Juliana Bulhões Alberto Dantas perspectivas da prática profissional do jornalista assessor de imprensa



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Juliana Bulhões Alberto Dantas

PERSPECTIVAS DA PRÁTICA PROFISSIONAL

DO JORNALISTA ASSESSOR DE IMPRENSA:

O ethos, a identidade e as reflexões deontológicas no contexto da atuação simultânea em redações e assessorias de imprensa de Natal-RN



Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia

Natal, 2014

Juliana Bulhões Alberto Dantas

PERSPECTIVAS DA PRÁTICA PROFISSIONAL

DO JORNALISTA ASSESSOR DE IMPRENSA:

O ethos, a identidade e as reflexões deontológicas no contexto da atuação simultânea em redações e assessorias de imprensa de Natal-RN


Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Estudos da Mídia.


Linha de pesquisa: Estudos da Mídia e Práticas Sociais
Orientador: Prof. Dr. Juciano de Sousa Lacerda

Natal, 2014


Catalogação da Publicação na Fonte.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).




Dantas, Juliana Bulhões Alberto.

Perspectivas da prática profissional do jornalista assessor de imprensa : o ethos, a identidade e as reflexões deontológicas no contexto da atuação simultânea em redações e assessorias de imprensa de Natal-RN / Juliana Bulhões Alberto Dantas. . – Natal : UFRN, 2014.

123 f.: il.

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, 2014.

Orientador: Prof.. Dr..Juciano de Sousa Lacerda.

1. Comunicação Organizacional – Rio Grande do Norte. 2. Jornalismo - Rio Grande do Norte. 3. Comunicação – Aspectos sociais. 4. Assessoria de Imprensa. 5. Ethos jornalísticos. I. Lacerda, Juciano de Sousa. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.

RN/BSE-CCHLA CDU 658:070(813.2)





Juliana Bulhões Alberto Dantas
PERSPECTIVAS DA PRÁTICA PROFISSIONAL

DO JORNALISTA ASSESSOR DE IMPRENSA:

O ethos, a identidade e as reflexões deontológicas no contexto da atuação simultânea em redações e assessorias de imprensa de Natal-RN


Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Estudos da Mídia.
Data: 28/02/2014

BANCA EXAMINADORA

________________________________________

Prof. Dr. Juciano de Sousa Lacerda

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Orientador



________________________________________

Profa. Dra. Maria do Socorro Furtado Veloso

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Membro titular interno



________________________________________

Prof. Dr. Samuel Pantoja Lima

Universidade de Brasília – UnB

Membro externo



________________________________________

Prof. Dr. José Zilmar Alves da Costa

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Membro suplente externo

Dedico este trabalho aos que sonham.

AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais João e Aparecida, por me demonstrarem que estudar é o melhor caminho, e à minha irmã Marcela, por sempre me ajudar com a parte burocrática da vida.

Agradeço ao meu orientador Prof. Juciano, pelo empenho e pela paciência. Ele foi quem mais me apoiou no projeto, mesmo quando eu não sabia exatamente por onde começar e em meio a severas críticas.

Agradeço a todos os professores do PPgEM que contribuíram com minha trajetória: ao Prof. Itamar, pelos ensinamentos e por ter me incentivado a pesquisar sobre o que mais gosto, assessoria de imprensa, desde quando cursava Radialismo; à Profª Taciana, de quem fui estagiária docente, com a qual aprendi muito sobre ser professora e quem mais me incentivou a concluir o curso de Jornalismo; à Profª Maria Érica, pelos ensinamentos metodológicos essenciais; ao Prof. Sebastião Albano, por ter sido o incentivador do meu primeiro artigo científico, que foi o começo de tudo, em 2008 (certamente o gosto pela pesquisa nasceu daí); à Profª Kênia e a Cleber, por me fornecer os dados da pesquisa quantitativa.

Agradeço a Capes, por ter financiado um ano e meio dos meus estudos por meio do Programa Reuni. Agradeço também a toda equipe da Pró-Reitoria de Pós-graduação e à secretaria do PPgEM, personificada por Keivilany.

Agradeço ao meu amigo Prof. Jô Fagner, por ter me dado valiosíssimas dicas acadêmicas antes e durante o mestrado, bem como a Leide Franco pelas preciosas revisões desta dissertação.

Agradeço também aos membros da banca, que aceitaram de pronto contribuírem com a minha pesquisa.



Aunque sólo existiera una verdad única,

no se podría pintar cien cuadros sobre el mismo tema".
Pablo Picasso


Resumo
O mercado jornalístico brasileiro vem passando por severas mudanças nos últimos anos, culminando em uma precarização da profissão de jornalista (MARCONDES FILHO, 2009; SANT’ANNA, 2005). Ao mesmo tempo em que o mercado exige um profissional multifuncional, este precisa estar cada vez mais especializado em cada função que exerce. Neste ínterim, uma das funções que passou por mais modificações nos últimos anos foi a de assessor de imprensa. É comum, ao jornalista brasileiro, exercer funções relacionadas à comunicação organizacional, ou ainda possuir simultaneamente vínculos empregatícios em empresas da mídia e fora da mídia, o que gera uma situação profissional complexa no que diz respeito à identidade (HALL, 2004; MARTINO, 2010; OLIVEIRA, 2005; TRAQUINA, 2004), ao ethos (GRANDO, 2012; MAINGUENEAU, 2008) e à ética. Diante deste contexto, nosso objetivo geral com a pesquisa foi investigar como se dá a prática profissional dos jornalistas que atuam concomitantemente em redações jornalísticas televisivas e assessorias de imprensa em Natal-RN. Para tanto, desenvolvemos um arcabouço teórico acerca do microcampo da assessoria de imprensa (FENAJ, 2007; SILVEIRA, 2010), do ethos e da identidade. A base metodológica foi pautada na etnometodologia (COULON, 1995), na entrevista em profundidade (DUARTE, 2008) e na pesquisa quantitativa. Nossas principais conclusões foram: os baixos salários levam os jornalistas potiguares a terem mais de um emprego; a assessoria de imprensa é uma atividade exercida geralmente com fins financeiros; mesmo em meio à precarização da profissão, a maioria dos jornalistas não pensa em deixar a profissão, devido à paixão pelo jornalismo e ao glamour associado a este profissional; e há a possibilidade do jornalista que trabalha ao mesmo tempo em redações tradicionais e assessorias de imprensa possuir ethos distintos para o desempenho de cada função, mas também podem ter ethos sobrepostos ou mesmo um ethos de comunicador.
Palavras-chave: Práticas sociais. Jornalismo. Comunicação organizacional. Assessoria de imprensa. Ethos jornalístico.
Abstract
The Brazilian newspaper market has undergone severe changes in recent years, culminating in a deterioration of the journalistic profession (MARCONDES FILHO, 2009; SANT'ANNA, 2005). At the same time that the market requires a multifunctional professional, this must be increasingly specialized in every position he holds. Meanwhile, one of the functions that has undergone more changes in recent years was the press officer. Often, the Brazilian journalist exercise related to organizational communication functions, or have employment contracts in both: media companies and out of the media, which generates a complex professional situation with regard to identity (HALL, 2004; MARTINO 2010; OLIVEIRA, 2005; TRAQUINA, 2004), ethos (GRANDO, 2012; MAINGUENEAU, 2008) and ethics. Given this context, our overall aim of the research was to investigate how the professional practice of journalists working concurrently on television and newspaper newsrooms press offices in Natal-RN, Brazil. We develop a theoretical framework about press office (FENAJ, 2007; SILVEIRA, 2010), ethos and identity. The methodological basis was based on ethnomethodology (COULON, 1995), the in-depth interview (DUARTE, 2008) and quantitative research. Our main findings were: low wages lead journalists from Natal to have more than one job; the press is an activity generally performed with financial purposes; even amidst the precariousness of the profession, most journalists do not think of leaving the profession because of the passion for journalism and the glamour associated with this business; and there is the possibility of a journalist who works on traditional media and press office have two different ethos, or one double ethos, or a communicator ethos.
Keywords: Social practices. Journalism. Organizational communication. Press office. Journalistic ethos.

Resumen

El mercado de la prensa brasileña ha sufrido fuertes transformaciones en los últimos años, culminando en un deterioro de la profesión periodística (MARCONDES FILHO, 2009; SANT'ANNA, 2005). Al mismo tiempo que el mercado requiere un profesional multifuncional, el debe ser especializado cada vez en cada posición que ocupa. Mientras tanto, una de las funciones que ha sufrido más cambios en los últimos años fue el periodista de prensa. El periodista brasileño puede trabajar con la comunicación organizacional y también, al mismo tiempo en los medios. Esto se traduce en una situación de trabajo complejo con respecto a la identidad (HALL, 2004; MARTINO, 2010; OLIVEIRA, 2005; TRAQUINA, 2004), el ethos (GRANDO 2012; MAINGUENEAU, 2008) y la ética. En este contexto, nuestro objetivo general de la investigación fue investigar cómo es la práctica profesional de los periodistas que trabajan al mismo tiempo en la televisión y en asesoría de prensa, en Natal-RN, Brasil. Desarrollamos un marco teórico sobre el microcampo de la asesoría de prensa (FENAJ, 2007; SILVEIRA, 2010), el ethos y la identidad. La base metodológica se basó en la etnometodología (COULON, 1995), la entrevista en profundidad (DUARTE, 2008) y la investigación cuantitativa. Nuestros principales hallazgos fueron: bajos salarios son las razones por las cuales los periodistas potiguares tener más de un empleo; la asesoria de prensa es una actividad generalmente que se realiza con fines financieros; en medio a la precariedad de la profesión, la mayoría de los periodistas no piensa en dejar la profesión debido a la pasión por el periodismo y el glamor asociado; es posible que el periodista que trabaja en los dos mundos tenga dos ethos distintos, o un ethos duplo simultáneo, o un ethos de comunicador.


Palabras clave: Las prácticas sociales. Periodismo. Comunicación organizacional. Asesoría de prensa. Ethos periodístico.

Lista de gráficos e figuras

Figura 01: Esquema proposto para os campos: em amarelo, o campo social da Comunicação; em roxo, o campo do Jornalismo; em laranja, o campo das Relações Públicas, e em rosa o campo social da Comunicação Organizacional, no qual está contido o microcampo da assessoria de imprensa 33


Gráfico 01: É possível observar que a quantidade de homens (51%) e mulheres (49%) é quase equivalente 52
Gráfico 02: Observa-se que há um pico na opção “entre 23 e 30 anos”, o que significa que a maior parte dos jornalistas entrevistados é jovem 53
Gráfico 03: A opção “ensino superior” foi a mais marcada (94 pessoas), mas também é destaque a quantidade de jornalistas que cursam ou cursaram pós-graduação (64 pessoas) 54
Gráfico 04: Dentre os 159 entrevistados, 105 possuem registro profissional de jornalista junto ao Ministério do Trabalho e 54 não possuem 56
Gráfico 05: Esta pergunta resultou na constatação de que a maioria dos jornalistas não é filiada a nenhum sindicato 57
Gráfico 06: O gráfico aponta o percentual de jornalistas que responderam o questionário que se consideram inseridos no mercado jornalístico atualmente 58
Gráfico 07: A opção “trabalho em empresa de mídia” teve 72 marcações e “trabalho fora de empresa de mídia” foi escolhida por 57 pessoas 59
Gráfico 08: Cerca de 70% dos jornalistas entrevistados trabalham mais de 30h por semana 60
Gráfico 09: A partir do agrupamento das respostas, é possível perceber que a maior parte dos jornalistas (aproximadamente 67%) ganha entre R$678,00 e R$3.385,00 61
Gráfico 10: Os trabalhos sem vínculo empregatício (freelancer, contrato, empresário e PJ) representam cerca de 28% dos entrevistados 62
Gráfico 11: Mais de 62% dos jornalistas trabalham há menos de 10 anos na profissão, o que nos leva a um perfil jovem deste profissional 63
Gráfico 12: O gráfico aponta que os jornalistas atuantes na mídia concentram-se em veículos de TV, internet e jornal 64
Gráfico 13: Por meio desta questão, identificamos que no mercado potiguar boa parte dos jornalistas que atuam na mídia desempenha as funções de repórter e editor 65
Gráfico 14: O gráfico demonstra que os jornalistas que atuam na mídia e têm mais de um emprego, geralmente trabalham em outra função na mídia (25 pessoas) ou em uma função fora da mídia (23 pessoas) 66
Gráfico 15: O gráfico mostra a natureza da instituição na qual trabalha o jornalista fora de mídia, que retrata uma realidade reforçada pelo senso comum, que os órgãos públicos detêm a maior parte das vagas para assessores de imprensa na cidade 67
Gráfico 16: O gráfico demonstra que os jornalistas que atuam fora da mídia e têm mais de um emprego, geralmente trabalham em outra função fora da mídia (19 pessoas) ou em uma função na mídia (14 pessoas) 68
Gráfico 17: O gráfico apresenta uma previsão de tempo feita pelos jornalistas acerca do seu atual emprego 69
Gráfico 18: Por meio da última questão, podemos perceber que a maioria dos jornalistas entrevistados está satisfeito ou muito satisfeito com seus atuais empregos 70

Sumário


Introdução 14

A precarização da profissão de jornalista 15

Desenho metodológico: a etnometodologia e as visões da realidade social 20

Da pesquisa exploratória à entrevista em profundidade 25

Estrutura do trabalho 28

Capítulo I 30

O microcampo da assessoria de imprensa 30

1.1 A assessoria de imprensa no contexto da comunicação organizacional 32

1.2 O jornalista assessor 36

1.3 O jornalista assessor e a deontologia do jornalista 39

Capítulo II 43

O ethos do jornalista nas múltiplas identidades contemporâneas 43

2.1 A identidade jornalística: redação e assessoria, mundos diferentes? 46

Capítulo III 50

Radiografia do jornalismo potiguar 50

3.1 Características do jornalista potiguar 51

Gráfico 01: É possível observar que a quantidade de homens (51%) e mulheres (49%) é quase equivalente 52

Gráfico 02: Observa-se que há um pico na opção “entre 23 e 30 anos”, o que significa que a maior parte dos jornalistas entrevistados é jovem 53

3.2 Identidade do jornalista potiguar 58

No momento de escolha da atividade predominante em exercício, há também outro problema de identidade. Na pergunta "você trabalha atualmente como jornalista?", as pessoas predominantemente na docência respondem "não", entretanto de acordo com o Decreto nº 83.284/79, quem ensina as técnicas jornalísticas - professor do curso de Jornalismo, como é o caso de alguns entrevistados - também se enquadra como jornalista. 71

Capítulo IV 72

A visão do jornalista assessor acerca de suas práticas 72

4.1 Atores sociais da pesquisa 74

4.2 Visão sobre o jornalista no Brasil e no RN 78

4.3 O mundo da redação e o mundo da assessoria 87

Considerações finais 99

A pesquisa quantitativa nos mostrou que os índices do Rio Grande do Norte estão equiparados ao do Brasil em muitos pontos. São eles: faixa etária, escolaridade, filiação a sindicatos, áreas principais de atuação, carga horária diária de trabalho e funções mais comuns desempenhadas na mídia e fora da mídia. 100

No RN é mais comum se ter mais de um emprego, quando comparado à média do Brasil. Bem como no RN a porcentagem de jornalistas ganhando até cinco salários mínimos é maior que no Brasil. Além disso, no Brasil a porcentagem de profissionais ganhando mais de dez salários mínimos é quase o triplo. 100

Também há uma diferença quanto aos principais veículos nos quais atuam os jornalistas predominantemente de mídia. No RN, os principais são, por ordem: TV, internet, jornal e rádio; no Brasil, são internet, jornal, revista e TV. Esse fato incide diretamente ao fato de que no estado os profissionais com duplo emprego estão concentrados na mídia televisiva, como aferimos por meio da pesquisa exploratória. 100

A principal diferença encontrada foi no que diz respeito ao duplo emprego. Enquanto no Brasil cerca de um terço dos profissionais da mídia ou fora da mídia possuem mais de um emprego, no RN esse número mais que duplica. 100

Foi justamente a essa parcela de jornalistas com mais de um emprego que se deteve nossa a pesquisa qualitativa. Por meio das entrevistas em profundidade com Joelmir, Margarida, Nísia e Rogério, buscamos investigar a prática profissional dos sujeitos que atuam ou já aturam ao mesmo tempo em redações jornalísticas tradicionais e assessoria de imprensa no contexto potiguar. Buscamos entender os motivos para essa prática, que por meio dos dados quantitativos constatamos ser tão comum no RN. Além disso, tentamos entender o ethos profissional e a identidade destes jornalistas. 100

Nossa premissa de precarização (DRUCK, 2011; MARCONDES FILHO, 2009) veio sendo validada durante todo o contato com os jornalistas potiguares. Os pontos elencados por eles que nos levam a essa crença foram: baixos salários, necessidade de ter mais de um emprego, jornadas intensas de trabalho, “queda” do diploma, falta de qualidade e profissionalismo no mercado, falta de reconhecimento profissional, exercício do jornalismo por profissionais não graduados e acúmulo de funções devido ao avanço da tecnologia. 101

Referências 106

Anexo A: Questionário da radiografia 11



Introdução

O atual mercado jornalístico brasileiro está passando por severas mudanças nos últimos anos, devido a fatores como a tecnologia, as mudanças na legislação com relação ao diploma, a diminuição das equipes e o aumento de atribuições, dentre outros (MARCONDES FILHO, 2009; SANT’ANNA, 2005; SILVEIRA, 2010). Diante deste contexto, acreditamos em uma precarização da profissão de jornalista. Ao mesmo tempo em que o mercado exige um profissional multifuncional, este precisa estar cada vez mais especializado em cada função que exerce.

Uma das funções que passou por mais modificações nos últimos anos foi a de assessor de imprensa. Esse profissional, que por muito tempo foi visto por seus pares como à margem do Jornalismo, na atualidade ganha destaque tanto no número de profissionais atuantes no mercado, quanto no aumento de postos de trabalho em órgãos públicos, empresas privadas e organizações não governamentais.

No ano de 2012, 33,6% dos jornalistas brasileiros atuavam exclusivamente em funções jornalísticas fora da mídia1 (MICK; LIMA, 2013), boa parte como assessores de imprensa, e 12,2% simultaneamente na mídia e fora da mídia. É justamente este percentual de simultaneidade que nos interessa. Temos como objetivo geral da pesquisa investigar como se dá a prática profissional dos jornalistas que atuam concomitantemente em redações jornalísticas e assessorias de imprensa em Natal-RN. Neste ínterim, o estudo da relação profissional complexa de quem atual simultaneamente em duas distintas frentes de trabalho oriundas de uma mesma profissão, pauta-se como a principal justificativa da pesquisa.

Assim, elencamos como objetivos específicos: identificar os motivos que levam os profissionais a atuarem concomitantemente em funções jornalísticas tradicionais e assessorias de imprensa em Natal-RN; entender o ethos profissional de quem atua nesta concomitância no contexto de Natal-RN e de que modo isso influencia em sua atuação profissional; e investigar como esses jornalistas representam para si a identidade da profissão.

A precarização da profissão de jornalista

Sustentamos a premissa de que a profissão de jornalista está passando por um processo de precarização. Assim sendo, buscamos formas de validar esta perspectiva nos limites do estado do Rio Grande do Norte, onde nossa experiência mercadológica torna-se aliada junto à pesquisa empírica que será apresentada no Capítulo IV.

Entendemos por precarização um conjunto de fatores relativos a condições de trabalho que faz com que a prática profissional apresente dificuldades no seu pleno exercício. Druck (2011) mapeou seis tipos de precarização do trabalho oriundos do contexto brasileiro: vulnerabilidade das formas de inserção e desigualdades sociais; intensificação do trabalho e terceirização; insegurança e saúde no trabalho; perda das identidades individual e coletiva; fragilização da organização dos trabalhadores; a condenação e o descarte do Direito do Trabalho.

Desses, acreditamos que prevalece na profissão de jornalista o segundo tipo, que segundo a autora “é encontrado nos padrões de gestão e organização do trabalho – o que tem levado a condições extremamente precárias, através da intensificação do trabalho (imposição de metas inalcançáveis, extensão da jornada de trabalho, polivalência, etc.)” (DRUCK, 2011, p. 48). Apresentamos, a seguir, fatores determinantes para a atual precarização da profissão de jornalista. Os principais são: as longas e intensas jornadas de trabalho, o acúmulo de funções e os baixos salários2.

Um traço comum do jornalista brasileiro é a múltipla jornada de trabalho, que pode ser a causa ou consequência da precarização da profissão no país. A consequência desta múltipla jornada é uma carga horária excessiva de trabalho, ou seja, longas e intensas jornadas de trabalho, que podem resultar na precarização da saúde dos jornalistas.

Sant’Anna (2005) considera que as estruturas de assessoria de imprensa são essenciais no processo industrial da notícia no Brasil, porém lidamos com a precarização da profissão.

A história aponta que os veículos reduziram suas equipes, eliminaram coberturas jornalísticas setorizadas, dispensaram os profissionais especializados em temas considerados de segunda importância editorial pelo novo paradigma mercantil e passaram a atuar nestas áreas quase que apenas com os informes institucionais. Em determinados setores, praticamente, a totalidade do noticiário passou a ser assegurada, ou pelo menos mediada, pelas próprias fontes (SANT’ANNA, 2005, p. 16).

Marcondes Filho (2009) reforça essa ideia quando diz que, na atualidade, o jornalista teve seu trabalho aumentado com as tecnologias, passou a ter mais atribuições, o contingente nas redações foi reduzido, o prestígio diminuiu, a responsabilidade aumentou e, hoje, qualquer um pode exercer a profissão. Segundo o autor, este conjunto colabora com a precarização profissional. De acordo com Silveira (2010, p. 89),

Considerando que os jornalistas brasileiros enfrentam um processo de precariedade nas condições de trabalho e de remuneração, talvez poucas vezes visto no mercado convencional, eles têm sido hábeis em encontrar saídas que lhes permitam viver com menos privações. Não é difícil perceber como muitos deles se adaptam aos novos tempos, como, por exemplo, transitando da condição de assalariados à de empresários de si mesmos, ou seja, amoldam-se às exigências de grandes conglomerados de comunicação, constituindo pessoas jurídicas para manterem seus postos de trabalho.

Também apontamos como um possível reforço desta precarização a possibilidade do exercício do jornalismo por não graduados. Nesse ponto, há a possibilidade de refletirmos sobre as reverberações da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Segundo Lopes (2013), em junho de 2009 chegou ao fim um processo judicial de quase uma década que julgava a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício profissional. Em última instância, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pelo fim da exigência do diploma. Para Silveira (2010), tal decisão modificou a dinâmica do mercado jornalístico.

No Brasil, a suspensão da obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo foi um duro golpe na organização formal de profissão, que já agonizava diante de tantas realidades precárias. A possibilidade de ser um jornalista-assessor viceja, então, como uma saída para não vivenciar uma realidade de tanta precariedade profissional sem que, para isso, o jornalista, obrigatoriamente, tenha que abandonar o “guarda-chuva” da profissão. Ser ou estar na condição de assessor oferece maior mobilidade no mercado, visto que não há uma filiação a qualquer linha editorial vigente nas redações convencionais, facilitando, inclusive, o vínculo a mais de um emprego de assessoria (SILVEIRA, 2010, p. 231).

Não sabemos, ao certo, as reverberações desta modificação quanto à validade do diploma. Mick e Lima (2013) apontam, em sua pesquisa com jornalistas atuantes em 2012, que aproximadamente 55% dos jornalistas brasileiros são a favor da exigência de formação superior específica em Jornalismo para o exercício profissional, percentual que pode contrariar o pensamento do senso comum.

Um dado que ajuda a compor o pensamento sobre os resultados da suspensão de obrigatoriedade do diploma é o resultado da pesquisa empírica de Traquina (2004), realizada em diversos países, incluindo o Brasil, na qual identificou como tendência mundial do jornalismo o crescimento da profissionalização. Mick e Lima (2013) validam este pensamento no contexto brasileiro; segundo os autores, até 1990 havia no país 61 cursos de graduação em Jornalismo, número que subiu para 317 em 2010.

Voltando à questão do diploma, a última atualização da situação foi em novembro de 20133, quando a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que restabelece a exigência do diploma. A PEC foi aprovada pelo Senado e será analisada por uma comissão especial antes de ir ao plenário da Câmara. Se for alterada, terá de retornar ao Senado.

Outro ponto que deve ser considerado com relação à precarização da profissão diz respeito aos baixos salários, que consequente podem ser o motivo para a migração ou simultaneidade de trabalho junto às assessorias de imprensa. No Rio Grande do Norte, o piso salarial do bacharel em Jornalismo – ou jornalista profissional, como é chamado pelas organizações trabalhistas – atualmente é R$1.225,80, valor inferior a dois salários mínimos.

De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte (Sindjorn), há cerca de 900 jornalistas sindicalizados em Natal e aproximadamente dois mil no Rio Grande do Norte4. Esse número engloba jornalistas diplomados e não diplomados (repórter fotográfico e cinematográfico, diagramador e ilustrador). Não sabemos ao certo quantos jornalistas diplomados atuam no estado, visto que nem todos são sindicalizados, nem é feito esse controle.

Segundo Maia e Femina (2012), no mês de junho de 2012 o Ministério do Trabalho e Emprego contabilizou no Rio Grande do Norte um total de 1.734 jornalistas com registro profissional. Entre os anos de 2005 e 2012, foram realizados 543 registros de jornalistas - 492 com diploma universitário e 51 sem diploma.

Para os autores, no contexto do mercado jornalístico potiguar, “o jornalista tem na assessoria de imprensa melhores perspectivas de salário” (MAIA; FEMINA, 2012, p. 92). Eles reforçam o fato do piso salarial ser o menor do país como um dos fatores determinantes.

Além do restrito mercado de trabalho, o piso salarial dos jornalistas potiguares é o mais baixo que pago em uma capital brasileira. Desde setembro de 2011, o piso salarial é R$ 1050,005. Mesmo assim, os jornalistas têm dificuldade em encontrar vagas nas redações das empresas jornalísticas tradicionais, que contam com muitos estagiários, principalmente alunos dos cursos de Jornalismo do Estado. As novas mídias de informação ainda não se firmaram no mercado jornalístico potiguar. Em tal cenário, a assessorias de imprensa, em empresas especializadas que prestam serviço para outras empresas, órgãos públicos ou entidades, despontam com uma forte oportunidade de trabalho e de melhor remuneração (MAIA; FEMINA, 2012).

De acordo com Duarte (2011), a migração de jornalistas para áreas fora do mercado tradicional das redações se deu na década de 1980, quando se consolidavam as assessorias de imprensa no país. O autor relata que em 1993 o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal calculou em 50% os profissionais que atuavam em comunicação institucional.

Além da questão salarial, outro motivo para a concentração de jornalistas em redações e em assessorias de imprensa, ao mesmo tempo, é a predileção por parte do assessorado6 com relação ao assessor de imprensa que trabalha em redações, visto que esse fato supostamente pode trazer benefícios no momento de publicar o material do cliente.

Tendo em vista as perspectivas apresentadas, percebemos que as transformações pelas quais passaram a profissão de assessor de imprensa culminam no cerne da pesquisa, que consiste em investigar a prática profissional e o ethos dos jornalistas que possuem vínculo profissional simultâneo em empresas jornalísticas (repórteres, apresentadores, editores etc.) e em empresas públicas ou privadas, como assessores de imprensa em Natal-RN.

Diante destes parâmetros, um caminho possível é a investigação do ethos oriundo dessa múltipla atuação profissional. É provável que o jornalista assessor de imprensa viva situações cotidianas de escolhas que podem ser entendidas como conflituosas. Esta questão reverbera na identidade profissional do sujeito, pois o modo como ele se vê pode alterar a prática profissional e, consequentemente, seu ethos.

É possível que existam identidades diferentes, com implicações distintas; inicialmente destacamos duas, ambas relativas ao profissional que atua simultaneamente em redações e assessorias de imprensa. Uma é a do sujeito que se vê primordialmente como jornalista, outra é a do sujeito que se vê primeiramente como assessor de imprensa. Tais identidades podem revelar como esses profissionais justificam suas práticas cotidianas oriundas de suas múltiplas atuações. Desta forma, desenvolvemos a pergunta orientadora desta pesquisa: Como se dá a prática profissional e como se configura o ethos dos jornalistas que atuam simultaneamente em TVs e em assessorias de imprensa de Natal-RN?

Na tentativa de investigar como se dão esses processos, elencamos pistas para traçar um caminho inicial, refletidas nas seguintes questões: Como se configura o ethos do profissional que atua como assessor de imprensa e jornalista televisivo no contexto de Natal-RN e de que modo ele influencia em sua atuação profissional? De que modo a identidade do jornalista assessor de imprensa influencia na prática profissional? Quais as visões sobre jornalismo e sobre assessoria de imprensa que tal profissional tem e como esta perspectiva nos ajuda a entender seu ethos?

Foi utilizada como um dos critérios de escolha do campo empírico da pesquisa a atuação como jornalista em emissoras de TV de Natal-RN, por ter sido observado em pesquisa exploratória que é a mídia tradicional na qual estão mais concentrados os jornalistas assessores de imprensa, diferente do que se imaginava a princípio.

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