Literatura brasileira



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HISTÓRIA DO FUTURO, VOL II PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Padre António Vieira, autor anônimo, séc. XVII

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

História do Futuro, vol. II, e Clavis Prophetarum, Padre António

Vieira


_________________________________________________________________

Texto-fonte:

Obras Escolhidas, Livraria Sá da Costa,

Lisboa, 1953.

Edição eletrônica:

Richard Zenker

Índice

História do Futuro (vol. II)



Capítulo I

Capítulo II

Livro I - Capítulo I

Livro I - Capítulo II

Livro I - Capítulo III

Livro II


Livro II - Capítulo I

Livro II - Capítulo II

Livro II - Capítulo III

Livro II - Capítulo IV

Livro II - Capítulo V

Livro II - Capítulo VI

Livro II - Capítulo VII

Plano da História do Futuro

Livro Primeiro

Livro Segundo

Livro Terceiro

Livro Quarto

Livro Quinto

Livro Sexto

Livro Sétimo

Clavis Prophetarum

JESUS, MARIA, JOSÉ

CAPÍTULO I

Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste

nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e

clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste

gênero, a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é

que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro, em

respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama

Quinto. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados, e pondo

somente os olhos no mundo presente, conhecemos hoje nele muito

maior número de impérios. Na Ásia, o vastíssimo Império da China,

o dos Tártaros, o do Persa, o do Mogor; na África, o da Etiópia;

na Europa, o de Alemanha, em que sem a grandeza se continua o

nome, e o de Espanha, em que sem o nome, posto que arruinada e

combatida, se sustenta a grandeza; e em todas estas três partes do

Mundo o violento Império dos Turcos, tão estendido, tão unido, tão

poderoso e formidável. Havendo pois ainda nesta nossa idade tantos

impérios, e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas

que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído, com

razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso

Império que prometemos recebe o numero de Quinto, e quais sejam em

ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. Ao

que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é

nosso nem de algum outro historiador ou autor humano, senão

fundado e tirado das Escrituras divinas, cuja história profética,

sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e

haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo, só trata

do primeiro que se começou e levantou nele, e dos que em

continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente, os

quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro.

Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira.

CAPÍTULO II

Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo, 3800 antes do

presente de 1664 em que isto escrevemos, depois que a confusão das

línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas

partes da terra, castigo tão merecido a sua soberba como

necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que

aspiravam, Belo, filho do gigante Nembrot (posto que não faltam

graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem),

reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com

que todos até aquele tempo nasciam, foi o primeiro que ensinou ao

Mundo e introduziu nele a tirania, a que depois com nome menos

odioso chamaram Império. Tantos anos tardou a ambição em romper o

respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza.

Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios; durou,

segundo Justiço, perto de mil e trezentos anos; teve, entrando

neste número Semearmos, 37 imperadores, de que foi o último

Sardanapalo.

Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação

3444. Começou em Ciro, acabou em Dario; contou por todos catorze

imperadores. Não durou, conforme Eusébio, mais que duzentos e

trinta anos.

O terceiro Império, que foi o dos Gregos, ainda durou menos, se o

considerarmos como monarquia. Alexandre o começou e acabou em

Alexandre, para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a

sua mortalidade, pois pode ser mais breve a vida de um império que

a de ,um, homem. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos

do Mundo 3672, conservou-se unido somente oito, e, antes deles

acabados, se dividiu em três reinos: o da Ásia, o da Macedônia, o

do Egito; e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com

desigual fortuna trezentos anos, até que, governado e não

defendido pela celebrada Cleópatra, o ajuntou Marco Antônio à

grandeza romana.

Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao

rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma,

cujo Império começou com este nome em Júlio César, trinta anos

antes do nascimento de Cristo. Durou, pois, o Império Romano com

toda a inteireza de sua monarquia 400 anos, com sucessão de 35

imperadores até o grande Constantino, o qual, fundando nova corte

em Constantinopla, dividiu o Império, para melhor governo, em

Império Oriental e Ocidental, e desde este tempo começaram as

águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. Sustentou-se

o Império Oriental por espaço de quatro mil anos, em que contou

oitenta e quatro imperadores, de que foi o último outro

Constantino de muito diferente fortuna, porque, sendo sitiado e

vencido por Maomete II, dentro em Constantinopla ,perdeu a vida e

a cidade e sepultou consigo todo o Império. O do Ocidente, depois

daquela divisão, experimentou nela grandes variedades, porque,

sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e

majestade, se passou o governo a exarcas, que eram ministros e

como lugar-tenentes dos imperadores orientais, até que, em tempo o

Papa Lúcio TII, eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente,

ficando Roma como cabeça da Igreja, ao Pontífice passou o assento

do Império - a Alemanha.

Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810, nos quais o

Império, diminuindo sempre em grandeza e majestade, tem contado

noventa imperadores até Fernando III, que hoje reina, e com grande

valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que

seja com melhor ventura!) a outro Maomete.

Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro

que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o

presente, cuja notícia, quando não fora tão necessária para o

ponto em que estamos, sempre era muito conveniente dar-se logo

neste princípio, para melhor entendimento de tudo o que se há-de

dizer adiante.

Em respeito pois e suposição destes quatro impérios, chamamos

Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta

nossa História; o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma

forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego, o Grego ao

Persa e o Persa ao Assírio. E assim como o Império dos Persas se

chama o segundo Império, porque sucedeu ao dos Assírios, que foi o

primeiro do Mundo, e o das Gregos se chama o terceiro, porque

sucedeu ao dos Assírios e dos Persas, e o dos Romanos se chama o

quarto, porque sucedeu ao dos Assírios, ao dos Persas e ao dos

Gregos, assim este nosso Império, porque há-de suceder ao dos

Assírios, Persas, Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve

chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo;

e porque todos os outros Impérios, passados e presentes, por

grandes e poderosos que fossem, ficaram fora da ordem desta

sucessão, que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que

será também o último), por isso as Escrituras Sagradas não fazem

menção nem memória alguma deles, como também nós a não fazemos.

Nem eles, por muitos que hajam sido, ficando fora da mesma ordem,

podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou

exceda o que lhe damos de Quinto.

Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida,

tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado, que vão citadas ,à

margem, e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o

desenho dela. Autores que dizem o mesmo, posto que em matéria tão

averiguada e sem controvérsia não são necessários autores,

alegaremos nos capítulos seguintes; o que resta e importa mostrar

é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que

chamamos Quinto. E assim o faremos agora, com toda a demonstração

e certeza, porque esta é a base e fundamento de toda a nossa

História e assunto particular deste I Livro.

LIVRO I


CAPÍTULO I

Mostra-se a Quinta Monarquia com a 1.a profecia de Daniel

Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o

Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer

revelar. E assim, para fundarmos bem a esperança deste grande

futuro, devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina

que foram verdadeiros profetas, entre os quais, como também

deixamos dito, tem o primeiro lugar Daniel, não ,pelo espírito de

profecia que foi tão superiormente ilustrado, mas porque o fez

Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. Será pois a

primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel.

No ano antes de Redenção do Mundo 450, Nabucodonosor, um dos

últimos reis imperadores de Babilônia, que era, como fica dito, o

Império dos Assírios, desvelado uma noite com os pensamentos da

sua monarquia, em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que

Deus lhe revelasse, sendo gentio, o sucesso de muitas cousas

futuras, assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por

sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos

presentes. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e

portentosa, com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira

perturbado e contuso, que somente se lembrava que acabava de

sonha- cousas prodigiosas, grandes e prenhes de mistérios, mas

totalmente se esquecia quais foram. Assim, estimulado igualmente

do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava, mandou

logo chamar os maiores sábios dos seus reinos, os magos, os

aríolos; os caldeus, que eram os que pela observação das estrelas

e outras professavam a ciência das cousas futuras, e depois de

trazidos à sua presença, lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe

tinha sucedido, e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de

dizer logo a significação do sonho, senão também o que tinha

sonhado. Responderam os sábios que, se o rei lhes manifestasse o

que sonhara, eles se obrigavam a declarar a significação de tudo,

porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a

ciência humana; mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era

segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à

sabedoria dos deuses. Falaram assim, porque todos eram gentios.

Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios, antes os

argüiu com ela de falsos, enganadores e indignos de crédito;

porque, se não podiam saber o sonho, que era cousa passada, como

haviam de conhecer a significação dos futuros, e somente lhes

haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso, se no

primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que

se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa, senão que ele e sus

famílias morreriam todas. E como os tristes sábios respondessem

outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles

queria, irado grandemente Nabuco, mandou que os levassem de sua

presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se

executasse logo a sentença de morte. Tão violentos são os apetites

do poder supremo, e tão arriscado não satisfazer aos reis até no

impossível!

Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel, onde fora levado com

El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus.

Oro a Deus, ele e seus três companheiros, ,que também entravam no

número dos condenados, porque tinham estudado, por mandado do

mesmo rei, as ciências de Caldeia; folhe revelado pelo Céu o sonho

e a interpretação dele, e quando já a multidão dos sábios,

rodeados de rústicos e tumulto popular, começavam a caminhar para

o lugar do suplício, faz parar a execução Daniel. Oferece-se a

declarar o sonho; pede que o levem a Nabucodonosor, e posto em sua

presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o

acompanhavam, depois de confessar a insuficiência sua e de todo o

saber humano, e mostrar como só o Deus verdadeiro, a quem ele

servia e que fora o autor daquele sonho, o podia revelar e a

significação dele, primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe

contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha

sonhado, e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi

explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão

prodigiosa visão em si encerrava.

Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel, e todo este

aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso

dela, as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao

nosso argumento, mas nós as quisemos resumir brevemente aqui, para

crédito natural da mesma profecia; pois não só nos obrigam a que a

creiamos por fé os que somos cristãos, mas se podem convencer com

elas por discurso até os mesmos Gentios.

A história do sonho, pelas palavras com que Daniel a referiu, é a

seguinte: Tu, Rex, cogitare coepisti in strato tuo quid esset

futurum post hoec; et qui revelat misteria, ostendit tibi que

ventura sunt. Tu, Rex, videbas et ecce quasi statua una grandis:

statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus

ejus erat terribilis, etc. , usque ad implevit universam terram.

Hoc est somnium. "Começaste a cuidar, ó Rei, deitado no teu leito,

diz Daniel, o que havia de suceder depois do tempo presente, e o

Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos, te

mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros,

e o que eu agora te direi, não por arte ou ciência minha, se não

por revelação sua. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua

grande, de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e

temeroso. A cabeça desta está tua era de ouro, o peito e os braços

de prata, o ventre até os joelhos de bronze, dos joelhos de ferro,

os pés de ferro e de barro. Estando assim suspenso no que vias,

viste mais que se arrancava uma pedra de um monte, cortada dele

sem mãos, e q, dando nos pés da estátua, a derrubava. Então se

desfizeram juntamente o barro, o ferro, o bronze, a prata, o ouro,

e se converteram em pó e cinza, que foi levada dos ventos, e nem

aqueles metais apareceram mais, nem o lugar onde tivessem estado;

porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu, e fazendo-se

um grande monte, ocupou e encheu toda a terra".

Até aqui a relação do sonho, a qual Nabuco de novo ia ouvindo e

reconhecendo, lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com

aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência.

Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele, de que nós

diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos,

reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. Disse pois

Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império

do Mundo, e os diferentes metais de que era composta as mudanças

que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para

diferentes nações. A cabeça de ouro significava o Império dos

Assírios, em que Nabucodonosor naquele tempo reinava; e porque

este Império, como deixamos notado, foi o primeiro e o princípio

de todos os Impérios, por isso estava representado na cabeça, que

é o princípio do corpo, e no ouro, que é o primeiro entre todos os

metais.

A prata, que é o segundo metal, significava o Império dos Persas,



que foi o segundo depois dos Assírios, e que se seguiu a eles,

assim como o peito e braços se seguem à cabeça.

O bronze, que é o terceiro metal, significava o Império dos

Gregos, que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois

deles, assim como o ventre se segue depois do peito.

O ferro finalmente, que é o quarto metal, significava o Império

dos Romanos, que foi e é o quarto Império, que sucedeu aos três

primeiros; e assim como as pemas e pés são a última parte do corpo

humano, assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela

estátua se representavam.

Tudo o que até aqui fica dito é de fé, ou se segue imediatamente

dela, porque, ainda que Daniel na sua explicação do sonho não

nomeou as três nações de Persas, Gregos e Romanos, disse porém

expressamente que os três metais significavam três reinos, que

sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros, sinalando-os

nomeadamente por primeiro, segundo e terceiro reino: Et post te

consurget regnum aliud minus te argenteum, et regnum tertium aliud

oereum [...] et regnum erit velut ferrum; e consta pela

experiência e pelo testemunho ,de todas as histórias, não só

humanas, senão também das sagradas e divinas, que os três reinos e

impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o

dos Persas, o dos Gregos e o dos Romanos: ou, por o dizer com mais

propriedade e certeza, consta que o mesmo Império que primeiro foi

dos Assírios, vencidos estes por Ciro, passou aos Persas, e o

mesmo Império dos Persas, vencidos estes por Alexandre, passou aos

Gregos, e o mesmo Império dos Gregos, vencidos estes por vários

capitães de Roma, passou e se incorporou no Império Romano. E este

é o verdadeiro, certo e indubitável sentido de interpretação de

Daniel, recebido, aprovado e seguido por todos os Padres e

expositores deste lugar, em que não há discrepância nem dúvida

alguma.

A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no



ferro, diz particularmente Daniel que foi porque, assim como o

ferro lima, bate, corta e doma os metais, sem haver algum que lhe

possa resistir, assim o Império Romano e o poder invencível de

suas armas havia de abater, desfazer, sujeitar e dominar todos os

outros impérios. Et regnum quartum erit velut ferrum; quomodo

ferrum comminuit et domat omnia, sic comminuet et conteret omnia

hoec. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das

duas pernas e pés da estátua em que foi representado; não só

porque, assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si

o peso e grandeza de toda ela, assim o Império Romano teve sobre

si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele

se uniram e ajuntaram, mas porque o mesmo peso e grandeza, como

acima vimos, foi causa de que o Império Romano se dividisse em

dois impérios ou duas partes iguais do mesmo, com a qual divisão,

pondo um pé no Oriente outro no Ocidente, um em Roma outro em

Constantinopla, ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do

Império Romano como duas colunas naturais de ferro, sobre as quais

toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. Mas não

parava aqui a propriedade da semelhança. Assim como, na divisão de

uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império

Romano nos dois impérios, assim os dez dedos, uns maiores outros

menores, em que se dividiam, significavam dez reinos, em que a

grandeza do mesmo Império Romano, na sua última declinação, se

havia de dividir. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o

que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa, e tudo o que na

Europa, na África e na Ásia possui o Turco, são umas divisões ou

,retalhos do Império Romano, e as partes ou membros de que aquele

vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha, as

quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado,

restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania,

como hoje estão, sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma

ao Império Romano. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum

est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis, allerum

vero constantinopolitanum, Græcorum seu Orientis. Adjice, quod

omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos, et sub Imperio

Turcorum, partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa

Imperii arbore decisi. E é tão verdadeira e tão antiga esta

interpretação dos dez dedos da estátua, que já antes dos tempos de

S. Hierónimo em que o Império Romano estava íntegro e

potentíssimo, sem ter perdido cousa alguma sua grandeza, era

opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores

eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos.

Assim se dizia e escrevia então, e assim o estamos vendo hoje,

comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e

confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o

cumprimento dela; porque, se bem contarmos os reinos em que hoje

está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava

Império Romano, acharemos pontualmente que são dez reinos:

Portugal, Castela França, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Moscóvia,

Polônia e Estado ou Império Turco, e o mesmo Império Romano, que

compreende Alemanha e Itália. E se uns reinos destes são maiores,

outros menores, uns mais fortes outros menos, essa mesma é a

propriedade dos dedos, como nota neste lugar o mesmo autor

alegado, e depois dele outros muitos: por decem digitos partim

ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime

iri in multa regna multosque reges, quorum alii maiores et

potentiores, alii minores et imbecilliores futuri sint.

Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras

partes que temos por mais proporcionadas; por agora baste esta

divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil, e

porque, com a notícia vu1gar que se tem do Mundo, pode ser

entendida e percebida de todos. E posto que Daniel nesta profecia

não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano

há-de ser ,pontualmente em dez partes ou dez reinos, em outra

profecia, como depois veremos, especifica este número, e nesta diz

clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a

divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem



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