, separado do restante do texto por vírgula(s), conforme previsto nas regras de pontuação.

16.

Se seguidas à risca as regras de colocação pronominal previstas na norma padrão, o pronome “se” deveria aparecer anteposto ao verbo “tenha” em “[...] diz desconhecer outro dicionário regional que tenha se guiado pelo mesmo rigor metodológico” (linhas 40-41).



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Texto 2
Este último passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: ainda bem não tinham expirado as últimas notas do canto, e já, passando-lhe rápido pela mente um turbilhão de idéias, admirava-se ele de como é que havia podido inclinar-se por um só instante a Luisinha, menina sensaborona e esquisita, quando haviam no mundo mulheres como Vidinha.

Decididamente estava apaixonado por esta última.

O leitor não se deve admirar disto, pois não temos cessado de repetir-lhe que o Leonardo herdara de seu pai aquela grande cópia de fluido amoroso que era a sua principal característica. Com esta herança parece porém que tinha ele tido também uma outra, e era a de lhe sobrevir sempre uma contrariedade em casos semelhantes. José Manuel fora a primeira; vejamos agora qual era, ou antes quem era a segunda.

Se o leitor pensou no que há pouco dissemos, isto é, que naquela família haviam três primos e três primas, e se agora acrescentarmos que moravam todos juntos, deve ter cismado alguma coisa a respeito. Três primos e três primas, morando na mesma casa, todos moços... não há nada mais natural; um primo para cada prima, e está tudo arranjado. Cumpre porém ainda observar que o amigo do Leonardo tomara conta de uma das primas, e que deste modo vinha a haver três primos para duas primas, isto é, o excesso de um primo. À vista disto o negócio já se torna mais complicado. Pois para encurtar razão, saiba-se que haviam dois primos pretendentes a uma só prima, e essa era Vidinha, a mais bonita de todas; saiba-se mais que um era atendido e outro desprezado: logo, o amigo Leonardo terá desta vez de lutar com duas contrariedades em vez de uma.


ALMEIDA, M. A. Memórias de um sargento de milícias. 24. ed. São Paulo: Ática, 1995. p. 101-102.


Questão 04

Com base no texto 2, na leitura do romance Memórias de um sargento de milícias e no contexto do Romantismo brasileiro, marque a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Caso a oração reduzida de infinitivo “a de lhe sobrevir sempre uma contrariedade em casos semelhantes” (linhas 9-10) fosse reescrita como uma oração desenvolvida, teríamos “a de que lhe sobrevinha sempre uma contrariedade em casos semelhantes”.

02.

Uma importante característica romântica, o final feliz, não se verifica em Memórias de um sargento de milícias, uma vez que Luisinha casa com José Manuel, e Leonardo acaba sozinho. Por outro lado, a história cumpre à risca o projeto romântico no que diz respeito à crítica que faz à falsa moral da burguesia.

04.

O texto 2 sugere a inconstância dos amores de Leonardo apresentada ao longo do romance: o rapaz, que antes sofria por amor a Luisinha, apaixona-se por Vidinha logo após conhecê-la. Pouco depois, tem um relacionamento com a amante do Toma-largura. Por fim, casa-se com Luisinha.

08.

Da mesma forma que em outros romances românticos, temos em Memórias de um sargento de milícias a figura do herói idealizado, apresentado como um homem puro, corajoso e de princípios morais elevados.

16.

No trecho “José Manuel fora a primeira” (linhas 10-11), temos um desvio na concordância nominal, porque o adjetivo primeira deveria estar no masculino, de forma a concordar com José Manuel.



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Texto 3
8. FRAQUE DO ATEU
Saí de D. Matilde porque marmanjo não podia continuar na classe com meninas.

Matricularam-me na escola modelo das tiras de quadros nas paredes alvas escadarias e um cheiro de limpeza.

Professora magrinha e recreio alegre começou a aula da tarde um bigode de arame espetado no grande professor Seu Carvalho.

No silêncio tique-taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza.

Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno.

[...]
27. FÉRIAS


Dezembro deu à luz das salas enceradas de tia Gabriela as três moças primas de óculos bem falados.

Pantico norte-americava.

E minha mãe entre médicos num leito de crise decidiu meu apressado conhecimento viajeiro do mundo.

ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Globo, 1911. p. 47, 53.





Questão 05

Com base no texto 3, na leitura do romance Memórias sentimentais de João Miramar e no contexto do Modernismo brasileiro, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

No trecho “Dezembro deu à luz das salas enceradas de tia Gabriela as três moças primas de óculos bem falados” (linhas 15-16), observa-se a preocupação obsessiva de Miramar com futilidades, como a boa qualidade dos óculos das primas.

02.

No primeiro trecho, a frase “nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno” (linha 10), Andrade relata de modo telegráfico a morte do professor Carvalho, com quem João Miramar aprendeu a respeitar os valores católicos.

04.

Obra que pertence cronologicamente à primeira fase do Modernismo brasileiro, Memórias sentimentais de João Miramar ostenta várias características da literatura do período, como a diluição das fronteiras entre prosa e poesia e a experimentação, manifesta, entre outras coisas, nos neologismos e na sintaxe inovadora.

08.

Por influência do Futurismo, com que teve contato na Europa, Oswald de Andrade usa pontuação mínima, como se pode perceber nos trechos acima, nos quais se omitiram vírgulas que seriam obrigatórias segundo as regras de pontuação da norma padrão escrita.

16.

Como se poderia esperar de um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, Oswald de Andrade reafirma em Memórias sentimentais de João Miramar alguns princípios básicos da estética modernista, tais como a valorização da linguagem regional e o refinamento dos cânones parnasianos.



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Texto 4
[...]. Depois Volta Seca chegou com um jornal que trazia notícias de Lampião. Professor leu a notícia para Volta Seca e ficou vendo as outras coisas que o jornal trazia. Então chamou:

– Sem-Pernas! Sem-Pernas!

[...]

E leu uma notícia no jornal:



Ontem desapareceu da casa número... da rua..., Graça, um filho dos donos da casa, chamado Augusto. Deve ter se perdido na cidade que pouco conhecia. É coxo de uma perna, tem treze anos de idade, é muito tímido, veste roupa de casimira cinza. A polícia o procura para o entregar aos seus pais aflitos, mas até agora não o encontrou. A família gratificará bem quem der notícias do pequeno Augusto e o conduzir a sua casa.

O Sem-Pernas ficou calado. Mordia o lábio. Professor disse:

– Ainda não descobriram o furto...

Sem-Pernas fez que sim com a cabeça. Quando descobrissem o furto não o procurariam mais como a um filho desaparecido. Barandão fez uma cara de riso e gritou:

– Tua família tá te procurando, Sem-Pernas. Tua mamãe tá te procurando pra dar de mamar a tu...

Mas não disse mais nada, porque o Sem-Pernas já estava em cima dele e levantava o punhal. E esfaquearia sem dúvida o negrinho se João Grande e Volta Seca não o tirassem de cima dele. Barandão saiu amedrontado. O Sem-Pernas foi indo para o seu canto, um olhar de ódio para todos. Pedro Bala foi atrás dele, botou a mão em seu ombro:

– São capazes de não descobrir nunca o roubo, Sem-Pernas. Nunca saber de você... Não se importe, não.

– Quando doutor Raul chegar vão saber...

E rebentou em soluços, que deixaram os Capitães da Areia estupefatos.
AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 133-134.


Questão 06

Com base no texto 4, na leitura do romance Capitães da areia e no contexto do Modernismo brasileiro, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Capitães da areia inclui-se entre as obras do chamado Regionalismo de 30, cujas temáticas compreendem, entre outros aspectos, a denúncia das mazelas sociais do Brasil.

02.

Augusto – apelidado pelos capitães da areia de Sem-Pernas, devido a uma deficiência física – abandona a casa dos pais após ter furtado objetos de valor e se une aos capitães da areia; a vergonha, mais que o temor do castigo, impede-o de voltar para casa.

04.

Na composição das personagens que habitam o trapiche, Jorge Amado adota um procedimento semelhante: nenhum dos meninos é mau por natureza, porém eles cometem más ações por força das circunstâncias sociais.

08.

A agressão de Sem-Pernas a Barandão representa um ponto de virada na história porque, a partir de então, Sem-Pernas, que sempre fora calmo e reservado, passa a agredir os colegas, até que Pedro Bala o expulsa do grupo e ele comete suicídio.

16.

No período “A família gratificará bem quem der notícias do pequeno Augusto e o conduzir a sua casa” (linhas 10-11), a expressão “a sua casa” poderia ser escrita como “à sua casa”, sem que isso implicasse desrespeito à norma padrão.



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Texto 5
De vez em quando, os caboclos se punham a comparar o atual monge com o anterior, com o velho e bondoso João Maria do qual seus pais falavam sempre, venerando profeta que havia sido padrinho de todos eles. Muitos dos componentes do reduto haviam-no conhecido pessoalmente, com ele haviam privado. Do confronto, José Maria saía perdendo sempre. O santo era alto, não bebia álcool, não comia carne, não andava rodeado de mulheres, jamais aceitara dinheiro. José Maria era baixo e corpulento, pernas e braços curtos, em desproporção com o tronco avantajado. João Maria, sem favor nenhum, podia ser classifica­do como um ancião de boa aparência. O monge atual, de belo não tinha mesmo nada: o nariz grande e chato, os lábios grossos, os dentes podres e encardidos. E, se não tinha o olhar bondoso e sereno do outro, de gênio também diferia – zangava-se facilmente, era colérico e vingativo. Mas João Maria não voltara, não obstante a promessa feita. Ninguém sabia por onde andava ele, nem se ainda era vivo. Mandara o irmão para cuidar da sua gente. José Maria, apesar dos defeitos, era irmão do outro, santo e milagroso por sua vez. Os caboclos acreditavam nele. Era o jeito. Em nada mais acreditavam. Não tinham no quê.
SASSI, Guido Wilmar. Geração do deserto. 5. ed. Porto Alegre: Movimento, 2012. p. 45.



Questão 07

Com base no texto 5 e na leitura do romance Geração do deserto, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Evidencia-se uma importante característica na composição das personagens de Geração do deserto: em um eco tardio ao determinismo biológico dos naturalistas do século XIX, Guido Sassi faz com que as características físicas das personagens correspondam ao seu caráter.

02.

No romance, Guido Sassi inova ao mostrar a Guerra do Contestado essencialmente como um evento político e ao representar os jagunços como heróis, contrariando a visão oficial de que o fanatismo religioso teria exercido papel preponderante no conflito.

04.

Entre os eventos arrolados no texto para a eclosão do conflito do Contestado, estão os desmandos da companhia americana Lumber e a desapropriação de terras de posseiros.

08.

José Maria, apesar de representar para os jagunços um líder espiritual, tem atitudes moralmente reprováveis sob a ótica de nossa sociedade, como dormir com duas meninas sob a alegação de que precisava de virgens para se comunicar com Deus.

16.

Geração do deserto mostra que, no conflito do Contestado, a chefia dos redutos mudava frequentemente, sendo exercida, em certos momentos, por mulheres mais velhas, como Delminda e Luzia.

32.

O trecho “Não tinham no quê.” (linha 15) poderia ser reescrito como “Não tinham um porquê”, sem que isso implicasse desrespeito à norma padrão.



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Texto 6
AMADO – Crime! E eu provo! Quer dizer, sei lá se provo, nem me interessa. Mas a manchete está lá, com todas as letras: – CRIME!

APRÍGIO – Mas eu não entendo!

AMADO (exultante e feroz) – Aprígio, você não me compra. Pode me cantar. Me canta! Canta! (rindo, feliz) Eu não me vendo! (muda de tom) Eu botei que. Presta atenção. O negócio é bem bolado pra chuchu! Botei que teu genro esbarrou no rapaz. (triunfante) Mas não esbarrou. (lento e taxativo) Teu genro empurrou o rapaz, o amante, debaixo do lotação. Assassinato. Ou não é? (maravilhado) Aprígio, a pederastia faz vender jornal pra burro! Tiramos, hoje, está rodando, trezentos mil exemplares! Crime! Batata!

APRÍGIO – Tem certeza?

AMADO – Ou duvida?

APRÍGIO (mais incisivo) – Tem certeza?

AMADO (sórdido) – São outros quinhentos! Sei lá! Certeza, propriamente. A única coisa que sei é que estou vendendo jornal como água. Pra chuchu.

APRÍGIO (saturado de tanta miséria) – Já vou.

AMADO (fazendo uma insinuação evidente de miserável) – Vem cá. Escuta aqui. Sabe que. Sinceramente. Se eu fosse você. Um pai. Se tivesse uma filha e minha filha casasse com um cara assim como o. Entende? Palavra de honra? Dava-lhe um tiro na cara!

APRÍGIO – Você quer vender mais jornal?

RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. p. 68.




Questão 08

Com base no texto 6, na leitura da peça O beijo no asfalto e no contexto de produção dessa obra, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Ao afirmar que a manchete do jornal já estava sendo impressa estampando o vocábulo “crime” (linhas 1-2), Amado revela que a manipulação da notícia pela imprensa sensacionalista pode levar o leitor a tomar como verdade aquilo que lê.

02.

A primeira fala do repórter Amado Ribeiro revela seu posicionamento de que o beijo dado no rapaz prestes a morrer encobria um crime passional. Tal certeza advém da apuração dos fatos após interrogar Amador, a viúva e Selminha.

04.

Ao enunciar “A única coisa que sei é que estou vendendo jornal como água. Pra chuchu.” (linhas 14-15), Amado Ribeiro revela uma importante faceta de sua personalidade: como um ingênuo incorrigível, ele não tem consciência clara do papel da imprensa e vê somente as vantagens comerciais que uma notícia apelativa pode representar.

08.

Nelson Rodrigues evidencia os sinais da modernização presentes na sociedade carioca a partir da década de 1960: a renovação da imprensa, que se torna mais crítica e menos sensacionalista; os boatos propagados rapidamente pela multidão; os valores e preconceitos tradicionais, aos quais as pessoas se apegam como se fossem padrões morais eternos e imutáveis.

16.

As falas das personagens ao longo da obra são marcadas por frases curtas e incompletas, completadas apenas após trechos extensos, repetidas com hesitação ou, ainda, sem nexo aparente. Tais escolhas do dramaturgo enfatizam o caráter dúbio de personagens que tentam ocultar seus reais interesses ou se mostram chocadas com o que se passa ao seu redor.

32.

Considerando que Amado trata Aprígio por “você” (linhas 4 e 18), o uso do pronome “teu” (linhas 6 e 7), assim como das formas imperativas “canta” (linha 4) e “presta” (linha 5), representa sinal de coloquialidade.



Texto 7

As aparências revelam

Afirma uma Firma que o Brasil

confirma: “Vamos substituir o

Café pelo Aço”.

Vai ser duríssimo descondicionar

o paladar

Não há na violência

que a linguagem imita

algo da violência

propriamente dita?

CACASO. As aparências revelam. In: WEINTRAUB, Fabio (Org). Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2004. p. 61. Para gostar de ler 39.



Questão 09

Com base no texto 7, na leitura da coletânea de poemas Poesia marginal e no contexto de produção desses poemas, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Os versos “Vai ser duríssimo descondicionar / o paladar” podem ser entendidos metaforicamente como uma referência a sacrifícios impostos à população, obrigada a acomodar-se a uma nova ordem econômica.

02.

Entre as temáticas das quais se ocupou a poesia marginal da década de 1970, havia espaço para painéis sociais, para a memória afetiva e a pesquisa poética e para o registro literário da intimidade. Sem grandes exageros, a única regra era atender aos princípios da norma padrão da língua.

04.

Nos poemas reunidos em Poesia marginal, os autores enfocam a denúncia e a crítica social de uma maneira sisuda, sem apelar para o humor, pois visam conferir credibilidade ao que é dito.

08.

A frase “Vamos substituir o Café pelo Aço” pode ser interpretada como uma referência à abertura do país para a exportação de minérios, defendida por empresários e pelo Governo à época da Ditadura Militar.

16.

No primeiro e segundo versos, no jogo de palavras “Afirma”, “Firma” e “confirma”, repete-se o segmento firma; isso pode ser interpretado como uma referência à influência das grandes empresas nas políticas estatais.

32.

Na estrofe final, observa-se como Cacaso procura desvincular a linguagem das práticas sociais, ao propor que não há violência nas palavras em si, mas apenas na realidade a que elas se referem.



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Texto 8
Culpa de um, culpa de outro, tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro. Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de Janeiro. São Paulo. Agora tinha que viver com os Sousa Costas. Se adaptou. – ...der Vater... die Mutter... Wie geht es ihnen?... A pátria em alemão é neutro: das Vaterland. Será! Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam... etc.

(Aqui o leitor recomeça a ler este fim de capítulo do lugar em que a frase do etc. principia. E assim continuará repetindo o cânone infinito até que se convença do que afirmo. Se não se convencer, ao menos convenha comigo que todos esses europeus foram uns grandissíssimos canalhões.)


ANDRADE, Mário. Amar, verbo intransitivo: idílio. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p. 35.


Questão 10

Assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S) sobre o romance Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, e o contexto histórico ao qual a obra se refere.



01.

As passagens em alemão evidenciam a influência que a cultura germânica exerceu sobre a sociedade brasileira desde o início do século XIX, aproximadamente, até meados do século XX.

02.

Em “grandissíssimos canalhões” (linha 10), o superlativo formado com a reduplicação da sílaba “ssi” e o aumentativo intensificam o mau juízo que o narrador faz do caráter dos europeus.

04.

A razão de Elza ter sido contratada era da ordem da “profilaxia”. Ela deveria proteger o menino Carlos das influências mundanas e de suas consequências, como a sífilis, o alcoolismo, o vício do jogo e a exploração por “mulheres aventureiras”.

08.

A narrativa deixa entrever a preferência de Mário de Andrade pela raça alemã, que é apontada na obra como modelo de erudição, determinação e força, em consonância com os princípios do movimento integralista, no qual Mário foi figura de destaque.

16.

No romance, temos duas formas de narração que se alternam: uma delas se atém à descrição dos eventos, falas, emoções e pensamentos das personagens, enquanto a outra, reproduzida no texto 8 entre parênteses, revela opiniões, julgamentos e comentários bastante pessoais emitidos pelo narrador.



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Texto 9
O MEU SECRETÁRIO
Desde que contratei os serviços do meu secretário, comecei a perceber como vinha agindo de modo errado todos esses anos. Para começo de conversa, eu era um cara displicente no que se referia a roupas, ao vestuário em geral, aos detalhes que compõem uma boa aparência. O primeiro ato do meu secretário, logo que assumiu a sua função, foi pronunciar uma breve mas lógica dissertação sobre a importância da aparência pessoal em todos os setores da vida pública e privada. “É um ponto chave”, concluiu ele, “você tem de criar uma imagem e um estilo para que enfim as pessoas acreditem naquilo que você deseja que elas acreditem...”

Depois disso, ele arregaçou as mangas e pôs mãos à obra. Visitamos as melhores lojas, gastei uma pequena fortuna em camisas, sapatos, gravatas e outras peças. Ameacei resistir ao uso de gravatas, por considerá-lo um costume idiota e incômodo. “Tolices”, disse o meu secretário, “você nem imagina o efeito que uma gravata causa a determinada classe de pessoas”. Enfim, creio que os nossos esforços não foram inúteis. Hoje até encontro gente que ri das minhas velhas piadas.

SOUZA, Silveira de. Ecos no porão. v. 2. Florianópolis: EdUFSC, 2011. p. 13.



Questão 11

Com base no texto 9 e na leitura do livro de contos Ecos no porão, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).



01.

Para compor os seus contos, Silveira de Souza explora estruturas características de outros gêneros, como a epístola, o depoimento e o relato de memórias, diversificando suas narrativas no que se refere ao narrador e à forma adotada.

02.

Ao afirmar “Hoje até encontro gente que ri das minhas velhas piadas” (linha 14), o narrador sugere que o uso de um guarda-roupa renovado fez com que passasse a reencontrar antigos conhecidos.

04.

O protagonista do conto revela sua disposição pessoal para contrapor-se ao secretário quando afirma considerar o uso de gravatas “um costume idiota e incômodo” e quando resiste a essa prática e a outras que considerava inconvenientes.

08.

Quando o secretário afirma “você nem imagina o efeito que uma gravata causa a determinada classe de pessoas” (linhas 12-13), deixa implícito que as pessoas que igualmente dispõem de estudo e sabem se vestir adequadamente ficam bem impressionadas com quem se veste de modo similar.

16.

No trecho “Ameacei resistir ao uso de gravatas, por considerá-lo um costume idiota e incômodo” (linhas 10 e 11), a substituição de “considerá-lo” por “considerar-lhe” estaria em desacordo com a norma padrão escrita da língua portuguesa.


Texto 10

Fonte: Jim Davis. Garfield. Folha de São Paulo.

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