Leandro de Barros. A arte como algo que revela um insight da realidade. Duração



Baixar 31,34 Kb.
Encontro04.01.2017
Tamanho31,34 Kb.
Leandro de Barros.

A arte como algo que revela um insight da realidade.

Duração: 02 a 03 aulas.

Objetivo:

Mostrar, principalmente através das ideias de Platão, Aristóteles e o conceito de arte como algo que deve mostrar aspectos da realidade.



Sensibilização:

Assistir a palestra T.E.D :

https://www.youtube.com/watch?v=JQcfrgU_kqY, depois discutir a palestra com a sala ( tirar dúvidas, levantar questões).

Conceitualização e problematização dialógica:

Uma das abordagens da arte é a de que ela deve refletir a realidade ou pelo menos parte dela, o problema é: é possível através da arte, refletir a realidade? Que tipo de arte se adequa melhor a esse propósito?

Platão na antiguidade condenava a arte por esta tentar fazer cópias imperfeitas da realidade, distanciando as pessoas da busca da verdade, encontrada nas formas eternas, no mundo das ideias, tal como algumas pessoas atualmente criticam o uso de photoshop em fotos publicitárias ou as novelas e filmes ficcionais por mostrarem algo distante da realidade.

As pessoas poderiam se acostumar ou até mesmo preferir a ficção da arte à verdade e a realidade em si, mas pode ser que a realidade apresentada pela arte não seja necessariamente a que temos acesso através de nossos sentidos, ou até mesmo pode ser que a arte seja importante justamente por apresentar algo que não perceberíamos sem ela.

Para Aristóteles, as tragédias gregas teriam o efeito de nos fazer lidar com nossos próprios sentimentos e angústias através dos dramas dos personagens, tinham, portanto, um valor moral e até terapêutico, tanto que algumas vertentes da psicanálise e da psicologia hoje aproveitam muitas de suas ideias (como a terapia do psicodrama entre outros).

Esse tipo de arte proporcionava o que ele chamou de catarse (um termo que significa curar-se ou purificar-se), assim, partindo desse princípio, um filme ou obra da literatura, mesmo sendo ficcional revela aspectos gerais da realidade e de nós mesmos.

Seria esse o valor da arte? Fazer-nos entender a realidade que não percebemos? Ou tentar imitar a realidade só nos afastaria da verdade?

Investigação textual e leitura crítica:

Texto 1: Teorias da arte: o representacionismo.

(excerto de Costa, Cláudio F, Teorias da Arte, Crítica na rede, disponível em http://criticanarede.com/est_tarte.html, acesso em 17/03/2015).


1. Representacionalismo

O representacionalismo é a mais antiga concepção sobre a natureza da arte, sugerindo que a sua função é a de representar alguma coisa. Platão e Aristóteles concebiam a arte como imitação ou mímese, ou seja, uma representação naturalista da realidade. Assim, a pintura imita a natureza, o drama imita a ação humana. Essa concepção já era problemática na antiguidade. A música instrumental, por exemplo, não parece imitar coisa alguma. E a pintura moderna tornou essa concepção ainda menos plausível. Um quadro que intenta copiar a realidade é chamado pejorativamente de Trompe D'oeil e geralmente visto como alguma coisa sem valor estético. Esse juízo não pode ser generalizado. A série dos auto-retratos de Rembrandt, nos quais ele honesta e corajosamente retrata a sua própria decadência, são obras de arte. Mas grande parte da pintura, da literatura, quase toda a música, não são certamente cópias literais de coisa alguma.

Uma segunda versão de representativismo é a teoria representacional propriamente dita. A obra de arte não precisa ser uma cópia ou imitação da realidade, ou seja, uma representação naturalista. Ela pode ser uma representação puramente convencional ou simbólica. Assim, um quadro cubista, embora pareça muito pouco com aquilo que representa, não deixa por isso de ser considerado uma obra de arte. Essa versão do representativismo é, mesmo assim, insuficiente. O que dizer da pintura realmente abstrata, como o Número 32 de Pollock, ou de objetos achados, como o pissoir de Marcel Duchamp (intitulado A Fonte), ou de músicas puramente orquestrais como a Sétima Sinfonia de Beethoven? Convencionalmente, essas obras não simbolizam nada.

A terceira versão do representativismo é o que já foi chamado de neo-representacionalismo5. Nessa versão não é mais exigido que a obra de arte represente nada, mas que seja sobre algo, que possua um tema, um assunto, um significado, que nos diga algo de alguma coisa. Mais tecnicamente: uma obra de arte precisa ter algum conteúdo semântico. Com efeito, toda obra de arte admite ser interpretada, e se ela admite ser interpretada é porque ela nos diz algo, e se ela nos diz algo é porque possui algum conteúdo semântico. Esse conteúdo semântico não costuma ser convencionalmente estabelecido, o que o torna aberto, polissêmico. Mesmo uma obra de arte que pretenda ser sem significado algum paradoxalmente acaba por tematizar algo, qual seja, a sua ausência de significado; ela significa a ausência de significado.

Uma objeção possível seria a seguinte: se uma música apenas exprime um sentimento, por exemplo, a tristeza, ela não pode ser sobre o sentimento que exprime, sendo errado dizer que ela possui conteúdo semântico. Mas essa objeção não é convincente. Se alguém bate com a cabeça na porta de um armário e diz "Ai!", esse proferimento possui função expressiva, ele exprime expontaneamente a sensação de dor. Mas nem por isso (pace Wittgenstein) a palavra proferida deixa de ter uma referência, pois ela é sobre a dor que a pessoa sente, sendo este o seu conteúdo semântico. O mesmo talvez possa ser dito da música: o fato dela exprimir um sentimento não impede que ela seja sobre o sentimento que ela exprime.

Pode ser que a teoria neo-representacional da arte seja aplicável a toda e qualquer manifestação artística. Mesmo assim, ela é bastante pobre como meio de esclarecer o que é arte, pois o que ela oferece é apenas uma condição necessária e não uma condição suficiente para a identificação da obra de arte, posto que muita coisa que possui conteúdo semântico não é arte. Tudo o que escrevi nos parágrafos acima, por exemplo, possui conteúdo semântico, mas obviamente não é arte.






Texto 2: A teoria das artes: imitação e representação.

(Excerto de Robinson, Jenefer, Problemas da estética, Crítica na rede. Disponível em http://criticanarede.com/problemasdaestetica.html, acesso em 24/03/2015).


A ideia de que a poesia e a pintura são artes da imitação deriva de Platão, que comparava as imitações a sombras e reflexos que, nessa medida, pensava, afastavam da verdade em vez de aproximarem. Também Aristóteles pensava que as artes da poesia e da pintura eram imitações da realidade mas, ao contrário de Platão, pensava que aprendemos com as imitações e que isso nos dá prazer. Na tradição ocidental, Platão e Aristóteles foram os primeiros a teorizar sobre a poesia e a pintura como formas de imitação, mas não as concebiam como uma categoria especial de “belas artes” ou Arte com maiúscula. Os gregos da antiguidade não tinham concepção “do estético” (Sparshott 1982). As artes da pintura e da escultura eram géneros de technêou ofício. A palavra “arte” deriva da forma latinizada do grego technê, que significa um “corpo de conhecimentos e aptidões organizados para a produção de mudanças de um tipo específico em matéria de um tipo específico,” como as artes do sapateiro ou do couro (Sparshott 1982: 26). A arte da poesia tinha um papel educativo mais importante como fonte da educação moral, mas também era uma arte da imitação. Na Renascença e no Esclarecimento, sob a influência de Aristóteles e dos seus descendentes do período clássico, tornou-se um lugar comum que os poemas e pinturas imitavam ou representavam o mundo.

A primeira tentativa para sistematizar as belas artes ocorreu em 1746, quando o abade Batteux agrupou a poesia, a pintura, a escultura, a dança e a música sob a rubrica da imitação da natureza bela. Esta era uma ideia revolucionária por juntar numa categoria ofícios como as dos escultores e dos pintores com os dos mais instruídos poetas, e sugeria que todos os praticantes das belas artes forneciam representações do mundo que eram fontes potenciais de conhecimento (Kristeller 1951-1952). Uma vez estabelecida a ideia de belas artes, foi possível procurar traços que todas tinham em comum, nascendo assim a procura de uma definição das belas artes e depois da “Arte.”

Desde o início, a procura de uma definição tem sido posta em causa pela multiplicidade das artes. Assim, a ideia de que as artes imitam ou representam a natureza bela poderá ter parecido plausível na época de Fídias e Praxiteles, que faziam esculturas realistas mas muitíssimo idealizadas do corpo humano, e também na Alta Renascença, quando as belas pinturas de Rafael e Leonardo imitavam a forma feminina bela nas suas pinturas da Virgem, mas não é óbvio que as artes da música “pura” e da dança imitem seja o que for. Também a arquitectura só excepcionalmente é uma arte da imitação. Na síntese do séc. XVIII das belas artes como artes da imitação da natureza bela, vemos uma tentativa de combinar duas tradições conceptuais diferentes: por um lado, a nova preocupação empirista com o juízo estético, o juízo de beleza, e por outro a ideia clássica — derivada de Platão e Aristóteles — de que as belas artes são artes de imitação. Apesar de os edifícios, danças e música não se ajustarem muito bem à descrição de artes da imitação, podem certamente ser belas, satisfazendo a exigência formal de “unidade na diversidade.” Vemos aqui o começo de um conflito que ainda hoje persiste, grosso modo, o conflito entre conceber as artes como algo que aspira à forma bela ou como algo que nos mostra o modo como as coisas são no mundo.

A ideia de que todas as artes são artes de imitação tem parecido cada vez mais implausível no mundo contemporâneo, onde uma tendência para a abstracção é a regra nas artes visuais, e onde até a literatura tem chamado a atenção para os seus aspectos formais, ao invés da narrativa apresentada. Talvez num qualquer sentido muito lato as artes sejam “acerca” do mundo, mas mesmo isto tem sido negado por alguns defensores da “música absoluta” que a vêem ao invés como um meio de fugir do mundo (Kivy 1990).

Ao mesmo tempo, a noção de “imitação,” enquanto explicação da representação, tem sido alvo de ataque. Muitas obras de arte, como pinturas, fotografias, filmes e esculturas representacionais representam o mundo, mas não parece correcto dizer que o imitam. O papel da convenção e do estilo é demasiado importante em todos estes géneros para tornar plausível a comparação com a imagem de um espelho. Teorias muito discutidas da representação pictórica incluem a perspectiva de Ernst Gombrich de que a história da pintura realista é uma história de “fazer e fazer corresponder” (Gombrich 1960), e a teoria de Richard Wollheim de que a representação pictórica repousa numa capacidade anterior que as pessoas têm para “ver em” (Wollheim 1987). Na literatura, fez-se uma distinção entre narrativas literárias que em algum sentido falam sobre o mundo mas não parecem representá-lo e dramas literários que representam o mundo, mas talvez não exactamente no mesmo sentido em que as pinturas o fazem. Kendall Walton pensa que as representações em geral devem ser analisadas em termos do conceito que uma obra prescreve que imaginemos (Walton 1990). Quando, por exemplo, encontramos uma representação pictórica de um moinho de água, imaginamos que o nosso acto de ver é um acto de ver um moinho de água. A sua controversa teoria da fotografia sustenta que, em contraste com as pinturas, não nos limitamos a imaginar: vemos realmente o objecto fotografado que aparece na pintura (Walton 1984).




 Texto 3: Um veículo da verdade: a Poética.

(Excerto de Tayler, Paul, Arte e verdade, Crítica na rede, disponível em http://criticanarede.com/arteeverdade.html, acesso em 24/03/2015).


Poética de Aristóteles é um bom ponto de partida para analisarmos a afirmação de que a arte nos informa ou esclarece acerca do mundo real. Ao analisar a tragédia (que, nas palavras de Aristóteles, é uma forma de poesia), ele faz as seguintes afirmações: 1) o enredo é o aspecto mais importante de uma tragédia, consistindo numa descrição de acções que formam uma unidade e 2) que a tragédia (juntamente com outras formas de poesia) é mais filosófica e mais importante que a história, porque faz afirmações universais, em vez de afirmações acerca de acontecimentos particulares.

Apresento agora uma proposta que liga as afirmações 1 e 2. Se aceitarmos o essencial de 1, que o enredo é uma descrição de acções, podemos supor que Aristóteles está a falar das acções dos personagens da história. Um enredo, podemos agora dizer, é uma unidade na medida em que as acções descritas se seguem umas às outras de uma forma natural ou plausível. Aquilo que consideramos plausível depende, claro, daquilo que tomamos como certo acerca do comportamento humano. Aristóteles sugere que um bom enredo é capaz de criar no público uma resposta unânime aos acontecimentos; daí deduz que algumas respostas são praticamente universais, baseando-se em verdades acerca da natureza humana que são "necessárias ou prováveis" — uma expressão que ele emprega repetidamente na Poética. A partir daqui podemos estabelecer um nexo com 2. Por ser construída sobre estes pressupostos universais, pode-se dizer que uma boa tragédia é mais filosófica do que a história, uma vez que inflecte de uma situação particular para o universal. A história limita-se a registar os acontecimentos à medida que ocorrem. Para o historiador que escrupulosamente regista os seus factos, é indiferente se estes são o produto do acaso ou de acções deliberadas, ou se as acções registadas são sãs ou tresloucadas, compreensíveis ou extravagantes. Em contraposição, de acordo com Aristóteles, um enredo trágico é de má qualidade se incluir acasos da natureza ou acções que não possamos compreender através da nossa experiência prévia e pessoal acerca de nós mesmos e de outras pessoas. Nas palavras de Aristóteles, esse é um enredo "episódico" — o termo que ele emprega para classificar uma sequência narrativa cujos elementos estão, como estariam num enredo devidamente unificado, interligados pelo que é "necessário ou provável".

Tomemos Madame Bovary como exemplo de uma "tragédia". Poder-se-á dizer que descreve acções que formam uma unidade? Para começar, os leitores de Flaubert são arrebatados pela forma como as acções descritas são motivadas e se relacionam com impulsos humanos que lhe são familiares. Os comportamentos das suas personagens são compreensíveis e plausíveis, tendo em conta os seus temperamentos, as suas histórias e as suas circunstâncias particulares. O objectivo da narrativa de Flaubert é transportar-nos para o interior do desenvolvimento da história; fá-lo pedindo o nosso assentimento para a forma como liga os sucessivos passos do enredo, de maneira a envolver-nos nos destinos das suas personagens, como se elas fizessem parte das nossas vidas. Isto sugere que as narrativas podem tornar-se fontes de informação da forma que se segue. Partindo das "necessidades e probabilidades" que conduzem a narrativa, obtendo o nosso consentimento implícito à medida que avança, Flaubert desenvolve uma situação complexa com um resultado dramático que é novo em relação à nossa experiência e que normalmente exigiria uma explicação. Mas este enredo e este conjunto de personagens permitem-nos ter experiência deste mundo por dentro, de modo que conseguimos ficar a saber o que poderíamos sentir se a situação ficcional fosse real. Ao mesmo tempo, passamos a saber o que Emma sente e, daí, a razão por que ela faz aquilo que faz. Desta forma, alargamos os limites da nossa experiência e aumentamos o alcance da nossa compreensão, porque uma parte do comportamento humano que, de outra forma, nos pareceria estranho ou impenetrável, foi colocado dentro dos limites daquilo que se pode compreender como humano. Onde um breve resumo da macabra e trágica morte de Emma poderia ter gerado incompreensão ou inspirado um juízo moral superficial e banal, a narrativa produz, em vez disso, uma resposta mais próxima da de Flaubert: "Madame Bovary, c'est moi!".


Aplicação prática:

Seminário artístico:

Cada grupo deve apresentar trechos de tragédias gregas, as tragédias podem ser reinterpretadas.

Avaliação:

1-Explique o conceito de catarse para Aristóteles.

2-Por que para Platão, a arte nos afastaria da verdade?

3-Quais as objeções ao representacionismo em suas três formas de acordo com o texto?



4-Quais as principais características da tragédia?


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal